Et voilà... Depois de mais de três anos de impasses, durante os quais o financismo asfixiou quase completamente a política, a vitória de François Hollande parece ter finalmente alterado a situação, criando condições para que se trabalhem outras respostas à crise em que todos, na Europa, temos vivido. O conformismo financista e conservador foi indiscutivelmente abalado. Mas está longe, muito longe, de ser vencido: a batalha das ideias apenas começou.
Coincidindo com a derrota de Merkel nas eleições regionais de Schleswig-Holstein (e o anúncio de outras), e com o implosivo resultado das legislativas gregas, pode dizer-se que esta vitória da esquerda nas presidenciais francesas acontece no momento certo, para ajudar a libertar a imaginação política e a abrir novos horizontes ideológicos.
Agora, o grande desafio é não falhar a oportunidade criada com esta vitória. É fazer deste resultado a ocasião de uma transformação política de fundo: é disto que vai depender o futuro do novo Presidente francês. E não só, porque o que está em jogo é muito mais do que um destino pessoal, ou mesmo nacional: é a recuperação da Europa ou a continuação do seu declínio, é o relançamento do socialismo democrático europeu ou o prolongamento da sua erosão.
Nas actuais circunstâncias, o passo europeu é o mais imediato e o mais decisivo. É dele que, na verdade, tudo vai depender: o novo Presidente francês tem que se mostrar rapidamente capaz de lidar com A. Merkel, impondo um novo equilíbrio na relação com a Alemanha, ou talvez mesmo um novo eixo europeu (França/Itália/Espanha, como sugeriu Romano Prodi), bem como um claro reforço da solidariedade transnacional e da coordenação comunitária, cuja legitimidade política carece de ser robustecida.
Mas em paralelo com este passo europeu é igualmente vital o modo, e o ritmo, com que François Hollande seja capaz de passar das palavras aos actos, concretizando a tão exigida política de crescimento económico, bem como o modo como a articulará com uma nova política de finanças públicas.
Apesar de herdar uma situação, nacional e europeia, que o vai obrigar a governar no fio da navalha, François Hollande tem alguns trunfos valiosos. Nomeadamente dois: a sua visão da política e uma boa preparação nos dossiers mais decisivos. Quanto ao primeiro, ele compreende bem que a política é, antes do mais, uma questão de imaginário e de simbolismo, e que é esta a chave do espírito colectivo de qualquer nação e, nomeadamente, da base popular de qualquer transformação.
O oposto, como se sabe, do que fez Nicolas Sarkozy, que apostou desde o dia da sua eleição, em 2007, na dessacralização da função presidencial e na banalização do exercício político. Sarkozy - como muitos outros líderes - foi nisto vítima de uma das mais vulgares ilusões político-mediáticas dos últimos tempos: a de que o que importa numa liderança é a velocidade, a energia e o voluntarismo que exprime, numa permanente combinação - como se de um action man se tratasse - da vertigem do movimento com a manipulação estatística e a amnésia do cidadão/espectador.
O tempo tem mostrado sem piedade a enorme fragilidade desta ilusão performativa, e as suas trágicas consequências. Como tem mostrado, e bem, que sem ideias novas não há políticas inovadoras; que sem reflexão paciente não há acção eficaz; que sem deliberação ponderada não há decisão acertada; que sem profundo conhecimento dos problemas não há soluções consistentes.
Afinal, a mais importante das coragens é a coragem das ideias. Sem ela, a autoproclamada "determinação" não passa nunca ou de teimosia ou de exibicionismo, o que - num caso como no outro - prenuncia sempre um aparatoso desastre político.
Quanto ao segundo trunfo, o da preparação nos dossiers mais sensíveis, os socialistas franceses trabalharam bem nos últimos anos, nomeadamente através do persistente contributo do "Laboratoire des Idées", criado por Martine Aubry (e que desenvolveu um impressionante leque de propostas altamente inovador), da Fondation Jean Jaurès, e do think-tank Terra Nova.
Ao contrário do que se papagueia tantas vezes, não tem havido falta de ideias sólidas e inovadoras para se enfrentar o financismo, nem de propostas bem fundamentadas para se lidar com a crise sistémica que a nossa civilização enfrenta. Não, o que tem existido é a falta de ligação dessas ideias com a visão e a acção políticas - justamente o problema que esta vitória à esquerda nas presidenciais francesas pode ajudar a resolver. Porque a vertente inovadora das ideias só se revela (e avalia) verdadeiramente quando elas emergem com a miragem, o impulso e a força do poder. François Hollande surpreendeu muita gente quando, por altura das "primárias" de Outubro passado, apareceu a conversar demoradamente com Pierre Rosanvallon nas páginas da revista Philosophie Magazine, sobre os grandes impasses e os mais agudos desafios que o mundo do século XXI colocam à esquerda e ao
socialismo democrático, fazendo-o sem nostalgias encantatórias nem diabolizações inúteis.
Agora, decidiu fechar a campanha presidencial com uma longa conversa (que N. Sarkozy recusou) no jornal Le Monde, com outro dos mais prestigiados intelectuais franceses, Edgar Morin. Vale a pena reter o que François Hollande afirmou na véspera da sua eleição, quanto aos seus objectivos e às suas responsabilidades.
Quanto aos objectivos, assumiu querer "fazer com que a democracia volte a ser mais forte do que os mercados, com que a política retome o controlo da finança e o domínio da globalização". Quanto às responsabilidades, afirmou que a principal é "ser o Presidente da saída da crise. O que supõe uma transição económica, energética, ecológica e também geracional, que permita à juventude cumprir o seu próprio destino".
Com fama de indeciso e de moleza, a verdade é que Francois Hollande surpreendeu toda a gente com a sua astúcia estratégica, e com uma campanha, programática e no terreno, sem falhas. O que agora falta saber é se ele tem a coragem das suas ideias: destas ideias.
Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias [10 de Maio de 2012]

Sobressalto cívico contra uma democracia ultrajada
O modelo de democracia e de contrato social, vertidos na CRP, estão em risco com esta governação?
A Associação 25 de Abril (A25A) recusou participar nas comemorações oficiais do 25 Abril, embora tenha participado nas comemorações populares. Também artífices fundamentais da implantação do regime demoliberal e representativo, o antigo Presidente da República (PR) Mário Soares e o antigo deputado e vice-presidente da AR (Assembleia da República) Manuel Alegre juntaram-se-lhe no protesto. Entre os argumentos da A25A está a ideia de que “o contrato social estabelecido na Constituição da República Portuguesa (CRP) foi rompido pelo poder”. Será que o modelo de democracia e de contrato social, vertidos na CRP, estão em risco com esta governação?
Em primeiro lugar, é óbvio que princípios fundamentais de uma democracia representativa têm sido violados com a acção deste governo. Numa democracia representativa há duas funções essenciais (das eleições): a representação e a responsabilização. A representação assenta num “contrato” entre os partidos, que propõem aos eleitores determinados pacotes de políticas públicas, e os eleitores, que votam nos diferentes competidores tendo em conta essas propostas. Basta ver o vídeo que circula no YouTube, “Passos Coelho (PPC) Best of 2010-2011”, para constatar que estamos perante um monumental embuste político. Aí se pode ouvir PPC, candidato, em muitos casos já depois de conhecido o acordo com a troika, a dizer que não cortará salários, que não cortará subsídios, que se tiver que subir impostos privilegiará os impostos indirectos (IVA), que não acabará com o IVA intermédio para a restauração, que poupará as classes médias, que se oporá a cortes nos benefícios fiscais (em saúde e educação), que não quer liberalizar os despedimentos… que nunca dirá que só há um caminho… E note-se que muitos dos compromissos violados, porventura os mais gravosos, não decorrem do acordo com a troika (cortes de salários, subsídios e pensões), e contrariam os programas eleitorais e de governo dos partidos vencedores em 2011. Não é a primeira vez que há compromissos eleitorais que são violados, mas nesta extensão, com esta gravidade e em tão pouco tempo, é uma novidade absoluta. Mais grave: tudo isto tem sido feito com o beneplácito do PS, e as suas “abstenções violentas”, e do actual Presidente da República. Acresce que vários constitucionalistas de prestígio, bem como um grupo de deputados que pediu a fiscalização constitucional dos cortes de subsídios, pensam que muitas destas medidas representam entorses ao Estado de direito e à CRP. Perante isto, a ministra da Justiça não diz que cumprirá escrupulosamente as orientações do TC, quaisquer que elas sejam, como competiria a quem tem a tutela do Estado de direito, diz sim que se o TC chumbar os cortes “será o colapso”, “porque não há outro caminho”.
Em segundo lugar, temos a escandalosa dualidade de critérios (ver também texto da A25A). De facto, para transformar o Estado social num Estado assistencial, para liberalizar os despedimentos (tornando-os absurdamente fáceis e baratos), para aumentar a carga de trabalho e reduzir remunerações (num dos países da UE onde já se trabalha mais horas e o pagamento horário já é dos mais baixos), tem sido uma urgência absoluta e uma vontade explícita de ir muito além da troika. Pelo contrário, e apesar das circunstâncias alegadamente extraordinárias que explicariam a necessidade de violar grosseiramente compromissos eleitorais cruciais, noutros domínios que tocam os privilégios do sector privado que vive de principescas rendas pagas pelo Estado, não só nada (ou muito pouco) se faz, como os indícios apontam para se querer ficar muito aquém da troika, se é que se quer cumprir o memorandum: “rendas excessivas” nas parcerias público-privadas e no sector da energia; cortes nos “consumos intermédios” (leia-se cortes na externalização de funções do Estado para escritórios de advogados e firmas de consultoria); etc. Tudo isto demonstra que não há só um caminho, e que o caminho seguido resulta não tanto do acordo com a troika como de um programa ideológico radical (da coligação governamental) que se esconde atrás do memorandum.
Só por isto, o sobressalto cívico da A25A, de Soares e de Alegre está inteiramente justificado. O que espanta é que, perante o monumental embuste político, não haja um movimento geral de indignação (dos cidadãos, dos jornalistas, da oposição, dos cientistas sociais e políticos, etc.), antes uma apatia geral. Espanta também, a contrário do que se passa noutros países, a fraqueza dos novos movimentos sociais e a sucessão de embriões falhados de novos partidos, que têm surgido como resposta à crise democrática que vivemos e ao bloqueamento das respostas sociopolíticas à mesma.
André Freire
(Politólogo, professor no ISCTE-IUL)
[Público, 2 de Maio de 2012]

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos. Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.
O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade às vezes é hereditário, dúzias deles.
Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.
Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem aventuranças da Eternidade. As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente, indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos. Vale e Azevedopara os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão, já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos por, como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar de D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano.
Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos.
Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho.
Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.
Abaixo o Bem-Estar. Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros.
Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos um aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.
António Lobo Antunes, in Visão [12 de Abril de 2012]
Ficar a dever
Entre os maiores desafios que enfrento na vida estará, necessariamente, o meu pouco jeito para ganhar dinheiro. Sou péssimo a fazer contas, aparecem-me umas nuvens nos olhos quando estudo juros ou leio contratos, acabo por ser um bocado desorganizado e esquecido. À última hora, aposto sempre na confiança. Tento confiar em quem tenho diante de mim. Confio nas suas boas intenções, o que é lindo e me tem tramado uma e outra vez. À última hora, levam-me sempre naquela conversa sobre a mãezinha e a tia não sei de quem que gosta dos meus livros, e mais um vídeo do youtube com cãezinhos ou viagens à Islândia, e a conversa fica uma coisa de café, como se fôssemos amigos e, supomos, os amigos serão naturalmente os melhores para respeitarem os nossos interesses.
Escrevo poemas e livros de estórias e juro que não sou má pessoa mas, eu sei, preciso de ser protegido contra mim mesmo. Vivo na urgência de ser integrado num sistema de boa gente, regido por leis equilibradas e justas, governado cautelosamente e em profunda boa fé. Aceito o erro, mas não posso aceitar a instrumentalização do poder e o modo sinistro como justificam que, sem termos pedido nada ou tendo pedido pouco, nos compete pagar mundos e fundos, tantas vezes de obra que não vemos, que não foi feita.
O livro A Dividadura, de Francisco Louçã e Mariana Mortágua é, pois, uma pedrada na cabeça de um homem como eu. Senti-me como a perder a virgindade nas minhas inocentes moedinhas todas, ficando consciente de cada delirante manobra inventada para colocar o mundo em números, para se colocar cada coisa e cada gesto numa conta de cifrões.
Eu, que já andava um bom bocado indignado, diria que esta é, um pouco, a história de brincar ao dinheiro. A história da dívida é saber como, em cada tempo, se foi percebendo que a valoração de algo depende sempre menos da preciosidade daquilo que se dá em troca, e mais do poder e aparatoso prestígio de quem emite um título. A perda da relação direta do valor com a preciosidade material do dinheiro, já depois de se ter perdido o pagamento em espécie, vê os governantes a descobrirem como podem, insidiosamente, levar o mercado a aceitar um modo de liquidez que já não corresponde a reserva nenhuma e que passa, por isso mesmo, a ser uma espécie de fantasia, um dinheiro de valor apenas suposto, como uma palavra de honra.
O dinheiro passa a ser discursivo, transforma-se numa certa conversa. É uma retórica que, a partir da ficção do seu valor, confere a quem está no poder um efeito de riqueza que, se posto em causa, estoura nas mãos dos cidadãos, que se veem subjugados à obrigação de assumirem os encargos legítimos e ilegítimos com que os seus governantes se comprometeram. O poder é efetivamente o dinheiro de que dependemos hoje. Trabalharmos até nos esfolarem os dedos, até cegarmos ou até chegarmos a velhos, não é dinheiro, é quase só uma canseira.
Num mundo onde o dinheiro é imaginário, e onde a partir dessa aritmética cada vez mais abstrata se define a quota de poder que cada um detém, fácil é de entender que a especulação seja a grande proeza circense que os aventureiros de hoje escolhem cometer. O grande modo de brincar ao dinheiro. Mais interessante do que caçar a fórmula da Coca Cola, tem de ser comprar produtos financeiros que, por humores e ratings, possam multiplicar o seu valor da noite para o dia. Não há melhor para se enriquecer. Não são precisas matérias-primas, não se cria emprego, não se oferece nada ao público, não se mandam fazer embalagens, não há e não interessa haver publicidade, não se distribui. O cidadão, a esfolar os dedos, nem percebe quem manda em quê, quem ganha com o quê. Pode ser tudo assim já uma palavra de honra muito relativa. Ou a honra vai buscar-se à Moody’s, que é detida por privados e tem uma mentalidade de guerra, e que anuncia o que vale e o que não vale com a mesma perversão com que outrora se falava da castidade das senhoras.
A falta de efetividade no sistema financeiro vai sempre deixar de fora a maior parte da população. Porque a maior parte da população nunca saberá participar proveitosamente nem se saberá defender da teia kafkiana em que se tornou tudo isto. A maioria da população, como eu, não se licenciou em economia e espera simplesmente que trabalhar e viver do seu vencimento seja digno o suficiente para não ser enganada nem explorada.
O livro de Francisco Louçã e Mariana Mortágua é um livro tese. Explica-nos como a história desembocou no momento em que estamos. Ao pé de nos hipotecarmos, no mínimo por por duas décadas, a um aparente socorro que nos usurpa. Gostei de saber que a Bíblia proíbe os juros, e que promete que todos voltaremos a ser donos do que perdemos, assim como impõe o perdão de qualquer dívida ao sétimo ano. Até o nosso querido José Saramago ia gostar que a Bíblia deixasse pistas tão claras para uma ética financeira. E já não gostei de perceber as contas a fazer para pagarmos a sagrada ajuda da Troika, entalados numa Europa que pode ver o Banco Central Europeu a emprestar dinheiro a Estados não membros da União Europeia, mas não que o pode fazer aos Estados membros em dificuldades.
Recorremos ao FMI para aplicação de uma austeridade com palas, isto é, uma austeridade chapa cinco, cuja aplicação é indiferenciada no tempo e no lugar, indiferente a culpas e a sacrifícios. Ou seja, mais valia que nos aplicassem a Bíblia, que entre conceitos e preconceitos, se respeitada, nos poupava a este roubo.
Acredito na tese fundamental de A Dividadura, na medida em que pretende impor uma ética nisto de se ajudar um país chamado Portugal. É tão simples quanto isto: a ajuda não pode acarretar a usurpação, não pode ser o pretexto para que paguemos mais do que aquilo que efetivamente nos emprestam. Ao menos a este nível, a porcaria da ganância havia de estar ausente, disciplinada e a ter vergonha.
Se não tiverem paciência, tempo, ou se já souberem tudo acerca da história da dívida, não deixem de ler ao menos os capítulos finais, sobretudo ali a partir da página 221 onde se propõe uma estratégia para o momento atual da economia portuguesa. Em cinco pontos, Louçã e Mortágua propõem um modo diverso de dignificar o que devemos, antes que sejamos todos “chinezados”, ou seja, antes que a austeridade cega da Troika nos imponha, sem fim à vista, “um novo regime social assente em salários baixos e em trabalho precário generalizado”. Toda a construção de proteção social vai aluindo, e está em causa regredirmos ao tempo de um abandono tal em que se abdica de ter governantes pelo povo para os termos contra o povo e a favor da escravatura económica. É fundamental perceber que parte da dívida de que nos acusam é ilegítima. É fundamental perceber quem enriqueceu de modo ilícito e agir judicialmente, recuperando o que se puder recuperar. É importante perceber quem decidiu dolosamente. É fundamental perceber que estamos dispostos a um esforço, mas que não podemos ser conduzidos à miséria pela exigência de um pagamento excessivo, abusivo, indecente.
Quando eu dizia que preciso de ser defendido de mim mesmo, dizia-o porque tenho o sonho de ser outra coisa que não fiscal de tudo, polícia de tudo, mas o que vivemos hoje é um saque contínuo aos nossos atrapalhados vencimentos e, daí, um saque contínuo à possibilidade de sonharmos com qualquer confiança, com qualquer segurança. Passamos a escrever poemas desconfiados da carteira porque nos parece sempre que alguém nos tira de lá o dinheiro. Gostava de acreditar que não me virão mais roubar a pureza com que as minhas moedas foram ganhas e, sobretudo, o ofício simples que têm, o de pagarem a sobrevivência até nada de especial que tenho. Fico, pois, enervado com suspeitar e ter de suspeitar, porque me seria mais natural acreditar, falar como entre amigos e levar a vida sem olhar para trás e sem ter de ser tramado uma e outra vez. Percebo, claro está, que entre os poemas tem de existir a formação de uma voz coletiva. Um ruído aumentando que chegue aos ouvidos dos aventureiros lá muito em cima, e que faça uma infinidade de gente real valer mais do que a decisão fria e puramente financeira dos poderes já desumanos, mais e mais virtuais, que controlam o mundo.
Valter Hugo Mãe
[6 de Abril de 2012]
(1 de Maio de 1958-24 de Abril de 2012)
Miguel Portas morreu. Morreu um homem. Não um santo. Não um herói. Apenas um homem. Com fragilidades, com defeitos, com humores, com excessos... como qualquer outro homem. Mas um homem bom, que é o que de melhor se pode dizer dum homem.
Um homem que gostava da vida e de, com prazer, lutar para a tornar suportável. Mesmo correndo riscos.
Dele ouço dizer que era humano, afectivo, simples, aberto à diferença e, por isso mesmo, tolerante; inquieto e insatisfeito, por dentro da tranquilidade própria de quem sabe que está a fazer o que está certo. Corajoso até ao fim.
Este momento é de tristeza. Lamentamos a perda dum companheiro que, nos tempos negros que vivemos, fará muita falta, a nós e ao país.
Queremos fazer-lhe a homenagem que merece.
Homenagear Miguel Portas é, por entre as lágrimas, continuar a luta que travou; é partilhar o sonho de fazer do mundo um local melhor para se viver, um mundo de homens conscientes e comprometidos, de homens bons, de irmãos e não de lobos. E é fazê-lo com alegria.
“Ao chegar ao fim da vida, quero poder olhar para trás e dizer: terei feito algumas asneiras, mas no conjunto posso partir, lá para onde for, com tranquilidade.", disse um dia.
Fica tranquilo, irmão!
APRESENTAÇÃO
Escrito ao longo de um ano lectivo nos comboios da linha de Sintra – entre as negras suadas dos serviços de limpeza dos escritórios de Lisboa e as viúvas e os reformados de Rio de Mouro e Cacém, que, lobrigando-me cheio de livros, me pediam digna e discretamente 5 euros para a compra do remédio para o coração -, desconheço o real valor deste livro.
[…]
Deste livro, porém, como disse, desconheço a qualidade e as previsíveis consequências. Mas conheço a origem - a revolta moral contra o estado de vida degradado, autenticamente terceiro-mundista, de mais de 2 milhões de habitantes de Portugal.
Não podia encarar grande parte da classe política que governa desde meados da década de 1980 sem encontrar nos seus olhos, na sobranceria das suas atitudes, na prepotência das suas leis (extorquindo dinheiro à população, favorecendo os que mais o têm), no ar enfastiado e enfatuado com que no estrangeiro se referem ao povo português, culpando-o de um atraso cuja responsabilidade só às elites pertence, sem detectar neste conjunto de atitudes uma visível tendência para o mal que iam cometendo lei a lei, carregando-a de impostos governamentais, taxas camarárias, contínuos aumentos de preços de bens essenciais, extorquindo direitos adquiridos, apropriando-se do espaço público, forçando o cidadão a pagar cada pedaço minúsculo do património de todos.
Recentemente, um ministro ofereceu-nos um perfeito exemplo da tese sobre a banalidade do mal de Hannah Arendt. Suportado num documento programático assinado pelo Governo português com instâncias financeiras e políticas internacionais, apresentou um documento legal que, na prática, inibe a possibilidade de um número superior de transplantes nos hospitais públicos, o que significa, segundo uma técnica superior que de imediato se demitiu, que “haja doentes que se podem salvar mas que vão morrer porque o país está em dificuldades económicas” (Público, 3/9/11). Ou seja, o ministro, certamente homem de existência a mais normalizada, sem comportamento desviante, de registo criminal impoluto, porventura frequentador dos concertos Gulbenkian ao fim da tarde, o marido mais amoroso, o pai mais extremoso, o crente mais devoto, o colega mais gentil, o cidadão mais pacífico e cumpridor, sente-se habilitado, como Adolf Eichmann, a cometer os actos mais violentos e bárbaros desde que a sua acção se encontre legitimada por um sistema social e político ou uma teoria filosófica ou religiosa – é a “banalidade do mal”, prosseguida por homens normais, sem aleijões psíquicos, entorses sociais de infância ou traumas psicanalíticos. A acção deste ministro evidencia-se hoje como a face do mal – homens “bons”, no Governo, na direcção de grandes empresas, de grandes instituições, praticam o mal com o à-vontade próprio de quem está praticando o bem. Sabemos como tudo isto vai acabar – todos a pagarem tudo, sustentando um Estado que não retira um por cento aos impostos, pelo contrário, aumenta-os anualmente: pagaremos o Serviço Nacional de Saúde através dos impostos e pagá-lo-emos de novo como “utentes” deste serviço sempre que a ele nos dirigirmos. Dito de outro modo: uma minoria acabará riquíssima, a grande maioria paupérrima, e o Estado, vivendo à custa de ambas, sorvendo dinheiro e mais dinheiro, irá pagando a si próprio os erros de uma ou duas gerações de actuação de políticos medíocres desde meados da década de 1980, todos altamente recompensados pelos seus errados serviços à população que os elegeu. O Estado, assim desgovernado desde há cerca de vinte anos, é hoje ocupado por tais políticos, o maior inimigo dos portugueses. Nada dele há a esperar senão a arte de enganar as expectativas da população. Governo iniciado, logo aumenta impostos pessoais, IVA, transportes, gás e electricidade – como se vê, é, assim, facílimo governar (até eu daria um óptimo político) -, aumentam-se bens essenciais para empresas e população e depois, ingenuamente, com o ar seráfico que os economistas ostentam, pede-se que trabalhemos mais e sejamos mais competitivos. Da classe média, nada se diz porque não existe: padrão específico do Terceiro Mundo, não da Europa.
Portugal é hoje um país sonâmbulo: 600 000 desempregados, 2 milhões de pobres, outros tantos m risco de o ficarem se os apoios do Estado se esvaírem; 4 milhões de analfabetos funcionais; 85% de pequenas empresas instáveis com menos de dez trabalhadores; uma escala etária em acelerado processo de inversão e uma taxa demográfica de regeneração a rasar o nulo; uma oligarquia político-económica constituída por 50 000 burocratas impiedosos que se apoderaram ferreamente da totalidade das estruturas administrativas do Poder, cujo nível cultural sobre a história de Portugal e comoção sentimental face à pobreza são praticamente inexistentes; um sector imobiliário envelhecido de casas apertadíssimas de duas assoalhadas; uma política administrativa que se apoderou de todos os espaços públicos patrimoniais, exigindo subidos pagamentos para a sua frequência; esperas de 4 horas em serviços médicos de urgência e de meses e por vezes anos para uma simples operação, 3 a 4 meses para uma operação de urgência a um cancro, 19 meses de espera para uma consulta de obesidade nos hospitais públicos (Público, 5/10/11); subúrbios miseráveis próprios do Terceiro Mundo; um relativismo ético entre os cidadãos que imita a corrupção nos negócios do Estado e a total falta de ética presente na vida de políticos conhecidos, cujo exemplo (i)moral reside no oportunismo partidário e na ocupação desenfreada e terrorista de funções públicas, sacando do Estado o máximo possível em honorários – elite altamente incompetente: uma autêntica mancha podre que infecta a totalidade da vida nacional e corrói a dignidade de qualquer cidadão eticamente nobre. Guiado por esta elite, que se assenhoreou dos postos governativos e dos lugares do Parlamento, meras cabeças de rebanho, totalmente desprovida de cultura e de sentido ético, Portugal não tem outro destino senão seguir as soluções formatadas que fizeram da França, da Itália e da Inglaterra países hoje historicamente decadentes, dos quais nada há a esperar de promissor no futuro.
[…]
A progressiva e aceleradíssima informatização electrónica da sociedade por via de uma ideologia sem rosto nem personalidade, assente exclusivamente no controle e na segurança, e a funda queda demográfica anunciada para meados deste século por via das políticas sociais relativas à família provam a profundíssima descristianização de Portugal, de efeitos absolutamente imprevisíveis na criação de uma sociedade futura desprovida de éticas espirituais assentes em valores humanistas, porventura obediente a um totalitarismo tecnocrático e informático, pelo qual os portugueses vindouros abdicarão da liberdade em nome da segurança e da abastança. Desde a década de 1990, o aparelho de Estado, privilegiando exclusivamente um sector da sociedade –a economia-, desprezando fundo os valores morais e espirituais próprios da cultura portuguesa, tem gerado na mente dos portugueses uma representação parcial de si próprios que, incapaz de se elevar à unidade de uma ideologia estruturada e consolidada, se caracteriza pela passividade cívica, compensada por uma hipervalorização do individualismo, assente na fórmula amoral do “salve-se quem puder”. Mistura de complexo pombalino com um arreigado individualismo americano, o projecto político português caracteriza-se hoje, no princípio do século XXI, pela exaltação unidimensional do homem técnico, o homem-eficiente, o homem contabilista, o homem robótico, desprovido de consciência histórica global, funcionando exclusivamente segundo o duplo horizonte de raciocínios técnicos quantitativos e consequentes objectivos. A classe política recente, posterior à dos fundadores da nossa actual democracia, encarna em alto grau de excelência este tipo de homem. Não são políticos os nossos governantes de hoje, mas economistas (os falsos profetas do século XXI), técnicos, robots substituíveis uns pelos outros, possuindo o mesmo vocabulário, aplicando invariavelmente o mesmo argumentário da eficiência de custos e proveitos, totalmente desacompanhados de uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade.
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Como não sou político, nem vocação para tal tenho, não escrevi sobre o Estado e a política, mas sobre o fundamento filosófico que confere prazer interior à acção pela qual um homem, situado em centro de poder, humilha outro, extorquindo-lhe direitos – o mal.
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Hoje, sempre que vos apareça no ecrã da televisão um economista com funções governamentais – não duvideis: eis a face explícita do mal, aquele que levou a Europa à decadência e se prepara para, alegremente, destruir o planeta.
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Lamento que o leitor não possa sentir o cheiro das camisas suadas das negras minhas vizinhas de comboio, que, como escravas, nos lavam as retretes e aspiram e enceram os nossos corredores, e não possa contemplar o olhar aguado de tristeza, resignação e frustração dos milhares de velhos de Mem Martins e do Cacém que, após uma vida de 40 a 50 anos de trabalho, recebem da comunidade umas parcas 30 moedas de Judas para que não caiam mortos de fome a cada esquina. Lamento. Se eu tivesse tido esse talento, o leitor não precisaria de ler este livro: sentiria e contemplaria sem intermediação a face do mal.
Miguel Real, Nova Teoria do Mal
[Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842-Ponta Delgada, 11 de Setembro de 1891]
Você sabe quanto é triste viver em Lisboa e não estar vivo – sem as paisagens, sem uma única árvore em frente dos olhos, tão longe do mar e do céu dos Açores? É-se medíocre assim, toda a vida entre prédios altíssimos que nos proíbem de ver e amar a distância. Em Lisboa, o infinito, ao contrário daqui, não é plano nem horizontal: a única possibilidade é torná-lo perpendicular, na vertical daquele céu luminoso e quase sempre azul. Muitas vezes, imaginei que devia vender o apartamento de Lisboa, vender agora a casa dos meus pais e ir realizar lá longe a loucura infinita, onde houvesse campo, duas árvores e qualquer mar em frente. Gostava de aprender de novo os segredos da terra: plantar canas em redor dum muro, escorar pequenos troncos com estacas e ver como cresciam as árvores da minha vida. Se possível, uma figueira. Sabe porquê? Quando era pequeno, existiram sempre essas árvores de folhas ásperas para me abrigarem da chuva. Os figos vertiam leite e rebentavam-me os lábios, quando a gula dos figos proibidos era superior às bostelas da tinha no couro cabeludo. Isso era viver o sentido do tempo. Podia também suspirar por uma criptoméria: árvore porosa e altiva, das que sempre fizeram os dias de festa e o esplendor das bandas de música na Ilha. Vinham procissões de andores, com anjos coroados, multidões de opas vermelhas, o grande pálio dourado sob que se abrigavam padres translúcidos e solenes: era sempre domingo quando isso acontecia, todos estavam vivos e não era preciso sofrer a solidão dos meus futuros domingos de Lisboa.
A casa tem os espaços e os passos perdidos de toda a minha vida. A de Lisboa, ao contrário desta, é um corredor com paisagenzinhas dependuradas das janelas, passos suaves nas alcatifas das salas, o santuário tristonho dum quarto de casal. A minha angústia foi-se povoando aos poucos dos ruídos das portas batidas pelo vento. Disse-o o poeta Ruy Belo, que morreu disso, isto é, só de fazer versos: no meu país não acontece nada; à terra vai-se pela estrada em frente… Para mim, no entanto, nunca houve sequer uma estrada que desse para a Ilha, porque Lisboa cortou-me toda a possibilidade dessa retirada. Fechei-me por dentro da cidade magnífica e mortuária, de tal sorte que nunca soube os nomes daqueles que nasceram depois de mim. Não conheci os rostos nem o tempo dos rostos. E, como o pior do homem é a ausência dessas e de todas as outras memórias sobre os lugares, não sei quem sou aqui, o que faço agora nos Açores – ou por que razão vou herdar a sombra duma casa. Dizem-me, os que aqui viveram, que eu serei talvez o primeiro e único morto da família que ainda não morreu…
João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas

Quando houve luz outra vez, compreendi que passara a Primeira Prova. As sombras levaram os receios da véspera. Ao lavar o peito e a cara num recanto do ribeiro, junto a Rosario que limpava com areia os utensílios do meu pequeno-almoço, pareceu-me que compartilhava neste momento, com os milhares de homens que viviam nas inexploradas cabeceiras dos Grandes Rios, a primordial sensação de beleza, de beleza fisicamente percebida, gozada igualmente pelo corpo e pelo entendimento, que nasce de cada renascer do Sol – beleza cuja consciência, em tais paragens, se transforma para o homem em orgulho de proclamar-se dono do mundo, supremo usufrutuário da criação.
[…]
Hoje tomei a grande decisão de não regressar para além. Tratarei de aprender os simples ofícios que se praticam em Santa Mónica de los Venados e que já se ensinam a quem observe as obras da edificação da sua igreja. Vou subtrair-me ao destino de Sísifo que o mundo de onde venho me impôs, fugindo das profissões insignificantes, do girar do esquilo preso em tambor de arame, do tempo medido e dos ofícios de trevas. As Segundas-feiras deixarão de ser, para mim, Segundas-feiras de cinza, nem haverá motivo para lembrar que a Segunda-feira é Segunda-feira, e a pedra que eu carregava será de quem quiser dobrar-se ao seu peso inútil. Prefiro empunhar a serra e a enxada a continuar a aviltar a música em ofício de pregoeiro. Digo-o a Rosario, que aceita o meu propósito com alegre docilidade, como receberá sempre a vontade de quem aceitar como varão. Tua mulher não compreendeu que esta determinação é, para mim, muito mais grave do que parece, posto que implica uma renúncia a tudo o que é de além. Para ela, nascida nos limites da selva, com irmãs amigadas com mineiros, é normal que um homem prefira a vastidão do remoto ao amontoado das cidades. Além disso, não julgo que, para se habituar a mim, tenha feito tantos ajustes intelectuais como eu. Ela não me vê como um homem muito diferente dos outros que conheceu. Eu, para a amar – pois julgo amá-la profundamente, agora -, tive de estabelecer uma nova escala de valores, ao ponto a que deve apegar-se um homem da minha formação a uma mulher que é toda uma mulher, sem ser mais do que uma mulher. Fico-me, pois, com toda a consciência do que faço. E ao repetir para mim mesmo que fico, que as minhas claridades serão agora as do Sol e as da fogueira, que todas as manhãs mergulharei o corpo na água desta cascata, e que uma fêmea cabal e inteira, sem evasivas, estará sempre ao alcance do meu desejo, invade-me uma imensa alegria. Encostado a um banco de areia, enquanto Rosario, de seios negligentes, lava os seus cabelos na corrente, agarro a velha Odisseia do grego, tropeçando, ao abrir o volume, com um parágrafo que me faz sorrir: aquele em que se fala dos homens que Ulisses manda para o país dos lotófagos, e que, ao provarem a fruta que nascia ali, se esqueciam de regressar à pátria.
[…]
Dou-me conta agora de que depois de ter saído vencedor da prova dos terrores nocturnos, da prova da tempestade, fui submetido à prova decisiva: a tentação de regressar.”
[…]
Digo para mim mesmo que a marcha por caminhos excepcionais se empreende inconscientemente, sem se ter a sensação do maravilhoso no momento em que este é vivido: chega-se tão longe, para lá do trilhado, que o homem, envaidecido pelos privilégios do descoberto, sente-se capaz de repetir a façanha quando quiser – dono do caminho negado aos demais. Um dia comete o irreparável erro de desandar o andado, acreditando que o excepcional possa sê-lo duas vezes e, ao regressar, encontra as paisagens alteradas, os pontos de referência desapareceram…
Alejo Carpentier (Havana, 26.Dez.1904-Paris, 2.Abril.1980), “Os Passos Perdidos”

[…]
- Ouça, senhor Zarco, por que não escreve umas memórias? – sugeriu-me ele quando se despediu de mim, sentindo que me incomodara. – Pelo menos assim pode contar tudo da maneira que quiser.
Parecia-me uma ideia absurda, mas, alguns dias depois de ele ter partido, peguei no cálamo e na tinta. Trabalhar dessa maneira produziu em mim uma estranha sensação de estar a fazer o que era correcto. Mais tarde, percebi que estivera à espera de dar voz à minha história desde que o Grande Inquisidor me dissera pela primeira vez a sua charada sobre um livro poder continuar a falar aos leitores muito depois de o terem terminado. Afinal, reduzir a minha história a escrito era a única maneira que tinha de, a partir do meu túmulo, falar de tudo o que acontecera. E era alguma coisa – talvez a única coisa – que podia dar de volta ao mundo em troca de todo o mal que fizera.
O Geral da Inquisição de Goa nunca poderia ter adivinhado que daquela maneira me estava a ajudar. E também isso parecia acertado.
Nestes últimos meses, sentado à secretária a escrever sobre Sofia, Wadi, Tejal, o meu pai e Phanishwar, tenho sido capaz de, para além de mim próprio, espreitar para os calabouços de Goa, de Lisboa e de uma centena de outras cidades na Ásia, na Europa e na América. Vi os homens e mulheres a apodrecer neles em nome de Cristo, Maomé e Krishna. Desejaria poder dar-lhes mais do que isto, mas isto é tudo o que tenho.
Em breve o leitor há-de fechar a capa deste manuscrito, selar-me lá dentro, e seguir o seu caminho, como lhe compete, mas talvez pense nesses prisioneiros – e em mim – de tempos a tempos. Agora que pego no último desenho da minha irmã e olho para ele à luz de uma única vela, talvez o leitor possa sentir até a morna brisa que entra pela minha janela em Bijapur, arrastando consigo o odor das flores de tamarindo. Consegue ver-me a pôr a mão sobre o contorno dos dedos que Sofia desenhou há tanto tempo? Vou rezar por que possa, e por muitas outras coisas:
Que Ana, Gonçalo, o meu pai, Sofia, Wadi, e todos os mortos descansem em paz.
Que Phanishwar tenha tido uma boa reencarnação.
Que Nupi tenha perdoado ao afilhado.
Que o meu filho nunca tenha sabido de mim e que Tejal tenha sido feliz.
A seguir, vou pegar na minha cruz de prata e sair para o meu alpendre para observar o pôr do Sol. Tentarei congregar alguma da coragem do meu pai, mas, por favor, não pense muito mal de mim se me vir tremer. Afinal, já sabe que não sou um homem muito corajoso, e, de qualquer forma, não é coisa fácil terminar uma história, mesmo uma história em que desempenhámos o papel do vilão.
TIAGO ZARCO
Bijapur, 14 de Maio de 1616
Richard Zimler, Goa ou o Guardião da Aurora

Denver pensava compreender a ligação entre a mãe e Beloved: Sethe tentava compensar a serra; Beloved fazia-a pagar por isso. Mas aquilo nunca teria um fim, e ver a mãe humilhada, envergonhava-a e enfurecia-a. No entanto sabia que o maior medo de Sethe era o mesmo que Denver tivera no início – que Beloved pudesse partir. Que partisse antes que Sethe a pudesse fazer compreender o que significara passar os dentes daquela serra sob o pequeno queixo; sentir o sangue de bebé a espalhar-se como óleo nas suas mãos; segurar-lhe o rosto para que a cabeça não caísse; apertá-la para conseguir absorver os espasmos da morte que percorriam aquele corpo adorado, gorducho e doce de vida – Beloved podia partir. Partir antes que Sethe a fizesse compreender que pior do que aquilo – muito pior – fora aquilo por que Baby Suggs morrera, aquilo que Ella sabia, aquilo que Stamp Paid vira e aquilo que fazia Paul D estremecer. Que qualquer branco nos podia levar por completo e por qualquer motivo que lhe passasse pela cabeça. Não apenas para nos pôr a trabalhar, matar, ou mutilar, mas também conspurcar. Conspurcar tanto que já não nos podemos amar. Conspurcar de tal modo que esquecíamos quem éramos e já não nos conseguíamos encontrar. E embora ela e os outros o tivessem vivido e ultrapassado, ela nunca poderia deixar que isso acontecesse aos seus filhos. O melhor de si eram os filhos. Os brancos podiam sujá-la, mas não ao que tinha de melhor, a melhor coisa bela e mágica – a parte dela que estava limpa. Sem sonhos inconcebíveis em que se interrogava se os troncos sem pés nem cabeça pendurados nas árvores eram de Paul A ou do marido; sem se preocupar que entre as raparigas queimadas vivas numa escola para negros, pudessem incluir a sua filha; sem a dor de ver um bando de brancos a invadir as partes íntimas da filha, a ensopar-lhe as coxas e a enlouquecê-la. Ela até poderia fazer engates no pátio do matadouro, mas a sua filha não.
E ninguém, nem uma única pessoa à superfície da Terra, iria enumerar as características da filha no lado do papel reservado aos animais. Não. Oh, não.
Talvez Baby Suggs se pudesse conformar com aquilo, viver com essa proximidade; mas Sethe recusara-se a fazê-lo – ainda se recusava.
Denver ouviu-a dizer isto e muito mais da sua cadeira do canto, a tentar convencer Beloved, a única pessoa que achava ter de convencer, que aquilo que fizera fora o correcto porque viera do amor verdadeiro.
Toni Morrison,
escritora norte-americana nascida em Lorain (Ohio), a 18 de Fevereiro de 1931
Recebeu o Nobel da Literatura em 1993

A tropa do duque da Terceira desembarcara em Cacela, entre o estuário do Guadiana e Tavira, a 24 de Junho, após três dias de viagem sem novidade ao longo da costa. A esquadra miguelista era um mistério bem guardado dentro da barra do Tejo.
Após quase um ano metido numa cidade cercada, Filipe de Villepin tinha a sensação de estar redescobrindo o vasto mundo naquela partícula a que chamava pátria, muito mais ideia que rincão, mais fantasia que realidade. Ao passar em frente dos recortes do litoral, dava ao que via os nomes que ouvira antes e deslumbrava-se por descobri-los – a Figueira, alvo e longínquo casario arrimado à foz do Mondego; Peniche e os alcantis fragorosos do cabo Carvoeiro, com o círculo alaranjado do Sol avermelhando o céu e o mar com o seu lento mergulho, para lá das Berlengas, e as sombras em que, depois da Roca, ecoava mais forte o marulhar da vaga larga no costado do vapor; e, ao dobrar a massa imponente e mais negra que a noite do promontório e do cabo de S. Vicente, as silhuetas dos frades do Hospício do Cabo recortadas na fogueira que tinham acendido para celebrarem a véspera de S. João; e Lagos branquíssima na antemanhã; e Faro, e Tavira, e a boca prateada da baía de Cacela. Nem os tiros soltos de algumas baterias de costa, que os não puderam atingir, o distraíram da contemplação maravilhada duma aura de espuma e areia pontuada por coroas de rochedos e cortada por arribas que anunciavam o ocre da terra. E era o palpitar do coração dessa terra que ele sondava, com a esperança renovada no verdadeiro regresso povoado pelas promessas forjadas no exílio e nos grandes sofrimentos do Porto. Os navios de guerra, a Rainha de Portugal, a D. Pedro, a D. Maria, o Portuense, o Vila Flor e a Faro, toda a frota liberal, formados em linha diante dos vapores, dispararam uma salva contra a única peça postada em Cancela, pondo os artilheiros em fuga. Sem mais, desembarcaram.
Depois duma noite de bivaque ao relento, escaramuçaram junto à ribeira de Almargem com tropas do visconde de Molelos, que pareceram bisonhas e tímidas, e entraram em Tavira deserta. Filipe recordou Penafiel, nos primeiros dias da campanha. Viria outra vez a mostrar-se o fantasma duma pátria afinal madrasta, em que o povo que queriam livre se sumia sob a tutela do mais forte e dos santos da sua devoção, para salvar a pele e a fazenda? O general duque espalhou proclamações e, como pardais assustados à cata duns bagos de milho, foram aparecendo pela tarde os habitantes de Tavira. Desculparam-se dizendo que os tinham convencido que estavam sendo assaltados por uma quadrilha de bandidos dispostos a pilhá-los. Já gritavam vivas à Carta e à rainha, que aqueceram quando chegou de Vila Real uma deputação para cumprimentar o duque e informá-lo da aclamação de D. Maria na sua terra que os milicianos miguelistas tinham desertado. Filipe queria crer que o povo levantava finalmente a cabeça, porque isso lhe honrava as ideias e a memória de Raimundo e dos camaradas mortos. Mas ouvia-os dizer “haja quem mande”. E, no fundo, verificava o que Tomás d’Aquino, sem paixão, dizia: “O povo? Nem bom nem mau. O povo é católico e bronco.” E Nuno, o diletante, lutava sem ilusões, para mostrar que não precisava de ser delegado da vontade geral que não existia. Não o tinham visto, o povo, trancar as portas e arrotear as leiras, à passagem dos exércitos, sem querer saber de Pedro ou Miguel, desbarretando-se quando convinha ou virando as costas, se podia? Quantos tinham sido eles nas trois glorieuses? Um punhado de idealistas, a reboque a canalha e na cauda os políticos a colarem os cacos do Poder. Quantos tinham sido eles? A explosão popular parecera ser imensa, mas a maioria também ficara à espera atrás das portas fechadas, a olhar pelos tarecos e pelas economias escondidas debaixo dos sobrados. E mesmo se tivesse sido Paris inteiro, o que fazia o resto da França? No Porto, só fora diferente porque a vida não valia nada e o desespero e o medo eram de todos por igual – todo o instinto de sobrevivência parecia um acto de heroísmo. E, agora, em Tavira muitos vivas e foguetes. Pela liberdade ou pelos mais fortes? O povo aclamava-os quando ganhavam e fazia o mesmo aos inimigos: e também era capaz de lágrimas sinceras e inúteis pelos vencidos. Filipe olhava os grupos de camponeses levantando ao ar os chapéus pretos e os pescadores desbarretados saudando o senhor general e o Estado-Maior, como muito provavelmente haviam feito aos governadores de D. Miguel, e os dedos das duas mãos chegavam para contar os que se ofereciam para pegar em armas contra o tirano. Olhava-os e pensava que só os legitimava, a ele e a alguns companheiros, a convicção de que faziam avançar o mundo para a luz e os homens para a dignidade. Não podiam era esperar o mesmo sucesso de Deus, que não precisava de dar a conhecer-se. Nem sequer viviam um equívoco, porque andavam descobrindo incessantemente a realidade duma luta implacável e desigual – a do futuro que não podia demonstrar-se contra o presente monolítico, fatal, brutal e fanático, que invocava um passado imóvel e a cólera de Deus.
Avançaram até Faro, sem encontrarem resistência. Estiveram dois dias a recompor-se; a cólera morbus fazia o mais das baixas, como nas terras por onde passavam – só num mosteiro, onde lhes deram os melhores figos do mundo, restavam da confraria o frade guardião e o donato. Morreu o major David e quatro soldados de Infantaria 6. O calor sufocava e nem a vista do mar sereno e das copas verdes das alfarrobeiras e das amendoeiras, nos outeiros ondulados para o interior, os aliviavam da canícula de que buscavam refúgio na sombra das paredes caiadas do Paço Episcopal onde se instalara o duque da Terceira. Aí viu Filipe pela primeira vez aquele homem que entrava no limiar da lenda – o almirante Charles Napier. Era atarracado, cara larga, patilhas tufadas, nariz comprido de cana alteada, olhar vivo e firme. Estava conversando num razoável português com o major Loureiro, quartel-mestre general, e com os capitães marquês de Fronteira e Manuel da Câmara, ambos do Estado-Maior. Os seus modos eram rudes e directos, mas transmitiam uma confiança e uma segurança quase magnética, porque era grande o contraste com as hesitações e demorados debates dos comandos portugueses. Fumava vorazmente um havano e talhava, com um gesto de mão em cutelo, um rumo, que não se perdesse tempo, só a audácia poderia demonstrar que o inimigo era um fantasma protegido pela própria sombra. Eram só dois mil? Não importava, que a vitória seria de quem tivesse a decisão que faltava a todos. E Filipe, observando-o, pensava que o inglês, excêntrico e romântico, estava percebendo muito bem que pátria era aquela que ele perseguia com uma nostalgia antiga e se lhe escapava quando julgava possuí-la – como uma conquista sempre inacabada.
Álvaro Guerra, A Guerra Civil
[Dom Quixote, 1993]

"Nós temos de estar preparados para todas as eventualidades". É esta a frase que marca a entrevista do primeiro-ministro ontem à SIC. Perante a provável pergunta sobre o fim do euro, ele teria duas saídas: fazer de conta que o Mundo não está a desabar e negá-lo, ou admitir que alguém no Ministério das Finanças começou a fazer contas. Pois agora, senhor primeiro-ministro, queremos saber quando está pronto o estudo. E o que diz...
É fundamental acabar com um certa especulação sobre o que pode significar voltar ao escudo. Os portugueses passam a pagar 30% de taxa de juro, ou ainda mais? Outra questão: a desvalorização do euro para o escudo pode significar metade ou um quarto do seu valor actual? Em termos práticos, isto significa pagar quatro vezes mais pelo pão, fruta ou legumes? Um litro de gasóleo a cinco euros?
Outro ponto óbvio: a saída do euro representa a falência do sistema financeiro por fuga dos depositantes? O dinheiro é transformando em escudos? Quantas empresas fecham de imediato se deixar de haver euro? O que significa isto em termos de desemprego?
Bom, isto é o tal apocalipse. Mas a verdade é que ninguém sabe muito bem como fazer frente aos mercados financeiros simplesmente porque eles não têm um rosto e ainda por cima têm o dinheiro de que os países continuam a precisar... E os estados vão buscar o dinheiro para o entregar às pessoas que dele dependem...
Uma pausa: por que não se pára esta espiral? A razão é simples: enquanto houver dinheiro haverá ganância. E parece difícil mudar o género humano. Sim, a regulação dos mercados... Mas a regulação é uma espécie de corrida em 100 metros barreiras: vão-se saltando os obstáculos legais até à meta. No fim um ganha e todos os outros perdem. E depois começa tudo de novo.
Exemplos: teme-se que o Governo ceda demasiado aos lóbis e os velhos amigos do poder que estão a manietar a economia. O Governo deveria ter coragem de travar a parceria público-privada com a EDP para construir barragens de que não precisamos e pela qual vamos pagar 16 mil milhões de euros ao longo dos anos (quase 20% do empréstimo da troika...); o Governo não deveria permitir que o custo por quilómetro nas scut e nas auto-estradas fosse o que é em Portugal e os devesse renegociar, porque isto é um imposto brutal sobre as empresas, os trabalhadores e o turismo; o Governo tem de quebrar a vergonha pública que significa ver combustíveis alinhados à milésima. Cada posto de comparação de preços entre marcas é um cartaz à incompetência à Autoridade da Concorrência.
Estas medidas não custam dinheiro mas podem poupar muitos milhões, os tais milhões que são vitais para tentar garantir a última réstia de competitividade. O Governo salvou os pensionistas e funcionários públicos até aos 600 euros, e bem. Mas é preciso garantir condições para que isso se mantenha e consigamos salvar o Estado Social. E para isso tem de haver economia. Como o Governo não pode criar sozinho mais empresas exportadoras, tem pelo menos a obrigação de não as deixar morrer às mãos do livre arbítrio dos monopólios disfarçados de "mercado".
A decisão sobre crucificar a restauração - com o IVA a 23% - só tem uma saída: esperar-se que as pessoas peçam realmente a factura e dêem justiça a esta medida. Caso contrário o restaurante a fechar primeiro será o que cumpre as suas obrigações. Embora, no essencial, as mais fracas vão fechar por falta de procura...
Já não vale a pena falar da falta de crédito para as empresas. Parece que quase acabou. E se assim é, o desemprego vai aumentar já em Janeiro, e muito.
Bom... Pedro Passos Coelho passou por mais uma entrevista onde se percebeu que não vê uma luz ao fundo do túnel. Foi honesto. É difícil, para não dizer mesmo impossível, ver um palmo à frente do nariz. Mas ser líder é ver mais à frente. E ou se vê, ou não se é líder. É-se um gestor de circunstâncias. Pedia-se ao primeiro-ministro uma ideia nova, pequenina, prática, útil. Uma. Os portugueses precisam de pedagogia e energia.
Fica para a próxima?
Daniel Deusdado
Jornal de Notícias [01.12.2011]


Chamo-me José, tenho trinta e um anos, sou livreiro em Lisboa. Estou doente dos pulmões e quero mudar o mundo.
Durante muito tempo pensei ser o santo representado na abside da igreja do Salvador, na aldeia que me viu nascer. Corria no meu cavalo branco e espetava a lança nas fauces do dragão. Eram fauces escancaradas ao lado do altar-mor e pertenciam a um grande lagarto com crista que nos sermões de domingo representava o mal. A fé era o bem, o lagarto, o mal. E eu, São Jorge no cavalo branco. Agora quero contar aquele sonho.
A minha livraria é a mais antiga da cidade, “desde 1727 ao serviço da cultura”. De dia atendo os clientes, estou sentado à secretária ou vou ao armazém da Rua da Figueira. A noite é para a política.
Na livraria amiúde aparece Eça de Queiroz, o companheiro Eça. Ficámos amigos e leio sempre os seus folhetins. Quando sai a Gazeta vou comprá-la a correr, recorto o artigo. Até tenho, aqui mesmo na secretária, uma frase dele de que gosto: “Todo o pé quer sua asa.”
Do meu posto de trabalho vejo os transeuntes da Rua do Chiado, cada um fechado no seu silêncio. Nalgumas tardes, quando até o realejo do cego da esquina se cala e a livraria está deserta, penso: o mundo é melancolia. O pé quer ser asa, mas não consegue. Fica no chão, enquanto uma cinza se deposita nas coisas. Especialmente no Outono, na Primavera, as estações de transição. No mês de Maio, quando as flores são as ilusões que Outubro acabará por levar consigo.
Por que é que decidi ter um diário e escrever a minha história? Não sei, pergunto-o a mim próprio. Talvez porque, nos meus pulmões, a mancha húmida se alastra e está a mudar também a minha mente. A doença traz consigo perguntas e memórias. Gostaria de perceber algo da minha vida. Por exemplo, o que é que me levou a deixar os outros entrarem dentro de mim. Não estou a falar de livros, mas sim de pessoas, operários, mulheres das fábricas. Os livros fazem companhia, os homens ferem. Mas o que é que vale mais do que o homem?
Talvez tenha sido a ofensa que me levou a decidir. A ofensa pelo mal na Terra. Quem quer que passe na rua reflecte-se no meu espelho secreto. Não posso fingir que não se passa nada. Eu sou como ele. Eu sou ele.
Quero escrever para tentar deter o tempo, que para mim apressou o passo. Escrever.Talvez queira entrar em competição com todos os escritores que me olham das estantes. Uma nova lucidez leva-me a dilatar a vida transacta, alonga os meus dias para trás. E as coisas da terra onde nascemos brilham, na memória, como a lâmina da foice na mão do ceifeiro.
Perguntei a Eça se a literatura pode melhorar o homem e ele respondeu com um sorriso. É preciso fazer a revolução, para o homem. O pé tem de se tornar asa: na próxima semana, talvez… Pois há vento novo em Lisboa: as conferências do Casino.
Ontem à noite, a primeira conferência: Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos. Antero de Quental parecia São Francisco, com a sua candura deu cabo dos burgueses.
Estavam lá os que costumam aparecer na livraria, os políticos, os jornalistas. Mas também estava Miguel, o encadernador, que olhava em redor, acabrunhado por entre os janotas. Estava Nobre França, um irmão para mim. Estava o tipógrafo com quem sujei as mãos, antes de vir para aqui lidar com livros. Alguns operários da nossa secção ficavam lá ao fundo da sala a olhar para os tectos decorados. Sentiam-se como cães numa igreja. Mas vamos mudá-los.
O que disse Antero? Em poucas palavras: os povos peninsulares começaram a decair quando ficaram sob o jugo do despotismo religioso organizado pelo Concílio de Trento. Palavras importantes. E enquanto mandava vir com os Jesuítas que querem o povo calado, obediente e imbecil, enquanto acusava os conquistadores que nos trouxeram ouro, especiarias e pau-santo, mas destruíram dois impérios e dez milhões de homens, na sala ouviam-se gemer os escapulários. Havia quem se agitasse como se tivesse o fogo-de-santo-antão.
Esta noite estava a pensar: no fundo de nós há uma sombra que impede a alegria de crescer. A flor não desabrocha. Vejo-a, às vezes, aquela sombra, também nos olhos de Antero, apesar de tão combativo. Mas durante a conferência, ontem, tinha luz nos olhos e chamas no cabelo. Tinha luz, enquanto falava de religião. O cristianismo foi a revolução do mundo antigo e a revolução é o cristianismo do mundo moderno, disse. Então, levantei-me para aplaudir. Entretanto os quatro operários ao fundo da sala estavam de olhos esbugalhados. “Eis o quarto estado”, pensava, “vamos marchar com eles contra o obscurantismo.”
Tema e variações. Os peninsulares são naturalmente religiosos, amam as procissões, os santos, o incenso e os cantos litúrgicos, mas ignoram a teologia. “O cristianismo é um sentimento, enquanto o catolicismo é uma instituição.” Tudo mudou com os dogmas: como é possível pensar que Cristo está deveras presente no pão do padeiro e no vinho do vinhateiro? E por que é que a alma não pode comunicar directamente com Deus, mas tem de prestar contas, na confissão, a um intruso intitulado guia espiritual?
Disse mesmo assim: intruso. Um burburinho percorreu a sala.
A conferência no Casino levantou celeuma. Os da Nação reagiram: “Aqueles cabrões que querem refazer o mundo! Sabichões! Escribas e fariseus!”, dizem, de Antero, que arrasta o balandrau pelo chão “como um miserável judeu, um herdeiro dos que mataram Cristo”.
Quando chove fico sentado à secretária. Se levanto os olhos, vejo as lombadas dos livros a olhar para mim, a prevenir-me, a piscar-me o olho. Dom Quixote guia-me com o seu rocinante rumo aos moinhos de vento.
Olho atrás das montras e os pingos da chuva parecem escorrer no espelho que tenho dentro de mim. Eu sou um pingo: nós também escorremos como água. A água da chuva que lava as ruas. O Tejo. Vejo-o brilhar da janela da minha casa na Rua do Monte Olivete. Os pingos de água que alargam a mancha dos meus pulmões.
Estava preocupado com a conferência de Eça de Queiroz: todo o pé quer ser asa…
Vi Eça algumas vezes na Casa de Batalha Reis, na Travessa do Guarda-Mor, lá em cima no Bairro Alto, à noite, depois do encerramento da livraria. É um ponto de encontro para nós. Lá, vi-o à luz de um candeeiro de petróleo. Uma alma comprida e magra. Lembrei-me da minha alcunha de rapaz: era muito magro e no meu dialecto chamavam-me gambadazelar, pé de aipo. Todos nós, que queremos mudar o mundo, somos pés de aipo. Mas Eça tem, a mais, a elegância, as mãos de marfim, o monóculo de intelectual, uma bengala delgada de fazer inveja a um negreiro. Fuma um cigarro atrás do outro e não se cansa de escrever.
Também o vi na biblioteca do Grémio Literário. Eu estava a ler Proudhon, ele, Gérard de Nerval. Um dia em que, juntos, comemos bacalhau numa tasca de Alfama, recitou para mim um poema de Gérard de Nerval. Lembro-me do primeiro verso: “Je suis le ténébreux, le veuf, l’inconsolé…”
Havia interesse na sala do Casino. Aparentemente Eça é da mesma massa dos ouvintes, mas dentro de si tem um músculo que os outros não têm. Impressionou todos com a sua distinção, o bigode e o cabelo preto, madeixa na testa, gesticular das mãos.
Trouxe à baila as teorias de Proudhon. A nova arte democrática: Courbet. O artista tem de saber observar e não excluir nada do seu olhar. Para quê pintar musas e fantasmagorias? Basta descrever a praça da nossa aldeia, a nossa ruela.
- Vós, que pretendeis representar Carlos Magno, César e Jesus Cristo em pessoa, seríeis capazes de fazer o retrato do vosso pai? – perguntou um dia Courbet, dirigindo-se aos académicos.
Eça citou Proudhon e a sua descrição de um quadro de Courbet: uns curas da província, bêbados, no regresso de uma conferência seguida de pândega. O quadro provocou escândalo e foi excluído de uma exposição prevista em Paris.
Depois, mergulhou no elogio a Gustave Flaubert e à sua Madame de Bovary.
Tenho pensado muito na conferência. Eu não sou um artista, mas acredito que a arte contribui para o conhecimento dos homens e do mundo. O homem novo, o produto da nossa revolução, saberá emocionar-se diante de um quadro. Mesmo diante dos britadores de camisa esfarrapada de Courbet. Sobretudo diante deles.
A conferência de Eça fez-me voltar com a mente aos meus dezassete anos. E, ao remexer nos meus papéis, encontrei o recorte de jornal que guardara, quando era rapaz no Jura. Vou partir daqui, para as minhas memórias. De um velho recorte de jornal, já passaram quase vinte anos. Mas ainda me lembro perfeitamente. A lembrança é imortal. A lembrança é um pássaro que voa pelo tempo e que bate nos vidros.
Alberto Nessi, Na Próxima Semana, Talvez
[Nascido em Mendrisio (Suíça)
em 19 de Novembro de 1940]
Do blogue O Palrador
"A fim de melhorar a competitividade dos custos da mão-de-obra, os salários do sector privado deverão seguir o exemplo do sector público e aplicar reduções sustentadas", escrevem os senhores (nunca a palavra "senhores" foi tão apropriada) do FMI, BCE e CE no comunicado em que apresentam os resultados da recente vistoria à sua quinta à beira-mar plantada e avalizam as contas prestadas pelos feitores. E como os seus desejos são ordens, não tardará muito até que os ministros Álvaro e Vítor Gaspar apareçam nas TVs a anunciar outra "inevitabilidade": a redução de salários também no sector privado.
Parece, contudo, haver um problema: é que, diz a CIP, os patrões portugueses preferem, em vez de pagar menos aos trabalhadores, aumentar-lhes o horário de trabalho (a coisa vai dar ao mesmo mas afigurar-se-á aos patrões que trabalhar mais não dói tanto como receber menos; só resta saber se o Governo decretará que os dias passem a ter 30, 40 ou 48 horas).
Adivinha-se assim uma situação típica da "commedia dell'arte" (embora, no caso, se deva falar antes de "tragedia dell'arte"), com Arlequim a correr desalmadamente de uma mesa para outra para tentar servir ao mesmo tempo o almoço aos seus dois amos.
Na peça de Goldoni, tudo acaba em bem. Na de Passos Coelho, patronato e "funcionários de 5ª, 6ª, 7ª ou 8ª linha" (presidente do BPI "dixit") dos "mercados" só uma coisa é, para já, certa: quem pagará o espectáculo.
Manuel António Pina, Por Outras Palavras
Jornal de Notícias [18Novembro2011]

Sr. Primeiro-Ministro!
Depois das medidas que anunciou, sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes, como diria o Sérgio Godinho. V. Exª dirá que está a fazer o que é preciso.
Eu direi que V. Exª faz o que disse que não faria, faz mais do que deveria e faz sempre contra os mesmos. V. Exª disse que era um disparate a ideia de cativar o subsídio de Natal.
Quando o fez por metade disse que iria vigorar apenas em 2011. Agora cativa a 100% os subsídios de férias e de Natal, como o fará até 2013.
Lançou o imposto de solidariedade. Nada disto está no acordo com a troika. A lista de malfeitorias contra os trabalhadores por conta de outrem é extensa, mas V. Exª diz que as medidas são suas, mas o défice não.
É verdade que o défice não é seu, embora já leve quatro meses de manifesta dificuldade em o controlar. Mas as medidas são suas e do seu ministro das Finanças, um holograma do Sr. Otmar Issing, que o incita a lançar uma terrível punição sobre este povo ignaro e gastador, obrigando-o a sorver até à última gota a cicuta que o há-de conduzir à redenção.
Não há alternativa? Há sempre alternativa mesmo com uma pistola encostada à cabeça. E o que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse, de forma incondicional, ao lado do povo que o elegeu e não dos credores que nos querem extrair até à última gota de sangue.
O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse a lutar ferozmente nas instâncias internacionais para minimizar os sacrifícios que teremos inevitavelmente de suportar.
O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele explicasse aos Césares que no conforto dos seus gabinetes decretam o
sacrifício de povos centenários que Portugal cumprirá integralmente os seus compromissos — mas que precisa de mais tempo, melhores condições e mais algum dinheiro.
Mas V. Exª. e o seu ministro das Finanças comportam-se como diligentes directores-gerais da troika; não têm a menor noção de como estão a destruir a delicada teia de relações que sustenta a nossa coesão social; não se preocupam com a emigração de milhares de quadros e estudantes altamente qualificados; e acreditam cegamente que a receita, que tão mal está a provar na Grécia, terá excelentes resultados por aqui. Não terá! Milhares de pessoas serão lançadas no desemprego e no desespero, o consumo recuará aos anos 70, o rendimento cairá 40%, o investimento vai evaporar-se e, dentro de dois anos, dir-nos-ão que não atingimos os resultados porque não aplicámos a receita na íntegra.
Senhor primeiro-ministro, talvez ainda possa arrepiar caminho. Até lá, sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a
nascer-me nos dentes.
Nicolau Santos, Expresso [15/10/2011]
Auto-retrato (1912)
Abel Manta nasceu em Gouveia, a 12 de Outubro de 1888, e morreu em Lisboa, a 9 de Agosto de 1982.
Exprimiu-se em várias modalidades: ilustração, cartaz, tapeçarias, murais, arquitectura e cartoon. Iniciou-se como figurativista, mas o contacto com Manet, Matisse e Cézanne, em Paris, levou-o a aderir ao pós-impressionismo.
Regressa a Portugal, em meados da década de 20, onde se vai dedicar à Pintura.
Em Gouveia, sua terra natal, Gouveia, foi inaugurado em Fevereiro de 1985 o Museu Municipal de Arte Moderna Abel Manta, num edifício setecentista.
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