Quarta-feira, 28 de Setembro de 2016

O CÓDIGO SECRETO DA CAPELA SISTINA

Enquanto os Papas rejubilavam com os frescos do tecto, Miguel Ângelo ocultava, na Capela Sistina, críticas à decadência da Igreja. Um legado pouco católico do mestre renascentista, agora recordado a propósito dos quinhentos anos da jóia do Vaticano

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A ideia que Miguel Ângelo tinha de si mesmo como artista não coincidia com os planos que Júlio II tinha para o mestre renascentista. Queria, o Papa que o tecto da Capela Sistina, no Vaticano, se tornasse um gigantesco fresco retratando a criação de Adão e Eva, Noé e o Dilúvio, Deus a formar o Mundo, e outras cenas bíblicas que reforçassem o prestígio da Santa Igreja junto dos fiéis. Miguel Ângelo que se considerava escultor e não pintor, criou a obra-prima que fez o mundo aloelhar de devoção, mas aproveitou para se vingar com elegância: muitos dos conteúdos dos frescos, codificados para iludirem a vigilância do pontífice e pouparem o artista à morte, revelaram ser mensagens esotéricas e críticas veladas à decadência da Igreja. Só isso explica que o Vaticano não festeje com pompa os quinhentos anos desta obra, visitada anualmente por quatro milhões de turistas.

O projecto de construção da Capela Sistina, à imagem do lendário Templo de Salomão, em Jerusalém, descrito pelo profeta Samuel no Livro dos Reis, foi encomendado em 1475 pelo papa Sisto IV, que lhe deu o nome. Porém, só entre 1508 e 1512, sob as ordens de Júlio II (sobrinho de Sisto), é que Miguel Ângelo concebeu as famosas pinturas narrando a história da Criação, num processo crivado de animosidade entre o artista solitário e um Papa impaciente em ver o trabalho concluído. Em pouco tempo, Miguel Ângelo dispensou todos os ajudantes que o serviam, ao perceber que o melhor trabalho de que eram capazes não satisfazia o seu grau de exigência. Devido ao cansaço, retenção de líquidos, pedras nos rins e problemas respiratórios, tanto contorceu o corpo nos andaimes que ganhou reumatismo e escoliose. A vista ficou-lhe turva, das gotas de tinta que caíam do tecto e da minúcia dos pormenores, mas o mestre não desarmava.

"Quando estará pronta a minha capela?" perguntava invariavelmente Júlio II, o Terrível, ameaçando substituir Miguel Ângelo caso não desse conta do recado. "Quando eu puder", era a resposta do artista, a braços com falta de paciência, dificuldades financeiras, problemas de saúde e aquelas quase trezentas figuras descomunais que o consumiam - mas que resultaram tão perfeitas quando as terminou que mais pareciam esculpidas em mármore de Carrara. A sibila Líbia foi uma delas, erguendo na mão a tocha que ilumina o mundo e profetizando sobre Cristo. Ninguém pareceu reparar que ela também se tornou famosa ao prever a chegada do dia "em que todo o oculto será revelado, sugerindo que o autor pintou a sonhar com o tempo em que o seu código seria revelado ao mundo.

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Mais tarde, Miguel Ângelo diria que a boa pintura se aproxima de Deus. "Não é mais do que uma cópia das suas perfeições, uma sombra do seu pincel, a sua música." Já nada podia apagar o código secreto ocultado nas imagens que representam a criação do Universo, sete episódios do Génesis, cinco sibilas(que teriam anunciado a vinda de Cristo), sete profetas, a embriaguez de Noé e façanhas heróicas do povo de Israel, incluindo Judite matando Holofernes, David vencendo Golias e Ester denunciando as perseguições de Amã aos judeus. O Papa rejubilava ao olhar os frescos. Estava longe de imaginar que o artista usara o seu humor rebelde para criticar a decadência da Igreja, passar mensagens esotéricas a quem as soubesse interpretar e declarar a sua admiração pelo povo judeu, o Talmude e a Cabala.

Foi isto mesmo que descobriram, alguns séculos mais tarde, os especialistas em judaísmo Roy Doliner e Benjamin Blech, confirmando no livro Os Segredos da Capela Sistina, As Mensagens Proibidas de Miguel Ângelo no coração do Vaticano (ed. Casa das Letras): "Às vezes, ele usava códigos ou alusões simbólicas que eram parcialmente escondidas, por vezes sinais que só poderiam ser entendidos por certos grupos religiosos, políticos e esotéricos. São mensagens que ecoam, nos dias de hoje, com o seu apelo corajoso para a reconciliação entre a razão e a fé, a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento, e entre todos os que se irmanam na busca sincera pela fé verdadeira e no serviço de Deus."

Mas nem só os frescos de Miguel Ângelo guardaram mensagens ocultas durante mais de cinco séculos. Segundo exames complexos realizados recentemente pelo Museu Britânico, recorrendo a tecnologia de ponta, vários esboços de Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio, Andrea Mantegna e do próprio Miguel Ângelo revelaram que os grandes nomes da Renascença eram recorrentes na arte da ocultação. Uma Virgem Maria de Leonardo deixa antever, por baixo, rascunhos de um gato e um menino Jesus. Um desenho da Viegem com o Menino, da autoria de Mantegna, revela, numa camada inferior, traços de uma mulher rodeada por dois querubins que, entretanto, acabaram apagados pelo artista. Miguel Ângelo modelou a sua Madona de Bruges, uma escultura exemplar da Virgem com o Menino, sobre o desenho de um torso que começou por ser, inegavelmente, masculino.

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"Através destes desenhos é possível ligarmo-nos àqueles momentos criativos, como se espreitássemos por cima do ombro dos artistas", disse Hugo Chapman, curador dos esboços italianos no Museu Britânico, em declarações à Imprensa. "Teríamos de ter estado com eles no estúdio para ver aqueles desenhos em particular. Isto é como uma máquina do tempo.", congratula-se o perito, deslumbrado com o modo como os traços profundos desvendam o ensaio das poses, da anatomia e do movimentos finais das grandes obras. No caso da Capela Sistina, a subversão de Miguel Ângelo está lá para quem quiser vê-la. Nunca a expressão "O essencial é invisível aos olhos" teve tanto significado.


 

Texto: Ana Pago

Fotografias: CORBIS
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Quarta-feira, 15 de Junho de 2016

O VOO MELANCÓLICO DO MELRO

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(O verdadeiro osso das coisas)

Posso dizer que foi um ano branco, aquele. Redigida a Carta Constitucional, o país auscultado com o estetoscópio da democracia parlamentar. Henrique esfumava-se sob um álamo, a cinza devolvia a política aos altares naturais.Só falava quem tinha pergaminhos ou quem não tinha vergonha de tropeçar na sua ignorância. Nos anos de brasa podia-se mostrar a ignorância sem vergonha. A ignorância era uma medalha da opressão. Os doutores ouviam os ignorantes e apreciavam a sabedoria da ignorância. Mas a cinza repôs o pêndulo da História e os néscios voltaram a ter vergonha. O país ficou ponderado. No fundo, o país não queria falar tanto, só queria ouvir quem tivesse o mérito da fala, apreciar a oratória televisiva. Tornou-se um país de cidadãos sentados com a faca numa mão e o queijo na outra. O queijo era o sorriso do político e a faca o voto do eleitor. Aceitaram-se os patrões e os capatazes como inevitabilidade da vida, eram as cigarras da economia. Eu estava numa posição de privilégio para o dizer porque era patrão e empregado ao mesmo tempo, tinha dado dois dias de salário à nação no tempo do Vasco Gonçalves, um como empregado e outro como patrão. Descobriram-se curvas desconhecidas na nossa língua. Foi tempo da Sónia Braga e do doutor Mundinho. Cinema indiano, introspecção, melodrama, frigoríficos, televisores.

[...]

O amor, soube-o ali, não precisava de palavras de legendar filmes. E antes que nada mais restasse do que uma narrativa inútil, juntei as minhas bagas de trovisco às do padre Rubim e transformámos os Melros numa associação cultural com teatro, biblioteca, desporto, escola de música. Tal como a utopia nos tinha ensinado. E utopia pareceu-me uma palavra justa para definir um sonho amplo no céu coberto pela cinza dos dias.

CARLOS TÊ, O Voo Melancólico do Melro

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Segunda-feira, 18 de Abril de 2016

Explicação do "Impeachment" num minuto...

EXPLICAÇÃO DO  IMPEACHMENT

NUM MINUTO

 

ESTADOS UNIDOS+URSS

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ESTADOS UNIDOS

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BRICs

BRASIL+RÚSSIA+ÍNDIA+CHINA+ÁFRICA DO SUL

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Terça-feira, 5 de Abril de 2016

CAMILLE CLAUDEL

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 Com 20 anos em 1884

 

CAMILLE CLAUDEL (Camille Athanaïse Cécile Cerveaux Prosper) foi uma escultora talentosa, nascida em Aisne (França), a 8 de Dezembro de 1864. Foi aprendiz de Rodin, com quem manteve um relacionamento tumultuoso. A separação dos dois, provoca-lhe um grande sofrimento. Camille começa a ter alucinações, cada vez mais frequentes e, em 1913, é internada num manicómio.

Morreu depois de 30 anos de internamento, com 79 anos, em Paris,  a 19 de Outubro de 1943 Camille era filha de Louis Prosper, hipotecário, e Louise Athanaïse Cécile Cerveaux. Passou toda sua infância em Villeneuve-sur-Fère, morando num presbitério que seu avô materno, o doutor Athanaïse Cerveaux, havia adquirido. Foi a primeira filha do casal, sendo quatro anos mais velha que Paul Claudel. Ela impõe a sua forte personalidade ao irmão e à sua irmã mais nova, Louise. Comandava os dois desde pequena. Segundo Paul, ela manifestou desde cedo o seu desejo de ser escultora. Camille tinha algumas premonições e previu também que o irmão se tornaria escritor e que a irmã seria musicista.

 

Período criativo

Seu pai, maravilhado com o seu grande e precoce talento que produziu, ainda na infância, esculturas de ossos e esqueletos com impressionante verossimilhança, dá-lhe todos os meios para desenvolver as suas potencialidades, colocando-a em escolas e cursos de primeira qualidade. A mãe, por outro lado, não vê isso com bons olhos, colocando-se sempre contra e reagindo, muitas vezes, violentamente no sentido de reprovar a filha pelos incómodos e custos da manutenção do seu "capricho". Camille, que sonha ser uma grande escultora, sente-se ameaçada pela mãe, por não aprovar os elevados gastos com a sua educação.

Em 1881, com 17 anos, sai de casa para ir em busca do seu grande sonho. Parte para Paris e ingressa na Academia Colarossi, uma escola para escultores. Teve por mestre, de início, Alfred Boucher e, depois, Auguste Rodin. É desta época que datam as suas primeiras obras conhecidas: La Vieille Hélène ou Paul à Treize Ans.

Rodin, impressionado pela solidez e beleza de seu trabalho, admite-a como aprendiz no seu atelier, na rua da Universidade em 1885. É então que colabora na execução de Les Portes de l'Enfer e do monumento Les Bourgeois de Calais.

Tendo deixado a família por amor à escultura, trabalha vários anos ao serviço de seu mestre e mantem-se à custa de sua própria criação, pois ganha salário como aprendiz. Por vezes, a obra de um e de outro são tão próximas que não se sabe qual é a do professor ou da aluna. Às vezes, confunde-se quem inspirou um ou copiou o outro, tal é a qualidade do trabalho de Camille. As esculturas dos dois são muito idênticas e isso aproxima os dois.

O tempo passa e Camille e Rodin envolvem-se e têm um caso ardente de amor. Porém, Camille Claudel enfrenta muito rapidamente duas grandes dificuldades: por um lado, Rodin não consegue decidir-se a deixar Rose Beuret, a sua namorada dos anos difíceis do princípio; por outro lado, alguns insinuam que as suas obras eram executadas pelo próprio mestre. Triste e depressiva pelas acusações e por Rodin ainda ter outra mulher, Camille tentará distanciar-se de Rodin e fazer suas obras longe dele. Percebe-se muito claramente essa tentativa de autonomia na sua obra (1880-94), tanto na escolha dos temas como no tratamento: La Valse ou La Petite Châtelaine. Esse distanciamento leva ao rompimento definitivo, em 1898. A ruptura é marcada e contada pela famosa obra: L’Age Mûr.

Ferida e desorientada, Camille Claudel passa a nutrir por Rodin um estranho amor-ódio que a levará à paranóia e à loucura. Instala-se então no número 19 do hotel Quai Bourbon e continua a sua busca artística em grande solidão, pois ama loucamente Rodin e, ao mesmo tempo, odeia-o por ele a ter abandonado. Apesar do apoio de críticos como Octave Mirbeau, Mathias Morhardt, Louis Vauxcelles e do fundidor Eugène Blot, seus amigos, ela não consegue superar a dor da saudade. Eugène Blot organiza duas grandes exposições, esperando que o reconhecimento seja benéfico, a nível sentimental e financeiro, para Camille Claudel, que ele quer ajudar. As exposições têm grande sucesso de crítica, mas Camille já está doente demais para se reconfortar com os elogios. Fica estranha e obsessiva, desejando a morte de Rodin. Recorda o passado, a oposição da mãe à sua carreira. As lembranças ruins passam a sufocá-la cada vez mais.

 

Doença

Depois de1905, os períodos paranóicos de Camille multiplicam-se e acentuam-se. Ela acredita nos seus delírios. Nos seus sonhos doentes, ela acredita que Rodin roubará as suas obras de arte para moldá-las e expô-las como suas, ou seja, acha que Rodin roubará as suas esculturas e que dirá que foi ele quem as fez. Passa a achar que o inspector do Ministério das Belas-Artes está em conluio com Rodin, e que desconhecidos querem entrar em sua casa para roubar as suas obras. Nesta fase, fala sozinha e chegou à esquizofrenia. Chora muito, e pensa em suicídio. Camille cria histórias imaginárias que aceita como pura verdade. As suas crises de loucura aumentam, vive num grande abatimento físico e psicológico, não se alimentando e desconfiando de todas as pessoas, achando que todos a matarão. Isola-se e, como mora sozinha no hotel, ninguém sabe da sua condição, pois rompe a amizade com os amigos e passa a viver sozinha no seu quarto. Mantém-se vendendo as poucas obras que ainda lhe restam.

O pai, seu porto-seguro e única pessoa que a entendeu, morre em 3 de Março de 1913, o que piora a depressão e a faz sair, ainda mais, da realidade. Entra numa crise violenta, partindo tudo e gritando. Em 10 de Março, é internada no manicómio de Ville-Evrard. A eclosão da Primeira Guerra Mundial faz com que seja transferida para Villeneuve-lès-Avignon onde morre, após trinta anos de internamento e desespero, passando todo esse tempo amarrada e sedada. Morreu em 19 de Outubro de 1943, aos 79 anos incompletos.

Acredita-se hoje que Camille tenha sido vítima da Acção T4, no manicómio, como muitos outros durante a ocupação nazi da França. A Acção T4 foi o nome usado após a Primeira Guerra Mundial para o programa de eugenismo e eutanásia da Alemanha nazi, durante o qual médicos assassinaram centenas de pessoas consideradas por eles "incuravelmente doentes, através de exame médico crítico". O programa ocorreu oficialmente de Setembro de 1939 a Agosto de 1941, mas continuou de modo não-oficial até ao fim do regime nazi, em 1945. Claude foi informado da condição "terminal da irmã" em Setembro de 1943, mas não esteve presente nem na morte, nem no funeral de Camille. A sua mãe morreu em 20 de Junho de 1929 e sua irmã nunca viajou até o manicómio para vê-la.

Camille Claudel foi enterrada no cemitério de Monfavet numa vala comum.

 

Do livro Camille Claudel, A Life:

Dez anos após sua morte, os ossos de Camille foram transferidos para uma vala comum, onde foi misturado com os ossos de pessoas mais pobres. Presa ao solo de onde ela tentou fugir por tanto tempo, Camille nunca mais retornou à sua amada Villeneuve. A negligência de Paul com o túmulo de sua irmã é imperdoável... Enquanto Paul decidiu não se sobrecarregar com o túmulo da irmã, ele fez grandes planos para seu local final de descanso, dando um local exacto - em Brangues, sob uma árvore, ao lado de seu neto, e citando cada palavra que estaria na lápide. Hoje, seus fãs prestam homenagens à sua memória em seu túmulo nobre; mas de Camille não há traço sequer. Em Villeneuve, uma placa simples lembra aos visitantes curiosos que Camille Claudel ali viveu, mas seus restos ainda estão no exílio, em algum lugar, alguns passos de distância do lugar que a sequestrou trinta anos antes.

 

TALENTO

Camille Claudel, La Valse, escultura (bronze), 190

Camille Claudel, La Valse, escultura (bronze), 1905

 

A força e a grandiosidade de seu talento estavam na verdade num lugar muito incómodo: entre a figura lendária de Rodin e a de seu irmão que se tornou um dos maiores expoentes da literatura de sua geração. E não é difícil perceber que as questões de género influenciaram esse lugar menor dedicado a Camille.

O seu génio sufocado por dois gigantes, a sua vida sufocada por um abandono, as suas forças e a sua lucidez esgotadas por uma relação umbilical com seu mestre e amante. Uma relação da qual não conseguiu desenvencilhar-se, consumindo a vitalidade na vã tentativa de desembaraçar-se desse destino perverso. Camille Claudel, com a sua forte personalidade, a sua intransigência, o seu génio criativo, ultrapassou a compreensão de sua época e permanecerá ainda e sempre um Sumo Mistério. Ela tinha uma inteligência, um talento fora do comum e poucas pessoas da época entendiam o seu grande dom de verdadeira artista.

publicado por Elisabete às 19:28
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Quinta-feira, 19 de Novembro de 2015

OS PALACETES TORNAM-SE ÚTEIS

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TOMADO DE ASSALTO UM PALACETE DESABITADO


 "A igualdade dos homens começa na igualdade das crianças"Comuna Soldado Luís2.png

Seguindo uma linha de actuação que desde há muito não deixa qualquer tipo de dúvidas, quanto às finalidades a atingir, a LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária), ocupou ontem, para o povo, um prédio abandonado da Rua Morgado Mateus, transformando-o de imediato, numa Comuna Infantil Popular, a que deram o nome, por sugestão dos moradores dos bairros da zona, de Soldado Joaquim Luís, o militar assassinado em 11 de Março pelas tropas reaccionárias de Spínola. 

A acção foi programada com a antecedência que uma actuação deste tipo exige. As comissões de bairro da freguesia do Bonfim foram auscultadas. Militantes da organização vinham efectuando desde há dias um levantamento social da zona, chegando à indubitável conclusão de que era necessário instalar um infantário na freguesia. O prédio foi escolhido com a ajuda de moradores, a partir de informações que permitiram a selacção. 

Designado o local, grupos de elementos da LUAR estudaram a parte operacional do "assalto". Foram contactados médicos e enfermeiros. Confirmada a viabilidade da operação, foi escolhido o dia de ontem, à hora 10ª, para o accionar de toda a orgânica do grupo.

Em segundos, o prédio foi tomado.

Tinha sido aumentado o poder das crianças. A miudagem do Bonfim, tinha mais qualquer coisa de seu.

 

CRIAR PODER POPULAR

A LUAR não trabalha de improviso. As acções desenvolvidas são consequência de um profundo estudo operacional de cada segundo dos minutos de actuação e do avaliar consciente das possibilidades de apoio às posições assumidas. A intervenção do grupo começa na consciencialização das bases. Como tal, enquanto o grupo de intervenção tomava a casa de assalto, o grupo de propaganda distribuía pela zona da morada ocupada o seguinte comunicado:

"No dia 16 de Março, pelas 10 horas, foi ocupada pela LUAR e com o apoio imediato e activo da população local, a habitação há muito desocupada, situada na Rua Morgado Mateus, ao Campo 24 de Agosto, ex-sede do Grémio da Indústria de Curtumes.

"O objectivo é transformar esta magnífica casa inútil e ampla num infantário-creche comunal administrado exclusivamente pelos populares. Pretende-se com esta acção lançar as ideias básicas de um Serviço Nacional de Assistência à Criança, ao serviço das massas trabalhadoras mais desfavorecidas e controlado por elas.

"É evidente que acções como esta não terão significado se não se alargarem à população de todo o País, se não assumirem uma forma de poder popular. Para que o povo futuramente ganhe o poder, é necessário para já a nível político e económico haver um controlo efectivo por parte das massas trabalhadoras. É aqui que surge a necessidade dos poderes piopulares, significando isto que, em regime de exploração capitalista, quem comanda o poder não pode servir o povo. 

"É necessário que no local onde vivemos, nos bairros, nas fábricas, nas aldeias, nas cidades, nos locais onde trabalhamos, nos campos e nas empresas, se constituam comissões de moradores, de consumidores, de trabalhadores que, coordenados a nível nacional, procurem constituir uma alternativa ao poder burguês. A luta contra a exploração capitalista vai ser dura e prolongada. Neste momento, para que o plano de "Assistência Nacional à Criança" não morra, é preciso o apoio consciente, profissional e material, de todos quanto queiram lutar por uma sociedade socialista".

 

UM APELO DAS CRIANÇAS

O manifesto termina com um apelo das crianças do Bonfim, S. Lázaro, Campo 24 de Agosto, Fernão de Magalhães, S. Vítor, etc. lançado ao papel pelo punho de um militante da LUAR:

"Apelamos sobretudo para os camaradas dos hospitais, das comissões de trabalhadores dos estabelecimentos de Saúde e Assistência e das empresas ligadas aos ramos médicos e farmacêuticos, dos sindicatos dos médicos, dos enfermeiros, dos assistentes sociais; a todos os particulares que apoiem esta iniciativa popular."

E é obrigatório apoiar esta iniciativa realmente popular. Sem dogmatismos, sem discursos ou corta-fitas, homens do povo, ontem a meio da manhã, mostraram que estão efectiva e incondicionalmente ao serviço do povo. Sem a mira do voto (como se sabe a LUAR não participa nas eleições), sem rótulos liberalizantes, nem com gritos de liberdade, os homens da LUAR agiram como verdadeira força popular, ao serviço do povo, sem histéricas pragmáticas e democracia, sem cognominações de povo ou trabalhadores ou cristãos. Na unidade revolucionária, a LUAR continua a construir o socialismo.

 

"FARTOS DE CONVERSA ESTAMOS NÓS"

O sr. Alberto Correia é subchefe aposentado da P.S.P. Tem 79 anos. Mora na freguesia. Ontem, foi visitar "o prédio dos netos".

- Assim é que é. Olhe, os meus netos é que ficam a lucrar. Não tinham onde brincar, agora passam a vir para aqui. Sabe, eu sou do tempo da 1ª República. Também quando foi do falecido general Humberto Delgado, pus lá o meu voto por ele, mas cortaram-mo. Sou democrata velho. E fartos de conversa estamos nós. Assim é que é..."

Setenta anos mais nova, disse-nos a Margarida do Carmo Sá Azevedo:

- Acho que isto é uma coisa muito boa, e que pensaram em nós. Assim, é dar-nos também o poder.

Edite Manuela, de 7 anos, desenhava uma bonita casa nos painéis postos pela LUAR à disposição das crianças numa das salas do magnífico edifício de 5 pisos:

- O que penso disto é que é bom, porque ficamos com mais coisas.

Com um ano a menos, o Fernando Pedro acha que "é muito bom, porque posso encontrar aqui muitos amigos e é termos uma casa só para nós".

- Havia era de ter sido há mais tempo. - disse-nos o sr. Inácio dos Santos Sobrinho, nascido e criado na freguesia do Bonfim. - Estar uma casa destas aqui abandonada até é uma ofensa para os pobres. Veja lá o senhor que os tipos queriam vendê-la por vinte mil contos. Foi bem feito. As crianças merecem tudo.

 

UMA CASA PARA O POVO

Durante todo o dia de ontem, o edifício foi visitado por centenas de pessoas, dezenas de crianças que foram conhecer a sua nova casa.

- Nós tomámos a casa. Mas para a dar ao povo. Por isso o povo é que irá administrá-la e usufruir da organização médica que começamos a programar - disse-nos um dos responsáveis do núcleo do Norte da LUAR.

Após a actuação do Grupo de Intervenção, secundado por um grupo de Segurança, um grupo procedeu ao inventário das poucas coisas que se encontravam no interior do prédio abandonado. Como já referimos, um outro grupo, o de Propaganda, comunicou à população da zona que a partir daí possuiam uma Comuna Infantil Popular.

Hoje, começam já a funcionar os serviços médicos, através de alguns clínicos simpatizantes da LUAR, e de outros que imediato se solidarizaram com a ideia. Numa segunda fase, que se prevê seja o mais breve possível, a Comuna Infantil Popular será entregue a uma Comissão de Gestão constituída por moradores da zona, retirando-se então os elementos da LUAR, que continuarão, no entanto, activos e organizados, para novas acções de interesse geral. 

Podemos desde já adiantar que está num dos planos futuros da Liga de União e Acção Revolucionária, ocupar uma outra morada para aí instalar uma Comuna de Convívio para Velhos, onde além de um merecido repouso, os mais idosos encontrarão assistência médica e o carinho humano de que tanto precisam.

Mas para a concretização desta ideia e consolidação do projecto ontem iniciado, a LUAR, organização apartidária, progressista e sobretudo revolucionária, espera a ajuda de todos.

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 AS CRIANÇAS AGRADECEM:

As crianças da Comuna Infantil Popular agradecem ofertas de cobertores, colchões, brinquedos, material escolar, roupas, medicamentos, livros, géneros alimentícios, móveis e a colaboração de médicos, enfermeiros e assistentes sociais. Todas as ofertas poderão ser entregues na Rua Morgado Mateus, nº 137, ou na sede da LUAR, na Praça Marquês de Pombal.

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publicado por Elisabete às 18:05
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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2015

Tudo o que queria era um lugar, um lugar de cinco mil...

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 Ia com um único objectivo: obter um lugar com cinco mil rublos de ordenado. Já não se inclinava para nenhum ministério, orientação ou género de actividade em particular. Tudo o que queria era um lugar, um lugar de cinco mil, fosse na administração, nos bancos, nos caminhos-de-ferro, numa das instituições da imperatriz Maria, ou mesmo na alfândega, mas necessariamente sair de um ministério onde não sabiam apreciá-lo.

E eis que esta viagem de Ivan Ilitch foi coroada de um êxito notável e inesperado. Em Kursk entrou na carruagem de primeira classe um conhecido seu, F. S. Ilin, e informou-o acerca de um telegrama recente recebido pelo governador de Kursk, anunciando que por aqueles dias se daria uma mudança no ministério: iam nomear Ivan Semiónovitch para o lugar de Piotr Ivánovitch.

A possível mudança, além da sua importância para a Rússia, tinha uma importância especial para Ivan Ilitch porque, ao promover um novo homem, Piotr Petróvitch, e evidentemente também o seu amigo Zakhar Ivánovitch, lhe era altamente favorável. Zakhar Ivánovitch era colega e amigo de Ivan Ilitch.

Em Moscovo a notícia foi confirmada. E ao chegar a Petersburgo, Ivan Ilitch encontrou-se com Zakhar Ivánovitch e obteve a promessa de um lugar seguro no seu anterior ministério da Justiça.

Uma semana depois, telegrafou à mulher:

"Zakhar lugar Miller. Obterei lugar ao primeiro relatório."

Graças a essa mudança de pessoas Ivan Ilitch obteve inesperadamente, no seu anterior ministério, uma nomeação pela qual ficava dois graus acima dos seus colegas: cinco mil rublos de ordenado e três mil e quinhentos como subsídio de transferência.

Todo o seu enfado com os anteriores inimigos e com o ministério foi esquecido, e Ivan Ilitch sentiu-se completamente feliz.

Voltou para o campo alegre e satisfeito como há muito não se sentia. Praskóvia Fiódorovna também se alegrou e entre eles estabeleceu-se uma trégua. Ivan Ilitch contou como tinha sido felicitado por todos em Petersburgo, como todos os que tinham sido seus inimigos estavam envergonhados e agora o adulavam, como era invejado pela sua posição e, em especial, como toda a gente em Petersburgo tinha gostado muito dele.

 

LEV TOLSTÓI

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Segunda-feira, 7 de Setembro de 2015

1974 - DIVÓRCIO JÁ! Exigiam eles e elas

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Em 1974 foram recolhidas cem mil assinaturas a pedir a legalização do divórcio

Por causa da Concordata de 1940, os casamentos católicos eram indissolúveis

 

Num cartaz fotografado pelo Diário de Notícias lê-se "algemas no casamento". Outro anuncia que há "dois milhões de filhos ilegítimos". Com a Revolução de Abril de 1974, um vasto movimento popular a exigir a legalização do divórcio pôs-se em marcha. E uma maciça campanha de recolha de assinaturas foi lançada. Recolheram-se mais de cem mil, mas apenas 51 mil foram entregues no Palácio de Belém ao presidente António de Spínola, segundo a notícia que surge na primeira página de 6 de Junho de 1974. 

Citando membros da comissão que recolheu as assinaturas, o jornal escreveu que "o governo entende de momento não poder resolver este grande problema que os paladinos do movimento pró-divórcio apontam como nº 2 na ordem de prioridades absolutas da nação (o primeiro é, naturalmente, o colonial)". E o DN dava conta ainda da promessa de se manifestarem no Vaticano, a favor da revisão da Concordata de 1940, entre o Estado Novo e a Santa Sé.

Com a implantação da República em 1910, o divórcio tornou-se legal em Portugal (o casamento civil vinha de 1867, durante o reinado de D. Luís). Mas Salazar negociou com o Vaticano um vasto acordo de Estado a Estado que incluía a proibição de divórcio para os casamentos católicos, o que significou décadas de famílias desfeitas e refeitas à margem da lei - e com o tal problema dos filhos ilegítimos. A interdição teve fim em 1975, com a revisão da Concordata, que permitiu de novo aos casados pela Igreja que pedissem o divórcio civil. Depois disso a lei não deixou de se ir liberalizando cada vez mais em Portugal. 

Mas se o divórcio é antigo na civilização (era comum na Grécia Clássica e no Império Romano), ainda hoje não é um direito universal. Além de dificultado, para as mulheres, em muitos países muçulmanos, continua proibido nas Filipinas, o mais populoso país católico da Ásia. E só mais um Estado o interdita: o Vaticano.

 

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Domingo, 6 de Setembro de 2015

Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?

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 Amanhã meto-me no avião e regresso a Tóquio. As férias de Verão estão quase a acabar e voltarei a calcorrear os intermináveis caminhos do costume. É lá o meu lugar, é lá que está o meu apartamento, a minha mesa de trabalho, a minha sala de aulas, os meus alunos. Esperam-me dias tranquilos, romances por ler. Uma ou outra ligação esporádica.

Uma coisa é certa: não voltarei a ser o mesmo. A partir de amanhã, serei outra pessoa. Os que me rodeiam não se darão conta de que voltei ao Japão completamente diferente. Por fora, nada terá mudado, mas algo dentro de mim ficou reduzido a cinzas e deixou de existir. Houve sangue derramado e, dentro de mim, algo morreu. Desapareceu de vez, de cabeça baixa, sem uma palavra. Há uma porta que se abre e uma que se fecha. Apaga-se a luz. Para mim, tal como sou agora, hoje é o último dia. Este é o meu último entardecer. Quando o novo dia nascer, eu, tal como sou agora, já não estarei aqui. Outra pessoa diferente habitará o meu corpo.

Por que será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?

Virei-me de costas sobre a laje de pedra, fitei o céu por cima de mim e pus-me a pensar na quantidade imensa de satélites que naquele preciso momento deviam girar à volta da Terra. No fio do horizonte era ainda possível distinguir uma réstia de luz, e as estrelas começavam a brilhar no céu de um profundo tom púrpura. Procurei com o olhar a luz de um satélite, mas havia demasiada claridade para distinguir fosse o que fosse a olho nu. As estrelas que estavam à vista permaneciam imóveis, cada uma no seu sítio, como se cravadas no céu. Fechei os olhos e prestei atenção para ver se conseguia ouvir os descendentes do Sputnik que continuavam a dar voltas à Terra, tendo como único elo de ligação ao planeta a gravidade. Solitários pedaços de metal que se encontraram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. Sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa.

Haruki Murakami

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Segunda-feira, 31 de Agosto de 2015

SETEMBRO

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 Em Setembro lembramo-nos dos canaviais. Cheira a terra húmida e a apara-lápis, e o vento faz tombar sobre a terra os primeiros ouriços, precoces ainda. Sei que entra Setembro porque ouço os pneus dos automóveis sobre o asfalto. Há um arco-íris no céu, folhas de plátano pelo chão e nos rostos das crianças uma ternura. Em Setembro casam-se as segundas oportunidades, e não há nada tão redentor como elas. E também é em Setembro que ficam deprimidos os que não suportam o silêncio. Setembro é vindima e é crepúsculo. O crepúsculo sempre foi assim. Nos grandes e calmos dias de Setembro, como lhes chamou o poeta, comem-se os últimos tomates, o resto do milho doce e o mel da fajã da Serreta, feito pelo Sr. Manuel Jorge. Compram-se sapatos novos, tiram-se os casacos do armário e o Q.B. torna a fazer torrões de pistácio. Tenho saudades de torrões de pistácio. E de chá de néveda. E de tempestades. No mês de Setembro estreiam-se os filmes de Woody Allen (pelo menos, a mim, parece-me sempre Setembro). Voltam o jazz, o teatro e as noites sem programa, e também há festas em São Bartolomeu, com o João Ângelo cantando ao desafio. Tudo é mais romântico em Setembro. As lavadias abrandam, o mar antém-se cálido, as praias ficam desertas. E nós lembramo-nos dos canaviais. Tudo é mais romântico e belo em Setembro, e é por isso que nos lembramos dos canaviais. E de casacos. Lá mais para o final de Setembro abrem as primeiras beladonas, engordam os primeiros araçás, partem os primeiros cagarros. Talvez possamos até acender a lareira, lá para o final de Setembro - mas os ouriços continuarão precoces, como uma expectativa do que está para vir.

Amanhã entra Setembro, e Setembro traz sempre consigo a expectetiva do que está para vir. Eu ainda sinto a expectativa do que está para vir. 

 

JOEL NETO

(DN Opinião)

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Quarta-feira, 12 de Agosto de 2015

SEM CORAÇÃO

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Quim Comandos preocupa-me, o seu estado enquistado em processo revolucionário permanente. As paredes do bar grafitadas com frases de ponta e mola, assinadas por um tal comandante Raio:

Os mais fortes demoram apenas mais tempo a ser abatidos.

O objectivo da guerra é atingir a paz, o objectivo da paz é acabar com a guerra; o meu objectivo é acabar com as duas.

Quero que todas as revoluções aconteçam ontem. Hoje é demasiado tarde.

Que raio de comandante será este? Tenho a certeza de que é apenas um pseudónimo do próprio Quim, devoto do Che Guevara e de mais ninguém. Preocupa-me esse seu estado alucinado, vulcão adormecido capaz de atravessar a qualquer momento a fronteira entre a sanidade e a loucura e fazer um disparate, julgando que a revolução, a insurreição armada, chegará num dia talvez de nevoeiro, como um sebastianismo no cano de uma metralhadora.

No entanto, por vezes parece-me que tem razão. Esta sociedade precisa duma revolução. Quando olho para o mundo e vejo a loucura das guerras, fomentadas pelos comerciantes de armas e por aqueles que fazem fortunas a reconstruir cidades arrasadas por bombardeamentos… Quando vejo a corrupção de governantes e políticos, quando assisto impotente a todas as técnicas de manipulação da imprensa, do condicionamento das mentes, quando os eleitores elegem sucessivamente quem os conduz ao desastre e à miséria, sem saber como ou porquê, quando a democracia é apenas uma forma mais trabalhosa de alguns explorarem todos, aí eu tenho a certeza de que Quim Comandos é senhor da razão. Loucos são os outros…

 

Miguel Miranda, Sem Coração

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Terça-feira, 28 de Julho de 2015

A ESPIRAL REPRESSIVA

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Tão inevitável como a morte?

 

A concentração do capital, facilita, estimula e permite, comprar a concentração do poder político.

O poder político, (também o pseudo-democrático) adquirido pelos donos do capital, é usado como arma suprema contra quem vive do seu trabalho.

Os donos do capital, para defender os seus interesses, passaram a preferir as armas “democráticas.” Aquelas que sem prender formalmente as pessoas por delitos de opinião, até lhes permite eleger os seus representantes, desde que os escolhidos sejam quem eles querem e em quem confiam.

As vias democráticas para impor os interesses do capital e sujeitar quem trabalha às suas leis, começam a ser demasiado óbvias e perceptíveis aos olhos das vítimas e, por isso, mais uma vez, os capitalistas pressentem o perigo e cerram fileiras em defesa dos seus privilégios, daí a propalada ostentação de firmeza e cega irredutibilidade na decisão de querer arrebanhar, custe o que custar, o dinheiro que semearam nas grandes sementeiras da especulação, feitas em “terras de reduzida fertilidade”.

Nervosos, perante as ténues ameaças que o futuro desenha, “reagem à capitalista”e não resistirão à tentação de recorrer à força das armas e da repressão generalizada, para tentar “controlar à nascença” as tempestades sociais que as suas humilhações provocaram.

Ilusão!

Aos Homens, Aos Países, às Comunidades Humanas, às Sociedades Nacionais ou supra-nacionais, nada as empurra mais irracionalmente para a voracidade incontrolável da Guerra do que a Humilhação. Pelos vistos, para lá caminhamos de novo!

E a partir do momento em que a Espiral Repressiva do Capitalismo sinta de novo a necessidade de abandonar a capa sacrossanta da camuflagem democrática, privando-nos também das liberdades formais… aí, (demasiado tarde?) contra a violência despida de cinismos, toda a violência revolucionária será de novo legítima, desta vês à escala da Europa, tem der ser. Aí, disso não tenho dúvidas, o Povo português, a sua juventude, estarão de novo dispostos a sacrificar as vidas, para chegar de novo à Av. da LIBERDADE.

É imperioso obrigar os capitalistas (os lobos) a despirem os seus disfarces de cordeiros.

 Desengane-se quem avilta a dignidade humana. Mais segura, tranquila e feliz é a vida duma família socialmente solidária, que a vida duma família muito rica de património conseguido à custa da miséria alheia.

 

Camilo Mortágua

(Julho de 2015)

 

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Terça-feira, 30 de Junho de 2015

1967 FÉ DE PEDRA

 

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A França, onde o Sagrado Coração de Jesus se manifestou, foram os do Porto

buscar o começo de uma nova igreja

 

Uma pedra será mais do que isso, mero bloco granítico a partir do qual se constrói a casa, seja esta dos homens ou da divindade. Uma pedra pode remeter-nos à penitência de Sísifo, condenado a repetidamente levar o mesmo monolito ao cume da mesma montanha, mas pode também lembrar-nos a fé dos de há quase cinquenta anos, que do Porto foram a França buscar o alicerce basilar da sua igreja. A pedra que aqui mostramos, primeira de um moderno templo que viria a representar, na Invicta, novo paradigma da arquitectura religiosa assinado pelo arquitecto Luís Cunha, que poucos anos depois teria nova expressão na Igreja Paroquial de Cedofeita, assinada por Eugénio Alves de Sousa. Mas a primeira pedra da nova igreja do Carvalhido, que é dessa que aqui falámos, é mais do que um fragmento de arquitectura, antes foi uma expressão de fé. Consagrado ao Sagrado Coração de Jesus o templo, à localidade de Paray-le-Monial foram peregrinos, em 1966, buscar o bloco que aqui vemos, um ano depois, na cerimónia simbólica de arranque da construção. Porque naquela distante terra se acredita que Cristo apareceu de peito aberto a Margarida Maria Alacoque, que viveu no século XVII e é santa desde 1920. Num pedaço de granito, "o coração que tanto amou os homens", como se acredita que Cristo disse à vidente, mas também a perseverança dos que quiseram dar à sua casa de oração uma essência de divindade. Foi em Junho de 1967 que, como noticiava o JORNAL DE NOTÍCIAS, "as principais autoridades civis e militares" do Porto assistiram à bênção da pedra, protagonizada pelo bispo Florentino de Andrade Silva, administrador apostólico da dioceses. O bispo diocesano, D. António Ferreira Gomes, afrontara Oliveira Salazar e vivia no exílio, em Espanha e França, desde 1959. Só regressaria dois anos depois desta cerimónia, beneficiando da relativa abertura a que se chamou "primavera marcelista", ainda a tempo de assistir ao final da construção da igreja do Carvalhido.

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 A nova Igreja do Carvalhido

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Domingo, 21 de Junho de 2015

NUNCA MAIS CAIU

1961 - PONTE DA ARRÁBIDA

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Muitos duvidavam que a Ponte da Arrábida, o maior arco de betão em todo o mundo, à data, se aguentasse no sítio. Amanhã passam 52 anos sobre a inauguração da ponte que se fez monumento nacional.

 

Edgar Cardoso transformou a engenharia em evento de massas e foi a construção da Ponte da Arrábida, união do Porto a Gaia que é agora monumento nacional, que fez dele, digamos assim, produtor de eventos.

Não se leia aí ofensa, antes gratidão a um homem que tornou apaixonante algo que outros deixariam à indiferença que junto dos leigos suscita o projecto e cálculo de estruturas de betão. Com Edgar Cardoso, as coisas eram diferentes, não apenas por o notável professor ser uma figura cativante mas também pela genenialidade que transparecia da idealização de modelos laboratoriais, da busca de soluções inéditas e, sobretudo, do arrojo dessas soluções em que mais ninguém parecia acreditar. Quando foi feita, a Ponte da Arrábida era um fenómeno - o maior arco de betão pré-esforçado alguma vez feito - e gente do mundo inteiro esteve no Porto à espera de a ver cair. A técnica de construção já havia sido testada em menor escala, bem perto do Porto, na ponte que cruza o rio Sousa e sobre a qual tanta gente passa sem se aperceber de que é uma miniatura da grande obra que viria depois. E que teve no fecho do cimbre - realizado em Junho de 1961 e aqui documentado - o mais espectacular e fotografado momento. O cimbre é, digamos assim, o molde metálico que, à medida que era montado, ia sendo enchido com betão. O tramo central, que fechou o arco, foi construído a montante e transportado, Douro abaixo, sobre batelões puxados por rebocadores, sendo depois içado por gruas, postas de ambos os lados da construção. Tinha 78 metros de comprimento, pesava 500 toneladas e demorou cinco dias a chegar lá ao alto. Depois de pronto o primeiro arco de betão, o cimbre foi deslocado lateralmente para o segundo arco ser construído. A ponte foi inaugurada a 22 de Junho de 1963, com a pompa que levou o JN a titular a toda a largura da primeira página, no estilo descritivo e encomiástico próprio da época: "Revestiu-se de condigna solenidade a inauguração da Ponte da Arrábida.

 

in Notícias Magazine

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Sexta-feira, 12 de Junho de 2015

Alfama é Linda

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 1934

Criadas em 1932, as marchas de Lisboa tornavam-se um exemplo do que o regime queria - distrair o povo. Mas a tradição pegou.

Em Fevereiro de 1934, o Presidente da República, Óscar Carmona, inaugurara o bairro económico da Ajuda. O Sporting tinha ganho o Campeonato de Lisboa. No final de Maio, a Sociedade de Geografia acolhera o I Congresso da União Nacional, num desfile de discursos elogiosos a Salazar. Uma semana antes de esta fotografia ter sido tirada, cerca de trinta mil pessoas assistiram ao despiste do corredor Henrique Lehrfeld ao volante do seu Bugatti, no Parque Eduardo VII, onde, na noite de 11 de Junho, se deu o concurso das marchas populares, criado por Leitão de Barros, homem próximo de António Ferro, responsável pelo Secretariado da Propaganda Nacional, e adepto destas "distrações" para entreter o povo. 

"As marchas começaram a concentrar-se no Pavilhão de Festas às 22 horas e só minutos depois da meia-noite a primeira, a do Bairro Alto, subiu ao estrado para exibir as suas danças e cantares", lia-se no DN do dia seguinte. Outros tempos, em que as edições dos jornais fechavam madrugada dentro. O suficiente para o repórter ainda no local para relatar que "às três horas de hoje sempre perante enorme multidão de espectadores surgia a marcha de Alcântara. A penúltima a utilizar os dez minutos da exibição". A marcha de Sete Rios (na foto), apesar de "levar a palma no despertar do agrado público", não conquistou nenhum lugar cimeiro. "O 1º prémio, que é uma linda caravela de prata, foi atribuído à marcha de Alfama."

No próximo sábado, noite de Santo António, o cenário não deverá muito diferente. Em 2014, oitenta anos depois deste relato, foi também de Alfama, a marcha vencedora.

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Sexta-feira, 5 de Junho de 2015

Por entre os pingos da chuva

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E, de repente, vem-me à ideia o som da água de um ribeiro a escorregar pelos limos das rochas, desdobrando-se em gotas e pingos que nos atingem o regaço quando nos debruçamos para, com as mãos em concha, bebermos um pouco daquela frescura que tão bem sabe, no meio do calor das tardes de Verão. 

É diferente do som das ondas a rebentar contra a areia, numa praia. Apesar de ser água, não é a mesma água. E não é só o sal que as separa. Ou o facto de umas separarem continentes e outras, margens. É também a generosidade com que a água doce se predispõe a dar-nos vida sem nada pedir em troca. Correndo das montanhas apressada para se juntar ao sal da terra no mar, guarda ainda assim algum tempo para que nos possamos abeirar dela e receber a água de que precisamos para matar a sede.

Esta relação entre a água e quem a bebe sempre se fez de cumplicidade, de um vulnerável equilíbrio entre as duas partes. Infelizmente, mais ou menos desde o período da Revolução Industrial, o ser humano tem vindo a convencer-se de que é o dono disto tudo e de que tudo se encontra sujeito à sua vontade.

Aprisionou a água doce, marcou-a e disse que era sua. A água que antes corria livre, ao alcance de todos para que a apanhassem, é agora pintada de cores e químicos pelas fábricas que se plantaram à beira-rio, suja pelos detritos e esgotos que lhe lançamos e captada e engarrafada para que a compremos.

Sem água não vivemos, é um truísmo. Mas é, sobretudo, a lembrança de que sem água não teríamos vida na Terra. Dela vimos todos os que respiramos ar. A nossa procedência é líquida e líquida devia ser a nossa devoção para com aquilo que nos permitiu que vivêssemos. Mas, se nem aos nossos pares outorgamos igualdade, separando as espécies humanas em caixinhas onde cabem todo o tipo de estereótipos e futilidades que pouco apontam ao interior comum que partilhamos, como poderíamos esperar que pudéssemos tratar com dignidade qualquer outro elemento externo?

Chegámos a um ponto da nossa existência em que o barulho da avidez é tão ensurdecedor, que deixamos de ouvir o som da água a cair do céu e a bater com toda a força no chão, o fim da sua viagem. Deixamos de nos relacionar com ela e habituamo-nos a que a sua existência possa ser controlada pelo gesto que abre e fecha uma torneira. E como o gesto que abre e fecha uma torneira é comandado pela vontade de beber, mas controlado pela sede de poder, privatizaram-se as águas em Portugal.

Na sua mente louca, em desvario, acham os que votaram a favor de tal crime que um elemento da natureza que é, por inerência livre, pode ter donos. Que pode ser colhido, aprisionado e dividido para depois ser vendido a retalho, ao sabor das leis de mercado e da ganância humana.

O bem comum passa a ser expressão non grata. A culpa deve ser do novo Acordo Ortográfico, claro. Baniu letras mortas e mudas, que já não fazem falta a esta mundo cheios de sons de progresso. O que lhes desejo, aos que acham que é possível e legítimo privar o todo de uma coisa que é de todos e taxá-la de acordo com os seus interesses, é que sequem, que mirrem, como o deserto de ideias e emoções que são e que, ao mirrarem, se lembrem do som da água do ribeiro a correr, soltando gotas que, pesadas, vêm cair no regaço de quem se dobra para a colher nas suas mãos, fresca, cristalina, pura, livre.

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ANA BACALHAU (in Notícias Magazine)

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Domingo, 31 de Maio de 2015

DO OUTRO LADO DA ESTRADA

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 A 1 de Junho de 1928, chegava ao fim a "mão inglesa". Os portugueses passavam a conduzir pela direita e o Diário de Notícias ajudou a promover a mudança.

O título era esclarecedor: "PELA DIREITA!", em letras maiúsculas para sobressair numa primeira página em que se noticiava que "Portugal venceu a Jugo-Eslávia" por 2-1" e que o presidente da República estava de visita a Viseu. Mas naquele 30 de Maio de 1928, apesar de passarem dois dias sobre o segundo aniversário do golpe militar que acabou com a Primeira República, não era de política que se falava, e sim de condução. Portugal desistia de guiar à inglesa e seguia o exemplo do resto da Europa continental, adoptando a condução pelo lado direito. Apesar do esforço de divulgação pelas autoridades, a confusão estava instalada entre quem tinha automóvel e que a partir de 1 de Junho teria de conduzir pelo lado oposto. Assim, o jornal decidiu intervir, colocando tabuletas nas estradas. Como se escreveu na altura, "o Diário de Notícias, cumprindo sempre a sua função de grande jornal moderno, não podia alhear-se de tão momentoso assunto e com a coadjuvação valiosíssima da Vaccum Oil Company, essa grande organização industrial americana que assombra o mundo pelo inédito dos seus processos de reclamo, resolveu dedicar ao problema a sua atenção e, apesar do grande dispêndio que isso lhe traz, espalhar por Portugal inteiro grandes placards anunciadores das novas disposições oficiais de trânsito". A Vaccum Oil Company seria mais tarde integrada na Mobil.

Faixas, tabuletas, placards. Tudo para alertar que se passava a conduzir do lado direito da estrada. Passados mais de oitenta anos, as ilhas britânicas resistem na opção pela esquerda e, com Malta e Chipre, ex-colónias inglesas, são as excepções na Europa. No resto do mundo, é também em antigas zonas do Império Britânico que persiste a velha regra, sobretudo na África Oriental, na Ásia do Sul e na Oceânia. Em Moçambique também se conduz pela chamada mão inglesa. Sempre foi assim, porque é a regra nos países com que faz fronteira. Nessa antiga colónia portuguesa no Índico, a campanha do Diário de Notícias de 1928 nunca chegou a ser necessária.

in "Notícias Magazine"

 

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Sexta-feira, 13 de Março de 2015

Não há vacina para a memória

1968, o ano em que foi possível sentir que alguma coisa terminava. Não tinha um nome para essa coisa. O Ed dizia que era o fim da esperança, e muitas pessoas também o diziam, para onde quer que se fosse. O senhor Eugenides dizia que era a morte da esperança. O senhor Pelowski do cinema também o dizia.

Para a senhora Wolohan era uma outra grande montanha de sofrimento a escalar, de modo e espetar a sua bandeira de coragem no cimo.

Em relação ao Ed, o seu silêncio viu-se completado.

No fim de contas, ele conhecera algumas daquelas pobres pessoas assassinadas, que tinham estado à mesa da senhora Wolohan. Ele falara com elas, elas tinham falado com ele. Ele podia não passar do filho da cozinheira, mas, na América, o filho da cozinheira podia fazer qualquer coisa, e o Ed brilhava como um nascer do Sol em Junho.

Não creio que ele acreditasse que tinha de abrir a balas o caminho de fuga à sua angústia do Vietname. Na verdade, sei que não pensava assim. Fazia parte do corpo de engenharia e especializara-se mais tarde em minas terrestres. Usava um daqueles paus de vedor para as descobrir, madeira de freixo, como se fossem poços. Era um talento que tinha. Montes de camaradas foram implodidos enquanto faziam esse trabalho. Mas o Ed era habilidoso. Almejava pôr em prática essa habilidade, colocar uma coisinha que fosse nos anais da História, muito embora pequenina, a única que possuía. Permaneceu naquele país, do qual apenas me chegavam estranhos vislumbres na televisão pouco nítida a preto-e-branco. Imagino que ele assistia a tudo ao vivo e a cores.

O Ed já não falava muito, agora. Tornara-se um livro fechado na juventude. Eu própria tinha de adivinhar as coisas.

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Se entrou em mutismo, foi um mutismo que acabou, mas somente no que toca à condição geral de adolescente desprovido de palavras. Aos dez anos, irradiava uma intimidade bela. Aos catorze, começou uma longa caminhada de volta ao silêncio. Em criança, era comparável à biblioteca de Alexandria, repleta de histórias e curiosidades raras. Depois, parece que a vida consumiu quase todas essas coisas, página a página. Nunca soube, e ainda hoje não sei, se poderia ter feito alguma coisa quanto a isso. Se calhar era só o facto de estar a crescer. De ainda viajar sem bagagem como homem. Mas eu não deixava de sentir que alguma coisa estava a ser objecto de troca, palavra a palavra, até não haver mais palavras, ou somente um punhado delas, em qualquer dos casos.

Retesou-se. Os músculos endureceram e vestiram os ossos. Vivia na sua própria mente, mas eu não sabia, mas eu não sabia o que lá estava guardado, porque a porta estava aferrolhada. Não fiz barulho, não bati com força pedindo para entrar. Achava que sabia o que era aquilo a que eles chamavam uma fase. Haveria de a atravessar e, no fim, voltar a abrir-se, como uma porta, e sair ao encontro da luz, banhar-se nela. Tinha a certeza absoluta. A razão era por ele ser uma pessoa tão digna de amor. A sua beleza, já desde criança, transformara-se noutro género de beleza. O senhor Dillinger, que gostava de tirar fotografias, tirou uma do Bill que eu tenho cá dentro, ao lado da cama. Foi no dia em que ia apanhar o autocarro do exército para Bridgehampton, para fazer a recruta na Georgia, como o pai, antes dele. Havia cerca de uma dúzia de rapazes do distrito naquele autocarro, tal como antes, mas uma nova geração. O senhor Dillinger apareceu com a sua máquina toda aparatosa. Nem sequer fez o Bill posar para a fotografia, limitou-se a disparar, enquanto o Bill estava de uniforme a beber café, junto ao escorredor do lava-loiça. A luz de Bridgehampton ficou-lhe no rosto, a luz estranha e salgada dos campos da batata de Bridgehampton. A casa do Bill, a sua terra natal. Um americano na América. Uma criança no meu coração. Está simplesmente a levantar a caneca azul na direcção do rosto, vai a meio caminho, para sempre. Está prestes a beber dela, sem pensar. Uma mera caneca de café. Não sabe nada do deserto para onde vai lutar pelo seu país. Acabou de usar exactamente esta frase há uns segundos, transportando-me de volta à velha sala de estar do meu pai, no castelo de Dublin, onde o Willie fez a mesma declaração fatídica. É assim que começa, e lá está, na fotografia. Não há fotografia de como acaba.

 

Sebastian Barry, Do Lado de Canaã

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Domingo, 22 de Fevereiro de 2015

Um pobre e precioso segredo que não puderam roubar-lhe

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 Em Drancy, no meio da balbúrdia, Dora encontrou o pai, ali internado desde Março. Nesse mês de Agosto, como nas Tourelles, como no depósito de presos da Prefeitura de Polícia, o campo enchia-se todos os dias de uma torrente cada vez mais numerosa de homens e mulheres. Chegavam da zona livre aos milhares, nos comboios de mercadorias. Centenas e centenas de mulheres, a quem haviam separado dos filhos, vinham dos campos de Pithiviers e de Beaune-la-Rolande. E quatro mil crianças chegaram, por sua vez, a 15 de Agosto e nos dias seguintes, depois das suas mães terem sido deportadas. Os nomes de muitas delas, escritos à pressa nas roupas à partida de Pithiviers e de Beaune-la-Rolande, já não eram legíveis. Criança sem identidade nº 122. Criança sem identidade nº 146. Menina de três anos. Nome próprio: Monique. Sem identidade.

Por causa da aglomeração no campo e prevendo os comboios que viriam da zona livre, em 2 e 5 de Setembro as autoridades decidiram enviar os judeus de nacionalidade francesa de Drancy para o Campo de Pithiviers. As quatro raparigas que haviam chegado no mesmo dia que Dora às Tourelles – todas com dezasseis ou dezassete anos: Claudine Winerbett, Zélie Stohlitz, Marthe Nachmanowicz e Yvonne Pitoun – também integraram este comboio de cerca de mil e quinhentos judeus franceses. Acalentavam certamente a ilusão de que seriam protegidos pela sua nacionalidade. Dora, que era francesa, poderia igualmente deixar Drancy com eles. Não o fez por uma razão que é fácil de adivinhar; preferiu ficar junto do pai.

Pai e filha deixaram Drancy a 18 de Setembro, com outros mil homens e mulheres, num comboio para Auschwitz.

A mãe de Dora, Cécile Bruder, foi presa em 16 de Julho de 1942, o dia da grande rusga, sendo internada em Drancy. Reencontrou aqui o marido durante alguns dias, quando a filha estava nas Tourelles. Cécile Bruder foi libertada de Drancy a 23 de Julho, sem dúvida porque nascera em Budapeste e as autoridades ainda não tinham dado ordem para deportar os judeus oriundos da Hungria.

Ter-lhe-á sido possível visitar Dora nas Tourelles, numa quinta-feira ou num domingo desse Verão de 1942? Foi novamente internada no Campo de Drancy a 9 de Janeiro de 1943, e partiu no comboio de 11 de Fevereiro de 1943 para Auschwitz, cinco meses depois do marido e da filha.

No sábado de 19 de Setembro, o dia seguinte à partida de Dora e do pai, as autoridades de Ocupação impuseram um recolher obrigatório em represália contra um atentado que havia sido cometido no Cinema Rex. Ninguém tinha o direito de sair desde as três horas da tarde até ao outro dia de manhã. A cidade estava deserta, como que para assinalar a ausência de Dora.

Desde então, a Paris onde procurei reencontrar o seu rasto permaneceu tão deserta e silenciosa como nesse dia. Caminho através das ruas vazias. Para mim, elas continuam assim, mesmo ao entardecer, à hora dos engarrafamentos, quando as pessoas estugam o passo em direcção às entradas do metropolitano. Não consigo deixar de pensar nela e de sentir um eco da sua presença em certos bairros. Uma noite destas foi perto da Gare do Norte.

Ignorarei para todo o sempre de que modo ela passava os dias, onde se escondia, qual era a sua companhia durante os meses de Inverno aquando da sua primeira fuga e no decurso das poucas semanas de Primavera em que se escapulira de novo. Eis o seu segredo. Um pobre e precioso segredo que os carrascos, os decretos, as autoridades ditas de Ocupação, o depósito de presos, as casernas, os campos, a História, o tempo – tudo o que nos macula e nos destrói – não puderam roubar-lhe.

 

Patrick Modiano, Dora Bruder

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publicado por Elisabete às 14:36
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Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2015

Nada para mim. Portugal.

 

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A explicação do sossego do quarto ao alugá-lo era ser domingo. Os vizinhos daquele prédio tinham ido de passeio ao campo, restituir-se à natureza.

Saiu da cama e subiu os três degraus para chegar à janela. Já começara o primeiro aviso do anoitecer. Vinha uma aragem do Tejo, fria, na cara quente de estar deitado, o bastante para mudar para outro assunto. O rio movia-se com um certo rebuliço, que dava a ideia também de ir fechar por hoje. Em todo o caso via-se bem que era domingo, pois o ruído era diferente do dos dias úteis. No fundo dos pátios, os andares mais baixos acendiam as luzes. O Antunes descobriu que a noite nascia da terra. Um transatlântico imenso custava a deslocar-se do cais, como um mau pensamento leva tempo a deixar-nos. O resto do dia juntava-se todo a Oeste. A outra margem perdia o volume e achatava-se num plano. Cada vez ia cabendo mais tudo dentro de uma só olhadela. Poder-se-ia ver Portugal inteiro de uma só olhadela, como no mapa, em aeroplano?

- Palmela e Almada. De cá, Sintra e Santarém. Mouros, Afonso Henriques. Os cruzados. E desde então até hoje. Até aqui a esta água-furtada. Até mim. Tanta gente e tantos séculos encarreirados por aqui: as quinas, Avis, caravelas, o pelicano, a esfera armilar, Filipes, azul e branco, encarnado e verde, e continua. Nada para mim. Portugal.

 

José de Almada NegreirosNome de Guerra

publicado por Elisabete às 16:15
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Domingo, 4 de Janeiro de 2015

Seis anos de divinos tormentos...

Desistir do amor será talvez inevitável,

mas seguramente obsceno.

Júlio Machado Vaz

 

Amor.jpg

O grande amor da minha vida, à semelhança de todas as paixões veementes e sinceras, não foi, não podia ser feliz, e dava para uma linda novela que só teria o defeito de a verdade aparecer inverosímil. Começou, tinha eu 23 anos, quando tentava namorar, num teatro de Sevilha, uma senhora ao lado de quem estava uma menina, quase criança ainda, que se julgou o objecto dos meus requebros. O curioso, também, é que eu, no momento, iludi-me com os olhares da senhora requestada: tomava-os para mim, e eles iam de alma e coração para um oficial de cavalaria que me estava perto. O quiproquó desfez-se; depois comecei a reparar na menina, que encontrava por todos os lados, nos passeios, nas igrejas, nas tertúlias, e que ruborescia como rosa de Maio apenas me encarava. Iniciou-se o galanteio, estabeleceu-se correspondência; e como era uso em Sevilha, eu acudia todas as noites a falar-lhe às grades de uma janela do seu palácio que abria para uma travessa erma e tortuosa. E neste regime romântico andámos perto de 6 anos! que foram tempestuosos, e cruéis, e adoráveis. Tudo me era pretexto para ir a Sevilha; e à custa de quantos sacrifícios e habilidades, muitas vezes! [...] Mas não vem para aqui a narração do que foram esses 6 anos de divinos tormentos. Basta dizer o desfecho. O amor entrara naquele coração virginal, em labaredas, e com todo o seu cortejo de ilusões; e consumira-se por si à medida que as ilusões se desfaziam. Mas, na ingenuidade do seu arrebatamento, ela fizera-me promessas a que se julgava ligada eternamente: "mais ainda do que se a Santa Madre Igreja as houvesse sancionado", repetia-me a miúdo, e ao seu espírito brioso, e de católica fervente, afigurava-se mais fácil morrer do que faltar ao prometido. Em mim o amor, que nascera da curiosidade, ateara-se lentamente, e tomara tais proporções que a morte me parecia mil vezes preferível a perdê-la. Mas a oposição, por parte do pai, à nossa união, era invencível; a minha namorada, já rica de si pelo legado de um tio-avô, era filha única, e herdeira de um grande nome e de uma fortuna imensa, e eu não tinha, como se diz na minha terra, "nem eira, nem beira, nem ramo de figueira"; e quando me convenci de que o seu amor desaparecera, julguei-me obrigado a desligá-la dos seus juramentos. Foi uma operação horrorosa, uma espécie de amputação que me deixou leso para o resto da vida. Mas fi-la. 

Manuel Teixeira-Gomes, in Miscelânea 

Manuel Teixeira-Gomes.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 (através de David Mourão-Ferreira, in Terraço Aberto)

 

 

 

publicado por Elisabete às 13:34
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