Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

Antero de Quental

 

Quanta vez, debruçado na janela do quarto que me acolhia na portuense Casa da Pedra, onde vivera e escrevera Oliveira Martins e, depois, pertencera a minha irmã Maria Manuela; quarto onde Antero de Quental tinha a sua cama se, ido de Vila do Conde, resolvia ficar mais tempo com o amigo historiador; quanta vez, eu imaginava o poeta aspirando o aroma intenso do roseiral do jardim tão de compleição romântica que lhe ficava aos pés, ou a lançar o olhar para o alto, onde a igreja da Lapa ergue o vulto austero, recolhendo no seio o coração de Pedro I do Brasil, e badalando horas lentas, na melancolia do bronze!

Por esse tempo, Antero parecia feliz, procurando, como afirma numa carta a um velho amigo e conterrâneo, o equilíbrio moral indispensável para qualquer espécie de trabalho.

 

 

 

 

Não dava, então, notícias daquele poeta pessimista, embrenhado nas leituras sombrias de Shopenhauer e de Hartmann, angustiado pela doença que o levará até ao consultório parisiense de Charcot; essa psicose maníaco-depressiva, que uma vez ou outra lhe dava tréguas, lhe permitia o humor normal e, no dizer sábio do professor Miller Guerra, fases de actividade, energia, bem-estar, optimismo e entusiasmo criador.

Mas foi, decerto, num desses momentos depressivos que, a 11 de Setembro de 1891, ao regressar à terra açoriana de São Miguel, pôs fim à existência com dois tiros de revólver, num banco isolado junto ao muro de uma praça de Ponta Delgada, onde (trágica ironia!) uma âncora assinala o Convento da Esperança.

Ali me detive, em certa visita à ilha de Antero, precisamente 80 anos após a terrível ocorrência, sem me atrever sequer a murmurar o conforto destes dois versos do poeta:

 

Já sossega depois de tanta luta,

Já me descansa em paz o coração.

  

 

Ali, numa compungida meditação, evoquei o poeta que a Geração de 70, a sua geração, considerou, pela pena de Eça de Queiroz, um génio que era um santo.

Nascera em 1842, oriundo de uma família aristocrática, ligada à cultura e possuindo fartos cabedais. Quando por Coimbra se bacharelou, logo revelou a sua força criadora, o seu espírito insubmisso, as suas ocasionais convicções filosóficas e políticas.

Essa vida agitada do pensamento e acção permitia-lhe, no entanto, conceber a simplicidade lírica da quadra dita popular, num feixe de Cantigas dedicadas às águas do Mondego, que um coro ímpar de poetas celebraram:

 

Lindas águas do Mondego,

Por cima olivais do monte!

Quando as águas vão crescidas

Ninguém passa para além da ponte!

 

Musa cristalina, ainda não turvada por dúvidas e transes, ímpetos sociais e lucubrações filosóficas.

Mas antes deste tumulto que iria gerar alguns dos mais extraordinários sonetos da língua portuguesa, houve lugar para a divertida invenção de um poeta satanista, de parceria com o seu camarada Eça de Queiroz, que, mais tarde, lhe criou uma biografia e uma correspondência: Carlos Fradique Mendes.

Com efeito, a 29 de Agosto de 1869, o jornal A Revolução de Setembro publicava um folhetim de versos atribuído a esse poeta desconhecido e original, discípulo dos chamados satanistas do Norte, de nomes bárbaros e de difícil leitura, todos eles fruto da imaginação dos dois jovens escritores.

Antero, oculto pelo pseudónimo Fradique, insere, nesse folhetim, um soneto e um fragmento da ‘Guitarrilha de Satã’, subtraídos a uma obra que naturalmente nunca chegou a editar-se nem sequer a ser realizada: Poemas de Macadame.

Mas foram, no entanto, reunidos no livro póstumo de Antero, Raios de Extinta Luz.

A título de curiosidade, pois pouco maior valor têm as quadras da partida forjada à ignorância cultural portuguesa de então, cito o fragmento dedilhado na Guitarrilha de Satã:

 

Estranha aparição,

Que em minhas noites vejo,

Ó filha do desejo!

Ó filha da solidão!

 

Não sei qual é teu nome,

E donde vens, ignoro:

Sei só que tremo e choro

Como de frio e fome!

 

Que por fundir contigo

Suspiros, ais, rugidos,

Dera ideais queridos,

Deuses e fé que sigo.

 

Sim, dera as profecias

E os cultos salvadores,

E os Gólgotas, e as dores,

E as bíblias dos Messias!

 

Por ti, minh’alma clama,

Corre a meus braços, breve,

Sejas de fogo ou neve,

Sejas cristal ou lama!

 

Se és Beatriz, sou Dante;

Sou santo, se és divina,

Se és Lais ou Messalina,

Sou Nero, ó minha amante!

 

Breve, estas brincadeiras juvenis dão lugar à sisudez do pensador, como a irreverência ou a fogosidade do duelo motivadas pela Questão do Bom Senso e do Bom Gosto, cujo alvo principal era o pontificado literário do velho Castilho, dão lugar às convicções sócio-políticas das Conferências do Casino, em 1871, em que o escritor revolucionário proclamava, apontando soluções, as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. 

O poeta lírico que se sonhava rei, nalguma ilha / Muito longe, nos mares do Oriente e visionava a amada descansando debaixo das palmeiras / Tendo aos pés um leão familiar, despe-se de fantasias exóticas e pomposas e, de camisa arremangada, emprega-se na azáfama de uma tipografia, para o convívio mais estreito com o operariado, todo ele voltado à doutrina socialista, numa missão pedagógica que a poesia serve, submissa aos ditames da sua inspiração: é o nascer do Sol, o Sol ardente da vida à luz do qual quer trabalhar, combater por um futuro melhor para a pobre Humanidade; o Sol, o claro Sol amigo dos heróis.

Mas não tardam as pesadas nuvens do desengano, o espírito profundamente místico de Antero a voltar-se para a filosofia budista, mas entendendo um Budismo coroando o Helenismo, com a interpretação de um Nirvana muito pessoal que igualmente definiu num soneto:

 

Para além do Universo luminoso,

Cheio de formas, de rumor, de lida,

De forças, de desejos e de Vida,

Abre-se como um vácuo tenebroso.

 

A onda desse mar tumultuoso

Vem ali expirar, esmaecida...

Numa imobilidade indefinida

Termina ali o ser, inerte, ocioso...

 

E quando o pensamento, assim absorto,

Emerge a custo desse mundo morto

E torna a olhar as coisas naturais,

 

À bela luz da vida, ampla, infinita,

Só vê com tédio, em tudo quanto fita,

A ilusão e o vazio universais.

 

Com o galopar da doença que o tortura, galopa o seu espírito como um cavaleiro andante em busca do palácio encantado da Ventura, que súbito se lhe depara na sua pompa e etérea formosura; mas, aí, como os sepulcros caiados de tantos hipócritas que Cristo invectivou, ao abrirem-se as Portas d’ouro, com fragor, o Vagabundo, o Deserdado encontra dentro, unicamente, silêncio e escuridão – e nada mais.

Como é pungente o destruir de um alto ideal que se persegue vida fora, qual o brioso cavaleiro, formidável mas plácido no porte, dominando, pelo amor, o impulso da morte que o leva até à eternidade! Venha pois o refúgio no sonho que impede o poeta de enfrentar o horror da realidade mesquinha!

E a quem rogá-lo, esse refúgio, senão àquela Virgem Santíssima, cheia de graça, Mãe da Misericórdia?

 

Ó visão, visão triste e piedosa!

Fita-me assim calada, assim chorosa…

E deixa-me sonhar a vida inteira!

 

Quando, em 1890, a soberba Inglaterra afronta a dignidade portuguesa com um Ultimatum vexatório que aquece ao rubro o nosso patriotismo, os estudantes portuenses, encabeçados pelo jovem poeta Luís de Magalhães, correm ao remanso de Vila do Conde, a convidar Antero de Quental para a presidência de uma recém-criada Liga Patriótica do Norte. Mas, muito cedo o poeta reconhece que aquele sacrifício pelo altar da pátria por ele pedido a todos os portugueses fora, uma vez mais, inútil, pois, como escreve ao jovem Alberto Osório de Castro, Portugal é um país eunuco, que só vive dos interesses materiais e para a intriga cobarde que é o processo desses interesses. Doera-lhe agudamente que o valor patriótico de 1890 rapidamente fosse manietado pela astúcia política.

O seu pessimismo, ainda mais amargo, regressa-lhe ao espírito, já incapaz de compor um verso, e sabendo, agora, como afirma na referida carta, que a política nunca foi muito para poetas.

Antero volve à sua ilha de névoas. Sem esperança já, alma e corpo doentes, é sob o signo da esperança, de uma esperança divina, capaz de perdoar os desvairos do génio para receber o coração do santo, que se atreve ao acto desesperado dos suicidas.

O seu espírito atormentado descera, sim, passo a passo a escada estreita do palácio encantado da ilusão. Mas o coração, esse, dorme (quem pode duvidá-lo?), para sempre feliz, na mão de Deus, na sua mão direita.

(1991)

 

António Manuel Couto Viana, 12 Poetas Açorianos

publicado por Elisabete às 17:54
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2 comentários:
De mariaj.falcao@hotmail.com a 15 de Dezembro de 2010 às 15:26
De certeza que repousa ali o seu coração...Bem o mereceu. Artigo muito sensível
Um beijinho
M.J.F
De Elisabete a 17 de Dezembro de 2010 às 19:10
Também acredito que sim.
Um abraço

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