Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

E qual é a nossa natureza?

 

 

A rã e o escorpião

 

Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Bélgica, Itália, Holanda: quando todos caírem, a Alemanha fica sozinha, no meio do lago

                                                                                  

No meio do lago, o escorpião ferrou o seu veneno mortal na rã, que lhe dava boleia. O batráquio, em agonia, ainda disse: "Mas não vês que, assim, afogas-te e morres comigo?" E o escorpião replicou. "Que queres? É da minha natureza..." Na Europa, o gordo escorpião alemão vai picando rãs indefesas. Mas, no último Conselho Europeu, a senhora Merkel terá dado algumas indicações de que não se comportará como o animal da fábula. Pelo menos, José Sócrates regressou a Portugal com um largo sorriso - e os mercados especulativos contiveram-se, na expectativa. Portugal vai colocando a dívida num mercado onde a lei da oferta e da procura parece não funcionar. Embora a procura de títulos corresponda sempre ao dobro ou ao triplo da oferta, as condições em que vendemos não melhoram e os juros mantêm-se rentes aos insuportáveis 7% (a dez anos). Mas, do mal, o menos: o Estado ainda arranja credores para se financiar. E há sinais positivos: afinal, Nicolas Sarkozy disse - e não o afirmaria se não tivesse as costas quentes pela Alemanha - que, "custe o que custar", a União defenderá a sua moeda única. No horizonte, começa a surgir a constituição de um fundo destinado a auxiliar países em dificuldades, sem recurso ao Fundo Monetário Internacional. É que o resgate do FMI à Grécia e à Irlanda, que implica o pagamento de juros acima de 5%, revelou-se um negócio ruinoso para aqueles países. Além de as contrapartidas exigidas terem precipitado uma recessão, os mercados mantiveram-se hostis. Quer isto dizer que a receita milagreira do FMI para Portugal poderá ser uma emenda a piorar, ainda mais, o soneto. 

Apesar do relativo alívio, há alguns paradoxos na receita franco-alemã para a constituição do tal fundo. Aos países em dificuldades, são exigidas, para a redução dos défices, medidas draconianas que só podem resultar em mais recessão. Ora, nestas condições, as economias não recuperam para atingir o principal objectivo: amortizar a dívida! Reparem: foi um responsável do FMI que, ao olhar para o Orçamento português para 2011 - com medidas que o fundo exigiria... - o desaprovou, por o achar recessivo! Em que ficamos? Trata-se de um ciclo kafkiano de que a Europa só se libertará em conjunto, não apenas com uma política monetária comum, mas, como apela Teixeira dos Santos, com instrumentos orçamentais comuns e uma união política efectiva.

O nosso escorpião, que tanto critica o consumismo dos outros, esquece-se de que, entre eles, se contam importantes clientes dos seus produtos. Por exemplo, o défice português foi agravado pela compra de submarinos... alemães! Ou seja, a Alemanha é o principal beneficiário da "maldita moeda única"! Afinal, como terminará a fábula? Os especuladores atacaram, primeiro, a Grécia, que caiu. Esperava-se que esse facto estancasse a hemorragia. Mas não: a seguir cairia a Irlanda - sempre na esperança de que os mercados se acalmassem. Mas não: logo a seguir, viraram-se para Portugal. Neste ponto, Bruxelas - e agora, também, talvez, Berlim - perceberam que isto nunca mais pararia: seguir-se-iam a Espanha, a Bélgica, a Itália e a Holanda, consecutivamente. Quando chegasse a vez da França, a Alemanha ver-se-ia sozinha, e sem boleia, no meio do lago.

Será da sua natureza continuar a espetar o ferrão?

 

Filipe Luís [Visão]

publicado por Elisabete às 21:57
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