Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Fantasias sobre memórias impossíveis de apagar


 
 

Acordei com uma sensação de fome a apertar-me o estômago. […] Simultaneamente, reparei que estava num outro lugar qualquer […] uma cave escura, onde eu estava deitado dentro de um saco-cama. O que faço aqui, pensei, enquanto tentava identificar o lugar onde me encontrava. Sentia um coração a bater dentro da cabeça, depois verifiquei que era mais o eco de passos que se aproximavam. Percebi que era urgente ficar lúcido, erguer-me a pulso daquele torpor que me invadia o corpo e me toldava o raciocínio. Os cartazes nas paredes, do Che Guevara, do Poder Popular, do Palma Inácio, tiravam-me as últimas dúvidas: estava na cave da sede da Organização, e alguém chegava para me passar o turno de vigilância no telhado. […]

Reconheci a juba curta do Quim Comandos, adivinhei-lhe um sorriso arrumado ao canto da boca, enquanto me punha de pé. O Gato seguiu-me em silêncio pela escada de ferro em caracol que dava acesso ao parapeito do telhado. Fumámos o último cigarro antes de sair para o exterior, para fazer o turno das três às seis. Espreguiçámo-nos, verificámos as armas, um ritual necessário a quem vai passar três horas com os ossos a comer o frio da noite, sem poder conversar a não ser por sinais.

[…]

Lá em baixo passavam carros com lentidão. Atendendo à hora adiantada da madrugada, o volume de tráfego era excessivo. A Praça do Marquês era ponto de encontro de chulos, bimbos, proxenetas,passadores, dealers, prostitutas, travestis, bichas, que atraíam carros como enxames de moscas à volta da bosta. Vozes e gritos dispersos coados pelas árvores e pelas sombras da noite indiciavam as goelas da porta do dancing club onde, às vezes, de madrugada se partiam mesas, cadeiras, e algumas cabeças. E o nosso ofício, pendurados do telhado da Sede da Organização, era peneirar os sons, distinguir movimentos anormais dentro da anormalidade permanente da noite no Marquês. Identificar carros que rodeiam vezes de mais a praça, e que possam não ser apenas putanheiros. Vigiar as copas das árvores do jardim central, onde se podia plantar um atirador para visar a Sede. Controlar a manta de retalhos que se estendia pelo quarteirão, por onde poderia vir a salto algum intruso. Era um trabalho de tensão e de paciência, seguir movimentos suspeitos com a ponta do cano da G3, colocar na mira os carros que abrandavam a marcha ao rolar em frente ao nosso posto de observação. Distinguir entre curiosidade e ameaça era como um jogo, uma intuição. Estar pronto para entrar em acção naquele instante infinitesimal que separa a dúvida da certeza, entre balear curiosos e inocentes ou deixar abrir fogo um eventual inimigo. Eu sorria no escuro, apertando o ferro gelado da espingarda-metralhadora, sentindo o seu poder. Mais eficiente que mil palavras de ordem, com que o Grito do Povo enchia a Avenida dos Aliados. Eu também gostava de gritar até ficar rouco, gritar e marchar confortava-me a alma e as manifestações faziam-me arrepios na espinha. Tanta gente junta gritando pelo Socialismo, a Revolução, pelo Poder Popular, dava uma quase certeza de se poder transformar o Mundo ao amanhecer, entre coros de vozes e gente anónima de mãos dadas. As bandeiras vermelhas a esvoaçar provocavam-me arrepios na espinha, e eu entoava entredentes a Internacional, a Bandiera Rossa, sentindo força de gigante dentro do peito. Mas quando a manifestação chegava ao fim e a longa lagarta humana se dispersava em pequenos cachos de gente que já não gritava, apenas murmurava, ficava uma sensação de vazio, de impotência, de apreensão. De medo que, a coberto da noite, alguém subvertesse os sonhos por que se gritava de dia. De angústia, por não saber se ao acordar no dia seguinte não estaria tudo a ferro e fogo, destruído pelas sinistras forças do ELP, do MDLP, dos Ex-Pides, fachistóides e legionários, gente que se vestia com o veludo negro da noite para tentar subverter a Democracia. Eu continuava a sorrir no escuro, agarrado ao aço frio da canhota. Algures, pendurado no beiral, o Gato também devia estar a sorrir. Para nós, no cimo de um telhado e na ponta do cano de uma arma, não havia limites para o sonho. Como se as armas falassem mais alto que todos os gritos de Povo, a as balas fossem palavras de ordem muito mais certeiras e demolidoras.

O gorgolejar do vómito dos bêbados nas esquinas dissolvia-se em gritos de puta ao longe, no tossir dos carros, nos ecos de zaragata no dancing club. A lesma húmida da noite descia sobre as minhas costas, enquanto recordava as lições do Quim Comandos sobre técnica de soltar o corpo. O telhado recoberto de visgo não era o local ideal para treinar artes musculares, o perigo de queda não permitia grandes abstracções. O sono e o cansaço tornavam os olhos pesados, e era preciso fazer um esforço de concentração para permanecer com os sentidos alerta.

Um carro, igual a tantos outros, aproximou-se lentamente. Estacou, expondo os seus ocupantes. Na ponta das armas, reconheci os ombros largos e os cabelos do Mau Tempo, as farripas de palha do Bailarino, o vulto baixo e entroncado do Tono da Viela. Os três pareciam enquadrar um quarto personagem magro e alto, que parecia vir a contragosto, como se não agradecesse a escolta. Outro carro aproximou-se, e largou outro trio, onde apenas se destacavam os cabelos de prata do Velho. Os dois grupos encontraram-se no meio da rua, e demoraram-se em conferência. As palavras não chegavam ao cimo do telhado onde me encontrava, mas havia qualquer coisa que não estava bem com o homem alto. Pelo menos, parecia que estava a ser submetido a uma espécie de interrogatório. Depois, como se decidissem outra coisa, partiram novamente. Pelos gestos do grupo, quase podia apostar que o matulão era algum bufo que o Velho ia pôr a cantar. Quando lhe cheirava a esbirro da Pide, ele perdia a noção das proporções. Dizia que começava a ver tudo desfocado, vinham-lhe à memória os tempos da Solitária, da tortura da gota de água, da tortura do sono, dos mamilos queimados a pontas de cigarro, das sessões de porrada que apanhara nas caves da António Maria Cardoso. Nada que o tivesse feito denunciar a célula da ARA, quando pertencera ao Partido Comunista. Recordava o Forte de Peniche com lágrimas nos olhos. Chorara lágrimas de alegria quando Cunhal se evadira, e ele ficara a cumprir o resto da pena. Só chorara outra vez mais, contara ele. Quando dera o salto para a Polónia, com a ajuda do Partido, e em seis meses perdera a fé no Centralismo Democrático. Depois surgira-lhe atravessado na vida o Palma Inácio, o Camilo Mortágua, e renascera para o sonho e a aventura. Teria que haver algo, outra via, dizia ele. Qualquer coisa… Eu bebia as palavras que se lhe acendiam nos olhos, e sentia o mesmo arrepio da Internacional, da Bandiera Rossa, da Grândola, das cantigas do Zeca. Vezes sem conta me narrara o assalto ao Banco da Figueira da Foz, em que desempenhara o papel de mecânico da avioneta em que o Palma se escapulira para o estrangeiro, uma história difusa que ele recontava de muitos modos diferentes, o que me fazia desconfiar da sua veracidade. Mas o desejo de acreditar tornava sempre reais as suas palavras, por mais contraditórias que elas fossem.

Passei o resto do turno em sobressalto. Como se esperasse o regresso do Velho. Como se pudesse avisá-lo que mais tarde tinha um encontro marcado com a morte. Como se isso fosse possível.

Às seis horas da madrugada vieram substituir-nos. Uma aurora leitosa crescia nos telhados, e nos gritos de pássaros ensonados. Descemos, eu e o Gato, ainda em silêncio. De facto, não havia nada para dizer. Adormeci dentro do saco-cama, como se caísse num poço.

 

[…]
Quero regressar ao passado, a ver se ainda vou a tempo. Desta vez, não vamos falhar. Não sei se acerto na espira certa do tempo, estas coisas da hipnose não sei se acontecem à medida dos desejos. Ofélia, ajuda-me a regressar àquela noite do vinte e cinco de Novembro, onde estávamos todos reunidos numa cave. Tu não sabes, Ofélia, nunca poderás saber a força que nos unia, eu, o Gato, o Alegria, o Mau Tempo, o Quim Comandos, o Professor, a Adélia, o Cofres, o Tono da Viela, o Leonel, a Lisa, a Elsa, o Dílio Bailarino, o Hiroxima, o Vagamente, o Beto Doutor, o Poeta, espalhados em silêncio esperando pelas armas pesadas que vinham de Lisboa. Tu nunca poderás ter a noção de como foi dura a espera, como a nossa força se transformou em desespero, pela madrugada dentro, quando nos convencemos de que as armas não chegariam nunca.

- Concentra-te na minha voz, tu tens muito sono…

Sim, sinto uma vontade irresistível de adormecer, e acordar noutro tempo. Desta vez nada vai falhar, iremos a Maceda buscar os arsenais de reserva, não ficaremos eternamente à espera. Cortaremos a Ponte da Arrábida e o Viaduto de Santo Ovídio na noite de vinte e quatro para vinte e cinco, abriremos caminho à bala e à granada, morreremos se preciso for, para que a noite não acabe. Para não voltarmos a acordar de manhã com os sonhos todos desfeitos. Revolução ou morte, será o nosso grito. Talvez ainda haja tempo para fazer com que não tenha acontecido o que aconteceu. Talvez possamos salvar a Revolução, repito vezes sem conta, enquanto escorrego na voz de Ofélia direito ao passado com a certeza de ter uma missão a cumprir. Como se caísse num poço sem fundo, sem certeza de regresso.

Desta vez, não vai falhar.

 

Miguel Miranda, O Estranho Caso do Cadáver Sorridente (Prémio Caminho de Literatura Policial, 1997)

publicado por Elisabete às 20:23
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