Domingo, 29 de Julho de 2012

A Amante de Brecht

[…] Hans Trow esperava debaixo do enorme relógio do refeitório. A luz entrava pela janela e aclarava o fato cinzento e a camisa branca de gola aberta, impecavelmente engomada. Virou-se para ver Maria aproximar-se. Levantou a cabeça com ar embaraçado quando ela chegou junto de si.

Bom-dia, Hans, disse ela, pensou ela, repetiu ela interiormente.

- Tenho pouco tempo – disse Hans.

Dê-mo só para mim, suplico-lhe, pensou Maria. Ficou diante dele com ar embaraçado e sorriso algo formal. Ele tem ar de um simples jovem mas existirá neste país um simples jovem de coração puro… neste país à deriva…

- Como está?

Ela não compreende o que ouve. Hans vira-se, sorriso imperceptível e doce. Diz-lhe, enquanto faz tilintar alguma coisa metálica no bolso:

- Por que não partiu para o Ocidente?

Ele sentou-se a um canto da mesa.

- Se lho tivesse pedido…

- Eu teria respondido que podia partir.

Ela estremeceu, afastou-se um pouco e os olhos foram parar nos grafitis obscenos da parede, gastos pela humidade. Sentia-se inabitada. Um fantasma. Fechou os braços contra a blusa. Hans Trow apercebeu-se de que ela tremia. Aproximou-se dela e pousou-lhe a mão sobre o ombro.

- Como é que vai isso?

- Não vai lá muito bem.

Ela acrescentou:

- Acontece-me frequentemente.

Hans olhou-a fixamente e os músculos em redor dos olhos de Maria estremeceram ligeiramente. Hans não soube o que dizer; puxou devagar as pegas da mala de mão de Maria e fez girar a pequena fechadura de couro num clique. Maria pensou: Dêem-me uma ilha para amar este homem, qualquer ilha; só para mim, este homem, nem que seja por uma semana na minha vida…

As longas filas de mesas desprendiam um oceano de tristeza. Os braços de Maria, tão belos, pendiam ao longo do corpo. Hans examinava as fotos, as instruções, os envelopes cobertos de pequenas notas, gatafunhos, redigidos por Maria, contendo reflexões pessoais e frases retiradas do contexto quando Brecht, depois de três bagaços, começava a falar, à noite, no meio das velas.

- O que é que ele lhe fez?

- Nada de especial.

- Ele ainda pensa na China?

- Sempre.

Meu Deus, pensou ela, que ele me tome, que me agarre, que nunca mais se vá embora… nunca mais… Meu Deus, faz com que isso aconteça…

- Tenho pouco tempo, Maria, mas tem de chegar ao Ocidente.

Sim, Hans, bem, Hans, compreendeste, Hans, que é preciso para que venhas comigo?

- Você é uma pessoa especial, Maria Eich, mas deve partir, a mais-valia comunista tornar-se-á algo secundário, sobretudo para alguém como você. Você já não está em condições.

Ela esteve quase a dizer-lhe: “Sou um coração puro e ardente.”

Hans disse:

- Já não precisa de estar dependente desta gente.

Ele procurou fórmulas atenciosas, educadas, sinceras para acabar com esta situação crítica da observação tão próximo dele.

- Você conseguiu tudo o que podia conseguir, Maria.

Agarrou-a pelo pulso, a mala estava aberta entre eles sobre a mesa, ela quis apoiar-se mais estreitamente contra ele e isso desequilibrou-a. Colou a cara ao casaco dele e não se mexeu mais.

O cheiro quente e doce dos pinheiros e das ervas da nossa ilha, apenas os dois, uma semana, peço uma só semana.

Hans desprendeu-se devagar e apanhou as fotos que estavam espalhadas no chão.

- Deve partir… Quando voltar a Berlim em Setembro, encontrará os documentos para o Ocidente, e dinheiro, ocupar-me-ei disso pessoalmente…

Ela parecia uma estátua, com os olhos desmesuradamente abertos. O seu lábio inferior tremia. Ele apanhava a papelada, devolveu a mala de mão, imprimiu nos gestos toda a cortesia e a sensibilidade que podia mas Maria tinha um ar adormecido, como num sonho.

- Agradeço-lhe – disse ela com voz apagada.

- Não me agradeça, Maria.

Emergiram no pátio. Um sol duro cegava-os.

- Não esteja triste – disse ele. – Mas não nos voltaremos a ver.

Alcançaram uma espécie de piscina cimentada com encaixes de alcatrão. Um carro preto soviético esperava, um desses grandes carros oficiais que atravessam Berlim a toda a hora.

Hans abriu a porta do carro e olhou para Maria.

- Aonde vai?

- Buscar a minha bicicleta.

Ele brinca com as últimas gotas do meu sangue e da minha vida… O difícil trabalho da respiração. Vou morrer, pensou Maria, os olhos enevoados.

O pára-brisas girou num brilho de luz, depois o carro avançou por detrás das vedações. Já não havia ilha, nem jardins perfumados. Apenas uma velha parede, janelas com grades. Maria sentiu-se cercada numa imensa paisagem. Verdura sem reflexos. Pedalava, chorando devagar e examinava, incrédula, o céu imenso.

Dai-me uma semana numa ilha com ele, um só dia…

[…]

A publicação das obras completas de Brecht, de Suhrkamp, interessou Maria enormemente. Folheou e comprou os pesados volumes. Os seus anos de actriz desfilaram. Não se falava dela nas notas; ficou feliz.

Mantinha um amor secreto que tinha por nome Hans Trow. Apercebeu-se disso numa tarde em que lia o Zeit à beira do Neckar. Na página oito, podiam ver-se vários polícias de uniforme, os Vopos. Tinham descoberto a entrada de um túnel em Berlim-Leste, numa cave de restaurante. Havia o rosto de um homem vestido à civil, de cinzento, e, sem hesitar, Maria reconheceu Hans Trow, a sua expressão de curiosidade, a forma um pouco fugaz do maxilar, um ligeiro sorriso. Ficou com um nó no estômago. Sentiu a cabeça bloquear. Sentiu-se desfalecer, a boca seca. A tarde foi negra, obscura, terrível, o serão interminável, desolado. Caminhou ao longo das casas do bairro, escalou as colinas mais azuladas mas nada a salvou do desgosto. As pernas seguiam as sombras. Num minuto, ela perdera os seus hábitos, pensamentos, o sentimento de confiança que tinha penosamente reconquistado aqui, com os seus passeios solitários, as horas de natação, os circuitos de carro pelas estradas, tudo fracassara.

Refugiou-se por fim numa taberna. Bebeu. Para soltar o aperto, a dor. Mas existia, a soar nela, desde há muito tempo, uma prece nunca atendida, uma prece da qual não espera mais nada.

[…]

Maria folheava os jornais, pilhas inteiras, jornais alemães, austríacos. O Muro de Berlim teve uma estranha influência no espírito de Maria. Em vez de rejeitar o marxismo, interessou-se por ele como quem se interessa pela filoxera ou gangrena. Sentia nela forças inibidoras, um estado de bizarra fermentação psicológica. Não conseguia imaginar a vida dos outros. Passava os dias a contemplar fixamente as famílias, a interrogar-se sobre os laços que as pessoas teciam entre si. Como é que se podia falar, calar, dormir com alguém, dizer disparates, jogar às cartas, fazer coisas?

[…]

Talvez tenha sido incapaz de compreender Brecht e o Berliner… Talvez a sua inteligência solitária tenha sido demasiado estreita, limitada, enevoada. Teria sido demasiado presunçosa?

A imagem de um arbusto à sombra do gigantesco carvalho fê-la sorrir. Sim, ela tinha espionado não o “homem que amava” mas o homem que “a fascinara”. Berlim, lá longe, brilhava num mundo que lhe era totalmente estranho. Tinha a impressão de voltar a si, lentamente, como uma pessoa convalescente. Seria a sua incapacidade para compreender os jogos? As situações? Sem dúvida teria sido demasiado sensível. Demasiado sentimental? Mas toda a sua energia, o seu “coração ardente e puro” tinham encalhado nestes serões tristes. Turno da noite, mundo fantasmático e apaziguado… Poderia um dia desculpar-se por ter espiado Brecht?

Desde há tanto tempo, a sua incapacidade para compreender um mundo binário, fragmentado, dogmático e frio tinha-a reduzido a um fantasma. Ela era uma ausência no mundo. Sabia que aqui, pelo menos, com ou sem alunos, no Verão que findava, nesta coberta tão fina colocado sobre o Tempo, podia morrer-se e até sorrir. A violência do mundo exterior não atingia este pátio.

 

Jacques-Pierre Amette, A Amante de Brecht

 

publicado por Elisabete às 20:06
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