Segunda-feira, 13 de Agosto de 2012

Se estivesse disposto a cooperar…

 

Sozinhos com a sobrinha, porque Afonso só de longe a longe vinha do quartel, José Maria e a mulher viviam metidos em casa, indiferentes à passagem do tempo, amargurados como se jamais pudessem tornar a sentir-se felizes.

Alegres que tinham sido, as horas da comida eram agora soturnas. Ele deixara o hábito de lhes ler o jornal ao fim da ceia, e desde o começo da doença do filho ninguém voltara a mexer na guitarra, nem sequer para limpar a caixa que, abandonada a um canto e coberta de pó, parecia acentuar a mágoa que sobre eles pesava.

As lições que dava a Ernestina também tinham terminado, embora aí a culpa fosse da aluna, que preferia fazer renda, dizendo que já tinha aprendido o bastante e não se sentia com cabeça para estudos.

As noites passavam-nas sentados à mesa, silenciosos, ele absorvido no jornal ou nalgum livro, elas umas vezes com o crochet, outras no trabalho moroso de remendar a roupa.

Mas a época em viviam era de mudanças bruscas na sociedade e na política, e as inquietações não tardaram a chegar. Raro passava semana em que não houvesse revolta, os governos mudavam constantemente, os correligionários de hoje tornavam-se os inimigos de amanhã, por um nada se perdia o emprego ou se acabava na prisão.

José Maria deu-se conta de que, com as obrigações do seu cargo e família a proteger, naquele ambiente lhe seria difícil opor-se abertamente ao partido de Salazar, que cada dia arrebatava um pouco mais do poder, e no qual os generais e os ricos se tinham unido à Igreja. Mas homem justo e socialista convicto, não ia ficar de braços caídos enquanto os governantes e a secreta cada dia espezinhavam mais o povo.

Fez-se conspirador. Saía de noite à paisana, ou então disfarçado de pescador do mar, tão completamente que arranjara uma rede e bóias que carregava às costas. Doutras vezes da parte de doente e desaparecia durante dias, deixando a mulher e a sobrinha aflitas. Se alguém viesse perguntar por ele, dissessem que tinha ido para o hospital.

Quando regressava, sempre pelo escuro, assustavam-se ao vê-lo desembrulhar da rede caixas de munição, revólveres ou os panfletos vermelhos que misteriosamente apareciam depois espalhados pelas ruas, no mercado, no adro das igrejas. E como nenhuma delas tinha força para o dissuadir daqueles perigos, nem ele era pessoa de escutar súplicas, cada vez que se ia embora ajoelhavam-se ambas diante da cómoda, onde o bruxulear da lamparina parecia dar vida à imagem de Santo António.

 

Dos esforços e dos riscos só tirou o lucro de ter feito o que lhe mandava a consciência e o orgulho de ter permanecido fiel aos seus ideais.

Ficou-lhe também a cicatriz duma bala que o tinha apanhado de raspão num braço, e a lembrança da amargura do dia em que o comandante o intimou a que fosse ao seu gabinete. Que o tinha por homem de respeito e funcionário cumpridor, disse, por isso não compreendia que se tivesse metido com uma canalha que queria a desgraça do país. Felizmente, as forças que defendiam Deus, a Família, a Ordem e o Progresso tinham triunfado, e os opositores iam pagar caro a ousadia de terem desafiado quem defendia os mais preciosos valores da Pátria.

Graças à sua intervenção pessoal, ele, José Maria, desta vez escapava. Passava-se a esponja sobre as asneiras que tinha feito; mas aos concursos não precisava de ir, porque nunca mais seria promovido. A menos que, se estivesse disposto a cooperar…

José Maria respondeu-lhe que não estava no seu feitio ser canalha nem denunciante, o melhor era deixarem a conversa, porque assim se evitavam dissabores para ambos, nem teria ele de lhe pagar ali mesmo o insulto com um par de bofetadas.

O comandante corou e calou-se. Talvez menos por temor do que pelo respeito que lhe impunha o senhor José Maria desde o tempo em que um era o que ficara, simples chefe de posto, e o outro o guarda seu subordinado, que à força de traições tinha subido os graus da hierarquia com uma celeridade de foguete.

Alarmadas com o modo que lhe viram quando entrou em casa, pálido, a transpirar, as mãos num tremedouro, a mulher e a sobrinha recearam que lhe fosse dar outro ataque. Mas ele sossegou-as, não era nada, uma arrelia que tinha tido. Que lhe arranjassem um chá e despachassem a ceia, depois lhes contava o que se tinha passado entre ele e o Andrade. Lembravam-se dele? Um que tinha uma mulher ruiva e era agora comandante?

 

J. Rentes de Carvalho, Ernestina

 

 

publicado por Elisabete às 12:25
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