Sábado, 18 de Agosto de 2012

A mulher de Neruda

 

[…]

«tudo começou em nós com Neruda», é o que pretende dizer, agora que a mão do homem se apossou por inteiro da sua e a enconchou sob a palma,

mas não diz,

só diz: «continuas o mesmo»,

num tom que tanto pode ser de ternura e de complacência como de moderada censura,

ela era a mulher de Neruda, doze anos atrás, ainda estudante do Magistério,

era a voz dele, de Álvaro Miguel, que a fazia desposá-lo,

 

            «En la red de mi música estás presa, amor mío,

            y mis redes de música son anchas como el cielo.

            Mi alma nace a la orilla de tus ojos de luto.

            En tus ojos de luto comienza el país del sueño»

 

«tinhas pássaros na voz», atreve-se, já com a mão esquerda a aninhar-se e a procurar poiso na mão direita do homem,

«não achas que é uma loucura?»,

«o quê?»,

«isto»; e desvia os olhos para as duas mãos entrelaçadas,

isto: um homem e uma mulher que já se não pertencem por inteiro, que de si apenas têm disponível a clandestinidade que o passado lhes outorga, irremediavelmente presos a um presente que não pode nem deve, «nem nenhum de nós quer», diz Maria Teresa Moura, «que seja mais do que é», ele em Breda, na Holanda, ela numa livraria de Estremoz, separados ambos por milhares de quilómetros,

«de solidão», poderia acrescentar,

e de (des)esquecimentos premeditados,

talvez ligados apenas pelos fios de névoa com que os mundos se atam e desatam,

«não, o melhor é não irmos por aí»,

«por aí?»,

por esse curto-circuito  que se estabeleceu já entre as duas mãos coladas sobre o balcão, e foi sempre

«tu lembras-te?»

o primeiro acorde para o ajustamento, quer no interior do Renault quer fora dele, que depois se pediam,

que se pediam como agora, sem palavras,

«conta-me coisas de ti», outra vez pede,

de Breda, na Holanda,

e ele, inabilmente, diz que sentiu a sua falta, que uma e mil vezes esteve para regressar e que outras tantas lhe faltou a coragem para isso,

«depois apareceu a Maria Eugénia e as coisas compuseram-se»,

como apareceu Rafael Matos, em Évora, mas ela não o diz assim, e a sua vida se recompôs também,

decompôs, é o termo certo; ou não?,

«a vida é assim»,

«é»,

«dizia eu que…»,

«falavas da vida»,

«ah»,

crescemos, deixamos passar o tempo, perguntamos por certas coisas (emoções, queria ela dizer) de nós e dos outros, e elas já não estão ali, ou estão com outro rosto e já não as reconhecemos, ou ignoramo-las de propósito, desejamos considerá-las alheias, as coisas, as palavras, as comoções, os arrependimentos, tudo,

«tudo, até o desamor»,

ah, não bem o desamor, embora às vezes também o possa haver,

«não é o nosso caso, pois não?»,

«tonto, por que havíamos de sentir desamor?»,

raiva, muita, isso sim, e vontade de gritá-la, de nos cercarmos dela como se fosse uma parede que nos protegesse da intromissão dos outros,

«quando fugiste para Argel e depois para Amesterdão e depois para Haia e depois te fixaste em Breda…»,

«Teresa…»,

«senti isso, senti que me queria emparedar por detrás dum muro de raiva»,

«contra mim?»,

«contra ti, contra mim, contra os outros, todos, até mesmo contra as recordações que me chegavam…»,

«não penses agora»,

Álvaro Miguel segura-a pelo pulso, ergue-lhe a mão à altura do rosto, bebe-lhe a palma como o fez tantas vezes, doze anos antes, em todos os sacros e mágicos lugares da paixão, de Évora a Nossa Senhora do Divor, de Vila Viçosa ao Redondo, de Monsaraz a São Pedro do Corval, territórios de pronunciamentos, esses,

«não, ainda não, tonto, ainda não são horas para nada»,

e deixa que ele se incline para ela, sobre o balcão, e lhe rase tão de leve a face que Maria Teresa outra vez lhe reconheceu o cheiro, o olor da paixão, e lhe estendeu os lábios para melhor reconhecer esse eflúvio, ainda vago mas já acobertador, que irá depurar, para si mesma, nos instantes que se seguirem.

«Às sete horas tens-me aqui, queres?»

 

Hugo Santos, A Mulher de Neruda

 

publicado por Elisabete às 18:39
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