Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2012

A ILHA

 

A ILHA

 

“Finalmente sozinho!”, pensou e espreguiçou-se. A sensação de assombro, causada pela solidão, foi substituída pelo sentimento de segurança até então desconhecido. Tudo lhe parecia familiar; olhou à volta como um proprietário que, depois de uma longa viagem, regressa à sua terra, donde não pode ser expulso porque é ele o autor das regras e ordens preestabelecidas. Começou a movimentar-se timidamente neste novo lar, entre o céu e o mar. “Tão familiar!”

[…]

“O mar não é capaz de sofrer”, pensou enquanto observava o mar com os braços cruzados. “Mas então com que finalidade foi criado?” Aquele mundo vazio, há muito privado de sentido e de finalidade, estendia-se indiferente à sua volta. “Só a razão é capaz de doer.” A dor fervilhava na costa, piscava os olhos luminosos, pestanejava através dos bastiões maciços, mas ali, entre o mar e o céu, era ele que representava o último nervo que ainda se movia e sentia. À sua volta tudo era apático e penumbroso. Tossiu, tapou a boca com a mão, porque naquele silêncio estranho o som criou um eco múltiplo. Cada movimento, os seus passos, o ruído das pedras por baixo dos pés pareciam estridentes como se um amplificador de som transformasse cada suspiro em trovão e o espalhasse pelo mundo. Askenasi mexeu-se com cuidado, evitando fazer barulho, e depois sentou-se em cima da rocha quadrada a escutar o mar. “Um texto estranho”, pensou, “escrito numa língua monótona, que se calhar não conhece a conjugação verbal. É apenas ritmo.” Como alguém que começa a entender certas palavras de uma língua estrangeira, inclinou-se para a frente com expectativa inquieta e escutou aquele ritmo esmagador. “Diz algo, sem dúvida, mas, se calhar, não são os ouvidos ou a razão que nos ajudam a percebê-lo.” Conteve a respiração e continuou a escutar. “Talvez existam textos que não se podem traduzir para francês ou latim.” Um dia deveria também livrar-se do vocabulário limitado da razão, daqueles milhares de conceitos que guardam cuidadosamente um segredo, incapazes de interiorizá-lo ou expressá-lo completamente. “Mas o que é que quero ainda alcançar com a razão?”, perguntou assombrado. “A razão só se pode usar no outro lado, na costa, ainda serve para alguma coisa, pode orientar-se com ela, como com as unidades de medida ou com os regulamentos. Mas aqui de pouco me serve… O que aconteceria se alguém viajasse até Marte com um despertador ou com uma apólice de seguros no bolso? Se calhar em Marte não há tempo para medir.”

 

SÁNDOR MÁRAI, A Ilha

 (Sándor Károly Henrik Grosschmid) nasceu em Košice

(Hungria, hoje no território da Eslováquia), em 11 de Abril de 1900,

 e morreu em San Diego (E.U.A), em 22 de Fevereiro de 1989

 

publicado por Elisabete às 15:17
link do post | comentar | favorito
|

*mais sobre mim

*links

*posts recentes

* QUINTA DE BONJÓIA [PORTO]

* POMPEIA: A vida petrifica...

* JOSÉ CARDOSO PIRES: UM ES...

* PELA VIA FRANCÍGENA, NO T...

* CHILE: O mundo dos índios...

* NUNCA MAIS LHE CHAMEM DRÁ...

* ARTUR SEMEDO: Actor, galã...

* COMO SE PÔDE DERRUBAR O I...

* DÉCIMO MANDAMENTO

* CRISE TRAZ CUNHALISMO DE ...

* O CÓDIGO SECRETO DA CAPEL...

* O VOO MELANCÓLICO DO MELR...

* Explicação do "Impeachmen...

* CAMILLE CLAUDEL

* OS PALACETES TORNAM-SE ÚT...

* Tudo o que queria era um ...

* 1974 - DIVÓRCIO JÁ! Exigi...

* Continuará a Terra a gira...

* SETEMBRO

* SEM CORAÇÃO

* A ESPIRAL REPRESSIVA

* 1967 FÉ DE PEDRA

* NUNCA MAIS CAIU

* Alfama é Linda

* Por entre os pingos da ch...

* DO OUTRO LADO DA ESTRADA

* Não há vacina para a memó...

* Um pobre e precioso segre...

* Nada para mim. Portugal.

* Seis anos de divinos torm...

*arquivos

* Maio 2017

* Abril 2017

* Março 2017

* Fevereiro 2017

* Janeiro 2017

* Setembro 2016

* Junho 2016

* Abril 2016

* Novembro 2015

* Setembro 2015

* Agosto 2015

* Julho 2015

* Junho 2015

* Maio 2015

* Março 2015

* Fevereiro 2015

* Janeiro 2015

* Dezembro 2014

* Fevereiro 2014

* Janeiro 2014

* Dezembro 2013

* Novembro 2013

* Setembro 2013

* Agosto 2013

* Julho 2013

* Junho 2013

* Maio 2013

* Abril 2013

* Março 2013

* Fevereiro 2013

* Janeiro 2013

* Dezembro 2012

* Novembro 2012

* Outubro 2012

* Setembro 2012

* Agosto 2012

* Julho 2012

* Maio 2012

* Abril 2012

* Março 2012

* Janeiro 2012

* Dezembro 2011

* Novembro 2011

* Outubro 2011

* Setembro 2011

* Julho 2011

* Maio 2011

* Abril 2011

* Março 2011

* Fevereiro 2011

* Janeiro 2011

* Dezembro 2010

* Novembro 2010

* Outubro 2010

* Agosto 2010

* Julho 2010

* Junho 2010

* Maio 2010

* Abril 2010

* Março 2010

* Fevereiro 2010

* Janeiro 2010

* Dezembro 2009

* Novembro 2009

* Outubro 2009

* Setembro 2009

* Julho 2009

* Junho 2009

* Maio 2009

* Abril 2009

* Março 2009

* Fevereiro 2009

* Janeiro 2009

* Dezembro 2008

* Novembro 2008

* Outubro 2008

* Setembro 2008

* Agosto 2008

* Julho 2008

* Junho 2008

* Maio 2008

* Abril 2008

* Março 2008

* Fevereiro 2008

* Janeiro 2008

* Dezembro 2007

* Novembro 2007

* Outubro 2007

* Setembro 2007

* Agosto 2007

* Julho 2007

* Junho 2007

* Maio 2007

* Abril 2007

* Março 2007

* Fevereiro 2007

*pesquisar