Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

CONTRA O ESQUECIMENTO…

 

Até ao outro lado da sala de paredes nuas e brancas contavam-se 18 passos. Rafael sabia a distância de cor. Fazia o mesmo caminho, para um lado e para o outro, centenas de vezes por dia. Indefinidamente. Além de uma mesa, duas cadeiras e dois falsos quebra-luzes que escondiam microfones e altifalantes, nada mais havia naquele espaço. Quando virava as costas ao pide que o vigiava para o impedir de dormir e se dirigia para o outro lado, andava o mais vagarosamente que conseguia. Naqueles 18 pequenos passos, um pé logo a seguir ao outro, fechava os olhos e dormitava. Na sua cabeça, a contagem não podia parar. Ao 17º sabia que estava a pouco mais de dois palmos da parede. Andava mais um, batia ao de leve no cimento frio, abria os olhos e iniciava o caminho contrário.

Foi assim durante 31 dias e 31 noites. Quando viu pela primeira vez a sombra das grades reflectida na parede, ao nascer do Sol, sentiu-se invadido pelo vazio. Depois, “por defesa e por sobrevivência”, habituou-se.

A sensação de dominar o espaço dava-lhe algum conforto. O conforto possível num pesadelo. Quando o mudaram para outra sala de interrogatório, sentiu que lhe destruíam a casa. “Era quase rigorosamente igual, mas havia pormenores como uma mancha no chão ou uma racha na parede que não o eram exactamente.” Não estavam no mesmo sítio onde era suposto estarem, no sítio que ele já conhecia e sabia indicar de olhos fechados. Nem eram exactamente 18 os passos que separavam as duas paredes e lhe permitiam, por um minuto, adormecer. A mudança, que se tornou frequente, arrasava a réstia de equilíbrio e lucidez que tanto se esforçava por manter. Nesses momentos, as alucinações assaltavam-no; mais do que nunca, dominavam-no.

Das tomadas de electricidade via sair gases de várias cores que se acumulavam no chão, uns ao lado dos outros, sem se fundirem. Com medo de sufocar e morrer intoxicado, Rafael agitava a perna no ar e dava pontapés naquelas nuvens para que se esfumassem e desaparecessem. As paredes transformavam-se em enormes engrenagens, máquinas de destruição prestes a esmagarem os que lhe eram mais próximos. Amigos e familiares tentavam, em vão agarrar-se ao que podiam, mas as mãos escorregavam-lhes e eles caíam desamparados nas turbinas metálicas que, lenta e dolorosamente, os faziam desaparecer. Tudo se passava à frente dos seus olhos e ele, desesperado, assistia. Correu para a parede e tentou parar as máquinas com as próprias mãos. Com os dedos, arranhou o cimento até as unhas lhe sangrarem. Gritava, pedia ao pide que o ajudasse a salvar os que morriam. Nada acontecia. Impotente perante o sofrimento dos amigos, Rafael desejou que também ele fosse engolido. Com a força que lhe restava, atirou-se de cabeça. “Acordou” da alucinação com dois inspectores a agarrarem-no para que não se matasse, tal era a violência com que, uma e outra vez, batia com o crânio na parede.

Nos primeiros dias de tortura, Rafael “estava constantemente a levar tareia”. Ao início, todos os dias. Várias vezes ao dia. Queimaram-lhe as mãos com pontas de cigarro e “faziam quase um concurso para ver quem batia da forma mais cruel, com chicotes, fios eléctricos, cassetetes e matracas”. A um dos inspectores, com pronúncia alentejana, sempre com sapatos de tacão e calças demasiado curtas, ganhou um ódio particular. Nos interrogatórios, os pides revezavam-se em turnos. O alentejano chegava muitas vezes bêbedo. Dava-lhe pontapés no tendão de Aquiles e um dia deslocou-lhe o joelho esquerdo. Rafael esteve seis dias sentado numa cadeira com um inchaço na perna que o impedia de andar.

Ganhou-lhe uma raiva descontrolada. Uma vez, mal o inspector entrou na sala para começar o turno, correu para ele, deitou-o no chão e apertou-lhe a garganta. Perante os gritos, outros agentes correram em auxílio. Agarraram-no, tentaram tirá-lo de cima do outro, mas não conseguiram. Rafael parecia possuído por uma força sobre-humana. “Estava capaz de o comer vivo.” Sem meios para travar o ataque, os outros partiram-lhe uma cadeira na cabeça. Caiu para o lado, inanimado, e só assim o largou.

Não tinha o mesmo ódio a todos os agentes. “Havia os pides velhos, de cinquenta e tal anos, muito brutos, fanáticos e terríficos, mas havia alguns mais novos que pareciam não ter sido ainda completamente convertidos. Os rudes nunca interrogavam. Entravam só para bater.”

Menos de uma semana depois de ser preso, no final de Setembro de 1973, os inspectores Santos Costa e Inácio Afonso, dois dos mais temidos, arrastaram-no uma noite, […] para um carro, com mais dois agentes, e seguiram pela Marginal até à Boca do Inferno, em Cascais. […] e ameaçaram atirá-lo se insistisse em não falar. Rafael continuou calado. A pergunta, repetida vezes sem conta, era sempre a mesma. Onde estava Palma Inácio, o fundador e líder da LUAR (Liga de União e de Acção Revolucionária), uma das mais importantes organizações de luta armada a surgir em Portugal para combater o Estado Novo.

Carismático e misterioso, Hermínio da Palma Inácio era, para muitos, uma figura quase mítica. E, para a PIDE, um dos principais alvos a abater. Em 1961, o ex-militar da Força Aérea desviou um avião da TAP que fazia a ligação Casablanca- Lisboa, sobrevoando a baixa altitude várias cidades do país, incluindo a capital, para lançar perto de cem mil panfletos de apelo a uma revolta popular contra a ditadura. Participou, também, no assalto à delegação do Banco de Portugal da Figueira da Foz, onde foram roubados cerca de trinta milhões de escudos para financiar as operações de luta contra o regime.

Preso em 1968, quando tentou tomar a cidade da Covilhã, com outros cinquenta operacionais da LUAR, Palma Inácio foi condenado a 15 anos de prisão, mas conseguiu evadir-se da cadeia do Porto nove meses depois, numa fuga particularmente humilhante para a PIDE. Palma Inácio serrou as grades com lâminas que a irmã conseguiu fazer-lhe passar e que a polícia política, apesar de avisada de que existiam, nunca conseguira encontrar nas sucessivas revistas à cela.

Para Rafael Galego, Palma Inácio era um líder mas também um amigo. Rafael envolveu-se no combate à ditadura muito antes de o conhecer. A luta estava-lhe no sangue. Cresceu em Trás-os-Montes, no concelho de Montalegre, junto à fronteira com a Galiza, para onde o pai foi destacado como encarregado de obra na construção de uma barragem. Viviam isolados de povoações, num bairro construído apenas para os trabalhadores da obra. Solidária com a oposição, a família ajudou muitas vezes emigrantes clandestinos e refugiados políticos a darem o salto para Espanha. Davam-lhes farnel e dormida, escondendo-os da polícia. Em 1958, tinha Rafael 8 anos, o pai participou activamente na campanha de Humberto Delgado para as eleições presidenciais. Ao irmão, nascido nesse ano, deu o nome do candidato para o homenagear.

Como grande parte da população naquela época, Rafael acabou a 4ª classe e deixou os estudos. Aos 12 anos começou a trabalhar na barragem como “pinche”, um aprendiz de mecânica. Três anos depois, a construção acabou e a família mudou-se para Alverca. De dia, o miúdo magro e de corpo franzino trabalhava como metalomecânico na fábrica da Mague; à noite, frequentava um curso de formação para serralheiros. Nessa altura, ainda adolescente, juntou-se ao PCP. Pouco depois, com 19 anos, e como tantos que a família tinha ajudado em Trás-os-Montes, saltou a fronteira para fugir à guerra. Chegou a França sem dinheiro, sem conhecer ninguém, nem falar francês. Dormiu ao relento em bancos de jardim ou escondido no metro, nas noites mais frias. Sem conseguir arranjar trabalho, juntou-se a outros portugueses e partiu para o Luxemburgo. “Nem sequer sabia onde ficava o país.”

Desta vez, no entanto, a experiência correu bem. Alugou um quarto, encontrou emprego numa fábrica e juntou-se a um sindicato, ajudando a criar uma secção portuguesa na confederação de trabalhadores do Luxemburgo. Um dia, em 1971, foi abordado por um membro da LUAR para se juntar à organização. Rafael hesitou. “Mentalmente ainda estava ligado ao PCP.” Poucos dias depois, Palma Inácio encontrou-se com ele para o convencer. A amizade começou aí. Ganhou-lhe uma admiração e um respeito profundos. Foi-lhe fiel até ao fim.

Palma Inácio mudou-lhe o nome, deu-lhe um passaporte e uma carta de condução falsos e ensinou-lhe “tudo o que um guerrilheiro tem de saber”. Em França, para onde voltou a mudar-se, clandestino, Rafael era periodicamente chamado para treinos operacionais. Embrenhado no Bosque de Bolonha, aprendeu a lidar com radiotransmissores, teve formação em falsificação de documentos e treino de explosivos. Essa era, para ele, a parte mais fácil. Em miúdo, quando trabalhou com o pai na construção da barragem, já várias vezes tinha mexido em detonadores. Desta vez, no entanto, os professores não eram trabalhadores das obras, iletrados e pobres, mas “revolucionários profissionais”, como ele também queria ser.
 
 

No início de 1973, Rafael e outros quatro jovens que, com ele, tinham recebido treino estavam prontos. Sentiam-se preparados para qualquer missão que a Organização decidisse atribuir-lhes. Cansados do treino e dos simulacros, queriam actuar. Pediram a Palma Inácio para os deixar ir para Portugal. A luta pela democracia fazia-se lá. Não a dois mil quilómetros de distância, “em guerrilhas de café”. Em Julho desse ano, a LUAR decidiu enviá-los. Rafael e um controleiro, o chefe do grupo, foram de carro, transportando todo o equipamento: pistolas, metralhadoras, radiotransmissores, detonadores eléctricos e cargas explosivas. Os outros quatro meterem-se num comboio até Salamanca, onde o grupo voltou a reunir-se. Numa serra junto à cidade espanhola, abandonaram o carro e distribuíram uma pistola a cada um, escondendo o resto do material em sacos de mão. A ideia era saltarem a fronteira e entrarem em Portugal a pé, como tantos outros emigrantes.

O plano era esse, mas não foi o que aconteceu. Na aldeia raiana de Navasfrías, a poucos quilómetros de Portugal, foram interceptados pela polícia espanhola e encaminhados até ao posto para se identificarem. Era meio-dia e o calor apertava. Nas mãos, cada vez mais transpiradas pela temperatura e pela ansiedade, levavam sacos carregados de armamento. À entrada da esquadra, tiveram de pousá-los. Nesse momento, um dos agentes baixou-se e abriu o primeiro saco. Lá dentro estavam embrulhos que escondiam os detonadores. Não havia tempo para pensar. Antes do polícia ver o que era, Rafael puxou da pistola que trazia escondida nas calças. Foi tudo demasiado rápido. Assustados, os polícias fugiram para dentro do posto, onde o controleiro e um dos elementos do grupo estavam a ser identificados. Rafael e os restantes quatro fugiram, cada um na sua direcção.

Dois foram apanhados. O outro encontrou Rafael algumas centenas de metros à frente. Juntos, afastaram-se o mais que puderam da povoação e subiram uma montanha. Durante horas andaram perdidos no meio da serrania, sem mapas nem bússolas. Já a noite ia alta quando encontraram um pequeno cemitério isolado. Pelos nomes e pelas inscrições gravadas nas lápides, aperceberam-se de que já estavam em Portugal. Aliviados e exaustos, deitaram-se junto às campas.

Na manhã seguinte, caminharam até uma aldeia com casas de pedra, perdida no meio da serra da Malcata. Não viam ninguém. A aldeia parecia deserta. Junto a uma casa de dois andares, com o gado guardado no piso térreo, viram estacionado um carro com matrícula francesa, provavelmente, de um emigrante de visita à terra, nas férias de Verão. Podia ser a solução para um dos seus problemas mais imediatos. No bolso, Rafael tinha quinhentos francos que conseguira graças à sua guitarra, que vendera em Paris, antes de rumar a Portugal. O companheiro não tinha nada. Precisavam de trocar os francos por escudos para comprar um bilhete de comboio ou de camioneta até Lisboa. Traçaram uma história convincente para contar e combinaram que seria Rafael a fazer a conversa.

“Ó da casa!”, chamou. A senhora veio à porta e convidou-os a entrar. Ao emigrante, filho da dona, explicou que tinham planeado ir viver para França e que já tinham trocado o dinheiro para francos quando os avisaram de que o país estava a travar a entrada de novos emigrantes. Desistiram, mas ficaram com aquele dinheiro que em Portugal não lhes servia de nada. O emigrante aceitou, sem reservas nem perguntas, fazer-lhes o câmbio. Serviu-lhes café e pôs na mesa pão, presunto e queijo.

Não comiam há mais de um dia e “estavam mortos de fome”. Quando Rafael se preparava para se servir, o filho do emigrante, uma criança irrequieta com 2 ou 3 anos, simpatizou com ele e foi sentar-se ao seu colo. Rafael tinha a pistola escondida nas calças, entre a cintura e o fecho. Teve medo de que a criança, que não parava quieta, a descobrisse. Pôs uma mão sobre a arma e com a outra agarrou o miúdo. Não sobrava nenhuma para tirar uma fatia de pão. Ao seu lado, o companheiro não parava de comer. A dona da casa via-o com gosto a deliciar-se e insistiu para que também Rafael se servisse. Ele não tinha como. Agradeceu, mas recusou, dizendo que estava sem fome.

Deixou a casa de barriga vazia. Sempre por caminhos afastados da estrada, continuaram até encontrarem uma linha de comboio. Seguiram os carris até à estação e compraram dois bilhetes para o Porto. Para despistar a polícia, saíram na Guarda e apanharam outro comboio rumo a Lisboa. Quando chegaram à capital “eram dois pardalitos isolados, clandestinos e sem forma de entrar em contacto com a Organização”. Era o mais importante. Tinham urgência em avisar Palma Inácio da prisão dos companheiros em Espanha. Foram bater à porta de um padre que Rafael sabia pertencer à LUAR e que já tinha sido preso uns anos antes. Contou-lhe que o grupo fora desmantelado e que só restava ele e outro companheiro. Pediu-lhe para ir a França avisar o líder e dizer-lhe que ficaria a aguardar o contacto para uma nova missão. Separou-se do amigo, que partiu para a Covilhã, de onde era natural, e rumou a Alverca, que conhecia bem.

Nunca chegou a ser chamado para outra operação. Foi preso pouco tempo depois, em 23 de Setembro de 1973, exactamente um mês após o desaire de Navasfrías. Sabendo, pela vida que levava, que o mais provável era ser apanhado, Rafael tinha pedido há muito a Palma Inácio e a outros ex-presos políticos pertencentes à Organização para lhe descreverem, ao pormenor, as torturas e os métodos da PIDE. Quando foi capturado, julgava saber o que o esperava, mas foi, afinal, muito pior do que antecipara e do que as descrições o tinham feito imaginar. Esteve um mês em privação de sono, considerada uma das mais difíceis, dolorosas e perturbadoras formas de tortura. Um mês sem se lavar, a andar aos círculos numa sala, à mercê de alucinações agoniantes e espancamentos periódicos.

Durante todo esse tempo, trazia nas palmilhas 11 folhas de serrote para tentar escapar. Há muito que andavam com ele, dentro dos sapatos, para o caso de um dia ser preso e precisar. No primeiro mês, no entanto, estivera sempre vigiado por um pide, pelo menos. Quando, ao fim de 31 dias de tortura, o tiraram da sala de interrogatório e o levaram em ombros para uma cela no reduto norte, onde o depositaram e o fecharam sozinho, já não tinha como as usar. Destruído, meio louco, sem força e sem fé, era uma amostra de homem com 52 quilos, que mal conseguia pôr-se em pé.

Mas estava orgulhoso. Conseguira resistir. Mal sabia que ainda não tinha acabado. Depois de dois dias a dormir, quando pensava que o calvário chegara ao fim, arrastaram-no, novamente, para mais seis dias e seis noites de tortura do sono. Implorou para o mataram. “Era preferível morrer. Já não encontrava sentido para o sofrimento” em que se encontrava. Lembrava-se das ameaças na Boca do Inferno e desejava que o levassem outra vez e que o atirassem ao mar ou que acabassem com ele ali mesmo, com um tiro certeiro e misericordioso. “Estava capaz de contar a vida toda, o que sabia e o que não sabia. Mais um minuto e teria falado.” Nesse instante, porém, foram buscá-lo e levaram-no ao gabinete do chefe de brigada. Entrou e viu pendurado num cabide um casaco de flanela aos quadrados que tão bem conhecia. De imediato, percebeu que todo o sacrifício fora em vão. Palma Inácio, o seu líder, o amigo a quem jurou ser sempre fiel, tinha sido apanhado.

 

 

Joana Pereira Bastos, OS ÚLTIMOS PRESOS DO ESTADO NOVO,

tortura e desespero em vésperas do 25 de Abril
publicado por Elisabete às 15:01
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