Sábado, 19 de Maio de 2007

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Mário de Sá Carneiro

Mário de Sá-Carneiro nasceu, em Lisboa, a 19 de Maio de 1890, num edifício da Rua dos Retroseiros (actual Rua da Conceição) e no seio de uma abastada família da alta burguesia, sendo filho e neto de militares.
Perdeu a mãe aos 2 anos de idade e ficou entregue ao cuidado dos avós , indo viver para a Quinta da Vitória, na freguesia de Camarate, aí passando grande parte da infância, apesar de ter perdido, também, a avó aos 9 anos.
Inicia-se na poesia com doze anos, aos quinze já traduzia Victor Hugo e, com dezasseis, Goethe e Schiller. No liceu, teve ainda algumas experiências episódicas como actor e começou a escrever.
Em 1911, com 19 anos matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra, mas não chega a concluir o ano. Aí, contudo, viria a conhecer aquele que foi, sem dúvida, o seu melhor e mais compreensivo amigo: Fernando Pessoa. Desiludido com a «cidade dos estudantes», segue para Paris a fim de prosseguir os estudos superiores, com o auxílio financeiro do pai. Cedo, porém, deixou de frequentar as aulas na Sorbonne, dedicando-se a uma vida boémia, deambulando pelos cafés e salas de espectáculo, chegando a passar fome e debatendo-se com os seus desesperos, situação que culminou na ligação emocional a uma prostituta, a fim de combater as suas frustrações e desesperos.
Na capital francesa viria a conhecer Guilherme de Santa-Rita (Santa-Rita Pintor).
Inadaptado socialmente e psicologicamente instável, foi neste ambiente que compôs grande parte da sua obra poética e a correspondência com o seu confidente Fernando Pessoa.
Em 1912, publicou a peça em 3 actos, AMIZADE, em colaboração com Tomás Cabreira Júnior, e o volume de novelas PRINCÍPIO.
Em Julho de 1913, regressou a Lisboa e publicou a narrativa A CONFISSÃO DE LÚCIO e o conjunto de poemas DISPERSÃO (1914). Em 1915, publicou o conjunto de novelas CÉU EM FOGO.
Com Pessoa e Almada-Negreiros integrou o primeiro grupo modernista português (o qual, influenciado pelo cosmopolitismo e pelas vanguardas culturais europeias, pretendia escandalizar a sociedade burguesa e urbana da época), sendo responsável pela edição da revista literária “ORPHEU”  (e que por isso mesmo ficou conhecido como a Geração d’Orpheu ou Grupo d’Orpheu), um verdadeiro escândalo literário à época, motivo pelo qual apenas saíram dois números (Março e Junho de 1915). O terceiro, embora impresso, não foi publicado, tendo os seus autores sido alvo de chacota – ainda que hoje seja, reconhecidamente, um dos marcos da história da literatura portuguesa, responsável pela agitação do meio cultural português, bem como pela introdução do modernismo no nosso País.
Em Julho de 1915 regressa a Paris, escrevendo a Pessoa cartas de uma crescente angústia, das quais ressalta não apenas a imagem lancinante de um homem perdido no «labirinto de si próprio», mas também a evolução e maturidade do seu processo de escrita.
Uma vez que a vida que fazia não lhe agradava, e aquela que idealizava tardava em se concretizar, Sá-Carneiro entrou numa enorme angústia, que viria a conduzi-lo ao seu suicídio prematuro, perpetrado no Hôtel de Nice, no bairro de Montmartre em Paris, a 26 de Abril de 1916, com o recurso a cinco frascos de arseniato de estricnina. Tinha 26 anos. Extravagante tanto na morte como em vida (de que o poema Fim é um dos mais belos exemplos), convidou para presenciar a sua agonia o seu amigo José de Araújo. E, apesar do grupo modernista português ter perdido um dos seus mais significativos colaboradores, nem por isso o entusiasmo dos restantes membros esmoreceu. No segundo número da revista Athena, Pessoa dedicou-lhe um belo texto, apelidando-o de «génio não só da arte como da inovação dela», e dizendo dele, retomando um aforismo das Báquides, de Plauto, que «Morre jovem o que os Deuses amam».
Verdadeiro insatisfeito e inconformista (nunca se conseguiu entender com a maior parte dos que o rodeavam, nem tão pouco ajustar-se à vida prática, devido às suas dificuldades emocionais), mas também incompreendido (pelo modo como os contemporâneos olhavam a sua poesia), profetizou acertadamente que no futuro se faria justiça à sua obra.
Com efeito, reconhecido no seu tempo apenas por uma fina élite, à medida que a sua obra e correspondência foi publicada, ao longo dos anos, tornou-se acessível ao grande público, sendo actualmente considerado um dos maiores expoentes da literatura moderna em língua portuguesa. Embora não tenha a mesma repercussão de Fernando Pessoa, a sua genialidade é tão grande (senão mesmo maior) que a de Pessoa, mas muito mais próxima da loucura que a do seu amigo.
A terra que o acolheu na infância, Camarate, e a quem ele dedicou também algumas das suas poesias, homenageou-o, conferindo o seu nome a uma escola local. O seu poema Fim foi musicado por um grupo português no final dos anos 80, o Trovante. Mais tarde, o seu poema O Outro foi também musicado pela cantora brasileira Adriana Calcanhoto.
Nalgumas das suas obras, pôde exprimir com à-vontade a sua personalidade, sendo notórios a confusão dos sentidos, o delírio, quase a raiar a alucinação; ao mesmo tempo, revela um certo narcisismo e egolatria, ao procurar exprimir o seu inconsciente e a dispersão que sentia do seu «eu» no mundo – revelando a mais profunda incapacidade de se assumir como adulto consistente.
O narcisismo, motivado certamente pelas carências emocionais, levou-o ao sentimento da solidão, do abandono e da frustração, traduzível numa poesia onde surge com o retrato de inútil e inapto. A crise de personalidade levá-lo-ia, mais tarde, a abraçar uma poesia onde se nota o frenesim de experiências sensórias, pervertendo e subvertendo a ordem lógica das coisas, demonstrando a sua incapacidade de viver aquilo que sonhava – sonhando por isso cada vez mais com a aniquilação do eu, o que acabaria por o conduzir, em última análise, ao seu suicídio.
Se numa primeira fase se nota ainda esse estilo clássico, numa segunda, claramente niilista, a sua poesia fica impregnada de uma humanidade autêntica, triste e trágica.
Por fim, as cartas que trocou com Pessoa, entre 1912 e o seu suicídio, são como que um autêntico diário onde se nota paralelamente o crescendo das suas frustrações interiores.
Na curta vida que viveu, deixou vincada posição no movimento literário modernista. De personalidade inquieta e renovadora, mas anárquica e decadentista, tem na sua poesia dois temas fundamentais: o drama da solidão inevitável e a tragédia da grandeza quimérica perdida. Carente afectivo, reduziu o amor à exaustão das sensações buscadas até aos estados alucinatórios, daí resultando uma insatisfação desesperada e o desengano irreversível dos caminhos trilhados que o arrastavam para o abismo.
Parte da obra poética do escritor foi publicada, em 1937, no volume INDÍCIOS DE OIRO, surgindo posteriormente outras recolhas de poesia e prosa, que consagram a originalidade da sua veia criadora, sempre irregular, mas de intensa expressividade sensorialista, onírica e de forma musical.
A edição, em 1958/59, da sua correspondência com Fernando Pessoa, trouxe importante contribuição para o conhecimento da mentalidade, da problemática e da estética do primeiro modernismo português, ao mesmo tempo que da personalidade de Mário de Sá-Carneiro, como expoente humano e literário duma crise profunda na sociedade do início do séc. XX.

O OUTRO

 

 

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

 
  

FIM

Quando eu morrer batam em latas

Rompam aos saltos e aos pinotes,

Façam estalar no ar chicotes,

Chamem palhaços e acrobatas!

 

Que o meu caixão vá sobre um burro

Ajaezado à andaluza...

A um morto nada se recusa,

Eu quero por força ir de burro.

 

   

 
publicado por Elisabete às 14:18
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Katy a 20 de Maio de 2007 às 13:52
Bonito trabalho este blog. Muito informativo. Um prazer lê-lo. Gostei.
Muitos somos, os que temos lido alguns destes textos.
Mas compilar e colocar num blog, para partilhar com o mundo inteiro é uma arte.
Parabéns artista!

Beijinhos,

Katy

De Elisabete a 20 de Maio de 2007 às 19:29
É muita gentileza da sua parte.
Faço estas coisas porque gosto e dão um certo sentido à vida.
Tenho pena de não a conhecer, ainda. Mas lá havemos de chegar.
Desejo muitas felicidades para si e para a sua família.
Um beijo da
Elisabete

Comentar post

*mais sobre mim

*links

*posts recentes

* QUINTA DE BONJÓIA [PORTO]

* POMPEIA: A vida petrifica...

* JOSÉ CARDOSO PIRES: UM ES...

* PELA VIA FRANCÍGENA, NO T...

* CHILE: O mundo dos índios...

* NUNCA MAIS LHE CHAMEM DRÁ...

* ARTUR SEMEDO: Actor, galã...

* COMO SE PÔDE DERRUBAR O I...

* DÉCIMO MANDAMENTO

* CRISE TRAZ CUNHALISMO DE ...

* O CÓDIGO SECRETO DA CAPEL...

* O VOO MELANCÓLICO DO MELR...

* Explicação do "Impeachmen...

* CAMILLE CLAUDEL

* OS PALACETES TORNAM-SE ÚT...

* Tudo o que queria era um ...

* 1974 - DIVÓRCIO JÁ! Exigi...

* Continuará a Terra a gira...

* SETEMBRO

* SEM CORAÇÃO

* A ESPIRAL REPRESSIVA

* 1967 FÉ DE PEDRA

* NUNCA MAIS CAIU

* Alfama é Linda

* Por entre os pingos da ch...

* DO OUTRO LADO DA ESTRADA

* Não há vacina para a memó...

* Um pobre e precioso segre...

* Nada para mim. Portugal.

* Seis anos de divinos torm...

*arquivos

* Maio 2017

* Abril 2017

* Março 2017

* Fevereiro 2017

* Janeiro 2017

* Setembro 2016

* Junho 2016

* Abril 2016

* Novembro 2015

* Setembro 2015

* Agosto 2015

* Julho 2015

* Junho 2015

* Maio 2015

* Março 2015

* Fevereiro 2015

* Janeiro 2015

* Dezembro 2014

* Fevereiro 2014

* Janeiro 2014

* Dezembro 2013

* Novembro 2013

* Setembro 2013

* Agosto 2013

* Julho 2013

* Junho 2013

* Maio 2013

* Abril 2013

* Março 2013

* Fevereiro 2013

* Janeiro 2013

* Dezembro 2012

* Novembro 2012

* Outubro 2012

* Setembro 2012

* Agosto 2012

* Julho 2012

* Maio 2012

* Abril 2012

* Março 2012

* Janeiro 2012

* Dezembro 2011

* Novembro 2011

* Outubro 2011

* Setembro 2011

* Julho 2011

* Maio 2011

* Abril 2011

* Março 2011

* Fevereiro 2011

* Janeiro 2011

* Dezembro 2010

* Novembro 2010

* Outubro 2010

* Agosto 2010

* Julho 2010

* Junho 2010

* Maio 2010

* Abril 2010

* Março 2010

* Fevereiro 2010

* Janeiro 2010

* Dezembro 2009

* Novembro 2009

* Outubro 2009

* Setembro 2009

* Julho 2009

* Junho 2009

* Maio 2009

* Abril 2009

* Março 2009

* Fevereiro 2009

* Janeiro 2009

* Dezembro 2008

* Novembro 2008

* Outubro 2008

* Setembro 2008

* Agosto 2008

* Julho 2008

* Junho 2008

* Maio 2008

* Abril 2008

* Março 2008

* Fevereiro 2008

* Janeiro 2008

* Dezembro 2007

* Novembro 2007

* Outubro 2007

* Setembro 2007

* Agosto 2007

* Julho 2007

* Junho 2007

* Maio 2007

* Abril 2007

* Março 2007

* Fevereiro 2007

*pesquisar