Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

39 anos depois (I) e (II)

Um país que, depois de construir o futuro, é empurrado de regresso ao passado. Com o 25 de Abril, não foi apenas a Poesia a sair à rua, como pintou Vieira da Silva. A madrugada por que os portugueses havia muito esperavam, como escreveu Sophia, trazia consigo uma promessa de futuro que as conquistas da Revolução e uma Constituição empenhada na dignidade finalmente concretizaram nas nossas vidas. Milhões de portugueses passaram a dispor de coisas tão básicas, tão evidentes, como uma consulta médica gratuita, uma pensão de reforma, uma escola pública decente com professores condignamente formados, uma torneira de onde saía água corrente, um interruptor que ligava uma lâmpada que não mais era um luxo de cidade rica, um transporte público que vinha mitigar uma das tantas causas da exaustão quotidiana de quem trabalhava para sobreviver. As mulheres, mais do que os homens, experienciaram todas as mudanças. Como escreveu Maria Velho da Costa, “elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas”, “souberam dizer salário igual e creches e cantinas”, “sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões” e “disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é”. A Liberdade trazia o futuro, a confiança no futuro, o fim da guerra, três/quatro anos roubados a sangue e a saudade da vida de um milhão de homens de 20-30 anos. Abril trouxe voz, arrojo, a reapropriação de um país por quem nele vivia e a ele queria voltar!

39 anos depois, o medo foi regressando à fábrica, ao escritório, as bocas dos patrões e dos gestores voltaram a encher-se da arrogância do “se não gosta, ponha-se a andar!”, ao desempregado é dito que a culpa é dele (porque parece que não quer trabalhar, se não aceita o meio salário que lhe propõem), e aos jovens é explicado que o problema é não serem empreendedores e não saírem da sua área de conforto… A todos nos repetem que “não estamos em 1975!”, mesmo que a maioria nem saiba o que isso foi, a todos se quer ensinar que “não se meta em trabalhos…”, “isso dos sindicatos é coisa do passado”. Os trabalhadores passaram a ser colaboradores, e, apesar de todo o palavreado da procura da produtividade, é a obediência a disfarçar-se de reverência, a indignidade a disfarçar-se de empenho. Num país que vinha do salazarento elogio da incultura, que dizia que os filhos do povo que tinham ido à escola “nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esquecem as letras e voltam à enxada” (deputada Virgínia C. Almeida, 1938), a democracia fez-nos dar um salto de gigante na qualificação, na realização pessoal através da escola, da universidade, formou os portugueses mais preparados da história. 39 anos depois de Abril, insinua-se que estudar é inútil e faz-se com que seja caro; e a quem objectar que, dessa forma, se promove o maior abandono escolar da Europa e o regresso da injustiça no acesso à universidade, faz-se o discurso rançoso da necessidade de reduzir as expetativas, “nem todos podem ser doutores!”, que nunca devíamos ter abandonado a escola dual (isto é, discriminatória), que habituava os filhos do povo ao único futuro a que deveriam aspirar: o de um trabalho manual, repetitivo, de execução do que outros decidirem, consequentemente mal pago. Não gostam? Emigrem!

Um país forçado ao envelhecimento e à fuga. E emigram… E Portugal envelhece. As sociedades envelhecem por bons e maus motivos. Porque vivemos mais (78,4 anos, 29º país do mundo onde mais se vive), bem mais do que há 40 anos (67,4 anos, 45º), porque construímos desde o 25 de abril um sistema público de saúde que abriu a (quase) todos a possibilidade de deixar de pensar que a doença e a morte prematuras são simplesmente um fado individual. Mas hoje, sem condições (horários de trabalho cada vez mais longos, desemprego e precariedade de longa duração) e sem ânimo para se empenharem na construção de novas vidas, os portugueses envelhecem. Quando a Revolução trouxe a liberdade e a democracia, a convicção de que se podia tomar o destino nas próprias mãos, os portugueses, confiantes, não tiveram medo de ter filhos. Porque confiavam na própria capacidade de organização de novas condições para crianças e mães, abrindo creches e consagrando direitos sociais de que se não havia disposto nunca. Nasceram 180 mil crianças em 1975, 187 mil em 1976 – e hoje, 1,5 milhões mais do que éramos então, nascem menos de metade. Claro que a extraordinária mudança no estatuto das mulheres portuguesas, as mudanças evidentes no que move os portugueses a serem pais e mães (cada vez mais vontade e menos acaso) contribuíram decisivamente para reduzir o número de filhos. Mas sabemos bem como a nova economia da austeridade e a violência e a chantagem quotidiana em que o trabalho se tem transformado adiam quaisquer planos de parentalidade para depois dos 30, ou 40, além de fazer fugir de Portugal aqueles que querem iniciar a aventura do amor transformado em família. Cínico é que sejam os que falam nos valores familiares a prescrever salários baixos e encerramento de serviços públicos. Talvez pensem que devam ser os mesmos avós a quem cortam a reforma a tomar conta dos filhos dos seus filhos.

 

39 anos depois (II)

 

Num país em que os governos levam a cabo uma política económica contra as pessoas (numa escalada que com o actual governo atinge uma agressividade demencial), com um sistema político atolado, com uma geração de governantes de formação inenarrável e inépcia inexcedível, há uma mudança em construção. Não no Portugal que Passos julga que se sacrifica para ele brilhar na Europa, mas no Portugal resistente que o não suporta mais, que sai à rua, que canta a Grândola contra a mentira e contra o assalto ao trabalho e aos seus frutos, num país que pede um novo 25 de Abril justamente porque se lembra do que ele significou.

 

Um país de gente, outra vez, em fuga

 

Há 39anos, o país em que Adriano Correia de Oliveira cantava Rosalía de Castro para denunciar que “este parte, aquele parte, e todos e todos se vão”, empurrava
150-200 mil pessoas por ano para fora do seu território. Hoje volta a acontecer a mesma coisa. Treze anos de guerra colonial e uma opressão que não dava chance alguma à livre expressão das expectativas sociais, culturais e políticas, e 1.4 milhões de portugueses emigraram, 60% dos quais fugindo a salto, ilegalmente, para recomeçar a vida numa bidonville francesa, sem sequer poder regressar se se tivera fugido a anos de tropa em África. Até isso era preferível a ficar num país cuja economia e salários cresciam mas que encalhara na ditadura e na guerra.

 

Uma política económica contra as pessoas

 

Hoje, apesar da liberdade e dos direitos políticos, o país voltou a encalhar, desta vez sob a ditadura económica de um capitalismo voraz, com uma arrogância ideológica a que nem os patrões de há 39 anos, sob a protecção de Salazar, do Estado e das polícias, se atreviam. Nunca o português comum se viu tão estratosfericamente longe dos centros de decisão da economia. Há 70 anos. Salazar dizia que, em Portugal, “a Nação é acessível a todos [mas] o Estado a muito poucos”; hoje, Gaspar repete à saciedade que ‛‘não há alternativa” à austeridade dele, Passos que é forçoso “o cumprimento cabal das nossas obrigações”; por outras palavras: o sofrimento social ê acessível a todos, mas as decisões de política económica a muito poucos.
Não foi assim durante vários destes 39 anos que passaram desde o 25 de Abril.
Entre a socialização de muita propriedade e as nacionalizações, as comissões de trabalhadores e as negociações colectivas, os portugueses dispuseram de muitos instrumentos de decisão sobre a sua política económica. Perderam-nos desde que todo o processo foi revertido, ainda antes do euro, com Cavaco, prosseguido com Guterres (o recordista das privatizações) e com as personagens de circo que se lhe seguiram. Hoje, os Governos bem podem dizer à banca que invista na economia, que de nada lhes serve; a banca fará (e fez) o que lhe apetecer, com o beneplácito dos independentíssimos
bancos centrais, sempre e quando os Governos assegurem a sobrevivência deles, literalmente à nossa custa.

 

Este é um país de gente desprezada

 

O contrato social assinado nos anos seguintes à Revolução foi unilateralmente rompido há anos. Ele fora aceite, de alguma forma, tanto pelos que não haviam conseguido um socialismo à portuguesa como por aqueles que, tendo aceite descolonização e democracia política, queriam apenas uma pequena dose social na economia. Milhões de portugueses começaram a trabalhar na adolescência, salários de pouco – hoje recebem pensões de ainda menos e um Gaspar qualquer vem-lhes dizer que nem esse pouco eles merecem. São provavelmente estes os mais desiludidos da democracia.

 

Um sistema político atolado

 

Dos três grandes partidos que, apenas formalmente, fundaram o regime democrático constitucional, o PS e o PSD, que já estavam do mesmo lado em 1975-76, dirigiram todos os Governos (salvo os de iniciativa eanista, 1978-79, o que é o mesmo). O sistema político português bloqueou num novo rotativismo em que cada novo Governo é menos diferente do anterior. O CDS, que votou contra a Constituição, governou nove anos com o PSD, ou até com o PS, que, apesar de quase sempre minoritário, nunca negociou alianças à sua esquerda. Aí, contudo, concentraram-se 15-25% dos votos ao longo destes 38 anos. O PCP, a força de fundo no combate à ditadura, participou apenas nos dois anos de Governos provisórios. Nenhum dos novos partidos que irromperam no Parlamento ­ o PRD (1985-91) e o BE (desde 1999), herdeiro das esquerdas revolucionárias que tiveram força nos anos 70 - foi sequer cooptado para o Governo. No total dos eleitores (os 60% que votam e os 40% que não votam), os dois partidos dominantes têm cada vez menos apoio: 59% em I975, 38% em 2011 - quase o mesmo (37%) que aquando da última grande crise (1985). O actual Governo foi votado por menos de 30% dos portugueses, o mesmo que Sócrates quando dispõe de maioria; e comporta(ra)m­-se como se tivessem conseguido mandatos inequívocos. Desde há dez anos que uma geração de políticos de formação inenarrável e inépcia inexcedível tomou conta do aparelho de Estado, tornando-se presa ainda mais fácil de grandes patrões sem escrúpulos e de gestores ou académicos com duas palas liberalonas na cabeça. Com incrível lata, disfarçam de reformismo inadiável a devastação que têm provocado numa democracia construída com tanto esforço, tanta Iuta, tanto combate desigual.

 

Um país resistente

 

É neste pais que as pessoas perceberam que alguma coisa tem de mudar! É no país resistente que se está a construir a mudança - não no Portugal que Passos julga que se sacrifica para ele brilhar na Europa, mas naquele que o não suporta mais, que sai à rua, que canta a Grândola contra a mentira e contra o assalto ao trabalho e aos seus frutos, num país que pede um novo 25 de Abril justamente porque se lembra do que ele significou: a coragem contra o medo, o arrancar da liberdade contra a opressão, o fim de uma guerra que também então se dizia não ter alternativa, a voz contra a mordaça!

 

 Manuel Loff, “Público” (09.05.2013)

 

publicado por Elisabete às 15:16
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