Domingo, 23 de Junho de 2013

CRÓNICA, 24

 

Cada vez mais somos governados por pessoas que acham que governar é apenas administrar e gerir. Nomeadamente administrar e gerir um orçamento. Saídos de cursos de economia e gestão onde há muito se abandonou a dimensão social e política, acreditam mesmo que governar é gerir o estado, como quem gere uma empresa ou um orçamento doméstico.

Esta ausência aparente de ideologia é, obviamente, a forma mais perniciosa de ideologia. A que deixa o senso comum guiar as decisões, sendo que o senso comum – a “cultura”, vá, e nisso sou um antropólogo algo sui generis – é a ideologia dominante, defendendo os interesses dominantes.

Quando chegam ao governo, convencidos de que vai ser canja, são confrontados com dificuldades. Entram então em cena os camaradas de partido – ou simplesmente a gente de partido, já que a tendência é para contratar governantes-administradores fora dos mesmos – que os avisam de que “há também a política”.

Só que a política a que se referem é, na verdade, a “politiquice”, o jogo de equilíbrios, influências e favores das disputas por poder dentro dos partidos enquanto máquinas de carreiras.

Eventualmente fartos disso, os “técnicos” abandonam o barco, depois de muita destruição, e regressam às empresas ou ao ensino da economia e da gestão (dantes era mais o direito, mas na realidade a diferença não é muita) enquanto suposta neutralidade objetiva. Lá fica a gente de partido órfã, até à chegada de um novo messias da tecnicalidade.

O que nem os técnicos nem a gente de partido percebem é que em momento algum estiveram a fazer política. Só gestão ou politiquice. Fazer política é, desde logo, “fazer” ética, aplicar valores, implementar uma visão do mundo. Nunca ouvimos, nem ouviremos (salvo exceções freelance) dos tais técnicos ou da tal gente de partido, afirmações sobre ética, valores e visões.

Desde logo – e, se calhar, por fim – porque nem a filosofia, nem as humanidades, nem as ciências sociais (e, sobretudo, a economia enquanto ciência social) lhes foram ensinadas. Talvez por isso mesmo estas sejam desprezadas e progressivamente afastadas das prioridades educativas e de política científica – pois se não servem para nada, isto é, para a gestão do orçamento vista como tecnicalidade ou o exercício da política visto como profissão e carreira…

A check list de tarefas para a construção e gestão de um orçamento e para a construção e gestão da governação deveria começar com dois itens: que valores defendemos?; e que tipo de sociedade imaginamos ser justa? A política ou é ética (no sentido estrito da palavra, não apenas no sentido corriqueiro de “comportamento honesto) ou não é nada.

P.S.: Talvez as eleições presidenciais sejam a oportunidade que nos resta, nesta paisagem política deplorável, para recuperar estes sentidos de política. Uma eleição uninominal presta-se mais à avaliação dos valores, opções éticas e imaginação do social de um candidato ou candidata. Espero que, no campo progressista, apareça um homem ou uma mulher com a capacidade de nos inspirar. Não se trata de desejar a chegada de salvadores ou salvadoras providenciais, com todos os perigos demagógicos inerentes, mas sim da necessidade de exemplos que contrariem o perigoso desgosto com a política que se estabeleceu.
 
Miguel Vale de Almeida
 
publicado por Elisabete às 12:27
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