Domingo, 7 de Julho de 2013

Esse estranho jogo humano

 

Lembrava-se de quando tinha vindo do Sandžak, um rapazito de catorze anos, faminto, com umas alpergatas todas gastas. Fizera então um acordo com o velho Petar, para servi-lo em troca de comida, um fato e dois pares de alpergatas por ano. E olhava pelas crianças, ajudava na loja, acarretava água e tratava dos cavalos. Dormia por baixo da escada, num cubículo estreito, sem luz e sem janela, onde nem sequer podia estender-se. Aguentou aquela vida dura e, quando chegou aos 18 anos, passou a trabalhar só na loja, como “assalariado”, e o lugar que deixou vago passou a ser ocupado por um outro rapazinho do Sandžak. Foi então que ele veio a conhecer e a compreender bem o sentido de poupar e a sentir a impetuosa e encantadora paixão pelo enorme poder que a poupança dava. Durante cinco anos dormiu num pequeno quarto, nas traseiras da loja. Durante esses cinco anos nunca acendeu o lume nem se deitou com uma vela acesa à cabeceira. Tinha 23 anos quando o patrão lhe arranjou casamento com uma boa e abastada rapariga de Čajniče. Como ela era filha de um comerciante, eram agora dois a poupar. Veio então o tempo da ocupação austríaca e, com ele, uma maior actividade comercial e uma maior possibilidade de lucros, mas também mais coisas em que gastar. Ele aproveitou o mais possível os lucros e evitou as despesas. E assim arranjou meios para montar uma loja e começar a ganhar. Naquele tempo ganhar não era uma coisa difícil. Muita gente havia que ganhava dinheiro facilmente e que o perdia ainda com maior facilidade. O difícil era conservá-lo. Mas ele juntava o seu e cada vez amealhava mais. Quando vieram estes últimos tempos e, com eles, a insegurança e a “política”, Pavle, embora já com uma certa idade, procurou compreendê-los, aguentar-se no balanço e adaptar-se a eles, para os poder atravessar sem prejuízo e sem se envergonhar. Foi vice-presidente da Câmara Municipal, presidente da comunidade religiosa e do Coro Sérvio “Concórdia”, principal accionista do Banco Sérvio e membro do conselho de administração do banco local. Fez quanto pôde para, sem trair o código de conduta da terra, se manter com prudência e integridade entre os opostos que cada dia se tornavam maiores e mais prementes, sem alguma vez deixar que os seus interesses fossem prejudicados, sem entrar em conflito com as autoridades e sem se envergonhar aos olhos do povo. Na opinião da gente de Višegrad, passava por um exemplo inimitável de homem trabalhador, capaz e de bom senso.

Assim, durante mais de metade de uma vida humana normal, ele trabalhara, poupara, preocupava-se e acumulara fortuna, nunca fizera mal a uma mosca, fora delicado para toda a gente, olhando sempre em frente, seguindo, sempre silencioso e empenhado, o seu caminho. E eis onde esse caminho o levara: a estar sentado entre dois soldados, guardado por eles como o pior dos bandidos, à espera que alguma granada ou mina danificasse a ponte para lhe darem um tiro ou o degolarem. Começou a pensar (e isso fazia-o sofrer mais do que tudo) que trabalhara como um mouro, se preocupara e se gastara em vão e que afinal escolhera um caminho errado e que eram os seus filhos e a outra rapaziada que tinham razão, porque os tempos não estavam para medidas e cálculos, ou, quando muito, traziam outras medidas e outros cálculos diferentes; de qualquer maneira, os cálculos dele estavam errados e enganara-se nas medidas.

- É mesmo assim! – dizia Pavle aos seus botões. – Tudo te ensina e obriga a trabalhar e a poupar: a Igreja, as autoridades e até o teu próprio senso comum. E tu obedeces, vives a vida com cuidado e honestidade, ou, melhor, nem vives: é só trabalho, poupança, preocupações, e assim se vai passando uma vida inteira! Mas de repente, tudo se vira de pernas para o ar e chega um tempo em que o mundo faz pouco da razão, em que a Igreja se fecha e se cala, em que a autoridade se torna mera força bruta, em que aqueles que ganharam o seu dinheiro honestamente e com o suor do seu rosto perdem o tempo e o dinheiro, enquanto os mandriões e os selvagens triunfam. Ninguém reconhece os esforços que fizeste e ninguém te ajuda ou te ensina a conservar aquilo que ganhaste e poupaste. Será isso possível? – Mas será realmente possível? – o senhor Pavle fazia constantemente esta pergunta a si mesmo e, não achando resposta, voltava ao ponto de partida, àquilo que estava na origem de todos aqueles pensamentos: a perda de tudo o que possuía.

Por mais que se esforçasse por pensar noutra coisa, não era capaz. Todos os seus pensamentos voltavam sempre ao mesmo. O tempo arrastava-se com uma lentidão mortal. Tinha a sensação de que aquela ponte, que atravessara milhares de vezes sem sequer olhar para ela, agora repousava nos seus ombros com todo o seu peso, como um segredo fatal e inexplicável, como um pesadelo num sono de que não se desperta.

Por tudo isto, Pavle continuava ali amargurado, naquela cadeira, cabisbaixo e de costas curvadas. Sentia o suor brotar de todos os poros por baixo da sua camisa dura, engomada, por baixo do colarinho, dos punhos. O suor jorrava debaixo do fez e corria-lhe pela cara. Mas ele, em vez de o limpar, deixava-o correr e cair em grandes gotas no chão, e parecia-lhe que, com essas gotas, toda a sua vida estava a derreter e a abandoná-lo.

[…]

Mas não era apenas o senhor Pavle que suava assim um suor de sangue e se perdia naquele sono sem despertar. Naqueles dias de Verão, nessa pequena língua de terra que ficava entre o Drina e a fronteira, na cidade, nas aldeias, nas estradas e nas florestas, por toda a parte os homens suavam na procura da morte, a sua ou a dos outros, e ao mesmo tempo fugiam dela, defendendo-se por todos os meios e com toda a força. Esse estranho jogo humano a que se chama guerra tornava-se cada vez mais intenso e tomava conta das criaturas vivas e das coisas inanimadas.

 

Ivo Andrić, A Ponte sobre o Drina

 

publicado por Elisabete às 19:04
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