Sexta-feira, 12 de Julho de 2013

A década ruminante

 

 

A anorexia que se tornou sinónimo de sucesso atinge agora a política e todas as outras áreas da criação humana – porque a política, quando existia, era principalmente uma actividade criativa, exigindo a capacidade de análise do real, a imaginação e o risco necessários, por exemplo, a um projecto de arquitectura.

A austeridade alimentar é apenas uma das consequências dessa pavorosa doença juvenil: a causa prende-se com uma obsessão pela perfeição que apaga tudo quanto existe no mundo, e a própria humanidade.

O anoréctico começa por sentir um êxtase de prazer no controle absoluto sobre o seu corpo; o sofrimento da privação transforma-se em celebração do poder absoluto.

O esboroamento do Bloco de Leste amoleceu a política, bem como a dificuldade em lidar com a nova ameaça dos fundamentalismos religiosos, imunes a qualquer negociação racional e apostados numa via de extermínio do inimigo.

E isso moldou uma geração de governantes tecnocratas, que se agarram aos números como se neles estivesse a verdade e a luz. Ironicamente, os números explodiram, demonstrando que a bomba do capitalismo selvagem é ainda mais mortífera que as da Al Qaeda.

Pensar-se-ia que a guerra iniciada pela especulação financeira internacional há alguns anos faria ressuscitar a política, mas não foi isso que aconteceu: o mundo vergou-se ao império dos banqueiros.

A Europa desmorona-se porque, em vez de enfrentar a guerra aberta pela especulação financeira, submete-se aos seus ditames e abdica dos seus princípios, abandonando os seus cidadãos e a própria noção de cidadania que a criou.

Os governantes que vingam são os que falam grosso às populações e gaguejam, deslumbrados, perante os senhores do dinheiro.

O desemprego endémico e o extermínio do Estado Social não são caminhos para o bem-estar nem para a tranquilidade das nações.

Isto já foi amplamente provado pela História e é lembrado agora por variados economistas – e, no entanto, a Europa persiste na receita da anorexia global. Acresce que a anorexia vai esvaziando a imaginação e desfazendo as conexões com o real: não produz mais do que uma interminável ruminação sobre o vazio.

No cinema como nas outras artes, sucedem-se as cópias de cópias: a enésima versão das histórias de há 50 anos, ou a sequela da sequela da sequela do grande sucesso da década de 80.

O documentário e o espectáculo da barbárie em espaço fechado substituem, nas televisões, a ficção e o pensamento. Nas editoras, substituem os directores literários por gestores de marcas. E a política substitui as ideias pela subserviência aos mercados.

Dizemos: «Já não há líderes como antigamente». Então o que se passou? Morreram todos, ou foram afastados – da política, dos jornais, das televisões?

No mundo da anorexia, os não-anorécticos são excrescências inestéticas.

A esquerda e a direita não importam, porque nada importa para além do mando e do controle.

O que resta da esquerda embarca no discurso anoréctico, tido como o único ‘sério’ e ‘responsável’, para provar que não se perdeu na tolerância extrema face ao fundamentalismo islâmico, que de facto a perdeu. O que resta da direita tenta remendar os buracos da sofreguidão neo-liberal com a cola-tudo da caridade e das boas intenções. Mas a anorexia é uma doença mortal.

 

Inês Pedrosa, in SOL, 12 Julho 2013

 

 

publicado por Elisabete às 15:52
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