Sábado, 13 de Julho de 2013

Os alemães não percebiam nada do mundo

Os negros não entendiam o que lhes estava a acontecer. Ninguém os tinha avisado das conclusões da Conferência de Berlim e que a África fora dividida entre seis nações europeias. De repente, viram chegar soldados brancos com mulas, carroças e armas, que mandavam carregar cunhetes; de seguida, obrigaram-nos a abrir estradas e a cravar no chão linhas de caminho-de-ferro ao longo de infinitas distâncias, que atravessavam os seus reinos e, para seu espanto, também os dos seus inimigos. Vieram feiticeiros de barbas e cobertos da cabeça aos pés destruir os seus deuses e obrigarem-nos a adorar outros, ensinarem-lhe novas línguas. Exigiram-lhes trabalho, expulsaram-nos das terras, substituíram as pequenas vacas por outras gordas e enormes. Viram-se varridos e enxotados como as folhas do terreiro das aldeias quando chega o vento forte. Quiseram resistir e os brancos foram pacificá-los, isto é, obrigá-los, pela força de zarabatanas que disparavam relâmpagos mortíferos, a obedecerem a chefes desconhecidos.

As opiniões do capitão Vaz sobre a presença europeia em África podiam soar a sacrilégio na terra da sede do Seminário das Missões, onde eram preparados os jovens que iriam deixar crescer as barbas negras, vestir uma sotaina branca para a tripla missão de cristianizar, civilizar e aportuguesar os selvagens e donde regressariam para professores, depois de dezenas de anos nos trópicos, com as barbas brancas, para retomarem a sotaina negra metropolitana. Eram, no entanto, curiosamente, partilhadas pelo padre Nunes, o velho missionário reformado, que tinha vindo almoçar nesse dia e se deixara para a sesta, para a conversa e para o lanche. O capitão e o padre difundiam impressões sobre África como se atirassem respingos de água benta do hissope. A coerência interessava-lhes pouco. Estavam de acordo em que o melhor para todos seria cada um viver a sua vida. Se os europeus não queriam fazer em África aquilo que tinham feito na América: instalarem-se lá, reproduzirem-se e reduzirem os indígenas ao mínimo, deviam então evitar distribuir armas de fogo aos negros. Daí a nada estariam a virar-se contra quem os armou.

Atribuíam aos alemães e à sua incompreensão dos outros povos a culpa do que viria a ser o colonialismo e do futuro atribulado para as relações entre os europeus e os africanos. Concordavam que “os alemães não percebiam nada do mundo, nunca tinham saído por mar da sua terra. Julgavam África uma mina, um filão de minério!”

Carlos Vale Ferraz, A Mulher do Legionário



publicado por Elisabete às 13:06
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