Sexta-feira, 27 de Setembro de 2013

UM SOL ENGANADOR

1  Em lugar de agregar municípios ou freguesias dos grandes centros urbanos, o Governo extingue freguesias do interior — que, em muitos casos representam o último resquício da função social e política do Estado. Assistindo, sem nada fazer, ao contínuo despovoamento do país interior, fecha mais linhas férreas, tribunais, centros de saúde e escolas, invocando razões orçamentais e demográficas tornadas então inevitáveis. E, a troco de 600 milhões de euros, avança para nos tornar o único país do mundo sem correios públicos, dando aos felizes vencedores da privatização dos CTT uma licença bancária de bónus, que eles irão acrescentar às poupanças geradas com o encerramento de inúmeras estações de correios — gerindo um serviço público essencial à unidade territorial do país com uma irrebatível lógica de mercearia. Aos CTT, irá, em próximas oportunidades, acrescentar a TAP, as Águas, a Caixa, a parte rentável da CP e os Estaleiros de Viana (deliberadamente inviabilizados pelo senhor ministro da Defesa). E a juntar ainda ao que já privatizou por completo: aeroportos, produção e distribuição de energia eléctrica. Privatiza-se o que dá dinheiro, mantém-se público e financiado por swaps e PPP o que perde dinheiro.

E, enquanto assim desmantela o que demorou décadas ou séculos a construir, enquanto dá ordem de expulsão ao interior e entrega as terras abandonadas às celuloses e aos incêndios, que depois piedosamente lamenta, o “Governo de Portugal” (como eles gostam de ostentar nos pins das lapelas) trata de liquidar também qualquer veleidade de futuro, enquanto nação independente. Pela primeira vez desde que há memória, as Universidades públicas têm milhares de vagas sem candidatos, porque só há dois destinos para os licenciados portugueses: engrossar o lote dos quase 40% de desempregados jovens, ou emigrar, seguindo a sugestão do próprio Governo e o aliciante convite da srª Merkel, pronta a receber de braços abertos jovens engenheiros, investigadores ou enfermeiros, licenciados com o dinheiro dos contribuintes portugueses e de que a Alemanha tanto precisa para nos poder continuar a dar lições de superioridade económica, num espaço económico dito comum mas onde as regras do jogo estão viciadas à partida. Em Alqueva sobra água sem destinatários porque o tão apregoado regresso à terra não encontra agricultores em condições financeiras para o fazer, nem sequer se a água for oferecida. É como uma casa a ser abandonada aos poucos, divisão por divisão.

Em contrapartida, porque o Governo não soube, não estudou, não foi capaz e já não tem margem social para lançar qualquer reforma séria do Estado excedentário, desinveste no que devia ser proibido desinvestir: a ciência e a investigação científica, o ensino do inglês, as novas tecnologias e as energias alternativas ao petróleo que não temos (e onde a Alemanha de Merkel vai investir biliões, financiada a custo zero, pois que o mal dos pobres é sempre uma oportunidade para os ricos). Num país que já se tornou um caso de referência internacional como o que mais aceleradamente está a promover a desigualdade social, onde os sintomas de desagregação do tecido social são campainhas de alarme a tocar que só os idiotas e os gananciosos não escutam, onde o simples facto de ter um emprego já é olhado como privilégio, o “Governo de Portugal” — um indecente concubinato ideológico entre rapina fiscal e liberalismo saloio — estuda agora a sedutora tentação de liquidar a escola pública através do “cheque-ensino”, sepultando cem anos de um princípio republicano essencial a um país civilizado.

Depois de ter falhado todas as metas orçamentais que o resgate visava conseguir; depois de ter assaltado e liquidado a economia civil para ocultar a dimensão do falhanço das políticas orçamentais ditadas pela troika e a que miseravelmente se submeteu; depois de ter extinguido uma classe média que tão a custo se formou e agora sufoca sob impostos — enquanto as nossas 20 majors se aliviam desse patriótico fardo sob a protecção dos nossos parceiros comunitários Luxemburgo e Holanda (o país onde o arrogante presidente do Eurogrupo, Djasselboem, é simultaneamente ministro das Finanças, dando-nos lições de austeridade enquanto nos rouba impostos); depois de ter feito regredir os índices de bem-estar a dez anos atrás e ter hipotecado o futuro de uma geração, temo que o Governo esteja agora a desmantelar os alicerces de um Estado-nação que demorou 870 anos a erguer. Talvez sem o saber, talvez por cegueira, talvez por absoluta e trágica impreparação e incompetência. Pouco importam as razões, importa é a dimensão da tragédia.

2  Após nove em cada dez Prémios Nobel de Economia o terem dito, após os estudos do FMI e numerosos outros organismos o terem demonstrado, o PSD parece começar, enfim, a vislumbrar a desgraça do caminho que a troika nos impôs e a que o seu cavaleiro andante Passos Coelho tão alegremente se entregou. Ele, porém, ainda não: por ignorância e maus conselhos. Prefere acreditar nos que lhe garantem que tudo o que de mau está a acontecer ainda é culpa de José Sócrates, e mesmo quando alguém lhe tenta explicar racionalmente que só para pagar o serviço da dívida (que ele não faz senão aumentar) era preciso que o PIB crescesse 4% ao ano e só a partir daí é que a economia poderia crescer, ele encolhe os ombros e repete as frases feitas que aprendeu com os nossos génios económicos que lhe fizeram a cabeça, depois de terem aprendido a técnica no Goldman Sachs ou outras escolas do crime. Havia, sim, outro caminho, mas teria sido preciso alguém com dimensão para o escolher e o impor. Desgraçadamente, o que se abateu sobre nós foi uma tempestade perfeita: Passos Coelho no Governo, Seguro na oposição, Cavaco na Presidência e Merkel na Europa.

3  Estive um mês sem escrever, condição mínima de sobrevivência para quem escreve nas outras 48 semanas do ano. A pausa serve para reflectir sem a pressa de concluir. Serve para observar, para ver melhor — como sempre se vê melhor de fora. Vi os incêndios do Verão, os oito mortos, a área mais ardida da última década — conforme era elementarmente previsível. Segui o entusiasmo patriótico com as cagarras das Selvagens e as 200 milhas de mar circundante que os seus detritos nos poderão acrescentar, a favor de uma inexistente frota pesqueira — reflexo da nossa ancestral crença nos Eldorados que hão-de brilhar à flor da água ou além dela. Assisti ao regresso à cena televisiva do inefável quarteto sindical Bettencourt Picanço/Nobre dos Santos/Ana Aivola/Mário Nogueira, o sinal infalível de que até este Verão luminoso chegou ao fim. Vi como o há muito defunto partido maoista do dr. Garcia Pereira, o único cadáver político ressuscitável ciclicamente por via eleitoral, conseguiu — com a ajuda da lei, da CNE ou da simples estupidez — banir o debate político eleitoral da imprensa, confundindo tempos de antena para a propaganda com tempos de informação para os eleitores. Mais um obstáculo de monta para a campanha do independente (e meu amigo, para que conste), Rui Moreira, que, no Porto, já tem de enfrentar um dr. Menezes que congrega os grandes empresários e artistas, o PSD e os seus comentadores televisivos, o Porto Canal e o FC Porto, que esbanja dinheiro e oferece um porco assado e um concerto do Quim Barreiros em cada bairro e promete três pontes, um túnel, impostos mais baixos, rendas sociais mais baratas e muitas outras coisas, umas ditas outras murmuradas, enquanto jura que não deixará o Porto como deixou Gaia — isto é, arruinado. Vejo António Costa, em Lisboa, sem oposição à altura, frente a um adversário que afirma que estão de acordo em tudo o que é essencial — como se não houvesse nada a dizer de tudo o que não foi feito por Lisboa. E vejo, entre muitas outras pelejas dignas de nota, a luta de gangues pela Câmara de Oeiras. Quanto ao desfecho no Tribunal Constitucional da arrastada questão da transposição dos autarcas para lá do prazo para um outro concelho, não consegui compreender a indignação da boa gente com a “ambiguidade” da lei e a condescendência do tribunal: se o povo está indignado com os salta-pocinhas, tem um bom remédio para demonstrar a sua insatisfação — votar contra eles.

E assim, tudo isto tendo visto e ouvido, e sobre tudo isto reflectido, guardo destas quatro semanas de pausa a memória de um Verão como talvez não viva outro, iluminando um país todavia perdido. Mas sim, era, ainda é, possível fazer melhor. Mas não apenas com outro governo: com outra gente.


MIGUEL SOUSA TAVARES

 

 



 



publicado por Elisabete às 17:02
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