Quarta-feira, 23 de Maio de 2007

ANTERO DE QUENTAL

“Por mim penso, que, em Antero de Quental, me foi dado conhecer,

neste mundo de pecado e de escuridade, alguém, filho querido de Deus,

que muito padeceu porque muito pensou, que muito amou porque

muito compreendeu, e que, simples entre os simples, pondo a sua

vasta alma em curtos versos – era um Génio e era um Santo!”

Eça de Queirós, “Antero de Quental” in Memoriam

 

 

Retrato de Antero de Quental (Óleo de Domingos Rebelo)

 

Em 22 de Maio de 1871, Antero de Quental faz a abertura das Conferências do Casino, com a discussão de "O Espírito das Conferências".
O aniversário deste acontecimento, de grande repercussão política e intelectual na vida portuguesa da época, serve-me apenas de pretexto para homenagear Antero de Quental, um pensador português, dos Açores, que é, quanto a mim, um dos maiores vultos da cultura portuguesa. E, acima de tudo, um grande homem.
 
Que dizer deste homem, tocado pelo génio, que fez do Bem, da Liberdade, da Justiça e da Virtude o seu ideal supremo? E que, mais do que apregoá-lo na sua obra, procurou vivê-lo no dia-a-dia, na rotina entorpecedora do quotidiano. É precisamente quando trata dos pequenos problemas do quotidiano, através das cartas que escreveu a familiares e amigos mais íntimos, ou quando dele falam esses mesmos amigos, que nos apercebemos da grandeza deste homem, do seu sentido de justiça, da delicadeza extrema com que respeita os amigos. (Que grande exemplo, para os dias que correm, a sua recusa de “meter cunha” a um amigo bem colocado, para um familiar desempregado, por considerar não ter o direito de o colocar numa situação embaraçosa.) Encontramos sempre a preocupação de ser justo, de não prejudicar quem quer que seja, de respeitar a liberdade dos outros, de prestar ajuda amiga àqueles que dela precisam (como adoptar as filhas do seu amigo Germano Meireles, falecido em 1877). 
É essencialmente por causa destas pequenas/grandes atitudes, mas também pela beleza e elevação moral do seu pensamento, que julgo poder concluir estarmos perante uma índole boa e bela, uma natureza sensível, altruísta, pronta para a compreensão e para a dádiva. Antero tinha uma fé imensa na força do amor: “Quem ama verdadeiramente, quer e pode. O amor da pátria, o amor dos homens, o amor da justiça, o amor da verdade transfiguram e elevam as mais vulgares inteligências.” Foi a estes amores que se deu, tentando pôr a vontade ao serviço da razão, usando a sua liberdade de acordo com os valores éticos que a sua consciência exigia.
Desde muito novo que sabe que a sua missão é transformar os homens e a sociedade. Até ao fim, defendeu e lutou, como pôde e soube, pelos valores que considerava importantes e essenciais. Antero viveu atormentado pela dúvida, em permanente conflito consigo mesmo e com a validade das certezas a que, por vezes, chegava. Mas não será isso o que de mais humano existe em nós? As dúvidas, as interrogações são talvez pouco práticas na luta pela sobrevivência ou na consecução de projectos, mas são uma manifestação de “largueza de vistas”, de abertura de espírito, de ausência de qualquer espécie de dogmatismo ou de fanatismo. Por outro lado, sendo um pensador lúcido, racional, tinha alma de poeta e de místico. A razão nem sempre triunfava e, por vezes, a imaginação, o seu lado emocional, acentuado possivelmente pela doença de que sofria, revelava um outro Antero (“o nocturno”) em tudo diferente do Antero “luminoso”, no dizer de António Sérgio. Mas é também isso que faz dele um homem inteiro. A personalidade de Antero era demasiado rica para que não reunisse em si todos os contrastes da natureza humana. Via demasiado longe para que seguisse um único caminho, exacto e definitivo e, portanto frio, sem ser assaltado pela inquietação que traz o conhecimento da relatividade das coisas. Apesar dos desânimos e das incertezas, a meta lá estava e era sempre a mesma: atingir o Bem, a Justiça, o Absoluto, acreditando na capacidade do homem para lá chegar, praticando a virtude e valorizando o seu lado espiritual. Para lá desta vida feia e rude, a sua maravilhosa fé no futuro: “Sim! que é preciso caminhar avante! / Andar! passar por cima dos soluços! / Como quem numa mina vai de bruços, / Olhar apenas uma luz distante.” Era talvez a utopia. Mas não serão as utopias que mudam os rumos da História?
No seu suicídio, em 1891, verão alguns o fracasso, a falência da sua vida e outros um acto de coerência, levada às últimas consequências. Seria, neste caso, o despir definitivo da individualidade para que o “eu” pudesse mergulhar no espírito universal, absoluto e eterno.
Se é certo que se sentia desiludido e frustrado pela dificuldade (ou mesmo impossibilidade) que sentia na concretização do seu projecto social, não podemos esquecer que Antero concebia a transformação social a partir da transformação do homem, da criação do “homem novo”. Assim sendo, a falência resulta do egoísmo, da recusa da prática da virtude e da resistência do homem à sua espiritualização. Antero, que tinha começado por se transformar a si próprio, encontra-se, a dada altura, isolado, sozinho. E essa solidão, esse isolamento, impedem-no de continuar a lutar, a ele que tinha escolhido ser um combatente. Impossibilitado da acção, que considerava ser a única coisa por que valia a pena viver, prefere suspender a vida. Para o homem que pensa “Que sempre o mal pior é ter nascido.”, a morte é uma libertação. Deixando de ser, ele vai encontrar a paz, o fim do sofrimento que a existência impõe ao homem. Creio que Antero sempre viu a existência como um reflexo grosseiro de uma outra vida a que o seu coração aspirava.
O conhecimento que tenho da obra de Antero é limitado e, portanto, as reflexões e conclusões (?) a que chego são incompletas e, talvez, parciais. É impossível manter a imparcialidade quando falamos de alguém cujo sentir está tão próximo do nosso. Antero consegue iluminar com a sua clarividência, com o seu espírito superior, desejos, sonhos, sentimentos que, confusamente, trago dentro de mim. Por isso me é tão difícil abandonar este tom de devota admiração, por isso ele não pára de me fascinar.
Nesta época que vivemos, em que por detrás da fachada de alguns valores eticamente aceitáveis, se esconde apenas o amor ao dinheiro e ao lucro, um individualismo feroz, um egoísmo que permite esmagar tudo e todos à nossa passagem, era com certeza benéfico divulgar a autenticidade de Antero de Quental. Saber que há valores que nos tornam mais humanos, saber que a utopia melhora sempre a realidade, saber que há homens capazes de empenhar a vida no bem comum, talvez nos leve a acreditar que nem tudo está perdido e que ainda é possível sonhar e construir um mundo melhor. É, com certeza, incómodo interrogarmo-nos muito, talvez doa demais a inquietação e a incerteza que sentimos quando procuramos um sentido para a vida e para nós próprios, mas se nos deixarmos atolar nas meras preocupações da sobrevivência e do simples bem-estar material, estaremos a abdicar da nossa qualidade de seres pensantes, estaremos a coarctar a nossa humanidade.
Com Antero, vou continuar esta reflexão que iniciei, afinal, sobre mim própria, sobre os meus sonhos e aspirações, sobre a vida que me coube. Porque as suas preocupações, as suas dúvidas, as suas angústias, são também as minhas, porque são as de toda a humanidade. Afinal, não andará o homem, em tudo o que faz, à procura de si próprio?

 

publicado por Elisabete às 08:57
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