Sexta-feira, 1 de Junho de 2007

ESCOLA PÚBLICA / ESCOLA PRIVADA

A escola que é um manifesto contra o "eduquês"
23.05.2007
É privada, escolhe os professores, recebe todos os alunos do concelho, dos pobres aos ricos, ensina a tabuada, tem quadro de honra, não vai em modas. Fica em Arruda dos Vinhos e perceber como lá se ensina desfaz muitos mitos sobre como deve ser o sistema de ensino.
 
Fica em Arruda dos Vinhos, concelho rural dos arredores de Lisboa. É a única escola desse concelho que tem terceiro ciclo do ensino básico e, por esse concelho ter sido o único onde a média a Matemática nos exames nacionais do 9º ano foi positiva, o PÚBLICO visitou a João Alberto Faria. A reportagem foi publicada segunda-feira, mas vale a pena voltar ao tema. Porque essa escola é um manifesto vivo contra o tipo de políticas que têm degradado a qualidade do ensino em Portugal.
Primeiro: naquela escola entende-se, e citamos, que "a massificação do ensino levou a um menor grau de exigência, mas a Matemática não se tornou mais fácil e mantém as dificuldades próprias da disciplina"- o que requer "esforço e trabalho".
Segundo: naquela escola não se embarca em modas, prefere-se cultivar a exigência. Por isso "o grupo de Matemática é pouco atreito a algumas inovações pedagógicas", por isso defende-se que "saber a tabuada é mais importante do que saber utilizar a calculadora", por isso interditaram mesmo a sua utilização no 2º ciclo.
Terceiro: como sem bons professores não há boas escolas, na Alberto Faria todos os professores são entrevistados antes de serem contratados, explicando-se-lhes qual a filosofia da escola e avaliando se os candidatos estão à altura do que se lhes vai pedir.
Quarto: não há nenhuma relação inelutável entre os bons resultados de uma escola e o nível sócio-económico da região onde se insere. Arruda dos Vinhos está longe de ser um dos concelhos com mais poder de compra e na João Alberto Faria não se seleccionam os alunos, recebem-se todos, mais ricos ou mais pobres. Mais: recebem-se também alunos de concelhos vizinhos, porque, como explicou um aluno do 10º ano que quer ir para Medicina, nela "o nível de exigência dos professores pode ser compensado pelos resultados nos exames, que normalmente tendem a ser melhores". Quem responde bem à exigência possui também o estímulo de figurar no Quadro de Honra da escola.
Quinto: uma direcção escolar focada em disciplinas como Matemática ou Português levou a que o tempo lectivo destinado ao Estudo Acompanhado fosse dedicado só a essas disciplinas. E quando acabam as aulas do 9.º ano os docentes estão disponíveis para dar aulas extra de preparação para os exames de Português e Matemática e ainda todas as que sentirem necessárias para o esclarecimento de dúvidas dos seus alunos.
Tudo o que atrás fica escrito permite que os bons resultados daquela escola se prolonguem no ensino secundário, tendo o ano passado ficado em 32º lugar nos rankings feitos a partir dos resultados a Matemática dos seus alunos no 12º ano. Uma boa posição, se nos lembrarmos que falamos de uma escola que não foi feita para alunos de elite.
Contudo, para o quadro ser completo, é necessário sublinhar outra: esta é uma escola privada. O seu nome completo é Externato João Alberto Faria. Mas os seus alunos não pagam para a frequentarem, pois, como é a única do concelho, tem um contrato de associação com o ministério. Estes contratos de associação são relativamente raros no país, havendo mesmo assim quem defenda que o Estado devia construir escolas públicas ao lado de estabelecimentos privados como este. Mesmo que tal saísse muito mais caro. E resultasse numa menor qualidade de ensino. Só que a Alberto Faria mostra como fazer o contrário pode resultar muito melhor.
Tudo o que atrás fica escrito permite que os bons resultados daquela escola se prolonguem no ensino secundário, tendo o ano passado ficado em 32º lugar nos rankings feitos a partir dos resultados a Matemática dos seus alunos no 12º ano. Uma boa posição, se nos lembrarmos que falamos de uma escola que não foi feita para alunos de elite.
Contudo, para o quadro ser completo, é necessário sublinhar outra: esta é uma escola privada. O seu nome completo é Externato João Alberto Faria. Mas os seus alunos não pagam para a frequentarem, pois, como é a única do concelho, tem um contrato de associação com o ministério. Estes contratos de associação são relativamente raros no país, havendo mesmo assim quem defenda que o Estado devia construir escolas públicas ao lado de estabelecimentos privados como este. Mesmo que tal saísse muito mais caro. E resultasse numa menor qualidade de ensino. Só que a Alberto Faria mostra como fazer o contrário pode resultar muito melhor.
Conclusões? Que se as escolas escolhessem os professores, se os alunos escolhessem as escolas, se o Estado se limitasse a dar orientações gerais, em vez de dirigir, e desse um cheque-ensino aos alunos menos abonados que quisessem ir para uma escola mais exigente, ou melhor, privada e paga, ganharia a qualidade de ensino e o ministro das Finanças agradeceria. Só os interesses instalados se revoltariam.
José Manuel Fernandes
 
 
 
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Recebi, por e-mail, este texto que passo a comentar.
 
1º A escola em questão foca a sua atenção no ensino do Português e da Matemática. Aceito que são disciplinas que servem de base a todas as outras, mas não podem, nem devem, ser as únicas a merecer atenção especial. Para todas é necessário rigor e exigência (por parte dos professores e da Escola) e esforço e trabalho (dos alunos);
 
2º Escolhe os professores e explica-lhes a filosofia da escola. Mais uma vez, o problema é, muito convenientemente, dos professores... Esquece-se que, no Ensino Público, os professores são obrigados a aceitar a filosofia do Ministério da Educação e a ter de embarcar nas tais inovações pedagógicas, com que nem sempre estão de acordo.
 A entrevista pretende, também, apurar se os professores estão à altura... Meus senhores: todos os professores têm de estar à altura da função que vão exercer. Se não estão, de quem é a culpa? De quem os prepara, com toda a certeza. Não é professor quem quer. É professor quem tem habilitações e formação adequadas para o ser. Se partimos do princípio que alguns não têm competência é porque, mais uma vez, o sistema de formação falha. Quem estabelece e controla esse sistema? Os Ministérios da Educação e do Ensino Superior... não é? 
 
3º Esta é uma escola privada, mas os seus alunos não pagam para a frequentarem, pois, como é a única do concelho, tem um contrato de associação com o Ministério.
Isto é de bradar aos céus!!! Como é que o Ministério subsidia uma escola cujas regras e práticas pedagógicas são contrárias àquelas que impõe nas escolas públicas? Não quero ser cínica, mas o que parece é que são os próprios responsáveis do Ministério da Educação que pretendem provar a excelência do ensino privado.
Os professores dão aulas suplementares, suponho que não remuneradas, como convém aos donos das escolas privadas. Se houvesse justiça neste cruel mundo capitalista, nenhum trabalhador deveria trabalhar gratuitamente. Mas não julguem que, no ensino oficial, isso não acontece. Há também professores a dar aulas suplementares, para os exames. Isto para não falar, porque quem não é professor não compreende, das horas e horas de trabalho não contabilizado (e não pago), em casa. Alguém, que não seja professor, faz uma ideia do tempo e da preocupação que demora preparar uma aula ou corrigir um teste ou qualquer trabalho escrito?
Os professores, para além de terem sido considerados “os nómadas do séc. XX”, passaram agora a ser “os escravos do séc. XXI”? Garanto-vos que muitas escolas ainda vão funcionando, graças à “carolice” de muitos professores.
 
4º Esta escola tem alunos ricos e alunos pobres. Estou de acordo quanto a não haver nenhuma relação inelutável entre os bons resultados de uma escola e o nível sócio-económico da região onde se insere. Mas, quando se fala na existência dessa relação, ninguém se está a referir aos alunos duma determinada povoação, salvo raras excepções. Fala-se, sim, de escolas inseridas em bairros degradados das grandes cidades, onde quase todos são pobres de tudo. E, mesmo nessas, admito que há excepções.
 
5º Quanto aos rankings, desculpem-me mas não acredito na sua fiabilidade. E com isto não estou a afirmar que o ensino nessa escola não seja bom. Acredito que sim. Também eu estou de acordo com alguns dos processos que utilizam.
 
Com o que não posso estar de acordo é com a ideia de que o ensino privado seja, por si só, melhor do que o público.
Aceito, no entanto, a crítica que é feita ao estado da Educação a que se chegou em Portugal. Mas não se chegou aqui porque o ensino é público ou porque os professores são maus e desinteressados. Chegou-se a este pântano por culpa das políticas erradas e desastrosas seguidas pelos sucessivos Ministros da Educação. E é preciso que, de uma vez por todas, o poder político assuma as suas responsabilidades perante o povo português.
Como professora que fui, sempre me bati por um ensino de qualidade. Um ensino que diluísse, em vez de aumentar, as diferenças sociais. Mas, o que aconteceu foi uma descida generalizada de nível para um mínimo inaceitável.
 
IMPORTANTE: Quanto aos interesses instalados, não sei ao que se refere. É natural que no Ministério da Educação e nas Direcções Regionais de Educação haja alguns tachos. Gente que tem de mostrar serviço e, daí, mudanças e reformas umas atrás das outras. E no privado? Há o objectivo por excelência: GANHAR DINHEIRO.
Se os pais ricos não se importam de o pagar... nada contra. Agora que seja o Ministério da Educação a dá-lo... já ponho algumas objecções.
publicado por Elisabete às 17:12
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2 comentários:
De José Carrancudo a 20 de Junho de 2007 às 21:06
Deve o Ministério fazer a mesma coisa que essa escola faz: começar pelo Português e Matemática, no ensino primário.

O País está em crise educativa generalizada, resultado das políticas governamentais dos últimos 20 anos, que empreenderam experiências pedagógicas malparadas na nossa Escola. Com efeito, 80% dos nossos alunos abandonam a Escola ou recebem notas negativas nos Exames Nacionais de Português e Matemática. Disto, os culpados são os educadores oficiosos que promoveram políticas educativas desastrosas, e não os alunos e professores. Os problemas da Educação não se prendem com os conteúdos programáticos ou com o desempenho dos professores, mas sim com as bases metódicas cientificamente inválidas.

Ora, devemos olhar para o nosso Ensino na sua íntegra, e não apenas para assuntos pontuais, para podermos perceber o que se passa. Os problemas começam logo no ensino primário, e é por ai que devemos começar a reconstruir a nossa Escola. Recomendamos vivamente a nossa análise, que identifica as principais razões da crise educativa e indica o caminho de saída. (http://educacao-em-portugal.blogspot.com/) Em poucas palavras, é necessário fazer duas coisas: repor o método fonético no ensino de leitura e repor os exercícios de desenvolvimento da memória nos currículos de todas as disciplinas escolares. Resolvidos os problemas metódicos, muitos dos outros, com o tempo, desaparecerão. No seu estado corrente, o Ensino apenas reproduz a Ignorância, numa escala alargada.

Devemos todos exigir uma acção urgente e empenhada do Governo, para salvar o pouco que ainda pode ser salvo.

Sr.(a) Leitor(a), p.f. mande uma cópia ao M.E.


De MC a 17 de Novembro de 2007 às 00:57
Tenho os meus filhos nessa escola. Estou feliz com o ensino de qualidade. Estou feliz com o facto de, como numa escola pública, o ensino ser gratuito. Assim,sinto que os meus impostos são úteis. Estou feliz por terem professores motivados, respeitados e competentes. Estou feliz por, apesar de haver alunos de todos os extractos sociais, não haver "nivelamento por baixo", todos serem estimulados e não se fazerem experiências de ensino alucinadas e alucinantes.

Enfim, uma escola virada para os alunos e para a sua educação, como muitas deviam ser. Esta escola funciona como uma escola pública (admite toda a gente), mas sem os complexos de culpa e tiques habituais dessas instituições. Também não tem nada a ver com o modelo de escola privada elitista e peneirenta. Está inserida na comunidade e reflecte a atitude desta e das pessoas simples que a formam.

Sinto-me cansado de ver tantas discussões de e sobre os agentes de educação e teorias de ensino. Sem duvidar da importância das escolas, queremos é realmente que funcionem bem. Os professores são profissionais como os outros e, todos os que não são professores querem apenas que eles façam o seu trabalho com dignidade e eficácia. Para mim, um professor tem a mesma dignidade de um padeiro, um engenheiro ou agricultor. É tão ridícula a atitude de amesquinhar os professores, como é ridícula a atitude de se falar da sua profissão como algo de transcendente. O respeito conquista-se com resultados e trabalho e os bons professores são normalmente sempre membros respeitados da comunidade (como os bons bombeiros ou os bons pedreiros).

Em resumo, quando as coisas funcionam, não é preciso falar muito.

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