Sábado, 2 de Junho de 2007

O PÂNTANO DA EDUCAÇÃO

Só pela educação pode o homem chegar a ser homem.
O homem não é mais do que aquilo que a educação faz dele.
 
Oxens Tiern
 
 
Estou absolutamente de acordo com o que diz Manuel António Pina no seu artigo, que reproduzo abaixo, e publicado ontem no Jornal de Notícias.
Fui professora muitos anos, sempre me manifestei contra as políticas do Ministério da Educação e, também sempre, sofri por ver os portugueses fazerem dos professores o “bode expiatório”. Por isso, vou transcrever pequenos comentários de alguns dos relatórios que fui fazendo ao longo da minha vida de docente.
 
 
 
A galeria dos horrores
 
A equipa de Maria de Lurdes Rodrigues tem já, por muitos motivos, lugar assegurado na Galeria dos Horrores da Educação em Portugal. Não precisava de ter agora instruído os professores para que "deixassem passar" os erros ortográficos e de construção na avaliação das provas de Língua Portuguesa do 4.º e 6.º anos onde "apenas" estaria em causa avaliar a "competência interpretativa" dos alunos (como se os limites da expressão não limitassem o pensamento e a interpretação). Enquanto em alguns países da Europa o "eduquês" e as hordas das "ciências da educação" batem em retirada, deixando para trás gerações inteiras equipadas com "competências" mas desprovidas de saber, entre nós floresce a "selva oscura" do "aprender a aprender". Não deve haver Ministério da Educação no Mundo que tantas reformas, reformas de reformas e reformas de reformas de reformas faça, tantas "experiências pedagógicas", tantos "projectos-piloto". O resultado está à vista fornadas de jovens são todos os anos despejadas às portas do ensino superior mal sabendo ler, escrever e contar. O que vale é que para tirar certos cursos superiores não é preciso saber ler, escrever e contar e que para arranjar emprego bastam "competências" como conhecer a gente certa ou estar na "jota" certa.
 
Manuel António Pina
 
 
1994
 
Sem estar totalmente satisfeita, porque é sempre possível fazer mais e melhor, em consciência, sei que me esforcei e que procurei desempenhar as minhas funções com profissionalismo e responsabilidade, apesar da implementação da nova reforma e das constantes alterações da legislação provocarem situações de insegurança e exigirem dos professores um empenho e uma entrega que tornam a função docente cada vez mais difícil e menos compensadora.
 
 
1998
 
Tenho procurado, ao longo dos anos, conhecer os meus alunos como indivíduos e como membros duma família e duma comunidade. Só assim, posso tentar iniciar, com eles, um diálogo que valorize a aceitação do que são, mas também a responsabilização para consigo próprios e para com os outros. O facilitismo, que infelizmente se vem instalando, impede que se tornem autónomos e conscientes do caminho que têm de percorrer. Não pode haver crescimento sem esforço, nem sucesso sem trabalho. Na relação, também afectiva, que se estabelece, procuro mostrar-lhes que me importo com o seu presente, mas também com o seu futuro. E que, para que nesse futuro possam ser cidadãos livres e responsáveis, é hoje indispensável adquirir conhecimentos, desenvolver capacidades, interiorizar valores e assumir atitudes compatíveis com esses valores. [...]
Penso que a minha primeira obrigação, como sujeito em devir, é para comigo própria. Não posso dar aquilo que não tenho. Se não procurar crescer e enriquecer-me, como ser humano e como profissional, não terei, com toda a certeza, grande coisa para oferecer aos meus alunos. Invisto, de forma séria, na minha formação, não para obter diplomas ou graus académicos, mas por uma necessidade interior de progredir.
Por isso, estou a fazer Mestrado [...]
Por isso, leio muito. Menos do que gostaria. Por falta de tempo mas, também, por não ter disponibilidades financeiras que me permitam comprar todos os livros de que necessito. E... aqui vai um reparo: Como é possível que, nesta profissão, não possamos sequer incluir nas despesas deduzíveis no IRS, os recibos dos livros e de outras publicações e materiais indispensáveis ao nosso trabalho.
 
2000
 
Reflectir sobre o meu trabalho, sobre esta profissão e sobre os objectivos a alcançar, não é tarefa fácil. Porque não acredito que, em matéria de educação, alguém tenha a certeza de trilhar o caminho certo. Só os resultados podem ser avaliados. E como é do conhecimento de todos, neste momento e a nível geral, os resultados não são os desejados. Parece, por isso, inevitável que os professores deixem de aceitar, acriticamente, o estabelecido e não abdiquem do direito de, por força da sua formação e da sua experiência, tentarem alterar o estado a que chegou a educação em Portugal. Pela minha parte, procuro, como boa profissional que pretendo ser, cumprir as obrigações definidas para qualquer docente, mas como ser livre e pensante que reflecte, critica e transforma. [...]
Os meus alunos... É a eles que pretendo chegar. Muitas vezes, me pergunto o que será bom para eles. O facilitismo, a indisciplina, a falta de rigor, a ausência de esforço e de trabalho? Dito assim, é fácil a toda a gente dizer que não. No entanto, vejo com apreensão tudo isto a instalar-se no sistema, que não promove, a não ser por palavras, a autonomia dos alunos, nem os torna conscientes das responsabilidades que também eles têm de ter. Como jovens de hoje, como cidadãos do futuro.
Não quero parecer derrotista ou completamente desencantada. A nossa profissão é muito desgastante, cheia de incertezas mas, de vez em quando, há alunos que nos surpreendem, assumindo atitudes que provam a interiorização de valores que procuramos transmitir-lhes. Então, por um momento, esquecem-se as desilusões e o desânimo.
A verdade é que gostaria de vê-los felizes na Escola, crescendo física, intelectual e moralmente, cumprindo com prazer os seus deveres, estabelecendo com colegas e professores relações de amizade, de confiança e de respeito. E depois, quando tiverem de ir embora, poder acreditar que estão aptos a enfrentar o mundo do trabalho e, sobretudo, a enfrentar a vida como seres humanos bons, cultos, sensíveis e responsáveis.
Dir-me-ão que é exigir demasiado. Responderei que, do meu ponto de vista, sem exigência, sem fasquias elevadas, não nos afastaremos nunca da mediocridade. Como a História tem demonstrado, essa é a única forma de tornar possível o impossível.
  
 
2004
 
A colocação dos alunos, que não conseguem acabar o 9º Ano (que aos 17, 18 anos soletram com dificuldade e não conseguem perceber uma frase escrita simples), em cursos de tipo profissional (PROFIJ e outros), para os quais, muitas vezes, não têm qualquer vocação, torturando-os com disciplinas como Mundo Actual (com 5 tempos lectivos/semana) e a tendência, perfeitamente justificável, de agrupar alunos oriundos da mesma zona numa mesma turma, acaba por ter como resultado a formação de turmas com aproveitamento e comportamento razoáveis e de outras, verdadeiramente, problemáticas a todos os níveis. Em relação às deste último tipo, o conseguir manter os alunos dentro da sala de aula e evitar que abandonem a Escola é, por si só, um sucesso significativo. Perante as dificuldades que enfrentei com algumas destas turmas, muitas vezes me perguntei se a missão do professor é ser super-herói. É que motivar e educar adolescentes a quem nem os pais, nem a sociedade, nem mesmo a religião, conseguem transmitir as mais elementares regras de comportamento cívico e moral, não é tarefa de simples humanos. A Escola perdeu muito do seu prestígio e muitos alunos, e mesmo pais, não reconhecem a Educação como o bem mais precioso das sociedades, como verdadeiro motor do progresso pessoal e colectivo. Daí o desgaste e o desencanto que esta profissão, presentemente, provoca em grande parte dos professores. 
 
A reflexão sobre o meu trabalho é uma prática diária que, normalmente, me angustia e causa grande inquietação. Por um lado, sei que me empenho em cumprir, com profissionalismo, as funções que me são atribuídas; por outro, tenho consciência da implicações que o meu trabalho pode ter no futuro de muitos jovens e do meu país. Esta responsabilidade é, extraordinariamente, pesada porque, muitas vezes, quero e não posso ou não sei. A decadente sociedade em que vivemos, minada pela mediocridade e por uma crise generalizada dos valores, produziu uma Escola onde se instalou o facilitismo, a falta de rigor, o relativismo, a desculpabilização, a negligência e a desvalorização das referências e das regras.
            Que posso eu fazer para alterar esta situação? Sinceramente, não sei. Sei apenas que uma sociedade verdadeiramente livre e democrática exige cidadãos críticos e participativos, o que implica saber escolher. E como se sabe escolher sem instrução ou sem consciência do bem e do mal? A Educação só terá sentido como aprendizagem contínua que vise, para lá de objectivos profissionais, a qualidade de vida pessoal e o progresso social.
            Penso que há que ter a coragem de fazer uma avaliação honesta e exaustiva dos resultados das teorias pedagógicas postas em prática, no passado recente. É que podemos estar a hipotecar o futuro do Povo Português e, para isso, não há perdão. A Escola tem de ter padrões elevadosde exigência, tem de proporcionar aos jovens um alto nível educativo, sob pena de não cumprir a sua nobre missão.
         Pelo que a mim diz respeito, só desejo ser capaz de não me deixar vencer pelo desânimo e pelo desencanto. Pertenço ao grupo dos que pensam que a Escola se deve preocupar tanto (e muito) em ensinar “a ler, a escrever e a contar”, como a viver com dignidade, a aprender a escolher bem e a usar a razão com responsabilidade, solidariedade e honestidade. Foi isto que a “minha Escola me ensinou” e é assim que encaro a minha vida e a minha profissão.
            É que, como escreve Adam Smith,Por muito egoísta que o homem possa ser considerado, não há dúvidas de que existem alguns princípios na sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte dos outros e considerar a sua felicidade necessária, apesar de daí não retirar nada a não ser o prazer de ver essa mesma felicidade...”.
 
******

Concluindo: Isto é apenas uma “migalha” do que tenho dito. Mas hei-de aqui voltar...

publicado por Elisabete às 15:58
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2 comentários:
De José Carrancudo a 11 de Junho de 2007 às 23:05
Quem tem culpa do estado corrente do sistema educativo, são os governos dos últimos 20 anos que praticavam as experiências irresponsáveis na nossa Escola. Recentemente publicamos uma análise que identifica as principais razões da crise educativa, de ordem metódica, e indica o caminho à saída. (http://educacao-em-portugal.blogspot.com/) Esperemos que o Governo saiba ouvir a voz da razão.
De Elisabete a 12 de Junho de 2007 às 20:00
Estou de acordo: a culpa é dos sucessivos governos e da mania das reformas. É bonito dizer que se é reformador. Só que há boas e más reformas, mas sendo sucessivas, nem dar para ver a qualidade...
Aliás, não é só na educação que isto acontece. Quem, senão os governantes que temos tido, são os reponsáveis pelo estado a que o país chegou?
Vou ver o seu blog, com atenção. Apesar de aposentada, continuo activa na luta por uma educação "decente" no nosso país.
Desejo-lhe paciência e muita coragem para levar os seus propósitos para a frente. Talvez assim se consiga sair do pântano.
Um abraço solidário

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