Domingo, 10 de Junho de 2007

10 DE JUNHO

 

Estátua de Camões (Constância)

 

Cantiga
 
a este moto:
 
Vi chorar uns claros olhos
quando deles me partia.
Oh! que mágoa! Oh! que alegria!
 
VOLTAS
 
Polo meu apartamento
se arrasaram todos d’água.
Quem cuidou que em tanta mágoa
achasse contentamento?
Julgue todo entendimento
qual mais sentir se devia:
se esta dor, se esta alegria!
 
Quando mais perdido estive,
então deu a esta alma minha
na maior mágoa que tinha
o maior gosto que tive.
Assi, se minha alma vive
foi porque me defendia
desta dor esta alegria.
 
O bem que Amor me não deu
no tempo que o desejei,
quando dele me apartei
me confessou que era meu.
Agora, que farei eu
se a fortuna me desvia
de lograr esta alegria?
 
Não sei se foi enganado,
pois me tinha defendido
das iras de mal querido
no mal de ser apartado.
Agora peno dobrado,
achando no fim do dia
o princípio d’alegria.
SONETO
 
O dia em que eu nasci, moura e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo, e, se tornar,
eclipse nesse passo o sol padeça.
 
A luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
a mãe ao próprio filho não conheça.
 
As pessoas pasmadas de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.
 
Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!
ESPARSA
 
do Autor ao desconcerto do mundo
 
Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim
anda o mundo concertado.
 
No mar, tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
 
Os Lusíadas, Canto I (106)

 

 *

*     *

 

A Luís de Camões nada faltava para ser do número dos poetas que escrevem para a eternidade: com a profundidade do sentimento, a lucidíssima claridade intelectual; com as graças da imaginação, a finura da sensibilidade do poeta, capaz de comunicar a observação do concreto, tanto como de insinuar a emoção inefável; e com tudo isto, a vivacidade impressionante da expressão, resultante, é certo, das naturais aptidões da sensibilidade, da imaginação e da inteligência, mas cultivada, também é sabido, com o honesto estudo que lhe não faltou na vida, segundo o seu dizer.
 
Hernâni Cidade, Luís de Camões, o Lírico
É impossível compreender o Camões – naquilo em que o Camões é realmente o Camões, e não um César ou João Fernandes – sem aceitarmos a ideia de ser ele verídico nas constantes afirmações do carácter fino, delicado, subtil, estranho, da sua maneira de sentir o amor – e de o pensar. Sim, de o pensar: porque pensava o amor. Pensava e sentia simultaneamente: nele, o sentir era pensamento; e o pensamento, sentir.
 
António Sérgio, Ensaios
 

 

 *

 *          *

 

 "Os Emigrantes", de Domingos Rebelo

 

 *

*      *

 

A todos os portugueses, espalhados pelo Mundo, o meu abraço.

Se quiserem e puderem, voltem: PORTUGAL PRECISA DE VÓS!

publicado por Elisabete às 09:53
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