Quinta-feira, 31 de Maio de 2007

As minhas perplexidades

 

30 de Maio de 2007

GREVE GERAL

 

 

Esta é pergunta que já fiz, centenas de vezes, a mim própria.

 

Perante a adesão dos trabalhadores portugueses à Greve de ontem, que deveria ter parado o país e não parou, procuro compreender a razão ou as razões, dentro das seguintes alternativas:

 

 

Estão satisfeitos com as políticas do Governo.            
Têm medo de perder os empregos, já de si precários.  
Não se podem dar ao luxo de perder o salário de um dia de greve.   
Já não querem saber de nada e não acreditam nos políticos.  

 

Sinceramente, não sei onde devo pôr a cruz, ou cruzes. E sinto-me perplexa, perdida.

Se os milhares que estão desempregados e os milhares que tiveram de emigrar pudessem fazer greve, o resultado teria sido diferente?

 

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Pergunto ao vento que passa

Notícias do meu país

E o vento fala em desgraça

E não é este o país que eu quis.

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Meu caro Manuel Alegre:

 

Acredite que é com mágoa que altero os seus versos. Chorei, muitas vezes, ao ler  e ao cantar os seus poemas. Nessa altura, apesar da ditadura, acreditava que um dia ia ser possível...

Hoje, parece-me não haver saída. Como Roger Garaudy, afirmo: "Nunca foi tão evidente que o capitalismo é "intrinsecamento perverso" e que o socialismo só é perverso quando traído." E foi o seu Partido que o traiu.

Admito o seu amor ao Partido onde travou as lutas da sua vida. Mas, meu querido Manuel Alegre, não escureça, no fim do percurso, a luminosidade das suas ideias, das suas palavras. Acredita, em consciência, que o Governo está certo? Que tem como principal objectivo o bem do povo português?

 

"O socialismo, ao contrário do capitalismo, só pode estar fundado sobre uma base ética." (Roger Garaudy)

 

 

publicado por Elisabete às 20:30
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Educação (?) a mais...

 “Uma criança educada apenas na escola
é uma criança sem educação.
 
Jorge Sanataya, poeta e filósofo espanhol (1863-1952)
 
 
 
"Não tenho filhos e tremo só de pensar.
Os exemplos que vejo em voltanão aconselham temeridades.
Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas.
Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de
contornos particularmente patológicos.
Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar.
Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis. E um exército de professores explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.
Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho, as quecas de sonho. Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima. Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é excelência, mas sim a felicidade!"
 

João Pereira Coutinho (jornalista)

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Acrescento: Segundo Kant, o importante não é a felicidade, mas "ser dignos da felicidade". Ser dignos da felicidade não é ter direito a ela nem ser capazes de a conquistar de algum modo, mas tentar apagar ou dissolver aquilo que no nosso eu é obstáculo à felicidade, aquilo que acaba por ser radicalmente incompatível com ela.

Concluindo, a tal insatisfação insaciável é um enorme obstáculo à felicidade.

publicado por Elisabete às 18:18
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Quarta-feira, 30 de Maio de 2007

A Educação ou a falta dela (II)

"Só pela educação pode o homem chegar a ser homem.

O homem não é mais do que aquilo que a educação faz dele."

KANT 

 

 

     

 

  

CRIANCINHAS

A criancinha quer Playstation. A gente dá.

A criancinha quer estrangular o gato. A gente deixa.

A criancinha berra porque não quer a sopa. A gente elimina-a da ementa e acaba tudo em festim de chocolate.

A criancinha quer bife e batatas fritas. Hambúrgueres muitos. Pizzas, umas tantas. Coca-Colas, às litradas. A gente olha para o lado e ela incha.

A criancinha quer camisola Adidas e ténis Nike. A gente dá porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é perigoso ser diferente.A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde. A gente senta-a ao nosso lado no sofá e passa-lhe o comando.

A criancinha desata num berreiro no restaurante. A gente faz de conta e o berreiro continua. 
Entretanto, a criancinha cresce. Faz-se projecto de homem ou mulher. 
Desperta.
É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir mesada, semanada, diária. E gasta metade do orçamento familiar em saídas, roupa da moda, jantares e bares. 
A criancinha já estuda. Às vezes passa de ano, outras nem por isso. Mas não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.
A criancinha cresce a ver Morangos com Açúcar, cheia de pinta e tal, e torna-se mais exigente com os papás. Agora, já não lhe basta que eles estejam por perto. Convém que se comecem a chegar à frente na mota, no popó e numas férias à maneira.
A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências, inicia o processo de independência meramente informal. A rebeldia é de trazer por casa. Responde torto aos papás, põe a avó em sentido, suja e não lava, come e não limpa, desarruma e não arruma, as tarefas domésticas são “uma seca”.
Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco minutos pôr nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua sorte, mimo e umbiguismo. A criancinha, já crescidinha, fica traumatizada. Sente-se vítima de violência verbal e etc. e tal. Em casa, faz queixinhas, lamenta-se, chora. Os papás, arrepiados com a violência sobre as criancinhas de que a televisão fala e na dúvida entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do ordenado em folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas bofetadas bem dadas no professor “que não tem nada que se armar em paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu”.
A criancinha cresce. Cresce e cresce. Aos 30 anos, ainda será criancinha, continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda fatia do salário deles. Provavelmente, não terá um emprego. “Mas ao menos não anda para aí a fazer porcarias.”
Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha? Pois não, bem sei. Estou apenas a antecipar-me. Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo. E então teremos muitos congressos e debates para nos entretermos.
Miguel Carvalho, in “Visão Online”
SERÁ  QUE  ISTO É  PURA  FICÇÃO????????????????
 
 

publicado por Elisabete às 14:18
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Terça-feira, 29 de Maio de 2007

A Educação ou a falta dela (I)

"Educai as crianças para que não seja

preciso castigar os homens!"

Pitágoras

 

 

COMO FAZER DO SEU FILHO UM BOM DELINQUENTE
 
·        Desde a infância, dê ao seu filho tudo o que ele deseja. Assim, crescerá pensando que o mundo lhe deve tudo.
·        Se ele disser grosserias, ria-se. Ele julgar-se-á muito engraçado.
·        Não lhe dê formação moral. Quando ele fizer 18 anos escolherá por si.
·        Nunca o repreenda, para que ele não crie um complexo de culpa. Assim, quando for preso por delinquência, pensará que a culpa é da sociedade, que o persegue.
·        Remova-lhe todas as dificuldades. Assim, convencer-se-á de que são sempre os outros os responsáveis.
·        Deixe-o ler, ver e ouvir tudo. Esterelize a sua louça, mas deixe que o seu espírito se alimente de lixo.
·        Brigue na sua presença. Assim, ele não se chocará quando a sua família se desmoronar.
·        Dê-lhe todo o dinheiro que ele quiser, para que ele não se habitue a ganhá-lo.
·        Que todos os seus desejos sejam satisfeitos, se não ele ficará frustrado.
·        Tome sempre o seu partido. Os professores, a polícia e o resto da sociedade querem mal a esse pobre pequeno.
·        Finalmente, quando ele for um bandido consumado, proclame que nunca pôde fazer nada para o evitar.

Prepara-se para uma vida de dor! O mais certo é que você a venha a ter...

(Autor, por mim, desconhecido)

publicado por Elisabete às 19:20
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Segunda-feira, 28 de Maio de 2007

A Propósito dum Filme

  

Quando, em 30 de Outubro de 1995, vi pela primeira vez o filme "As Pontes de Madison County", escrevi uma curta reflexão, que vou transcrever tal como me saiu, há quase 12 anos atrás.

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Tendo como protagonistas principais Clint Eastwood e Meryl Streep, o filme conta a história dum amor impossível, entre um fotógrafo da "National Geographique" e uma dona-de-casa rural do Iowa. É uma visão lúcida do amor. Um grande amor impossível e eterno. Impossível, porque não se pode abandonar marido e filhos, de repente, provocando sofrimento e dor a alguém que nos ama; porque não se pode ser feliz sobre a destruição e a mágoa dos outros, tendo como alicerces sentimentos de culpa e a condenação da nossa própria consciência. Eterno, precisamente por ser impossível. O quotidiano é o pior inimigo do amor. Vai corroendo, lenta mas inexoravelmente, o que, de início, nos parecia indestrutível.

Um filme lindo, duma lucidez tremenda; um tanto amargo mas..., quem sabe?, talvez mostrando o caminho para colocar o amor no seu verdadeiro lugar: o reino da utopia. O amor é uma nesga de sublime, de perfeição e de infinito que conseguimos vislumbrar. Só que a nossa pequenez, a nossa mediocridade, nos impede de alcançá-lo. Ainda mal lhe tocámos e já o conspurcámos e já o destruímos. Somos demasiado fracos e imperfeitos para aguentar a grandeza desse sentimento tão forte e generoso. Parece que temos de matá-lo, rapidamente, para regressarmos ao equilíbrio da nossa mediania. 

publicado por Elisabete às 23:02
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Sábado, 26 de Maio de 2007

ANTES QUE DESAPAREÇAM

 

 Esta fotografia foi tirada no Crato (Alentejo), no dia 1 de Janeiro de 2007, com um objectivo muito concreto: poder mostrar ao meu neto, Diogo, os beirais com ninhos de andorinha. Porque, amarguradamente, temia a possibilidade dele crescer e morrer sem ter conhecimento destas coisas simples, que fizeram a alegria da minha infância. O Diogo é um miúdo, de 6 anos, muito curioso de tudo o que se relaciona com animais. É a minha forma de contribuir para que se mantenha atento à Natureza e que lute, o que for preciso, para salvar este planeta que o homem teima em destruir.

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Poema breve para as andorinhas da minha infância
 
 
Leva-me contigo, andorinha dos dias distantes
Partamos para terras diferentes
Onde o sol brilha.
 
Dá-me o teu voar, prenúncio de horas felizes
Não quero poiso permanente
Chega um abrigo.
 
Ensina-me tudo, alegria dos alvos beirais
Do teu efémero ninho quente
Casa de breve carinho.
 
Partamos agora, andorinha do tempo antigo
Alcança o beiral da minha alma

E leva-me contigo.

 

(Texto escrito para as Noites de Poesia em Vermoim, que uso abusivamente por não saber quem é a autora) 

 
publicado por Elisabete às 16:23
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Sexta-feira, 25 de Maio de 2007

OTA

      

PORTUGUESES

CADA VEZ MAIS ENDIVIDADOS

 

 

Há quem defenda que não deve “o sapateiro tocar rabecão”. Eu, por vezes, gosto de me “armar em atrevida” e falar do que me incomoda. Porque há aquilo a que se chama “bom-senso”, que é uma coisa pouco apreciada neste nosso país de políticos teimosos e especialistas com opiniões divergentes.
Vem isto a propósito da construção do novo aeroporto. O Governo e os seus especialistas querem a Ota; a oposição e outros especialistas querem Rio Frio ou Poceirão. De qualquer modo, todos parecem querer um mega-aeroporto, destruindo o da Portela.
Desculpem, mas o que me parece é que esta gente deve estar no país errado. Quanto mais se “aperta o cinto” aos portugueses, mais megalómanos são os projectos. Para servir quem?
A “sapateira” aqui, quer defender uma ideia que já viu por aí a circular a medo: Manter o aeroporto da Portela (que pode ser usado, essencialmente, para os voos de passageiros cujo destino é Lisboa) e construir um novo aeroporto, de menor dimensão do que a prevista para a Ota (vocacionado para passageiros em trânsito ou que se dirijam para outros destinos, dentro do país). Já ouvi mencionar alguns locais, mas isso não é, por agora, o mais importante. O que é verdadeiramente importante é que se pense, a sério, nesta alternativa. A mim, parece-me a solução ideal. Serve na mesma, ou até melhor, os utentes e, sem dúvida, ficará muitíssimo mais barata.
É preciso bom senso, meus senhores! Não podem construir aeroportos de G8 e reduzir a população a viver em modelo Terceiro Mundo. 
Daqui vai um abraço solidário para os povos do chamado Terceiro Mundo, que não têm culpa nenhuma de nada disto.
publicado por Elisabete às 22:04
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Quarta-feira, 23 de Maio de 2007

AINDA O CASO FERNANDO CHARRUA

"Provedor de Justiça quer explicações da DREN" (Jornal de Notícias, 23/05/2007)

 

"Ministra recusa ir à AR justificar suspensão de professor que disse piada sobre Sócrates" (Jornal de Notícias, 23/05/2007)

 

 

Margarida Moreira (DREN)

 

 

Os "guardiões do poder"
 
A democracia não se faz sem democratas e sem consciência e práticas democráticas. Podem a Constituição e as leis clamar por direitos, liberdades e garantias que, sem gente - sobretudo nos lugares de decisão - que acredite nisso, clamarão no deserto. Pessoas como a directora regional de Educação do Norte, que suspendeu um professor por ele ter gracejado sobre a licenciatura de Sócrates, encontrarão sempre algures um regulamento, uma competência, uma interpretação, para a arbitrariedade. Como escreve a propósito do caso Vital Moreira (http//causa-nossa.blogspot.com), "há-os sempre, os zelosos guardiões do poder, excedendo-se na punição dos que se excedam no desrespeito ao poder. Não se dão conta, os zelosos, que no seu excesso só desajudam quem julgam proteger." Numa canção célebre, José Afonso chamou-os, a esses, os que "lambuzam de saliva os maiorais", de "eunucos". Os maiorais desprezam-nos mas precisam deles, e por isso normalmente vão longe. A referida directora regional de Educação (!) reconheceu em tempos (JN, 15/10/2006) que "estamos no século XXI e ainda temos muita herança do tempo do Estado Novo". Não, senhora directora regional, não é "herança do Estado Novo" (o Estado Novo tem as costas largas); é pior que isso, é a natureza humana.
Manuel António Pina, "Jornal de Notícias", 23/05/2007
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Infelizmente, é por causa deste triste caso, que hoje aparece em todos os órgãos da Comunicação Social, a palavra EDUCAÇÃO, à qual o nosso país devia dar muito mais importância.
Não sei, a não ser pelo que diz o próprio professor suspenso, o motivo da sua suspensão. Sei apenas, que Margarida Moreira chama "insulto grave" ao Primeiro-Ministro àquilo que Fernando Charrua designa de "comentário jocoso"; sei, também que a Ministra da Educação recusa ir ao Parlamento esclarecer a questão.  
O Provedor de Justiça quer explicações e eu, uma simples cidadã deste país, também. Se o professor teve uma actuação passível de processo disciplinar, porque não explica, a senhora directora da DREN, exactamente o que se passou? É que todos nós, portugueses, temos o direito de saber se a perseguição política voltou a Portugal.
Devo dizer que não sou PSD, nem pouco mais ou menos. Devo dizer, também, que fui professora, sou do Norte e, pelo que conheço do percurso desta senhora, não tenho a mínima simpatia por ela.
Não quero, no entanto, defender ou acusar, a priori, nenhum deles. Mas exijo saber o motivo da suspensão! Porque, como diz Manuel António Pina, não há Democracia sem democratas. E quem não é democrata não merece a cadeira do mais ínfimo poder, no Portugal de Abril.
publicado por Elisabete às 18:53
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ANTERO DE QUENTAL

“Por mim penso, que, em Antero de Quental, me foi dado conhecer,

neste mundo de pecado e de escuridade, alguém, filho querido de Deus,

que muito padeceu porque muito pensou, que muito amou porque

muito compreendeu, e que, simples entre os simples, pondo a sua

vasta alma em curtos versos – era um Génio e era um Santo!”

Eça de Queirós, “Antero de Quental” in Memoriam

 

 

Retrato de Antero de Quental (Óleo de Domingos Rebelo)

 

Em 22 de Maio de 1871, Antero de Quental faz a abertura das Conferências do Casino, com a discussão de "O Espírito das Conferências".
O aniversário deste acontecimento, de grande repercussão política e intelectual na vida portuguesa da época, serve-me apenas de pretexto para homenagear Antero de Quental, um pensador português, dos Açores, que é, quanto a mim, um dos maiores vultos da cultura portuguesa. E, acima de tudo, um grande homem.
 
Que dizer deste homem, tocado pelo génio, que fez do Bem, da Liberdade, da Justiça e da Virtude o seu ideal supremo? E que, mais do que apregoá-lo na sua obra, procurou vivê-lo no dia-a-dia, na rotina entorpecedora do quotidiano. É precisamente quando trata dos pequenos problemas do quotidiano, através das cartas que escreveu a familiares e amigos mais íntimos, ou quando dele falam esses mesmos amigos, que nos apercebemos da grandeza deste homem, do seu sentido de justiça, da delicadeza extrema com que respeita os amigos. (Que grande exemplo, para os dias que correm, a sua recusa de “meter cunha” a um amigo bem colocado, para um familiar desempregado, por considerar não ter o direito de o colocar numa situação embaraçosa.) Encontramos sempre a preocupação de ser justo, de não prejudicar quem quer que seja, de respeitar a liberdade dos outros, de prestar ajuda amiga àqueles que dela precisam (como adoptar as filhas do seu amigo Germano Meireles, falecido em 1877). 
É essencialmente por causa destas pequenas/grandes atitudes, mas também pela beleza e elevação moral do seu pensamento, que julgo poder concluir estarmos perante uma índole boa e bela, uma natureza sensível, altruísta, pronta para a compreensão e para a dádiva. Antero tinha uma fé imensa na força do amor: “Quem ama verdadeiramente, quer e pode. O amor da pátria, o amor dos homens, o amor da justiça, o amor da verdade transfiguram e elevam as mais vulgares inteligências.” Foi a estes amores que se deu, tentando pôr a vontade ao serviço da razão, usando a sua liberdade de acordo com os valores éticos que a sua consciência exigia.
Desde muito novo que sabe que a sua missão é transformar os homens e a sociedade. Até ao fim, defendeu e lutou, como pôde e soube, pelos valores que considerava importantes e essenciais. Antero viveu atormentado pela dúvida, em permanente conflito consigo mesmo e com a validade das certezas a que, por vezes, chegava. Mas não será isso o que de mais humano existe em nós? As dúvidas, as interrogações são talvez pouco práticas na luta pela sobrevivência ou na consecução de projectos, mas são uma manifestação de “largueza de vistas”, de abertura de espírito, de ausência de qualquer espécie de dogmatismo ou de fanatismo. Por outro lado, sendo um pensador lúcido, racional, tinha alma de poeta e de místico. A razão nem sempre triunfava e, por vezes, a imaginação, o seu lado emocional, acentuado possivelmente pela doença de que sofria, revelava um outro Antero (“o nocturno”) em tudo diferente do Antero “luminoso”, no dizer de António Sérgio. Mas é também isso que faz dele um homem inteiro. A personalidade de Antero era demasiado rica para que não reunisse em si todos os contrastes da natureza humana. Via demasiado longe para que seguisse um único caminho, exacto e definitivo e, portanto frio, sem ser assaltado pela inquietação que traz o conhecimento da relatividade das coisas. Apesar dos desânimos e das incertezas, a meta lá estava e era sempre a mesma: atingir o Bem, a Justiça, o Absoluto, acreditando na capacidade do homem para lá chegar, praticando a virtude e valorizando o seu lado espiritual. Para lá desta vida feia e rude, a sua maravilhosa fé no futuro: “Sim! que é preciso caminhar avante! / Andar! passar por cima dos soluços! / Como quem numa mina vai de bruços, / Olhar apenas uma luz distante.” Era talvez a utopia. Mas não serão as utopias que mudam os rumos da História?
No seu suicídio, em 1891, verão alguns o fracasso, a falência da sua vida e outros um acto de coerência, levada às últimas consequências. Seria, neste caso, o despir definitivo da individualidade para que o “eu” pudesse mergulhar no espírito universal, absoluto e eterno.
Se é certo que se sentia desiludido e frustrado pela dificuldade (ou mesmo impossibilidade) que sentia na concretização do seu projecto social, não podemos esquecer que Antero concebia a transformação social a partir da transformação do homem, da criação do “homem novo”. Assim sendo, a falência resulta do egoísmo, da recusa da prática da virtude e da resistência do homem à sua espiritualização. Antero, que tinha começado por se transformar a si próprio, encontra-se, a dada altura, isolado, sozinho. E essa solidão, esse isolamento, impedem-no de continuar a lutar, a ele que tinha escolhido ser um combatente. Impossibilitado da acção, que considerava ser a única coisa por que valia a pena viver, prefere suspender a vida. Para o homem que pensa “Que sempre o mal pior é ter nascido.”, a morte é uma libertação. Deixando de ser, ele vai encontrar a paz, o fim do sofrimento que a existência impõe ao homem. Creio que Antero sempre viu a existência como um reflexo grosseiro de uma outra vida a que o seu coração aspirava.
O conhecimento que tenho da obra de Antero é limitado e, portanto, as reflexões e conclusões (?) a que chego são incompletas e, talvez, parciais. É impossível manter a imparcialidade quando falamos de alguém cujo sentir está tão próximo do nosso. Antero consegue iluminar com a sua clarividência, com o seu espírito superior, desejos, sonhos, sentimentos que, confusamente, trago dentro de mim. Por isso me é tão difícil abandonar este tom de devota admiração, por isso ele não pára de me fascinar.
Nesta época que vivemos, em que por detrás da fachada de alguns valores eticamente aceitáveis, se esconde apenas o amor ao dinheiro e ao lucro, um individualismo feroz, um egoísmo que permite esmagar tudo e todos à nossa passagem, era com certeza benéfico divulgar a autenticidade de Antero de Quental. Saber que há valores que nos tornam mais humanos, saber que a utopia melhora sempre a realidade, saber que há homens capazes de empenhar a vida no bem comum, talvez nos leve a acreditar que nem tudo está perdido e que ainda é possível sonhar e construir um mundo melhor. É, com certeza, incómodo interrogarmo-nos muito, talvez doa demais a inquietação e a incerteza que sentimos quando procuramos um sentido para a vida e para nós próprios, mas se nos deixarmos atolar nas meras preocupações da sobrevivência e do simples bem-estar material, estaremos a abdicar da nossa qualidade de seres pensantes, estaremos a coarctar a nossa humanidade.
Com Antero, vou continuar esta reflexão que iniciei, afinal, sobre mim própria, sobre os meus sonhos e aspirações, sobre a vida que me coube. Porque as suas preocupações, as suas dúvidas, as suas angústias, são também as minhas, porque são as de toda a humanidade. Afinal, não andará o homem, em tudo o que faz, à procura de si próprio?

 

publicado por Elisabete às 08:57
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Terça-feira, 22 de Maio de 2007

MICHAEL MOORE

O americano intranquilo

 

Foto: AP

 

 

Michael Francis Moore, nasceu em Flint (EUA), a 23 de Abril de 1954. Conhecido pelos filmes e documentários em que critica, severamente, as políticas do governo de George W. Bush e a sociedade americana, recebeu, em 22 de Maio de 2004, a Palma de Ouro do Festival de Cannes, pelo seu filme “Fahrenheit 9/11".

Em 1989, dirigiu “Roger & Me”, um filme que fez história, sobre os habitantes da cidade de Flint, frente ao desemprego criado depois do encerramento de unidades fabris da General Motors. Nesse filme, já são patentes algumas das características que definiriam o seu modo de filmar determinadas realidades angustiantes com uma dose de humor corrosivo que lhe cria tanto admiradores incondicionais quanto inimigos declarados.

O documentário “The Big One” (1997), onde divulgou ao público as tramas das grandes empresas e dos políticos insensíveis e indiferentes, levou a que a multinacional Nike deixasse de utilizar crianças como força de trabalho barata na Indonésia.

De 2002, “Bowling for Columbine” aborda a obsessão pelas armas, nos Estados Unidos, relacionando-a com o massacre ocorrido numa escola de Columbine.

O seu mais recente trabalho “Sicko”, que critica as falhas do sistema de saúde dos Estados Unidos e apresentado, este ano, em Cannes, está a incomodar a administração Bush e Michael Moore receia que o filme seja apreendido pelas autoridades americanas.

Vale a pena reflectir sobre a realidade social e política da nação mais poderosa do mundo, a partir dos filmes de Moore. Talvez deixemos de ver o mundo a cor-de-rosa.

 

 

publicado por Elisabete às 19:47
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Segunda-feira, 21 de Maio de 2007

NELLY SACHS

 

Uma porta é uma faca. Ela divide o mundo em duas partes.

Nelly Dachs
 
 

 

Leonie Nelly Sachs, poetisa e dramaturga de cidadania sueca e de origem judaica, nasceu em Berlim, a 10 de Dezembro de 1891 e morreu em Estocolmo, vítima de cancro, a 16 de Maio de 1970. Ganhou o Prémio Nobel da Literatura, em 1966, com o israelita Shmuel Yosef Agnon.
Era filha dum bem sucedido industrial da moda, William Sachs e de sua esposa Margareta Karger. Cresceu numa área nobre de Berlim. Estudou música e dança, com professores particulares, e desde tenra idade, começou a escrever poesia.
Com a eclosão da II Guerra Mundial, mudou-se para a Suécia (1940). Aprendeu sueco, fez traduções, mas só publicou o seu primeiro livro depois dos 50 anos. Revelou o ciclo de sofrimento, exílios, perseguições e mortes do povo judeu através da poesia (Nas Moradas da Morte, 1947) e do teatro (Sinais na Areia, 1962). Recebeu o Nobel “pela distinta escrita lírica e dramática em que interpreta o destino de Israel com força e precisão”.
 
 
  

MÃE DE LUTO

Depois do deserto do dia,
no deserto do entardecer,
sobre a ponte que o amor
com lágrimas construiu sobre dois mundos,
veio o teu menino morto.
Todos os teus caídos castelos no ar
os cacos dos teus palácios devorados pelas chamas,
cânticos e bênçãos
desmoronados no teu luto,
cintilam à volta dele como um castelo
que a morte não conquistou.

A sua boca orvalhada de leite,
a sua mão que se adiantou à tua,
a sua sombra na parede do quarto
uma asa da noite,
com a lâmpada extinta regressando a casa -
na praia para Deus
espalhado como cibo para pássaros num mar
o som do eco da prece de criança
e o beijo caído por sobre o debrum do sono -
Ó mãe de lembrança,
nada mais é teu
e tudo -
pois as estrelas cadentes buscam
através dos campos de papoilas do esquecimento
no seu caminho de regresso o teu coração,
pois todo o teu conceber
é dor desamparada.


Nelly Sachs,
 Escurecer as Estrelas (1949)

Para os criminosos do Nazismo, só haveria um castigo suficiente: que lhe fosse devolvida a consciência. O Inferno talvez seja isso.

Daniel de Sá

publicado por Elisabete às 21:42
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Domingo, 20 de Maio de 2007

QUE FUTURO?

 

[...] até neste país de pelintras se acha normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! [...]

José Mário Branco, FMI

 

 

DA IMPRENSA ESCRITA DOS ÚLTIMOS DIAS:

 

"Máximo desde 1998

Taxa de desemprego em Portugal sobe para 8,4%" ( Jornal de Negócios)
<><><> 
"Delphi vai mandar 700 operários para o desemprego" (Jornal de Notícias)
<><><>
"O ministro da Economia afirmou esta sexta-feira que a taxa de desemprego poderá baixar se a economia continuar a crescer." ... "Manuel Pinho desvaloriza desemprego." (Correio da Manhã)
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 Infelizmente, não estou a falar dum país inventado. Estou a falar do Portugal de hoje, 20 de Maio de 2007. Do Portugal que tem um governo "socialista", que tem meio milhão de desempregados, que tem 15% da população a viver em 60% do território, onde cresce, todo os dias o número dos sem-abrigo, onde as reformas estão a descer, onde os salários reais estão a baixar, onde os serviços de saúde e os medicamentos estão cada vez mais caros, onde a agricultura está quase destruída, onde se implora às empresas estrangeiras que invistam aqui, etc., etc. Mas falo, também, do país onde os grandes empresários andam satisfeitos, onde os Bancos, as EDP's e outros "ês" têm lucros fabulosos, que tem um Primeiro-Ministro que se gaba do "bem que está a fazer ao país, porque o défice...", que tem um Ministro da Economia que acha normal o desemprego e que a "recuperação" vai resolver tudo e que, entretanto, se passeia em automóveis de milhares de contos. E digo "contos", porque grande parte dos portugueses ainda não compreendeu que 1kg de laranjas custa 160$00 (=80 cêntimos) e não 80$00 (Não esqueçamos que aderimos rápidamente ao euro, porque queríamos pertencer "à linha da frente". Daria vontade de rir se não fosse demasiado trágico). E em nome de quê este país? Em nome da "santa" União Europeia, em nome do "santíssimo" neoliberalismo, em nome da "inevitável" globalização.

E nós, os portugueses? Um povo, com mais de 800 anos de História, sem futuro? Vamos acabar todos como vendedores, de porta em porta, daquilo que os outros produzem? Estou farta!!!

Isto dos governos acusarem sempre o governo anterior da situação, de se desculparem com as exigências europeias, com as regras internacionais, com o envelhecimento da população, com a pouca qualificação dos portugueses, tem de acabar. Se não são capazes de resolver os problemas do país, para que se candidatam? Ofereçam-no aos espanhóis! Ou será que já estão a oferecê-lo? [Nada de confusões! Não tenho nada contra os espanhóis, nem contra qualquer outro povo.] Há, ainda, outra solução muito conveniente. Como é que ainda ninguém se lembrou? A EUTANÁSIA. Para os trabalhadores sindicalizados, para os desempregados, para os reformados com menos de 3000 € de reforma (Sim! Porque as cabeças dos outros são imprescindíveis para o país). Já pensaram nas vantagens? Acabavam-se as greves, os protestos, e poupava-se um dinheirão em subsídios de desemprego e em pensões de reforma. Então é que teríamos um Primeiro-Ministro reformador.

Perdoem-me os leitores deste blog. Sempre que dedico algum tempo à leitura dos jornais, fico neste estado. Hoje é domingo, e como só posso comprar o jornal ao domingo...

E quero, ainda, pedir perdão ao meu país, aos portugueses com mais dificuldades, por ter votado "útil" nas últimas legislativas. Mas, pensando bem, será que há alternativas?

Ainda a palavra de esperança do Manuel Alegre (1):

"Mesmo na noite mais triste

Em tempo de servidão

Há sempre alguém que resiste

Há sempre alguém que diz: NÃO!!!

 

(1) Para o Manuel Alegre, prometo  um post, em breve.

 

  

 

 

   

 

publicado por Elisabete às 17:13
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Sábado, 19 de Maio de 2007

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Mário de Sá Carneiro

Mário de Sá-Carneiro nasceu, em Lisboa, a 19 de Maio de 1890, num edifício da Rua dos Retroseiros (actual Rua da Conceição) e no seio de uma abastada família da alta burguesia, sendo filho e neto de militares.
Perdeu a mãe aos 2 anos de idade e ficou entregue ao cuidado dos avós , indo viver para a Quinta da Vitória, na freguesia de Camarate, aí passando grande parte da infância, apesar de ter perdido, também, a avó aos 9 anos.
Inicia-se na poesia com doze anos, aos quinze já traduzia Victor Hugo e, com dezasseis, Goethe e Schiller. No liceu, teve ainda algumas experiências episódicas como actor e começou a escrever.
Em 1911, com 19 anos matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra, mas não chega a concluir o ano. Aí, contudo, viria a conhecer aquele que foi, sem dúvida, o seu melhor e mais compreensivo amigo: Fernando Pessoa. Desiludido com a «cidade dos estudantes», segue para Paris a fim de prosseguir os estudos superiores, com o auxílio financeiro do pai. Cedo, porém, deixou de frequentar as aulas na Sorbonne, dedicando-se a uma vida boémia, deambulando pelos cafés e salas de espectáculo, chegando a passar fome e debatendo-se com os seus desesperos, situação que culminou na ligação emocional a uma prostituta, a fim de combater as suas frustrações e desesperos.
Na capital francesa viria a conhecer Guilherme de Santa-Rita (Santa-Rita Pintor).
Inadaptado socialmente e psicologicamente instável, foi neste ambiente que compôs grande parte da sua obra poética e a correspondência com o seu confidente Fernando Pessoa.
Em 1912, publicou a peça em 3 actos, AMIZADE, em colaboração com Tomás Cabreira Júnior, e o volume de novelas PRINCÍPIO.
Em Julho de 1913, regressou a Lisboa e publicou a narrativa A CONFISSÃO DE LÚCIO e o conjunto de poemas DISPERSÃO (1914). Em 1915, publicou o conjunto de novelas CÉU EM FOGO.
Com Pessoa e Almada-Negreiros integrou o primeiro grupo modernista português (o qual, influenciado pelo cosmopolitismo e pelas vanguardas culturais europeias, pretendia escandalizar a sociedade burguesa e urbana da época), sendo responsável pela edição da revista literária “ORPHEU”  (e que por isso mesmo ficou conhecido como a Geração d’Orpheu ou Grupo d’Orpheu), um verdadeiro escândalo literário à época, motivo pelo qual apenas saíram dois números (Março e Junho de 1915). O terceiro, embora impresso, não foi publicado, tendo os seus autores sido alvo de chacota – ainda que hoje seja, reconhecidamente, um dos marcos da história da literatura portuguesa, responsável pela agitação do meio cultural português, bem como pela introdução do modernismo no nosso País.
Em Julho de 1915 regressa a Paris, escrevendo a Pessoa cartas de uma crescente angústia, das quais ressalta não apenas a imagem lancinante de um homem perdido no «labirinto de si próprio», mas também a evolução e maturidade do seu processo de escrita.
Uma vez que a vida que fazia não lhe agradava, e aquela que idealizava tardava em se concretizar, Sá-Carneiro entrou numa enorme angústia, que viria a conduzi-lo ao seu suicídio prematuro, perpetrado no Hôtel de Nice, no bairro de Montmartre em Paris, a 26 de Abril de 1916, com o recurso a cinco frascos de arseniato de estricnina. Tinha 26 anos. Extravagante tanto na morte como em vida (de que o poema Fim é um dos mais belos exemplos), convidou para presenciar a sua agonia o seu amigo José de Araújo. E, apesar do grupo modernista português ter perdido um dos seus mais significativos colaboradores, nem por isso o entusiasmo dos restantes membros esmoreceu. No segundo número da revista Athena, Pessoa dedicou-lhe um belo texto, apelidando-o de «génio não só da arte como da inovação dela», e dizendo dele, retomando um aforismo das Báquides, de Plauto, que «Morre jovem o que os Deuses amam».
Verdadeiro insatisfeito e inconformista (nunca se conseguiu entender com a maior parte dos que o rodeavam, nem tão pouco ajustar-se à vida prática, devido às suas dificuldades emocionais), mas também incompreendido (pelo modo como os contemporâneos olhavam a sua poesia), profetizou acertadamente que no futuro se faria justiça à sua obra.
Com efeito, reconhecido no seu tempo apenas por uma fina élite, à medida que a sua obra e correspondência foi publicada, ao longo dos anos, tornou-se acessível ao grande público, sendo actualmente considerado um dos maiores expoentes da literatura moderna em língua portuguesa. Embora não tenha a mesma repercussão de Fernando Pessoa, a sua genialidade é tão grande (senão mesmo maior) que a de Pessoa, mas muito mais próxima da loucura que a do seu amigo.
A terra que o acolheu na infância, Camarate, e a quem ele dedicou também algumas das suas poesias, homenageou-o, conferindo o seu nome a uma escola local. O seu poema Fim foi musicado por um grupo português no final dos anos 80, o Trovante. Mais tarde, o seu poema O Outro foi também musicado pela cantora brasileira Adriana Calcanhoto.
Nalgumas das suas obras, pôde exprimir com à-vontade a sua personalidade, sendo notórios a confusão dos sentidos, o delírio, quase a raiar a alucinação; ao mesmo tempo, revela um certo narcisismo e egolatria, ao procurar exprimir o seu inconsciente e a dispersão que sentia do seu «eu» no mundo – revelando a mais profunda incapacidade de se assumir como adulto consistente.
O narcisismo, motivado certamente pelas carências emocionais, levou-o ao sentimento da solidão, do abandono e da frustração, traduzível numa poesia onde surge com o retrato de inútil e inapto. A crise de personalidade levá-lo-ia, mais tarde, a abraçar uma poesia onde se nota o frenesim de experiências sensórias, pervertendo e subvertendo a ordem lógica das coisas, demonstrando a sua incapacidade de viver aquilo que sonhava – sonhando por isso cada vez mais com a aniquilação do eu, o que acabaria por o conduzir, em última análise, ao seu suicídio.
Se numa primeira fase se nota ainda esse estilo clássico, numa segunda, claramente niilista, a sua poesia fica impregnada de uma humanidade autêntica, triste e trágica.
Por fim, as cartas que trocou com Pessoa, entre 1912 e o seu suicídio, são como que um autêntico diário onde se nota paralelamente o crescendo das suas frustrações interiores.
Na curta vida que viveu, deixou vincada posição no movimento literário modernista. De personalidade inquieta e renovadora, mas anárquica e decadentista, tem na sua poesia dois temas fundamentais: o drama da solidão inevitável e a tragédia da grandeza quimérica perdida. Carente afectivo, reduziu o amor à exaustão das sensações buscadas até aos estados alucinatórios, daí resultando uma insatisfação desesperada e o desengano irreversível dos caminhos trilhados que o arrastavam para o abismo.
Parte da obra poética do escritor foi publicada, em 1937, no volume INDÍCIOS DE OIRO, surgindo posteriormente outras recolhas de poesia e prosa, que consagram a originalidade da sua veia criadora, sempre irregular, mas de intensa expressividade sensorialista, onírica e de forma musical.
A edição, em 1958/59, da sua correspondência com Fernando Pessoa, trouxe importante contribuição para o conhecimento da mentalidade, da problemática e da estética do primeiro modernismo português, ao mesmo tempo que da personalidade de Mário de Sá-Carneiro, como expoente humano e literário duma crise profunda na sociedade do início do séc. XX.

O OUTRO

 

 

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

 
  

FIM

Quando eu morrer batam em latas

Rompam aos saltos e aos pinotes,

Façam estalar no ar chicotes,

Chamem palhaços e acrobatas!

 

Que o meu caixão vá sobre um burro

Ajaezado à andaluza...

A um morto nada se recusa,

Eu quero por força ir de burro.

 

   

 
publicado por Elisabete às 14:18
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Sexta-feira, 18 de Maio de 2007

JOÃO GARCIA

 VOAR

Quem nunca sonhou voar, como uma águia-real, sobre os Himalaias ou, como um condor, sobre os Andes? Ou dançar como Margot Fonteyn ou escalar como João Garcia?  Será que não é tudo a mesma coisa?  

 

 O ponto mais alto da Terra é o Monte Evereste, na cordilheira dos Himalaias, na fronteira entre o Nepal e o Tibete.

 

 

 

 

             O Condor dos Andes

 

 

O alpinista João Garcia nasceu em Lisboa, em 1967. Toda a sua actividade profissional está ligada ao alpinismo. Além das escaladas que já realizou, é organizador de expedições e excursões de aventura e lançou o livro "A mais alta solidão", onde retrata alguns dos acontecimentos mais dramáticos da sua vida.
A sua paixão pelas escaladas começou quando foi pela primeira vez, com 15 anos,  à Serra da Estrela.
A sua primeira ida aos Alpes intensifica e solidifica essa paixão. E a colocação, na Bélgica, numa comissão de serviço no Quartel Supremo das Forças Aliadas deu-lhe oportunidade para desenvolver a sua actividade nos Alpes, dada a proximidade geográfica destes.
A partir deste momento, a sua actividade de alpinista intensifica-se e começa aqui a sua preparação para as escaladas acima dos 7.000m e o começo dos desafios que haveriam de surgir na sua vida.

Recebeu a medalha de Mérito Desportivo por ser o primeiro português a atingir o cume do Evereste, a 8.848m de altitude, no dia 18 de Maio de 1999, aos 31 anos de idade.

publicado por Elisabete às 22:04
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MARGOT FONTEYN

 

 

 

Margaret Hookham Fonteyn, conhecida por Margot Fonteyn, nasceu a 18 de Maio de 1919, no Reino Unido, e morreu no Panamá, em 21 de Fevereiro de 1991. Primeira bailarina absoluta do Royal Ballet de Londres e uma das maiores bailarinas de sempre. Foi muitas vezes partenaire de Rudolf Nureiev, com quem estreou O Paraíso Perdido (1967) e Pelléas e Mélisande (1969).
Ao longo da sua carreira dançou sempre com a mesma Companhia, onde foi um exemplo de modéstia e dignidade. Foi uma interprete de excelência do repertório clássico: Giselle, A Bela Adormecida, O Lago dos Cisnes e todos os que interpretou sob a direcção do coreógrafo inglês Frederick Ashton.
Tornou-se muito popular graças às versões filmadas das actuações do Royal Ballet.
Deixou de dançar no começo da década de 70. Aposentada, foi viver para o Panamá, com o marido que ficou inválido, após um acidente. Morreu de cancro em 1991.
A sua musicalidade e elegância tornaram-se a expressão máxima do que viria a ser o “estilo inglês”.
 
 
 
 
        
     
 

 

   

 

 

  
publicado por Elisabete às 09:11
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Quinta-feira, 17 de Maio de 2007

"I HAVE A DREAM"

17 de Maio de 1954 – O Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América declara ilegal a segregação racial nas escolas públicas norte-americanas.

 

Foi, sem dúvida, uma declaração importante que não passou duma etapa da dura luta empreendida pelos negros americanos, descendentes dos antigos escravos, na defesa dos seus direitos e da sua dignidade.

   

 Em 1960, John F. Kennedy (nascido em 29 de Maio de 1917 e assassinado, em Dallas, em 22 de Novembro de 1963) foi eleito presidente dos EUA, mobilizando os americanos para a conquista do Espaço, o desenvolvimento das tecnologias e a defesa dos direitos cívicos. Um dos problemas da sociedade americana de então era, ainda, a segregação racial.

 

 

O pastor protestante Martin Luther King, prémio Nobel da Paz (1964), orador notável, foi um dos dirigentes negros que mais se esforçou na luta pela igualdade de direitos.
Em 1963, liderou uma manifestação, em Washington, em que participaram mais de 200.000 pessoas. Denunciou com firmeza o racismo e a violência de que os negros eram vítimas. Foi assassinado em 1968. Sucederam-se revoltas de negros em várias cidades. Surgiram grupos que reclamavam o poder negro (black power).
Apesar da perseguição e violência por parte de organizações racistas, como a Ku Klux Klan, os direitos dos negros foram reconhecidos, nos EUA, pelo Estado federal.
Em Dezembro de 1999, o Tribunal de Mênfis, concluiu que Martin Luther King não foi assassinado por um homem sozinho, mas por uma conspiração que incluiu o próprio Governo norte-americano.

 

LUTHER  KING

 

 

Ku Klux Klan on Parade

KU  KLUX  KLAN 

 

 

 

"O  PODER  NEGRO"

 

 
“I Have a Dream”
 
Eu tenho um sonho, um sonho profundamente enraizado no sonho americano.
Sonho que, um dia, esta nação cumprirá, finalmente, o seu princípio sagrado: “Temos como verdade evidente que todos os homens nascem iguais.”
Sonho que, um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos proprietários de escravos se sentarão juntos à mesa da fraternidade.
Sonho que, um dia, até o próprio Estado do Mississipi, reduto da injustiça e da opressão, se transformará num oásis de liberdade e de justiça.
Sonho que, um dia, os meus quatro filhos viverão num país em que serão julgados não pela cor da sua pele, mas pelo seu carácter.
 
Discurso de Luther King, na manifestação de 1963, em Washington
 

 

 17 de Maio de 2007

 Estará o sonho de Luther King completamente realizado?

 

 

 

 
publicado por Elisabete às 11:36
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Quarta-feira, 16 de Maio de 2007

"AS BICICLETAS EM SETEMBRO"

Baptista-Bastos é um dos meus escritores preferidos. Tenho todos os seus romances e leio, com o prazer da identificação, as suas crónicas. Lança hoje  "As Bicicletas em Setembro", a que serviu de mote um poema do também jornalista e poeta Eduardo Guerra Carneiro.

"Quis fazer qualquer coisa, diz o autor, que marcasse a minha amizade com o Guerra Carneiro.

O livro pretende ser "uma metáfora do país sufocado que continua a ser Portugal".

 

 "Todos estamos feridos. Mas uns estão muito mais feridos do que outros. São aqueles que se feriram a si próprios, sem disso darem conta. As Bicicletas em Setembro fala de trajectórias amorosas e de que todos os destinos sentimentais ocultam histórias subterrâneas. Fala, também, da beleza perversa das relações humanas, e de que as pessoas suportam tudo, menos a solidão, a separação e a perda. É uma parábola sobre perdedores – todos nós. Porque cada um de nós perdeu alguma coisa."

 

        

         
   
Da vasta obra de Baptista Bastos fazem parte: "O Secreto Adeus",  "Cão Velho entre Flores", "Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura", "Elegia para um Caixão Vazio", "A Colina de Cristal", "O Cavalo a Tinta-da-China" e "No Interior da tua Ausência".

 

 

 

Poeta e jornalista, nascido em Chaves, em 1942, Eduardo Guerra Carneiro suicidou-se no início de 2004, ao que se supõe de madrugada, tendo o seu corpo sido encontrado manhã cedo no pátio do prédio do Bairro Alto onde, sem companhia, morava. 

 

Alguns livros: "Isto Anda Tudo Ligado", "Como Quem Não Quer a Coisa", "É Assim que se Faz a História", "Contra a Corrente", "Lixo ou Dama de Copas". "A noiva das Astúrias".

 

publicado por Elisabete às 17:07
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Terça-feira, 15 de Maio de 2007

VAN GOGH

"Se não ousarmos recusar certas coisas,

não seremos dignos de viver."

 

Van Gogh                          

 

Auto-retrato de Vincent Van Gogh

Auto-retrato de Vincent Van Gogh

 

 

Vincent Willem van Gogh (Zundert, 30 de Março de 1853 - Auvers-sur-Oise, 29 de Julho de 1890) foi um pintor holandês, considerado o maior de todos os tempos desde Rembrandt, apesar de durante a sua vida ter sido marginalizado pela sociedade. 
A sua vida foi infeliz. Foi incapaz de constituir família, incapaz de custear a sua própria subsistência, mesmo incapaz de manter contactos sociais. Sucumbiu a uma doença mental.
A sua fama, póstuma, cresceu especialmente após a exibição de 71 das suas obras em Paris, a 17 de Março de 1901. Só após a morte passou a ser considerado um génio.
Van Gogh foi pioneiro na ligação das tendências impressionistas com as aspirações modernistas.
O Museu Van Gogh em Amesterdão é dedicado à sua obra.
OBS. Como se vê pela frase, era doente mas digno.

 

Van Gogh, A Casa Amarela

publicado por Elisabete às 22:02
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Segunda-feira, 14 de Maio de 2007

ZULEIKA SAQUE

 

 

 

Tive hoje conhecimento, através da revista Tempo Livre do INATEL, que a soprano ZULEIKA SAQUE foi homenegeada, em 7 de Março, no Grémio Literário de Lisboa, e condecorada com a Ordem de Mérito Artístico.

Claro que a Zuleika é sobejamente conhecida no mundo da ópera, em Portugal e no estrangeiro, e merece todas as homenagens. Mas foi a recordação do seu canto que me comoveu e fez regressar a um passado em que eu, ainda menina, frequentava a Temporada de Ópera do Rivoli, no Porto. Entre outros, sempre admirei a Zuleika e a sua irmã, também cantora, Elsa Saque. Por isso, quero deixar aqui a minha homenagem e desejar as maiores felicidades a esta belíssima artista portuguesa.

E... não há bela sem senão. Procurei na Internet informação mais detalhada e quase nada encontrei. O mesmo aconteceu, ontem, quando quis homenagear o cantor Armando Guerreiro, no aniversário da sua morte. Peço, a quem tiver possibilidade de fazê-lo, a divulgação dos nossos artistas líricos e dos seus trabalhos. Mas, é claro, que o melhor é ouvi-los...

Termino, como Manuel Ivo Cruz na revista Tempo Livre, com a poesia de Augusto Gil:

 

Cantam astros, fulgem sóis,

Outros sóis que nunca vi

A não ser quando Ela canta...

Como foi que os rouxinóis

Fizeram ninho, ali,

Dentro daquela garganta?

 

 

Bem-haja, Zuleika, pelos momentos de grande beleza que me permitiu viver!

publicado por Elisabete às 20:52
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Domingo, 13 de Maio de 2007

OSHO e os relacionamentos

Flor


Perguntaram a Osho porque eram tão difíceis os relacionamentos.

Resposta: ”Porque vocês ainda não são. Há um vazio interior e o medo de que, se se relacionar com alguém, mais cedo ou mais tarde, esse vazio seja exposto. E assim, parece mais seguro manter uma certa distância em relação às pessoas; ao menos pode fingir que é.
O relacionamento só é possível entre duas pessoas realizadas. O relacionamento é uma das melhores coisas da vida: significa amor, significa partilhar. Mas antes de poder partilhar é preciso ter. E antes de você poder amar, precisa de estar cheio de amor, a transbordar de amor.
Duas sementes não podem relacionar-se, elas estão fechadas. Duas flores podem relacionar-se: estão abertas, podem transmitir as suas fragrâncias para a outra, podem dançar sob o mesmo sol e com o mesmo vento, podem ter um diálogo, podem sussurrar. Mas isso não é possível com duas sementes. As sementes estão completamente fechadas, sem nenhuma janela – como é que poderiam relacionar-se?
E é esta a situação. As pessoas nascem com a forma de semente; podem tornar-se flores ou não. Tudo depende de si, do que faz consigo; tudo depende de você crescer ou não. A escolha é sua – e a cada momento é preciso enfrentar essa escolha; a cada momento você está numa encruzilhada.
Milhões de pessoas decidem não crescer. Continuam a ser sementes; continuam a ser possibilidades, nunca se tornam realidades. Elas não sabem o que é realizarem-se pelos seus próprios meios, não conhecem todo o seu potencial, não sabem nada acerca do ser. Vivem completamente vazias, morrem completamente vazias. Como podem relacionar-se?
Isso seria exporem-se – a sua nudez, a sua fealdade, o seu vazio. Parece mais seguro manterem-se afastadas. Até mesmo os amantes mantêm a distância; só vão até certo ponto e mantêm-se alerta para saberem quando devem voltar atrás. Têm fronteiras; nunca atravessam as fronteiras, permanecem confinados nas suas fronteiras. Sim, há uma espécie de relação, mas que envolve a posse em vez dum relacionamento.
O marido possui a mulher, a mulher possui o marido, os pais possuem os filhos e por aí fora. Mas possuir não é relacionar-se. De facto, possuir é destruir todas as hipóteses de relacionamento.
Se você se relacionar, você respeita; não pode possuir. Se você se relacionar, há uma grande reverência; vocês tornam-se muito próximos – muito, muito próximos, alcançam uma profunda intimidade, quase se sobrepõem. Você não interfere com a liberdade do outro, o outro continua a ser um indivíduo independente. A relação é do tipo “eu/tu” e não do tipo “eu/isto” – sobrepõem-se, interpenetram-se, mas mantém-se de certa forma independentes.
Dois amantes suportam algo invisível e algo imensamente valioso: uma certa poesia do ser, uma certa música ouvida nos recantos mais profundos da sua existência. Suportam a mesma harmonia, mas continuam independentes. Podem expor-se ao outro, porque não há medo. Eles sabem que “são”. Eles conhecem a sua beleza interior, conhecem o seu perfume interior; não há medo.
Mas normalmente o medo existe, porque você não tem qualquer perfume. Se se expuser, irá simplesmente cheirar mal. Emanará um cheiro de inveja, ódio, raiva, luxúria. Não terá o perfume do amor, da oração, da compaixão.
Milhões de pessoas decidiram continuar a ser sementes. Porquê? Quando podem tornar-se flores e dançar ao vento e ao sol e ao luar, por que é que decidiram continuar a ser sementes? Há uma razão para a sua decisão: a semente é mais segura do que a flor. A flor é frágil. A semente não é frágil, a semente parece forte. A flor pode ser destruída facilmente pelo vento forte. A semente não pode ser tão facilmente destruída pelo vento, a semente está muito protegida, muito segura. A flor está exposta – é uma coisa delicada e está exposta a perigos constantes. Mas a semente é segura: é por isso que milhões de pessoas decidiram continuar sementes. Mas continuar a ser uma semente é continuar morto, continuar a ser uma semente é não viver. É seguro, certamente que é, mas não tem vida. A morte é segurança, a vida é insegurança. Uma pessoa que queira realmente viver tem de correr perigo, constantemente. Uma pessoa que queira alcançar o cume tem de correr o risco de se perder. Uma pessoa que queira subir aos picos mais altos tem de correr o risco de cair de algum lugar, de escorregar.
Quanto maior for o desejo de crescer, mais o perigo tem de ser aceite. O homem real aceita o perigo como sendo o seu estilo de vida e o seu próprio clima de crescimento. Primeiro sejam. Depois, tudo o resto é possível.
Ser é um requisito básico. Se você for, a coragem surge como consequência disso. Se você for, surgirá um grande desejo de aventura, um grande desejo de explorar – e quando você estiver pronto para explorar, conseguirá relacionar-se. Relacionar-se é explorar – explorar a consciência do outro, explorar o território do outro. Mas quando você explora o território do outro, tem de deixar e aceitar que o outro o explora a si; não pode ser um caminho unidireccional. E você só poderá permitir que o outro o explore quando tiver alguma coisa, algum tesouro, dentro de si. Então não haverá medo. De facto, você convida a pessoa, você recebe a pessoa, convida-a a entrar, você quer que ela entre. Você quer que ela descubra o que você descobriu dentro de si mesmo, você quer partilhar isso.
Primeiro seja, depois poderá relacionar-se – e lembre-se: o relacionamento é bonito. Mas primeiro seja. Uma pessoa feliz, cujas energias começam a transbordar, que se torna uma flor, tem de se relacionar. Não é uma coisa que tenha de aprender a fazer, é uma coisa que começa a acontecer. Mas descubra primeiro o seu centro. Antes de poder relacionar-se com qualquer pessoa, relacione-se consigo mesmo. É esse o requisito básico que tem de ser preenchido. Sem ele, nada é possível. Com ele, nada é impossível.” 

Que bom se todos procurássemos compreender-nos e encontrar dentro de nós o tal tesouro para partilhar com os outros. Isto não é um catecismo, nem eu gosto de catecismos ou de gurus. Simplesmente, serve para reflectir, para aprender a viver. Nunca se é suficientemente velho para aprender a viver melhor, de um modo mais verdadeiro e mais afectuoso. Que bom se, cada um de nós, fosse uma flor frágil, que não quer ser semente.


 


publicado por Elisabete às 18:09
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