Terça-feira, 29 de Abril de 2008

Que sentido tem tudo isto?

O novo rosto da fome
  
Um responsável do Banco Mundial chamou-lhe "tsunami". A directora do Programa Alimentar Mundial da ONU (Organização das Nações Unidas) definiu-a como "o novo rosto da fome". A crise gerada pela escalada de preços dos cereais é grave e está mesmo à nossa frente. Mas, como ainda não nos atingiu severamente (quase) negamos a sua existência.
Os sinais aconselham a que lhe prestemos toda a atenção, para não sermos surpreendidos quando a crise se fizer sentir a sério nos nossos bolsos. A França acaba de anunciar que as suas reservas de trigo estão esgotadas. O Brasil (o maior produtor de arroz do Mundo, juntamente com o Vietname) ameaça deixar de exportar. Nos EUA, cadeias como a Wal-Mart começaram a racionalizar as vendas de arroz e farinha. Um susto, portanto.
De onde vem a crise? Da especulação e dos paradoxos que a modernidade sempre gera. Países como a China e como a Índia passaram a ter dinheiro suficiente para satisfazer bem mais do que as necessidades básicas. A mudança dos hábitos alimentares dos chamados "países emergentes" fez aumentar a procura para níveis que a oferta não consegue satisfazer.
 Por outro lado, a crise cai em cima de uma das principais apostas de muitos estados em todo o Mundo - os biocombustíveis. O disparo dos preços do petróleo justifica, cada vez mais, a abordagem a fontes de energia alternativa. Sucede, porém, que é difícil, senão mesmo impossível, explicar à opinião pública a necessidade de continuar neste trilho, quando o número de pessoas seriamente afectadas pela escassez de alimentos não pára de crescer. A mancha dos protestos alastra. E faz mortes. A questão moral que aqui se coloca é, por isso mesmo, tremenda.
Finalmente, a especulação. Para os investidores, os cereais são, nesta altura, puro "ouro". O preço do arroz já chegou a subir, num só dia, mais de 30 por cento! Até quando se manterão os especuladores no mercado é, para já, uma incógnita.
Como se vê, não faltam sinais de preocupação. Que os não queiramos ver releva apenas da distância com que costumamos olhar para as tragédias que não se passam à porta das nossas casas. Esta, contudo, é daquelas que não pedirá licença para entrar.
 
Paulo  Ferreira, Subdirector do JN,
in Preto no Branco, Jornal de Notícias [29.Abril.2008]
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Perante este cenário, que fazer? Como é possível que se especule com o sofrimento alheio? Afinal desenvolvimento, modernidade... têm de ter sempre efeitos nefastos? Será legítimo produzir energia condenando seres humanos à fome e à morte? Que mundo monstruoso é este do início do século XXI? Voltámos à barbárie? Para que servem os senhores da política mundial? Não há quem pare os que vivem da desgraça alheia?
Tantas perguntas sem resposta, tanta indiferença, tanta monstruosidade consentida...
Que fazer? Que fazer? Que fazer?
publicado por Elisabete às 21:02
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Domingo, 27 de Abril de 2008

O absurdo capitalista

 

Ser de Esquerda é não suportar o sofrimento da Humanidade.

José Mário Branco

 

Por mais que queira, não consigo tirar da minha cabeça a Grande Depressão dos Anos 30.

Os sinais da crise que se avizinha, levam-me a temer o pior.

E cismo na incapacidade que os políticos revelam para prever e evitar situações destas.

Renderam-se ao todo-poderoso neoliberalismo sem se importarem com o sofrimento causado a quem fica sem trabalho, sem dinheiro para viver com dignidade, sem esperança.

Isto no "afortunado mundo ocidental"... Porque se pensarmos na África, na América Latina e nalgumas zonas da Ásia, até apetece morrer.

É um facto que, nos tempos que correm, a História (as Humanidades, em geral) tem sido desvalorizada. Talvez porque fala de homens, do bem e do mal que fizeram, do dor que infligiram ou sofreram. É mais fácil lidar com números, com variantes, com "coisas"... Daí a importância que ganhou a Economia, a Estatística. É pena!

Acredito que, se os políticos prestassem mais atenção ao passado, a vida de todos nós poderia ser diferente.

Se calhar, estou enganada; se calhar, a insensibilidade, a indiferença, a estupidez, o egoísmo, adormecem os homens de tal modo que nem os gritos dos que matam os conseguem acordar.

E assim caminhamos, como cegos, para o abismo...

 

A ler, "As Vinhas da Ira", de John Steinbeck (ou ver o filme do mesmo nome)

publicado por Elisabete às 22:58
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Sábado, 26 de Abril de 2008

Antes e depois de Abril: EMIGRAÇÃO

Emigração a salto                              Foto: Gérard Bloncourt (1)

Trova do emigrante
Parte de noite e não olha
Os campos que vai deixar
Todo por dentro a abanar
Como a terra em Agadir
Folha a folha se desfolha
Seu coração ao partir
 
Não tem sede de aventura
Nem quis a terra distante
A vida o fez viajante
Se busca terras de França
É que a sorte lhe foi dura
E um homem também se cansa
 
As rugas que o suor cava
Não são rugas são enganos
São perdas lágrimas e danos
De suar por conta alheia
Não compensa nunca paga
Quanto suor se semeia
 
Em vida vive-se a morte
Se o trabalho não dá fruto
Morre-se em cada minuto
Se o fruto nunca se alcança
Porque lhe foi dura a sorte
Vai para terras de França
 
Não julguem que vai contente
Leva nos olhos o verde
Dos campos onde se perde
Gente que tudo lhe deu
Parte mas fica presente
Em tudo o que não colheu
 
Verde campo verde e triste
Em ti ceifou e hoje foi-se
Em ti ceifou mas a foice
Ceifava somente esperança
Nem sempre um homem resiste
Vai para terras de França
 
Vai-se um homem vai com ele
A marca duma raiz
Vai com ele a cicatriz
De um lugar que está vazio
Leva gravada na pele
Uma aldeia um campo um rio
 
Ficam mulheres a chorar
Por aqueles que se foram
Ai lágrimas que se choram
Não fazem qualquer mudança
Já foram donos do mar
Vão para terras de França
texto: Manuel Alegre
música e interpretação: Manuel Freire
 Bidonville       Foto: Gérard Bloncourt (1)
********************************************
Afinal, o que mudou? Os Portugueses, hoje como ontem, têm de procurar o seu sustento fora da sua pátria.
Na Suíça, na Holanda ou na Espanha, são muitos os casos de portugueses que emigram e que, até!!!, são enganados e escravizados por quem os contrata.
É preciso criar trabalho, em Portugal, para TODOS os portugueses.
É URGENTE CUMPRIR ABRIL!!!
(1) Exposição de fotografia, de Gérard Bloncourt, no Centro Cultural de Belém.
publicado por Elisabete às 16:39
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Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

Relectir Abril com Jorge de Sena

 

NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO...

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de faláeia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do pais no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.
 Jorge de Sena
Santa Bárbara, Fevereiro 1976
(aniversário de uma tentativa heróica
 de conter uma noite que duraria décadas)
(de Quarenta Anos de Servidão, 1979)
publicado por Elisabete às 00:08
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Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

25 de Abril? SEMPRE!!

publicado por Elisabete às 15:27
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Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

A MELHOR DEFESA...

 

Este senhor sabe muito.

Sabe, por exemplo, que "a melhor defesa é o ataque". E, porque sabe que não tem defesa para as asneiras que faz, defende-se... atacando.

Para este senhor, que em má hora foi eleito Primeiro-Ministro, não ser a favor da construção europeia é um crime de lesa-pátria. Mas não é!

A construção europeia é uma ideia bonita, no seu início. Mas em que deu essa ideia bonita? Os grandes da Europa impõem os seus interesses e, em vez de os enfrentarmos, pomo-nos de joelhos, aceitamos tudo e até lhe facilitamos a vida preparando tratados que não defendem os nossos direitos. O senhor Primeiro-Ministro fica todo inchado pelo tratado ficar com o nome de Lisboa, mas esquece que um assunto desta importância deveria ser referendado pelo POVO PORTUGUÊS, como, se não me engano, prometeu.

Depois, prometeu outra coisa: que seria amplamente discutido publicamente. Eu não dei por nada. Vocês deram?

O senhor Primeiro-Ministro gosta de mandar sozinho, não reconhece, nos portugueses, capacidade para decidirem o seu futuro. Nem lhe interessa que eles adquiram essa capacidade. Basta ver o que o seu Governo faz a nível da Educação, que não é mais do que perpetuar a crónica falta de cultura. O que o senhor Primeiro-Ministro quer  é um povo amestrado que abane a cabeça a dizer sim a tudo o que ele decide, como convém aos ditadores.

Qualquer português tem direito a pensar diferente de si, senhor Primeiro-Ministro. E ainda bem que há quem pense! É sinal que um dia destes hão-de tirá-lo daí para fora.

publicado por Elisabete às 17:54
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Terça-feira, 22 de Abril de 2008

PENSAR E DEBATER A EDUCAÇÃO

 

Os meus agradecimentos ao Ricardo Coelho, um jovem com ideias próprias e que não tem medo de ser "politicamente incorrecto".

 

A qualidade no ensino público
Permitam-me a ousadia de falar de qualidade do ensino. A esquerda sempre teve imensa dificuldade em falar disto, talvez por receio de cair num discurso reaccionário. Mas não podemos simplesmente defender que o sistema de ensino deve ser universal, pois de pouco nos serve termos muitos diplomados se os seus conhecimentos são escassos. Por outro lado, temos de ser capazes de discutir a questão da qualidade na sua plenitude, não a reduzindo a uma variável proporcional ao investimento realizado em infra-estruturas.
O que eu vejo hoje nas escolas, por conversas com professores e com alunos a quem dou explicações, é que o nível de avaliação é cada vez mais baixo. Temos hoje cada vez mais alunos com o 12º que não sabem dizer uma palavra em inglês, resolver uma equação elementar ou interpretar um texto. E não estou a falar apenas nos mais pobres, há muitos alunos de famílias ricas e de classe média nestas condições.
Estas são as pessoas que são facilmente manipuladas pelos governantes e patrões, por terem dificuldade em obter e interpretar informações úteis sobre os seus direitos. Estas são as pessoas que são completamente enganadas pelos bancos quando vão pedir um crédito, porque nem sequer sabem calcular uma percentagem. Não sei onde vamos parar quando os quadros das empresas e da administração pública são preenchidos por pessoas com estes conhecimentos mas vem-me sempre à cabeça a imagem do Portugal salazarento.
Como se não chegasse tudo isto, ainda inventaram os programas "Novas Oportunidades" e "Maiores de 23", tudo para dar um diploma a quem nunca acabou o secundário e/ou permitir o acesso ao superior. A intenção é boa, claro, e certamente que devemos criar meios de reinserção no sistema de ensino de quem nunca acabou os estudos. Mas atribuir por acto administrativo um diploma a quem não frequentou aulas e não foi avaliado com exames ou trabalhos é uma anedota de mau gosto. Não só estamos a destruir o que ainda resta do ensino como estamos a enganar estas pessoas, atribuindo-lhes competências que, de facto, não têm. Quem fica a perder são os que se esforçaram todos estes anos, estudando à noite para concluir o 12º. Se tivessem ficado quietos a esta hora podiam ter o secundário completo sem grande esforço.
Descendo o nível de ensino na escola, desce o nível de ensino na faculdade. Muito do que escrevi atrás aplica-se, aliás, a licenciados e até a mestres e doutorados.
Bolonha serviu, entre outras coisas, para piorar o cenário. Licenciaturas de três anos, ao nível de um bacharelato. Mestrados cuja tese será um pequeno trabalho prático ou um relatório de estágio. Doutoramentos que são pouco mais que revisão de literatura. Pergunto: é isto que queremos para o ensino? Pergunto porque não vejo isto a ser discutido. Falta um projecto de esquerda para o ensino, não nos podemos contentar com chavões já gastos.
Dou apenas um exemplo de um chavão que já deveria ter sido ultrapassado: o da auto-aprendizagem e da redução do tempo de aulas. Não me interpretem mal: eu concordo perfeitamente com a ideia de que as actividades extra-curriculares são importantíssimas para o desenvolvimento do indivíduo e a formação de uma sociedade mais coesa. Acho escandaloso, aliás, o que se está a instituir neste momento no Ensino Básico, o conceito de "escola a tempo inteiro". A escola não pode ser uma prisão para os seus alunos nem ser um repositório de crianças para os pais que têm empregos estupidificantes, cujo horário impede de dar o mínimo de atenção aos filhos. Mas daí até dizer que na faculdade, onde se espera outro nível de exigência, se deve reduzir a carga horária quando, pelo menos nos casos em que conheço, é ela perfeitamente adequada às necessidades pedagógicas, vai uma grande distância.
Também concordo com a promoção de um certo grau de auto-aprendizagem. Acho normal até que, à medida que avançamos no sistema de ensino, seja cada vez maior a exigência e cada vez menor a carga horária lectiva. Isso é o que sempre aconteceu, aliás. Mas o conceito de auto-aprendizagem foi "apropriado" - negativamente - por Bolonha, uma vez que foi serviu de argumento para a redução da carga horária e o consequente despedimento de docentes. O resultado é que temos professores no desemprego e alunos deixados à sua sorte. Não me parece que este tipo de auto-aprendizagem possa integrar um projecto de esquerda para a escola.
A auto-aprendizagem faz sentido quando o aluno já tem as ferramentas necessárias para recolher e interpretar informação por si próprio. Não vejo como possa ter grande expressividade em graus inferiores a mestrado, embora concorde com a ideia de que deve ser promovida, embora com os devidos limites impostos pela necessidade de acompanhamento do aluno.
Por outro lado, a defesa da auto-aprendizagem deve ser enquadrada numa análise classista da sociedade. Um aluno que tem um bom ambiente familiar e que conta com a ajuda de pais com elevadas qualificações terá facilidade em aprender de forma autónoma. Mas um aluno proveniente das classes baixas, com pais analfabetos ou quase, não consegue aprender a matéria sem ter um bom acompanhamento por parte dos professores. Daí que o ideal de auto-aprendizagem típico de correntes anarquistas (tão individualistas como as correntes liberais que dizem combater) seja um elemento perpetuador de desigualdades sociais.
A qualidade no ensino não pode apenas ser uma abstracção, construída na base de algumas ideias avulsas sobre o que queremos para as escolas. Apenas integrando o discurso da qualidade num projecto de esquerda para a escola moderna podemos apresentar uma alternativa credível ao sistema de ensino vigente. Doutra forma, ficaremos sempre reféns de uma direita saudosista do tempo da "menina dos cinco olhos".

Ricardo Coelho, militante do Bloco de Esquerda

publicado por Elisabete às 23:42
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MORRA A CORJA, MORRA! PUM!!!

É preciso romper o cerco e afastar a fatalidade.
É preciso dar os murros necessários a esta gentinha medíocre que tomou conta do País.
Eles fazem a opinião pública. Eles conseguem pôr os portugueses de joelhos frente ao "bezerro dourado" do neoliberalismo e do capital.
Andamos todos a "dormir na forma"... É preciso acordar, sob pena de perdermos o futuro.
ACORDA, PORTUGAL!!!
 
publicado por Elisabete às 12:18
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Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

DIA DA TERRA

 

publicado por Elisabete às 21:58
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Domingo, 20 de Abril de 2008

PORQUE A MÚSICA E A POESIA...

FAUSTO BORDALO DIAS reúne no seu último trabalho "18 canções de amor e mais uma de ressentido protesto"

Faz bem deixarmo-nos embalar pela voz doce e pela música melodiosa.
Quanto às palavras, aqui fica um bom exemplo.
**********************************
Em poucas palavras
 
Murmuram os ventos
Nas folhas
Breves do meu diário
Vagueiam proscritos
Os mitos
Do imaginário
Segredam os dias
Das utopias
Sonhadas
Na noite em que foste
A minha namorada
E demos forma ao mundo
Na arte dos magos
Num toque de artistas
Já transformámos
A vida em ouro
Como alquimistas
Pelos sete mares enluarados
Rios e areais
Vou coroar-te no trono
Doido dos vendavais
Ao chegar de mansinho
Como um bandoleiro
Conquistar o teu corpo
Como um guerrilheiro
Apaixonadamente teu
Render-me enfim
Nos teus matagais
Amar-te toda
Como as pedras
E os animais
Mas depois do teu adeus
Do teu último beijo
Leva contigo a lembrança
A paixão, o desejo,
Ai de mim! o rancor
Que ainda guardo e não quero
Se um dia voltares
Francamente eu sei
Eu já não te espero
Será que ando forte
E que te esqueci?
Será que ando fraco
E que me perdi?
Mas em poucas palavras
Ficam belas e doces
Saudades de ti.
 
Porque a música e a poesia... 
publicado por Elisabete às 22:48
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Sábado, 19 de Abril de 2008

Ai, Portugal! Portugal

publicado por Elisabete às 23:01
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REFLEXÃO

 

 

   Tudo o que é necessário para o triunfo

   do mal, é que os homens de bem nada

   façam.

Edmund Burke

 

 

 

 

publicado por Elisabete às 01:54
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Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

NÃO DESISTIR!

Avaliar ou domesticar liberdades?
A senhora ministra da Educação sentou-se, pela primeira vez, com os sindicatos, mas isso não traz ainda a paz às escolas a alma dos docentes (professores e educadores) continua trespassada por tristeza, inquietação, medo, mas também pela esperança.
Tristeza grande, pelos conselhos executivos e pedagógicos vergados e prontos a ferir com a espada do processo disciplinar os colegas que sonhem resistir a quem berra "A lei é a lei!".
É que eles sabem bem da natureza economicista deste modelo de avaliação, da ausência, nele, de um artigo que seja sobre o aproveitamento das avaliações para melhorar o quotidiano escolar ou a formação dos docentes.…

Tristeza magoada também: não querem os sindicatos complicar uma avaliação simplex, que finge e não dignifica, em vez de propor um modelo alternativo?

Inquietação é o que nasce destas tristezas: que ingenuidade ter permitido este ECD (Estatuto da Carreira Docente)! Não define ele os docentes como "um corpo especial da administração pública", esvaziado de autonomia intelectual e sobrecarregado (Artigo 35.º) com funções de administração das "orientações de política educativa", sob pena de punição disciplinar (Artigo 114.º)?
Inquietos, admiram-se da anestesia da alma colectiva face ao divórcio entre legalidade e legitimidade democrática, por um lado, e cuidado ético na acção do Estado, por outro.
Delírio? Não, o próprio Diário da Assembleia da República (03-04-08) abafa com reticências uma confissão terrível do senhor ministro das Finanças, em plena sessão plenária no Parlamento e audível nos media "deixo o juízo moral a quem o quiser fazer"…
Sabendo que a isto acresceu o dito de que ao Estado cabe apenas zelar pela legalidade das suas acções, é de pensar ou não numa anestesia moral do Estado?
Titulares da memória colectiva, os docentes pressentem aqui o silêncio do medo e interrogam-se: não é a prudência ética que distingue o Estado de Direito do Autoritário? Não bastou a Hitler a legitimidade democrática e legal?

Mais, se os responsáveis pelo ECD e pela avaliação na Função Pública são assim, quem arrisca falar publicamente, dar motivos para alguém lançar as garras hierárquicas sobre o seu salário, o seu bem-estar pessoal e familiar?

Porém, os intervalos, cafés ou Internet acolhem murmúrios contra o ECD e esta avaliação, testemunham brindes ao fim desta engenharia que veio para domesticar a autonomia intelectual, a cidadania dos docentes e das gerações futuras, em vez de melhorar o ensino, as aprendizagens, a escola pública.

Abril está aí, cravo de esperança na memória da liberdade. De pé, os docentes contam agora os dias dessa esperança: será precisa a desobediência civil a estas leis para o país perceber que esta avaliação é a ponta visível de uma engenharia social que ignora as liberdades, que crava nos poderes e funções do Estado receptores específicos para a libido dominandi, essa vontade de domínio, mãe de todos os totalitarismos, que tanto sofrimento espalhou pelo século XX?
 
António Mendes (Professor), in
Jornal de Notícias [16.04.2008]
publicado por Elisabete às 16:48
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Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

A Lógica dos Burros

 

Vivemos numa sociedade que empolou em excesso a ideia de integração e o discurso do coitadinho, e quem é professor  sabe bem os efeitos perversos que isto tem nas duas dimensões mais problemáticas, que são o facilitismo e a indisciplina.

G. Mithá Ribeiro [entrevista a NS', revista

de sábado do DN e JN, de 12 de Abril]

 

 

 

Mais um livro que mostra que os Professores são competentes, críticos em relação às políticas educativas e que, acima de tudo, sabem do que falam.

Poderemos não estar de acordo com todas as posições de Gabriel Mithá Ribeiro, mas não há dúvida que é um Professor empenhado, inteligente, lúcido, capaz e corajoso.

Por mim, acho que faz um levantamento muitíssimo correcto dos "males" da Escola Portuguesa. E mais: apresenta soluções. É difícil não estar de acordo com as críticas que faz ou com o seu "politicamente incorrecto".

Para lá dos variados textos, publicados ou inéditos, sistematiza, em 11 pontos, os domínios problemáticos do ensino básico e secundário há muito adiados em que se tem de intervir, de preferência em simultâneo, para que se consolidem transformações substantivas.

Aqui ficam enunciados. Vale a pena ler o livro e, juntamente com outros textos, discuti-lo nas Escolas.

 

 

  1. Combater a indisciplina
  2. Instituir exames nacionais em final de ciclo
  3. Racionalizar a classificação dos resultados escolares
  4. Dignificar a gestão das escolas
  5. Conferir outro enfoque à (re)organização da rede escolar pública
  6. Limpar a poluição burocrática
  7. Reorientar a formação de professores
  8. Travar o lóbi das ciências da educação & associados
  9. Simplificar currículos
  10. Reduzir o número máximo de alunos por turma
  11. Renovar atitudes nos partidos políticos

 

publicado por Elisabete às 22:04
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Terça-feira, 15 de Abril de 2008

ACORDO?... SERÁ QUE ESTAMOS DOIDOS?

 

 

REMENDOS E CÔDEAS

Sempre que se rompe o casaco do povo,

Aparecem uns doutores que descobrem

Que assim não pode ser.

Há que achar remédio,

Seja lá como for.

Vão então negociar com os senhores,

Enquanto cá fora os trabalhadores,

Ao frio, esperam que eles voltem, triunfantes, com

Um belo remendo.

Remendo, sim. Pois bem, mas onde é que ficou

O casaco todo?

Sempre que gritamos "basta temos fome!"

Aparecem uns doutores que descobrem,

Que assim não pode ser.

Há que achar remédio,

Seja lá como for.

Vão então negociar com os senhores,

Enquanto cá fora os trabalhadores,

Cheios de fome, até que voltem, triunfantes, com

Uma bela codea.

Côdea, sim. Pois bem, mas onde é que ficou

a carcaça toda?

Nós não precisamos só desses remendos,

precisamos do casaco por inteiro.

Nós não queremos ficar só com essa côdea,

Precisamos de comer o pão inteiro. 

Não nos basta que o patrão nos dê trabalho,

Precisamos de mandar nas oficinas,

Nos campos e nas minas,

No Poder de Estado.

Disso é que precisamos.

Mas o que é que essa gente tem para oferecer?

Remendos e côdeas!

 

José Mário Branco


publicado por Elisabete às 19:06
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Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

CUIDADO... PROFESSORES!!!

Cuidado com as imitações

Estimado ouvinte, já que agora estou consigo,
Peço apenas dois minutos de atenção.
É p'ra contar a história de um amigo,
Casimiro Baltazar da Conceição

O Casimiro, talvez você não conheça,
A aldeia donde ele vinha nem vem no mapa
Mas lá no burgo, por incrível que pareça
Era, mais famoso que no Vaticano o Papa

O Casimiro era assim como um vidente
Tinha um olho mesmo no meio da testa,
Isto pra lá dos outros dois é evidente,
Por isso façamos que ia dormir a sesta

Ficava de olho aberto
Via as coisas de perto
Que é uma maneira de melhor pensar
Via o que estava mal
E como é natural
Tentava sempre não se deixar enganar
(E dizia ele com os seus botões:)

-Cuidado, Casimiro
Cuidado, Casimiro
Cuidado com as imitações
Cuidado, minha gente
Cuidado, minha gente
Cuidado justamente com as imitações

Lá na aldeia havia um homem que mandava
Toda a gente, um por um, pôr-se na bicha
E votar nele, e se votassem, lá lhes dava
Um bacalhau, um pão-de-ló, uma salsicha

E prometeu que construía um hospital
Uma escola e prédios de habitação
E uma capela maior que uma catedral
Pelo menos a julgar pela descrição

Mas... O Casimiro que era fino do ouvido
Tinha as orelhas equipadas com radar
Ouvia o tipo muito sério e comedido
Mas lá por dentro com o rabinho a dar a dar

E... punha o ouvido atento
Via as coisas por dentro
Que é uma maneira de melhor pensar
Via o que estava mal
E como é natural
Tentava sempre não se deixar enganar
(E dizia ele com os seus botões:)

-Cuidado, Casimiro
Cuidado, Casimiro
Cuidado com as imitações
Cuidado, minha gente
Cuidado, minha gente
Cuidado justamente com as imitações

Ora o tal tipo que morava lá na aldeia
Estava doido, já se vê, com o Casimiro
De cada vez que sorria à plateia
Lá se lhe viam os dentes de vampiro

De forma que p'ra comprar o Casimiro
Em vez do insulto, do boicote, da ameaça
Disse-lhe: "Sabe que no fundo o admiro
Vou erguer-lhe uma estátua aqui na praça"

Mas... O Casimiro que era tudo menos burro
E tinha um nariz que parecia um elefante
Sentiu logo que aquilo cheirava a esturro
Ser honesto não é só ser bem falante

A moral deste conto
Vou resumi-la e pronto
Cada qual faz o que melhor pensar
Não é preciso ser
Casimiro pra ter
Sempre cuidado pra não se deixar levar

-Cuidado, Casimiro
Cuidado, Casimiro
Cuidado com as imitações
Cuidado, minha gente
Cuidado, minha gente
Cuidado justamente com as imitações.

Sérgio Godinho

publicado por Elisabete às 23:15
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Domingo, 6 de Abril de 2008

Afinal... ainda há salvação?

 

3. E, acerca do ensino, uma notícia em França, onde o governo anunciou a supressão de 9000 lugares de professores, no ensino secundário, saíram à rua milhares de alunos, a protestar: querem ensino a sério, não querem ensino economicista. Isto é Cultura: os estudantes franceses reagem segundo a consciência de quem aprendeu a distinguir trigo e joio. Defendem os professores porque eles lhes ensinam o indispensável à sua realização pessoal. Aos nossos alunos andam a esconder essa verdade que não ajuda os que vivem à custa de betão e alcatrão (e ignorância).

Manuel Poppe, in "O Outro Lado",

Jornal de Notícias de hoje

 

Ainda ontem, tracei um quadro bastante negro do futuro. Hoje, com esta notícia, quero deixar aqui um raio de sol... de esperança... de uma periclitante certeza de que ainda podemos travar a queda no abismo.

A solução talvez esteja, em grande parte, nesta exigência que deve ser feita por todos nós:

Sim a um Ensino a sério!

Não a um Ensino economicista!

publicado por Elisabete às 16:14
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Sábado, 5 de Abril de 2008

Desvalorizar os SINAIS

 

CANTATA DA PAZ

 

Letra: Sophia de Mello Breyner Andresen

Música: Francisco Fanhais

 

Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos (REFRÃO)

Não podemos ignorar

 

Vemos, ouvimos e lemos

Relatórios da fome

O caminho da injustiça

A linguagem do terror

 

A bomba de Hiroshima

Vergonha de nós todos

Reduziu a cinzas

A carne das crianças

 

D'África e Vietname

Sobe a lamentação

Dos povos destruídos

Dos povos destroçados

 

Nada pode apagar

O concerto dos gritos

O nosso tempo é

Pecado organizado

 

 

Basta abrir um jornal diáro para ficarmos, imediatamente, em sobressalto. Os títulos mais não fazem do que traduzir o mundo às avessas dos tempos que vivemos.

O Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, fala de crianças que levam armas de fogo para a Escola. Sabe-se que, no último ano lectivo, a apreensão de armas, nas Escolas, duplicou em relação ao ano anterior.

A Ministra já tinha conhecimento. O caminho que encontrou para resolver o problema foi desautorizar, publicamente, os professores e fazer um novo Estatuto do Aluno que desresponsabiliza, cada vez mais, os alunos dos seus actos e incentiva o laxismo e o sucesso fácil. Para além disso, desvaloriza a qualidade das armas: canivetes, armas "a fingir" e espingardas dos pais que são caçadores.

Como é possível os alunos entrarem nas Escolas com espingardas?

Por seu lado, o Secretário Valter Lemos afirmou que "há uma campanha orquestrada contra a escola pública".

Tem razão. Também acho que há. Mas isso não branqueia a acção deste Ministério ou dos anteriores. É evidente que os defensores do Ensino Privado, e a própria Igreja Católica, aproveitam as falhas do Ensino Público para "atacar". No entanto... Será que este Governo quer mesmo um Ensino Público de qualidade? Ou será que faz parte do complot?

O cruzamento destas notícias recordaram-me um e-mail que recebi, há dias, com uma entrevista dada por Marcola, chefe de gangues brasileiros e líder dp PCC (Primeiro Comando da Capital), na prisão, ao Jornal O GLOBO.

Confesso que fiquei arrepiada. Quer queiramos quer não, é este o mundo que estamos a construir. E... ou temos coragem para desenterrar a cabeça da areia e mudar de rumo ou corremos o risco tremendo da destruição.

Não sou alarmista nem pessimista. Sou apenas um ser humano que quer outro futuro. E o passado mostra-me que nunca resultou ignorar os sinais que a vida envia.

Aqui estão eles, com pequenos cortes, que simplificam mas não alteram o conteúdo:

Eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... Que fizeram? Nada. Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo... Nós somos início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão...

Solução? Não há mais solução, cara... A própria ideia da "solução" já é um erro. ... tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até Conference Calls entre presídios...) E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

Você é que tem medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... Mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala... Vocês, intelectuais, não falavam em luta de classes, em "seja marginal, seja herói!"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperevam estes guerreiros do pó, né?

Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... Mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, Internet, armas modernas.É a merda com chips. com megabytes. Meus comandos são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

A gente hoje tem grana. Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório. Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no "microondas"... Ha, ha... Vocês são o Estado quebrado, dominado por imcompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo Klausewitz, "Sobre a guerra". Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... Para acabar com a gente, só jogando bomba atómica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também "umazinha", daquelas bombas sujas mesmo... Já pensou? Ipanema radioactiva?

Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a "normalidade". Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... na boa... na moral... Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós viemos dele e vocês... não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem porquê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogni speranza voi che entrate!" - Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.

 

 

Não vale a pena repetirem-me que a situação, no Brasil, não tem nada a ver com a nossa. Nem com a dos EUA (onde, ainda agora, alunos de 9 anos se preparavam para manietar um professor, com algemas e fita-cola, para depois o atacar à navalhada).

Aparentemente, não tem. Mas a ideia de impunidade que é passada aos nossos jovens não andará muito longe disto. Aos jovens de hoje são reconhecidos todos os direitos, nenhum dever ou responsabilidade. E é-lhes roubada toda a esperança. Que perspectivas de futuro tem a maioria?

Não basta ficarmos satisfeitos porque "ainda não chegamos à situação de outros".

Acham que se deve arriscar e esperar para ver? Como diz o povo: Mais vale prevenir do que remediar!

publicado por Elisabete às 16:15
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