Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

INQUIETAÇÃO

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está p’ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
P’ra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está p’ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda

 

José Mário Branco

Uma bela fotografia, de Lia Costa Carvalho.

A calma da maturidadde?

publicado por Elisabete às 12:31
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Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

As minhas primeiras leituras

 

Estes livrinhos, da Colecção Formiguinha, são os primeiros da minha memória.

O que eu sofria com os "bons" e como achava da maior justiça que, no fim, eles fossem recompensados!

 

 

  

 

 

Há uma de que me lembro em especial.

Uma menina, boa e linda, ajudava uma velhinha a fazer não sei o quê junto de um poço. Como recompensa, sempre que falava, saíam-lhe pedras preciosas da boca. A outra, sempre mal disposta e egoísta, quando soube, foi logo a correr para o poço. Mas... quando a velha lhe pediu ajuda, claro que recusou malcriadamente. Como castigo... em vez de pedras preciosas, saltavam-lhe sapos da boca.

Creio que depois a menina boa acaba por casar com um príncipe, como não podia deixar de ser. Justiça feita.

E eu... sonhava... sonhava... encontrar um dia o meu príncipe encantado e ser feliz para sempre.

publicado por Elisabete às 23:01
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Domingo, 27 de Julho de 2008

REMAR CONTRA A MARÉ

 

 A marcha do caranguejo
 
1.José Régio publicou, no número 14/15, de “Presença” (há 80 anos!), “A Lição Inútil ou Carta a um Juvenil Individualista”, que o leitor poderá encontrar na preciosa edição fac-similada compacta da revista (Contexto) ou em “Páginas de Doutrina e Crítica da Presença” (Brasília Editora). Convinha relê-la e, especialmente, introduzi-la no programa de leituras dos alunos do ensino secundário, cuja pobreza e desconchavo ofendem o bom gosto. O texto de Régio é actual e interveniente: obriga quem lê a pensar e a impor-se a coragem da liberdade individual – e exige, aos outros, que a deixem afirmar-se. Destaco – entre tantas importantes – a seguinte frase: “ser de determinada maneira pessoal e fatal – qualquer coisa que se seja!” Isto é: lutar e descobrir e assumir cada um o seu caminho. Descobrir-se, em diálogo franco e amigo, com os mestres que o ajudarão a escolher-se, oferecendo-lhe ou proporcionando-lhe o mais vasto leque de opções. De ambas as partes, a alegria e a confiança. Fazer-se, pois, o jovem um homem verdadeiro: livre, consciente e habilitado a sempre alargar o aprendido.
 
2.Não creio que a lição de Régio interesse àqueles que, entre nós, decidem da “educação”. Durante o ano escolar que termina, o leque de opções dos alunos reduziu-se: descartaram-se as humanidades e simplificou-se e facilitou-se o que se deveria aprofundar. E aos mestres, espicaçados, rebaixados, desconsiderados, feriu-se, mortalmente, não apenas a auto-estima mas também o amor à profissão. As consequências desastrosas estão à vista dos que percebem o cinismo (e a perniciosidade) de certas “estatísticas”. Em suma: a mentalidade a andar para trás…
 
Manuel Poppe,
 Jornal de Notícias [27.07.2008]
publicado por Elisabete às 22:24
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Terça-feira, 22 de Julho de 2008

Não posso adiar...

 

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.
 
 
António Ramos Rosa

 

publicado por Elisabete às 23:57
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Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

Mar de recordações

 

 

 

Apúlia, a terra dos Sargaceiros e das mantas de sargaço secando ao sol; Apúlia, a praia da minha infância…
 
                            
                     1953                                              1961
                      Linda fatiota de praia                              Na "batota"        
      
Passei por lá... pus-me à cata de vestígios da meninice longínqua. Desse tempo quase mítico, é só o que há: alguns vestígios. E as recordações mirabolantes que saltam, sem licença, para a zona iluminada da memória. Voltar aos lugares do passado ou àquilo que fomos? Tal como as pessoas, os lugares mudam. Para pior, para melhor? Diferentes... já outros.
 
 
 
 A praia cresceu. Para o lado dos moinhos, para o lado das dunas. Centenas de barracas substituem as cerca de trinta dos anos 50/ 60, que serviam meia dúzia de famílias de Barcelos e de Braga (Que será feito da minha amiga Filó?). Gente e mais gente, carros por todo o lado. Lembrar que todos os anos a tia Gé alugava uma carroça, puxada por um burrico, para um passeio até Fão. Dizem as minhas irmãs que: para ver a Volta a Portugal em Bicicleta. Disso não me lembro, mas por que ficou, na minha memória, a imagem da tia pintando, de vermelho, as unhas dos pés, na véspera dessa aventura anual?
 
 
O edifício da Colónia de Férias, que depois foi Hotel e Restaurante Pérola (do Pérola da Avenida, de Barcelos), onde se fez a festa de casamento da minha prima Lisa, ainda lá está, abandonado. O barracão dos Socorros a Náufragos, também. O alvoroço da saída do salva-vidas, descendo a rampa para a praia e empurrado até ao mar, em socorro de barcos de pescadores em perigo. Barcos que íamos ver chegar, com peixe fresco, em melhores marés.
 
 
O mar lá está, com os seus rochedos, mas tudo parece maior, menos aconchegado, menos familiar.
 
 
De todas as memórias, porém, uma se destaca mais intensa: as manhãs de nevoeiro, de forte cheiro a maresia e de “ronca” (sereia ou sirene)  a guiar os pescadores. Enrolados nas toalhas, “virávamos” jogadores de cartas, dentro da barraca fechada.
 
 
É preciso que se diga, para compreender melhor estes tempos, que as casas alugadas eram, quase sempre, residências de pescadores ou de trabalhadores da terra-pouca de onde tiravam o sustento. Saíam de casa, durante o Verão, alojando-se em barracões onde se guardavam cereais e utensílios variados. Elevavam, desta forma, os seus parcos rendimentos… Tempos difíceis! Para todos, mas, como sempre, mais para alguns.

 

publicado por Elisabete às 00:41
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Sábado, 19 de Julho de 2008

DEGAS

Nenhuma arte é menos espontânea do que a minha.”
Degas

 

Auto-retrato

EDGAR DEGAS
[Paris,19.07.1834 – 27.09.1917]
 
Mulheres penteando-se
 
No grupo alegre e ruidoso do Café Guerbois, há alguém que destoa. É o taciturno Degas, marginal do Impressionismo. O seu aristocrático nome de origem, Edgar-Hilaire Germain de Gas, é suficiente para o distinguir de todos aqueles pintores da pequena e média burguesia que, nos finais do século XIX, preparam em Paris a grande revolução da arte moderna.
Até 1873, assina as suas obras como “De Gas”. Faz, depois, a junção das duas palavras, simplificando para Degas.
  

O Absinto

 

Apesar de pertencer ao grupo e de figurar na maioria das suas exposições, Degas cria uma obra singular. Exprime-se, sobretudo, pela linha, valorizando o desenho, ao contrário dos impressionistas que negligenciavam o desenho e buscavam desesperadamente a cor. Raramente pinta cenas ao ar livre; nos seus quadros a luz é artificial: a luz dos interiores das lojinhas, dos cafés, dos quartos de banho. Libertando-se da sua formação clássica, procura descobrir o inédito, agarrar os flagrantes da vida. Busca o efémero nos movimentos dos seres vivos: bailarinas, músicos, modistas, engomadeiras, cavalos.

 

Ensaio de Ballet

 

Mais apreciado, no seu tempo, pelos temas pouco comuns e tido por alguns críticos como um académico disfarçado de revolucionário, é hoje reconhecido como um dos artistas mais responsáveis pela evolução da pintura, pela sua preocupação em acompanhar e traduzir as transformações da sociedade e do homem.

 

publicado por Elisabete às 22:55
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Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Coincidências

 

Francesco Petrarca

[20.07.1304 - 19.07.1374]

 

 

 

Nem tenho paz nem como fazer guerra,
espero e temo e a arder gelo me faço,
voo acima do céu e jazo em terra,
e nada agarro e todo o mundo abraço.

Tem-me em prisão quem ma não abre ou cerra,
nem por seu me retém nem solta o laço,
e não me mata Amor, nem me desferra,
nem me quer vivo ou fora de embaraço.

Vejo sem olhos, sem ter língua grito,
anseio por morrer, peço socorro,
amo outrem e a mim tenho um ódio atroz,

nutro-me em dor, rio a chorar aflito,
despraz-me por igual se vivo ou morro.
Neste estado, Senhora, estou por vós.

Petrarca, Rimas, 134

[tradução de Vasco Graça Moura]

 

 

 

Cesário Verde 

[23.02.1855 - 19.07.1886]

 

 

ARROJOS
 
Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.
 
Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos mignonnes e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.
 
Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.
 
Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.
 
Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.
 
Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.
 
Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.
 
E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.
 
                        Cesário Verde,
                        Diário de Notícias, 22 de Março de 1874

 

 

publicado por Elisabete às 23:20
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Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

A SABEDORIA que FALTA

 

 

 

[...] prever, pelo exercício da razão, o futuro e determinar assim, tão antecipadamente quanto possível, aquilo que de bom ou de mau possa acontecer, bem como aquilo que deve ser feito quando tal suceder, sem que tenha de se ver constrangido a dizer um dia "não tinha pensado nisso".

 

Cícero, Dos Deveres

 

 

 

Não serão estes DEVERES de quem governa?

Se um Governo não tem soluções para evitar o naufrágio no mar revolto da conjuntura internacional, para que precisamos de governantes?

Razão tinham os Gregos da Antiguidade: o governo da "cidade" deveria pertencer aos filósofos.

 

publicado por Elisabete às 00:05
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Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

À Procura do Tempo Perdido

 

 

 

Em mim, também, foram destruídas muitas coisas que julgava que iam durar para sempre, e novas coisas se edificaram, dando nascimento a penas e alegrias novas, que eu não poderia prever então, da mesma forma que as antigas se me tornaram difíceis de compreender.

 

Marcel ProustNo Caminho de Swann,
Em Busca do Tempo Perdido I
 

 

 

Marcel Proust nasce a 10 de Julho em Auteuil (França), no ano de 1871. Pertencendo a uma abastada família de origem judaica, Proust frequenta o liceu Condorcet e, apesar de sofrer de asma, cumpre o serviço militar e estuda Direito na Sorbonne.
Frequenta os salões da alta sociedade, conhece os caprichos da decadente aristocracia parisiense, desmistifica o amor, o desejo e valoriza a arte.
Em 1896, inicia o seu primeiro romance, "Um Amor de Jean Santeuil", que não termina, e publica "Os Prazeres dos Dias". A partir de 1899, dedica-se à tradução do crítico de arte John Ruskin.
Em 1905, com a morte da mãe, recebe uma confortável herança e inicia um progressivo afastamento da intensa vida social a que se habituara.
Inicia o autobiográfico “Em Busca do Tempo Perdido” (À la Recherche du Temps Perdue), à volta das suas memórias. O seu mundo interior torna-se o centro de uma escrita que procura na solidão do seu quarto.
A obra, de sete volumes [“No Caminho de Swann”, “À Sombra das Raparigas em Flor” (Prémio Goncourt), “O Caminho de Guermantes”, “Sodoma e Gomorra”, “A Prisioneira”, “A Fugitiva”, e “O Tempo Redescoberto”], garante-lhe a importância que ocupa nas Literaturas Francesa e Mundial.

  Morre em Paris, no dia 18 de Novembro de 1922, de pneumonia.

 

publicado por Elisabete às 21:35
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Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

A pedido...

Por gentileza do autor, posso satisfazer os vossos pedidos. Aqui fica um capítulo, que não chegou a ser, de O Pastor das Casas Mortas.

 

 

O queijo
 
A casa da Zélia! A cozinha da Zélia, onde as suas mãos faziam feitiços! Estava ainda ali toda a parafernália do encantamento que tornava o seu queijo o mais famoso em feiras e mercados, em lojas de migalhas e mercearias de vender aos quilos. Nas feiras, era a primeira a despachar a venda, e os fregueses esperavam por ela quando ia atrasada.
No entanto, Manuel não lhe imaginava nenhum gesto diferente dos da mãe ou das irmãs. Recompunha a cena na memória, dava-lhe uns retoques de adulto a vasculhar nos trastes do passado e via-a, na leveza volátil do seu corpo, a cirandar como abelha em voos de libelinha.
Levantava-se antes de o Sol nascer para ajudar na ordenha. Depois acendia o lume de giesta e pinho, deitava na panela o cardo esmagado que servia de coalho, e vazava o leite da ferrada coando-o através do pano branco com sal, posto na boca da panela. Talvez nunca tocasse no leite, para saber se a quentura estava no ponto certo, antes de o tirar da lareira. Pronta a coalhada, começaria então a arte do feitiço, quando a sua mão direita a desfazia, continuando a seguir ao passá-la para o cincho na francela. E os apertos para dessorar seriam como os da mãe, e o pano com que envolvia o queijo, o tempo que este demorava a reimar, a água tépida com que era lavado todos os dias e o pano novo que substituía o de cada véspera. Se ela nunca se enganava na quantidade do coalho e do sal, se calculava bem as duas, três ou quatro semanas da cura, conforme era mais ou menos o calor, ou menos ou mais o frio, a mãe tão-pouco. Por isso tinha de haver feitiço nas mãos da Zélia.
O irmão mais novo de Manuel quis uma vez tirar a limpo, na feira, se o queijo dela era mesmo melhor que o seu ou se o principal do sabor entrava primeiro pelos olhos, e nesse caso não por virtude do leite nem dos seus tratos na cozinha, não por ser melhor a madeira da francela nem os cuidados da cura, nem sequer devido às mãos que o faziam, enquanto o faziam, mas durante a venda.
Apanhando-a distraída, trocou um dos seus queijos por um dela e foi dando este a provar aos fregueses que passavam, direitos ao sorriso da Zélia ou vindos de lá já satisfeitos com o sorriso e a compra.
O primeiro freguês meteu à boca o pedacito que lhe fora oferecido, esmagou-o lentamente, distribuiu-o pela parte posterior dos lobos da língua, deteve-se em profunda contemplação interior, engoliu, meditou durante uns momentos, e deu a decisão: “É um bom queijo também, mas o da Zélia é melhor.” E ainda acrescentou, para que não houvesse dúvidas quanto à segurança da opinião: “Basta tocar na ponta da língua, que logo se vê a diferença.”
Desde esse até ao último provador o que não houve mesmo foi diferença na opinião e nas falas que valesse a pena referir ao contar o episódio.
 
Que longe estava agora a Zélia!... Que longe daquela casa e de si mesma, enrolada nas rugas do tempo. Enjaulada numa língua estrangeira na qual até os netos lhe repetiriam todos os dias o ditado da sentença de exilada. Corpo de gazela abaulado pela proibição do salto. Metamorfose inversa de borboleta, da liberdade do voo à asfixia do casulo. Beija-flor num jardim de pedras.
A Zélia partiu, e morreu metade da aldeia. Porque a alma da aldeia não era feita segundo a fórmula matemática da soma das partes. Só nas cidades não se sente a falta ou o ganho de mais ou menos um. Quando alguém deixava a aldeia, ela parecia ficar quase despovoada.
Mais que uma ausência, a despovoação é um sentimento.
Ela voltou lá algumas vezes. Mas voltou apenas enquanto houve gente naquela casa que pudesse sentir a tristeza da chegada. (A chegada que não é de ficar é quase tão triste como a partida. )
No último ano em que estivera na aldeia, prevenira Manuel de que os seus pés decerto não tocariam outra vez tais pedras nem tais atalhos. Vir tão longe para ver tão poucas pessoas, por mais que lhe custasse por elas e pelo cenário dos seus melhores anos, não valia a pena. E chorara, sem lágrimas, o tempo antigo. Ele corrigira-a: “Não tens saudades desse tempo. Tens saudades é da idade que tinhas nesse tempo.”
Zélia concordara. Ela nunca discordara dele, apesar de ser mais velha, o que, pelas normas, queria dizer mais sábia. Mas ainda a emocionava aquela paisagem imensa que fazia a Aldeia Nova da Serra parecer muito maior do que Lisboa ou Paris. E pediu que lhe dissesse o poema do príncipe. Ele fez-lhe a vontade.
 
“Era uma vez
um príncipe valente.
Vivia em seu castelo
numa alta montanha.
Dali via-se o mundo,
o mundo muito longe.
E o mundo visto assim
parecia-lhe bom.
Desceu a conquistá-lo
no seu cavalo branco.
E essa parte do mundo
que os seus olhos não viam
matou-lhe o seu cavalo,
o seu cavalo branco
que era uma cana verde.”
 
Também ela perdera o seu cavalo branco. Já não podia regressar.
 
                                                                                 Daniel de Sá

 

publicado por Elisabete às 14:54
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

O mundo lá de cima e o mundo cá de baixo

 

 

SEM DEMORA
Sou, sem querer, mais uma voz a juntar-se à de tantos e tantos portugueses que vivem mergulhados num grande desânimo quanto ao presente e num grande medo quanto ao futuro. Estes sentires vão-se manifestando um pouco por tudo quanto é sítio e será muito desejável que se lhes acuda a tempo.
Portugal anda muito maldisposto, Portugal está zangado, Portugal não pode esperar mais: os portugueses precisam de trabalho justamente remunerado, precisam de pão na sua mesa, precisam de ver respeitados os seus direitos enganados de saúde, de justiça, de educação, de segurança.
Os responsáveis deste país que ouçam com atenção e humildade os clamores dos cidadãos que lhes confiaram a sua sorte, não tenham em segunda conta ou em conta nenhuma os avisos dos experimentados, atentem bem naquilo que nos dizem de fora – União Europeia – e naquilo que nos dizem cá dentro, como por exemplo, Mário Soares e Presidente da República.
Espantam-nos, a sério, os dois mundos que se vão construindo em Portugal: o mundo lá de cima, dos ultra-ricos e ultra-remunerados, e o mundo cá de baixo, dos pobres e ultrapobres. Até já os da faixa do meio sentem o terreno a fugir-lhes.
Tenho passado a minha vida nesta luta, quantas vezes gritando que a fome é má companhia e má conselheira.
Com todos os meus concidadãos, desejo ardentemente que Portugal viva: com pão, com trabalho, com dignidade, com sonho, com futuro. E continuo a acreditar firmemente que todos juntos podemos e vamos construir um Portugal assim.
D. Manuel da Silva Martins,
in Notícias Magazine [08.JUNHO.2008]
publicado por Elisabete às 17:00
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

A ILUSÃO DE LIBERDADE

 

 

Toda a liberdade é uma prisão sem grades visíveis
a que nos sujeitamos com alegria às vezes
por ignorarmos que ser livre obriga
a ficar preso a voláteis princípios
que se transformam em seres inamovíveis
 
Porque ser livre é estar sujeito sempre
ao imprevisível nunca planeado
constituindo a essência do que somos
aspirando a ser o que nunca seremos
mais do que o rasto que deixamos pelo caminho
feito de espuma que depressa se evapora
 
Nele está contida a nossa identidade
que é sempre o somatório do desconhecido
que só se manifesta cego a posteriori
 
                                                                                                                   Manuel Madeira

 

publicado por Elisabete às 22:27
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