Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Há 74 anos, em Lisboa

Fernando Pessoa

13 de Junho de 1888 - 30 de Novembro de 1935

Última fotografia de Pessoa (de Augusto Ferreira Gomes)

  

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!

Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...

Sem ti correrá tudo sem ti.

Talvez seja pior para outros existires que matares-te...

Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

 

De que te chorem?

Descansa: pouco te chorarão...

O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,

Quando não são de coisas nossas,

Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,

Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

 

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda

Do mistério e da falta da tua vida falada...

Depois o horror do caixão visível e material,

E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.

Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,

Lamentando a pena de teres morrido,

E tu mera causa ocasional daquela carpidação,

Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...

Muito mais morto aqui que calculas,

Mesmo que estejas muito mais vivo além...

 

E depois o princípio da morte da tua memória.

Há primeiro em todos um alívio

Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...

Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,

E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

 

Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:

Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;

Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.

Duas vezes no ano pensam em ti.

Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,

E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

 

Álvaro de Campos

 

publicado por Elisabete às 11:10
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Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Recolhimento religioso

 

Caldelas, 22 de Agosto de 1555 - Não há nada que perturbe mais o homem do que a solidão do semelhante. Em vez de respeitar nela o religioso recolhimento da vida que tenta aprofundar-se, olha-a apenas como um insulto à sua própria dignidade de conviva. E é talvez por isso que os sedentos de silêncio se refugiam nos desertos ou se emparedam. Aí, ao menos, não ofendem ninguém.

 

Miguel Torga,  Diário VII

 

 

publicado por Elisabete às 16:06
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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Mãos-chama

Poema da Hora Escoada
 
 
Minhas mãos
- duas chamas ardendo
na mesma insónia
ou na mesma prece.
Minhas mãos
derretidas em cera
que vai escorrendo
ao longo do corpo hirto
da vela moribunda.
Que vai escorrendo,
lenta,
da luz funérea do meu quarto.
 
E o livro de Anatomia
inútil e tremendo
aberto em frente.
E todo o mundo
que me espera
e desespera
nas páginas inúteis e tremendas
do livro de Anatomia.
 
E as horas morrendo,
rio secando
ou vela que se vai derretendo
no quarto de um morto.
 
Minhas mãos, ai minhas mãos
- duas chamas ardendo
na mesma insónia
ou na mesma prece.
 
- Que horas são?
 
As horas são rios secando
ou vela derretendo
pelas mãos frias
de um corpo morto.
 
Fernando Namora,
in As Frias Madrugadas
publicado por Elisabete às 21:23
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Domingo, 1 de Novembro de 2009

Três Cantos

Coliseu do Porto com casa cheia e ao rubro

 

 

José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto: juntos no Porto, no Coliseu.
Três cantos diferentes, unidos por um mesmo caminho de comprometimento e fidelidade a um ideal. Hoje como ontem. 
O Porto rendeu-se, ontem à noite, a estes três homens, à sua música, àquilo que significam.
Quanto a mim, há anos que não me sentia assim: uma enorme emoção obrigou-me a recuar no tempo e devolveu-me alguma esperança. Esta é, de facto, a minha gente. A gente que rejeita o conformismo e os homens de sucesso, egoístas e indiferentes. A gente que defende os que dormem na valeta, os que não têm acesso à cultura e a uma vida com dignidade. A gente solidária e generosa com quem sonhei, um dia, transformar o meu país.
Sei que a situação é, hoje, muito diferente. Sei que as pessoas mudaram. Sei que eu própria amadureci e já não acredito em milagres. Mas também sei que enquanto houver alguém que se emociona, canta, vibra e chora em comunhão, nem tudo está perdido. E esta noite foi UM MILAGRE! Recuei trinta anos. Voltei à pureza inicial, ao rio quente da fraternidade, à vontade de não desistir, à certeza de que vale a pena continuar a lutar por aquilo que quero para mim e para os outros. Senti-me viva, verdadeiramente viva, como naqueles dourados tempos de Abril.
Obrigada, Fausto!
Obrigada, Sérgio!
Obrigada, Zé Mário!
Continuaremos juntos a avisar e a animar a malta!

 

música:
publicado por Elisabete às 17:04
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