Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

Mudar... por mudar?

Que eu quero procurar trigo,

Meu bem, para te botar:

O dia de dar a mão

É um dia de chorar.

 

in Despiques de Conversados IV (versão da Ilha de S. Jorge), Cancioneiro das Ilhas [Cantos Populares do Arquipélago Açoriano], publicados e anotados por Teófilo Braga (1869)

 

 

 

 

Chuva de arroz

 

António Ribeiro, mais conhecido por Chiado, escreveu o seguinte no Auto das Regateiras: “Que fazeis? Deitai-lhe o trigo quis Deus que fôsseis casado.” Gil Vicente, o seu mais que provável inspirador, também nos deixou escrito algo semelhante na Farsa de Inês Pereira: “E tendes vós aqui trigo para vos geitar por riba.” Quer um quer outro apelam, como lemos, ao arremesso de trigo sobre os casados de fresco. Para quem, como eu, foi criado a ver chuveiros de arroz no final das cerimónias de casamento não pode deixar de ser intrigante a razão da substituição do cereal usado naquela época pelo que veio ocupar-lhe o lugar, não sei desde quando, até aos nossos dias.

Alberto Pimentel, na sua colectânea da obra de António Ribeiro – o frade franciscano que decidiu abandonar a ordem e viver, sem abandonar o hábito, uma vida dissoluta -, escreveu em rodapé, a propósito da citação que fiz, que o lançamento de trigo era símbolo de iniciação doméstica da noiva no lar conjugal e que prática semelhante se verificava no cerimonial dos casamentos gregos e romanos.

Sabemos perfeitamente que o arroz, palavra introduzida pelos árabes no nosso país, é conhecido e usado desde a fundação da nacionalidade. Pedro Hispano, na sua obra, a ele se refere aconselhando-o com hidromel à saída do banho. Fernão Lopes dá, por via travessa, notícia da sua utilização e modo de confecção ao descrever o cerco de Lisboa e Pêro Vaz de Caminha, na sua famosa carta a D. Manuel sobre o achamento do Brasil, revela a sua presença a bordo da nau em que partira. O que nunca saberemos é porque a dado passo da nossa história a tradição romana, provavelmente mantida pelos conquistadores e fundadores do reino e ainda em uso durante o século XVI, foi substituída por outra que, valha a verdade, não modifica em nada o significado do acto e que, dada a quantidade simbólica que em regra se utiliza, nem uma razão de preço terá justificado.

Diz-se agora que a tradição de lançar arroz sobre a cabeça dos noivos após terminado o casamento talvez se tenha originado na China cerca de dois mil anos antes de Cristo. Nesse tempo, esperando que os seus descendentes viessem a ter existência ditosa, um rico agricultor chinês terá ordenado aos servos que se mobilizassem para que o casamento da filha terminasse sob uma verdadeira chuva de arroz. Isto porque, no seu entender, o cereal era o verdadeiro símbolo da fertilidade e da prosperidade.

Também há quem defenda para dar lustro ao enredo que o chinês era um mandarim igualmente rico e quem contraponha, como cenário possível e igualmente exótico, a origem hindu do costume. Enfim, opiniões geradoras de discussões infrutíferas como todas as baseadas em factos impossíveis de provar. Facto provado é que, entre nós, muito provavelmente desde a fundação da nacionalidade até ao termo da segunda dinastia, o uso do lançamento de trigo sobre os noivos, no fim da cerimónia e – como bem diria Fernão Lopes – antes da maridança, era prática nacional instituída e, embora com cereal diferente do que usamos actualmente, servia rigorosamente o mesmo propósito, isto é, dizer aos noivos numa linguagem gestual colectiva que, como todas as sementes, a família nesse momento instituída deve crescer e multiplicar-se.

 

Lima-Reis, da cabeça aos pés [Notícias Magazine]  

publicado por Elisabete às 12:05
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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

Saudade de uma amiga

 

Uma cadela enquanto espera

A minha cadela nada sabe de metafísica,
nem dos mistérios que a palavra encerra
enquanto corre atrás dos pássaros e das sombras
dos arbustos projectados sobre a terra batida.
A minha cadela escolhe os recantos
mais frescos do soalho para dormir
e sabe que os dias se repetem iguais e previsíveis,
sensível às ausências e à rudeza das vozes.
Com ela, a casa parece maior
Porque há um fio de afecto a ligar os quartos,
A unir os gestos, a adoçar os chamamentos.
A minha cadela nada sabe de livros
nem dos mistérios que os povoam,
ignorando até os títulos daqueles que roeu
enquanto mudava a dentição.
A minha cadela foi precedida por mortes
de outras cadelas que a doença não poupou
e que eu chorei, como quem chora sangue do seu sangue.
Sei que espera por mim à porta, todos os dias,
focinho rente ao chão, porque sabe
que eu não falto, mesmo que me atrase.
Amanhã, vou ler-lhe o que escrevi a seu respeito
e sei que ela chorará de comoção, embora
nada saiba de poesia e muito menos de metafísica.
Há dias em que o cão, neste caso a cadela,
é o melhor amigo da poesia, porque sabe que ela
tem o tamanho do seu coração quando me espera.


                            José Jorge Letria, in Produto Interno Lírico 

publicado por Elisabete às 17:57
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Domingo, 23 de Janeiro de 2011

Epígrafe para a arte de furtar

 

 

Roubam-me Deus
Outros o diabo
Quem cantarei

Roubam-me a Pátria
e a humanidade
outros ma roubam
Quem cantarei

Sempre há quem roube
Quem eu deseje
E de mim mesmo
Todos me roubam

Quem cantarei
Quem cantarei


Roubam-me Deus
Outros o diabo
Quem cantarei

Roubam-me a Pátria
e a humanidade
outros ma roubam
Quem cantarei

Roubam-me a voz
quando me calo
ou o silêncio
mesmo se falo

Aqui d'El-Rei 

 

 

Música: Zeca Afonso
Letra: Jorge de Sena

in Traz outro amigo também

publicado por Elisabete às 10:28
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Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

O PAPÃO tirado da cartola

 

 

Foto: http://bancadadirecta.blogspot.com/2009_09_01_archive.html

 

O Quinto Cavaleiro

 

Quem o garante é economista e professor de Economia, ex-catedrático e tudo e, se ele o garante, quem é o povo para duvidar?

Ora o que ele garante é que, se o povo não o eleger já no domingo, como é "essencial", abrir-se-ão os mares e desabará o céu. E pior acontecerá em terra: a sua não eleição à primeira volta provocará imediatamente, avisa ele, "uma contracção do crédito e uma subida das taxas de juros", com consequências apocalípticas para "empresas e famílias".

"Imaginem o que seria de Portugal, na situação económica e financeira complexa em que se encontra, se prolongássemos por mais algumas semanas esta campanha eleitoral", avisa de novo. O povo imagina e o que vê deixa-o petrificado de terror: ao lado da Morte, da Fome, da Peste e da Guerra, cavalga agora o Quinto Cavaleiro, o terrífico Mercado, e todos juntos precipitam-se a galope sobre "empresas e famílias".

Por isso o povo correrá a eleger o ex-catedrático no domingo. Ou no sábado, se lhe permitirem. Elegê-lo-ia até sem eleições (por exemplo, suspendendo-se a democracia por seis meses, assim se poupando milhões porque a democracia é cara). Só o ex-catedrático pouparia os 2,1 milhões de euros (um recorde absoluto) que gastou na campanha. E se, depois, na Presidência, poupasse ainda aos contribuintes uma parte dos 17,4 milhões que gastou em 2010 (outro recorde absoluto), talvez, quem sabe?, o crédito se descontraísse um poucochinho.

 

Manuel António Pina, Por outras palavras [Jornal de Notícias, 21/01/2011]

 

publicado por Elisabete às 09:23
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Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

Ficção ou realidade?

 

 

… os partidos mais se tornaram cancros da própria Democracia que seus autênticos sustentáculos. Não que parassem de lutar. Só que lutaram, não pela defesa da Democracia, mas furiosamente uns contra os outros, por ganharem eleições para se fartarem no gamelão do Poder. Quanto ao mais, o essencial, vamos andando cantando e rindo todos ao mesmo compasso e pela mesma pauta: prometendo o impossível e nem o possível cumprindo, a não ser no que os beneficia a eles e aos seus, antes de mais para si próprios, homens da governação, também para os altamente colocados nas grandes empresas, estipulando ganhos escandalosamente astronómicos, ao mesmo tempo que, para quantos rastejam cá por baixo, para a imensa multidão dos modestos trabalhadores da função pública ou seja do que for, estabelecem salários de tanta miséria que a grande maioria desses trabalhadores nem ganha num ano o que eles metem ao bolso em meia dúzia de dias. Para isto, quanto mais ignorante for o povo, melhor. Depois, em se aproximando eleições, desata a guerra. Enxovalham-se incrivelmente uns aos outros. Cada um denuncia nos outros, como crimes dos mais execráveis, os mesmos actos que praticou quando foi Governo, se acaso o foi, e que continuaria praticando se o tivesse de novo sido. Com isto tanto confundem, baralham o povo que, em chegando o dia de ir deitar o papelinho nas urnas, ninguém sabe por quem será melhor votar. E então, ou não aparece na mesa eleitoral, ou aparece e (é como quem joga na lotaria) aquilo vai ao acaso.

 

 Dias de Melo, O Autógrafo [1999]

publicado por Elisabete às 10:17
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