Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

Recuperar ABRIL

Com Salgueiro Maia, fazia um 25 de Abril todos os dias

 

No 37º aniversário do 25 de Abril, Carlos Beato, presidente da Câmara Municipal de Grândola e ex-companheiro de armas de Salgueiro Maia, recorda o amigo, o militar e o herói esquecido e injustiçado

 

 

 

Ainda transporto vivos o sentimento e a recordação daquela noite e da partida da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, comandado pelo grande militar e homem de Bem que foi Salgueiro Maia.

Éramos 240 jovens, e partimos numa coluna com carros blindados carregados de esperança em fazer Portugal entrar no caminho da Liberdade e da Democracia. A sorte esteve do nosso lado e, felizmente, no fim as coisas correram como desejávamos. Fora em Novembro de 1973, quando regressei de Moçambique, onde tinha feito a comissão militar obrigatória, que soube do 25 de Abril.

O capitão Salgueiro Maia veio falar comigo e disse-me que iria haver uma acção qualquer para acabar com o estado de coisas a que se tinha chegado em Portugal, que ele estava metido nisso e que precisava de jovens militares com experiência e capacidade de comando. Eu era alferes milicianos, acabado de chegar de Moçambique, e disse-lhe que alinharia, que contasse comigo para essa acção. Concordei imediatamente, pois Salgueiro Maia era uma pessoa arrebatadora, um homem de convicções, de confiança e de projectos – um exemplo para todos. A Salgueiro Maia não era possível dizer que não.

Mas isto foi em 1973 e depois nunca mais se falou no assunto, embora soubesse que, de vez em quando, se faziam umas reuniões. Mas como já tinha havido tantas coisas ao longo de tantos anos, e algumas delas frustradas, tínhamos algumas dúvidas quanto a uma acção em concreto.

Até que num dia, às 11.30 da manhã, em plena parada Chaimite, primeiro o capitão Salgueiro Maia e depois o então capitão Correia Bernardo vieram dizer-me baixinho ao ouvido: “É logo à noite.” Quando me disseram isso, confesso que fiquei gelado. Mas tínhamos que ir em frente e fazer os contactos com os militares que cada um de nós iria levar sob o seu comando.

 

 

Contactei alguns dos camaradas de armas durante todo o dia 24, véspera do 25 de Abril. Contei-lhes o que se iria passar, mas não lhes pude dizer tudo sobre a Operação Fim do Regime. Aliás nem eu próprio sabia tudo, porque a acção do 25 de Abril só iria ter lugar se nessa noite os Emissores Associados de Lisboa passassem a canção “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, às 11 da noite, e a Rádio Renascença emitisse à meia-noite “Grândola Vila Morena”, de Zeca Afonso, que era a ordem para arrancar.

 

NINGUÉM QUIS FICAR

Todos os jovens militares sabiam que iriam participar numa acção militar para fazer cair o regime, e não houve ninguém que dissesse que não. No entanto, houve militares de carreira, portanto não-milicianos, que era suposto aderirem ao processo – mas que à última hora se encolheram e roeram a corda.

Foi uma loucura, porque tínhamos de fazer tudo sem dar nas vistas, já que o comandante, o 2.º comandante e os oficiais que detinham o poder no quartel desconheciam esta operação. Tudo teria de ser preparado com eficácia durante o dia 24: as viaturas, os armamentos, as fardas e as rações de combate com eficácia durante o dia 24.

Algumas das viaturas já andavam a ser preparadas em segredo para sair há algum tempo, num processo que durou muitos meses sem que ainda se soubesse o dia da acção.

Entretanto, fomos experimentando alguns militares para a acção, e outros só os desafiámos depois de ouvirmos a «Grândola Vila Morena». Todos os oficiais estavam no quarto do capitão Salgueiro Maia para ouvir a passagem da canção, que era o sinal para avançar, e, portanto, ouvimos a «Grândola» quando estávamos a distribuir as diversas missões por cada um de nós. Nessa altura, estávamos muito tensos porque a canção deveria ter passado à meia-noite e acabou por ir para o ar à meia-noite e vinte.

 

 

De imediato, convidámos o 2.º comandante a aderir, mas este, recusando, foi logo detido.

Durante esses 20 minutos chegou a passar-nos pela cabeça que já não ia haver 25 de Abril. Mas a canção veio e o pessoal foi acordado às ordens de Salgueiro Maia. Reunimo-nos então todos, e Maia deu a conhecer a situação e disse: «Quem quiser fazer parte desta operação forma lá fora, na parada.»

Já no exterior, quando justificou a necessidade de se marchar sobre Lisboa, Maia proferiu uma frase que faria história: «Existem vários tipos de estados: os corporativos, os sociais e o estado a que chegámos.»

Em resposta, para nossa grande surpresa, toda a gente quis ir, o que colocou logo um problema, porque éramos cerca de 800 e só podiam ir 240. E foi uma tristeza para os que tiveram de ficar no quartel. Mas no dia seguinte alguns deles vieram a cumprir missões importantíssimas, como a ida à Legião Portuguesa e à PIDE para fazerem as prisões. Outros ainda foram incumbidos das acções de esclarecimento à população sobre o que se tinha passado. Portanto, a sua atitude e a sua colaboração foram também nobres, importantes e revolucionárias.

Os acontecimentos do 16 de Março ocuparam o meu pensamento durante as três horas de caminho entre Santarém e Lisboa, que me pareceram 22 horas, tal era o nervosismo e a ansiedade. Foi aí que me passou tudo pela cabeça: a família, os amigos, a oposição, a PIDE, a polícia de choque e tudo o que poderia vir contra nós. E lembrei-me de que o 16 de Março tinha corrido mal, que alguns desses nossos camaradas estavam presos e outros tinham sido muito maltratados. A ideia de vida e da morte passou-me pela cabeça, de tal maneira que ainda hoje a guardo como uma das coisas mais martirizantes que me aconteceram naquela madrugada e em toda a vida.

 

FOMOS OS PRIMEIROS…

 

Chegámos ao Terreiro do Paço por volta das 6 da manhã – fomos os primeiros. A essa hora ainda não nos tínhamos apercebido bem de que seria à nossa coluna que o poder se iria render; nem que seria a nós que Marcelo Caetano se renderia. Refugiado no Quartel do Carmo, viria a sair numa Chaimite nossa para a Pontinha, onde estava instalado o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, e nem sabíamos que Santarém e as suas tropas viriam a ter a importância crucial que tiveram.

A missão estava claramente definida: tínhamos de controlar o Banco de Portugal, junto ao Terreiro do Paço, depois a Rádio Marconi e por fim os acessos à Praça do Município. Nessa altura, vieram contra nós carros blindados do Regimento de Cavalaria 7, da Calçada da Ajuda. Eram carros de combate com grande poder de fogo e potência para tudo arrasarem. Vivemos momentos de grande tensão e angústia, que penso que foram resolvidos por duas razões: a primeira, porque Salgueiro Maia era um grande líder e foi, de facto, um grande comandante operacional no Terreiro do Paço e no Largo do Carmo; a outra, porque o regime estava realmente caduco e as pessoas estavam fartas de Portugal viver orgulhosamente só e em condições em que a maioria dos portugueses não se revia.

 

 

 

Assim, quando o comandante das tropas dos carros de combate, brigadeiro Junqueira dos Reis, mandou disparar contra Salgueiro Maia e os seus homens, os militares de Cavalaria 7 não obedeceram.

Ainda hoje, continuo a acreditar que aquele foi o grande momento do 25 de Abril e que passa por ali a vitória de toda a acção militar, porque, se do outro lado tivessem disparado, talvez o 25 de Abril não se tivesse cumprido.

Claro que o facto de nos sentirmos unidos pela juventude foi fundamental. Éramos rapazes e homens muito determinados e sabíamos que estávamos ali para voltar uma página importante da história do Portugal contemporâneo.

Mas que teríamos nós feito se não estivéssemos acompanhados por um comandante de rara lucidez, do dinamismo único e da liderança carismática que só Fernando José Salgueiro Maia poderia e saberia transmitir? Ainda hoje, não sei...

 

A preparar a saída de Marcelo Caetano do Quartel do Carmo

com a Chaimite Bula

 

Porque Maia não era apenas um militar decidido, rigoroso, experimentado e metódico. Maia era também um militar de princípios, inabalável na postura, inultrapassável na acção.

E quando, nas mesmas células, se mistura um oficial assim com um homem sensato, íntegro e solidário, fácil é de observar o resultado final e o prazer e a honra com que todos partilhámos o seu espaço e o seu tempo.

 

 

A comandar as operações no Terreiro do Paço

 

Claro que a sensação que tivemos quando nos deslocámos do Terreiro do Paço para o Quartel do Carmo e sentimos que, já aí, o 25 de Abril estava ganho foi determinante para todo o processo.

Na verdade, apesar de não termos ainda assegurada a rendição do chefe do Governo, Marcelo Caetano, era nossa profunda convicção que, quando ganhámos a luta com os carros de combate e quando viemos naquela caminhada vitoriosa Rua Augusta acima, Rossio, Rua do Carmo e Largo do Carmo, sempre com o povo a envolver--nos e a dar cravos e a encher-nos de comida, vínhamos com a sensação e a convicção nítidas de que o 25 de Abril já estava efectivamente do nosso lado.

Mas era ainda necessário que Caetano, o líder e o rosto do regime, se rendesse e ficasse às nossas ordens. E devo confessar que esse processo nos deixou muito preocupados, porque demorou cerca de seis horas, com todos nós, no Largo do Carmo, remetidos a um enorme impasse e sem que as coisas se resolvessem.

 

…E OS MAIS DESTEMIDOS

 

E foi aí que, pela enésima vez, se elevou sobre a realidade a personalidade do comandante operacional. Mais uma vez, Salgueiro Maia não teve medo.

Negociou com intermediários políticos, foi diplomata, geriu tensões e afinou estratégias de conciliação. Da Pontinha, os chefes da Revolução pediam fogo, rapidez e acção. Maia dava--lhes política e tentava a todo o custo evitar o banho de sangue que faria perder muitas vidas e perigar o sucesso do Movimento dos Capitães.

 

 

Ainda assim, chegou o momento de tomar decisões, e a certa altura tivemos de fazer fogo sobre a fachada do Quartel do Carmo. Objectivo: fazer ver que não sairíamos dali sem a rendição dos ministros, nem que para isso tivéssemos de rebentar com tudo. Tínhamos fogo e potencial de carros blindados para isso, mas, é claro, queríamos evitá-lo a todo o custo.

Essa era uma das prioridades do MFA (Movimento das Forças Armadas), e as instruções foram todas no sentido de não provocar mortos nem feridos.

 

 

 

 

Depois de muitas horas de angústia e de cerco que nos foi feito pelos militares que defendiam o Estado Novo, as coisas correram bem para o nosso lado, e Marcelo Caetano acabou por se render por volta das 6 da tarde. E numa das Chaimites da EPC de Santarém, de seu nome Bula, foi conduzido, mais parte do seu governo, à Pontinha, onde estava o Posto de Comando do MFA. Pena é que, logo após a rendição do regime sem qualquer derramamento de sangue, a PIDE tenha disparado de posições instaladas no telhado do seu edifício, na Rua António Maria Cardoso, facto esse que provocou a morte de quatro manifestantes e ferimentos noutros cinco. Mesmo depois de tudo resolvido a nosso favor, num último acto de loucura, mais uma vez foi a PIDE que manchou aquela jornada de libertação do nosso povo.

 

UM AMIGO PARA A VIDA

 

Passados dias, meses e anos e as mais diversas vivências, sinto hoje um enorme privilégio e um impagável orgulho por ter participado numa acção deste calibre, em que Portugal passou a ser mais Portugal e em que a Liberdade e a Democracia passaram a fazer parte efectiva do dia-a-dia do nosso povo.

Claro que me é impossível fazer o balanço deste tempo sem evocar a presença sempre presente, sempre mítica, sempre transversal, sempre absoluta, de Salgueiro Maia. Porque a presença da sua ausência é uma dor brutal, ainda fresca e sempre insanável em todos aqueles que com ele privaram, que a ele se deram e que dele receberam o tributo de um abraço, de um olhar, de um afecto, de uma experiência, de uma vida, para toda a vida.

Por causa da sua falta, e da falta que a sua lucidez imprimiria às nossas vidas nestes tempos tão desatinados, olho para estes 37 anos de aprendizagem e concluo que o percurso está ainda muito longe de chegar ao fim, porque sempre incompleto, sempre em evolução.

 

 

Foram sem dúvida anos de importantes conquistas e de recuperação dos atrasos em relação a outros países. Mas embora já se tenha feito muito, não é em 37 anos que se recupera tudo o que nos foi negado durante o Estado Novo.

Estes anos representaram ainda o consumar de grandes conquistas para o nosso povo, em particular o Poder Local, porque se há objectivos que foram conseguidos neste país e que tiveram uma grande utilidade, e nos quais se viu que o povo foi o grande beneficiário directo e inquestionável, um deles foi exactamente o Poder Local democrático.

 

 

Na verdade, em todos os concelhos de Portugal os autarcas têm sido grandes obreiros da consolidação de Abril e da Liberdade, que começámos a rasgar em 1974. Não obstante alguns excessos e desvios, que sempre e inevitavelmente se verificam nestes processos, não obstante algumas coisas que deveriam ter sido feitas e ainda não foram, não tenho dúvidas em dizer que, 37 anos depois, tenho a convicção de que o 25 de Abril tem um saldo claramente positivo e que valeu a pena, porque não há preço que pague a Liberdade de um povo.

Não nego contudo, e até admito, que vejo e sinto com mágoa o facto de algumas pessoas tentarem apagar a importância do 25 de Abril, porque mesmo algumas dessas pessoas, que são tão críticas ou menos benevolentes para com os militares de Abril e para com tudo o que Abril nos trouxe, de uma maneira geral também foram elas beneficiárias do próprio 25 de Abril. Por isso, o que desejo é que ponham a mão na consciência e vejam que quem veio por Abril veio por bem.

Os resultados estão à vista. E o capitão Salgueiro Maia, que considero o capitão dos capitães de Abril, foi o exemplo mais nobre e mais puro de quem veio para servir e não para se servir. Essa é a grande mensagem que Abril nos trouxe.

Como para a eternidade sobre ele Sophia de Mello Breyner escreveu, Salgueiro Maia foi «Aquele que na hora da vitória respeitou o vencido/Aquele que deu tudo e não pediu a paga/ Aquele que na hora da ganância perdeu o apetite/Aquele que amou os outros e por isso não colaborou com sua ignorância ou vício».

 

O último adeus à saída da capela da Academia Militar.

Inauguração da sua estátua em Santarém:

A viúva, Natércia, com os filhos, Filipe e Catarina

 

Aquilo que Portugal seria sem Abril, e sem o feito protagonizado por Salgueiro Maia e os seus militares, é algo hoje impossível de avaliar ou imaginar. Mas sei que, também por ele, aprendi a compreender melhor os verdadeiros valores da amizade, solidariedade e afecto.

Quando dei o sim a Salgueiro Maia, dei-o sem grande maturidade e consciência políticas. Mas agora, passados todos estes anos sobre a Revolução dos Cravos e sobre a sua morte, em Abril de 1992, e tendo tido a oportunidade de viver o que vivi em Liberdade e em Democracia, não só voltaria a dizer que sim uma vez, mas tantas quantas fossem necessárias – porque a liberdade de um povo é impagável, porque a democracia é insubstituível e porque a dignidade dos indivíduos é o bem mais precioso.

 

 Carlos Beato 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

in Selecções Reader’s Digest

Abril 2011

 

publicado por Elisabete às 09:06
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Domingo, 3 de Abril de 2011

Aristides Sousa Mendes

Quem salva uma vida, salva todo o Universo.

 

Talmude

 

Aristides Sousa Mendes

[19 de Julho de 1885-3 de Abril de 1954]

 

Quem está a seguir, que história vem a seguir, que vida clama por salvação? As narrativas diferiam, mais ou menos, umas das outras, tal como os rostos, mas existia um ponto comum em todas: ressaltava o mesmo cansaço e sofrimento, assim como a mesma esperança. Tinham feito vários quilómetros desde casa e sido alvo pelo caminho das metralhadoras dos aeroplanos germânicos. Sobreviveram-lhes mas não sem o pesar de verem familiares seus sucumbirem a essas razias. Passaram fome e frio, para confluírem ali, na sua frente. Queriam um visto, por acaso para Portugal, mas era para a liberdade. E ele não os podia dar. Enfim, muitas vezes dava-os sem poder, mas não podia fazer isso com toda a gente.

- Vou enviar o seu pedido para Lisboa. Temos de esperar pela autorização… - Balbuciava Aristides ao casal na sua frente, sem convicção mas sem outra justificação para dar.

A mulher estava grávida, era espantoso como conseguira chegar até ali… para nada.

- Queres um café? – Perguntou Angelina acabando de entrar e salvando-o das suas inquietudes.

- Sim, por favor.

Ela irrompeu pelo escritório segurando a bandeja do café.

- Oh, coitada! – Deixou escapar Angelina mal pousou os olhos na mulher. – Está tão pálida. Sente-se bem? – A mulher apenas encolheu os ombros em resposta. – Não come há quantos dias? – De novo nenhuma palavra, apenas um sorriso tímido. – Venha comigo. – Angelina pousou a bandeja do café na secretária e pegou na jovem pelo braço, levando-a consigo para a residência consular.

- Vá com elas. – Disse Aristides para o marido que olhava perplexo para os acontecimentos. – A seguir?

A seguir chegava mais um comboio. Dia e noite comboios apinhados de refugiados chegavam à estação de Saint-Jean. Bordéus era, literalmente, o fim da linha para eles. Um carimbo no seu passaporte era o que lhes permitiria continuar. Aliás, vários. Para se sair de França seria necessário um visto de saída francês, mas este só se conseguiria com um visto de trânsito espanhol que por seu lado só era emitido se o requerente já tivesse o seu passaporte carimbado com um visto de trânsito português. É que uma passagem para o paraíso sempre se “vendeu” cara. Portugal, mais concretamente Lisboa, tinha-se tornado se não o último paraíso na terra, então o último paraíso na Europa, não por si, mas pela porta de saída que representava para outros continentes.

[…]

- Tenho de comunicar ao meu governo o pedido de visto.

Não tinha mais nada para lhes dar e de Portugal vinha sempre a mesma resposta: Cumpra a Circular nº 14. Cumpra, cumpra, cumpra, repicava na cabeça de Aristides como o badalar do sino da igreja em dia de Pentecostes. Já fora advertido que mais uma falta e sofreria um processo disciplinar. Além disso, sabia que as ordens eram para ser obedecidas. Mas tinham de ser todas? Até as absurdas? Até as desumanas?

[…]

Não havia forma de coadunar as instruções recebidas com as circunstâncias que se viviam em Bordéus. Não sabiam em Lisboa disso? Como podiam? Se ele que vivia o dia-a-dia em Bordéus ainda tentava encontrar essa solução, mas percebia agora que passava mais pelo milagre do que pela lógica. Como o demonstrava a atitude dos refugiados que, atulhando os acessos ao consulado, esperavam pela resposta ao pedido que Aristides enviara por telegrama para Lisboa. Desde antes das nove da manhã até à uma ou duas da madrugada, o cônsul e eles esperavam por um milagre. E enquanto esse milagre tardava, os nazis aproximavam-se.

À medida que os dias encaminhavam o mês de Maio para o fim, o avanço das tropas alemãs colocavam os franceses ao caminho, em direcção ao sudoeste da França, engrossando as intermináveis fileiras de refugiados luxemburgueses, belgas, austríacos, holandeses, russos, enfim, de quase toda a Europa. Partia-se porque se tinha medo e porque se via o vizinho partir. Ninguém queria ficar sozinho à espera do inimigo. Além do medo e da ansiedade, a anarquia também seguia os trilhos do êxodo. E todos eles pareciam desaguar em Bordéus, mais precisamente em frente ao nº 14 do Quai Louis XVIII.

De Lisboa poder-se-ia seguir praticamente para todo o lado. Aristides, obviamente, não o ignorava. Sabia que Lisboa não era, para aquelas pessoas que esperavam nas ruas por uma assinatura sua, um ponto de chegada, mas antes um ponto de partida. Porém, ele estava de mãos atadas.

[…]

Os passeios atulhados de gente, veículos estacionados e alguns até abandonados um pouco por toda a parte, revelavam a Aristides toda a dimensão do caos que grassava em Bordéus. Demorou-se mais do que o necessário para chegar à estação dos correios. O espectáculo das ruas prendia-lhe a atenção, e a convicção crescente de que não podia ser um simples espectador lhe tolhia os passos.

[…]

De novo na rua […]. As pessoas amontoavam-se nas praças, assim como os veículos. Aqueles que ainda tinham combustível para continuar, ou então eram movidos a tracção animal, emprestavam à cidade um movimento automobilístico como ele nunca vira. […]

Parou defronte do Le Régent. Espreitou a vitrina do café na intenção de se distrair, por momentos, da visão triste que o circundava. Mas a tabuleta afixada no vidro do estabelecimento teve a função contrária, desmascarando os detalhes sórdidos que ele ainda não percebera do espectáculo a que assistia. Em caracteres negros de imprensa, num fundo amarelado, informava-se: “Interdit aux chiens et aux Juifs”.

[…]

Aristides apôs os vistos nos passaportes, assinou e carimbou-os maquinalmente. A imagem da cidade virada do avesso não lhe saía da cabeça. A ideia de que ninguém fazia nada por aquelas pessoas também.

 

 

Sónia Louro, O Cônsul Desobediente

publicado por Elisabete às 10:13
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Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

PORTUGAL em ruínas?

 

"Aqui havia uma casa"

 

Ilse Losa contou-me um episódio doloroso do seu regresso à Alemanha no fim da guerra, quando visitou já não sei se Osnabruck se Hannover, onde vivera. Procurou a sua casa e não a encontrou.

Nem sequer o lugar dela, pois a cidade fora de tal modo desfigurada pelos bombardeamentos que todas as referências geográficas (ruas, praças, edifícios) tinham desaparecido numa amálgama indistinta de ruínas onde era impossível a orientação. Tal sentimento de perda irremediável está presente em grande parte da sua obra, especialmente em "Aqui havia uma casa".

Muitos portugueses experimentam hoje um sentimento parecido ante as ruínas daquilo que foi um dia um país e hoje é apenas um patético joguete de interesses alheios. Também "aqui havia uma casa", agora impossível de encontrar à míngua de referências (morais, ideológicas ou outras) e de qualquer projecto que não o da ganhunça. A "choldra ignóbil" de Eça regressou corrompendo tudo, confundindo verdade e mentira e espoliando o presente e o futuro colectivos.

As próprias palavras deixaram de merecer confiança. O Partido Socialista é tão socialista quanto o Partido Social-Democrata é social-democrata e expressões como "Estado social" ou "justiça social" perderam qualquer significado. Daqui a dois meses iremos outra vez a votos. E, como a imensa maioria descontente que se abstém não conta, os mesmos elegerão de novo os mesmos. Que farão mais uma vez o mesmo.

 

Manuel António Pina, Por Outras Palavras

Jornal de Notícias [1Abril2011]

 

publicado por Elisabete às 11:33
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