Segunda-feira, 20 de Agosto de 2012

Um "fait-divers" amoroso

 

Eis um fait-divers. Seguramente nada banal. Mesmo incrível, mas autêntico. Aconteceu no mês de Novembro de 1980 em Casablanca. A história de Slimane constitui um paradoxo.

Naquela noite, ao frio e na confusão, várias pessoas esperavam um táxi. Ela também esperava. Confiante, com as mãos juntas sobre o ventre. Não se empurra uma mulher grávida. Respeitamo-la e ajudamo-la. Acabara de chegar, mas o próximo táxi seria para ela.

Slimane é um homem calmo. Detesta a violência e evita a confusão. Uma vez quase fora linchado por uma multidão impaciente e encolerizada. O seu “pequeno táxi”[i], um Simca 1000 de cor vermelha, ficara todo amolgado depois da zaragata. Desde então tornara-se desconfiado. Já não parava nas praças, preferindo apanhar clientes ao acaso.

Nessa noite, de regresso a casa, passou sem parar na praça. Vislumbrou a mulher grávida, efectuou então marcha-atrás e parou precisamente ao seu lado. Ninguém ousou protestar. A mulher era ainda jovem. Aparentemente, não era desta cidade. Tinha um ar algo perdido. Slimane perguntou-lhe se “o feliz acontecimento” era “para breve”.

- Para o mês que vem -, respondeu-lhe ela. – De qualquer modo não tenha receio, não vou dar à luz no seu carro!

Ele sorriu sem dizer mais nada. Uma vez chegados a Derb Ghellef, junto ao número 24 A, parou e desceu para lhe abrir a porta. A jovem pediu-lhe para esperar um pouco, o tempo de ir buscar o dinheiro da corrida à casa da irmã. Slimane esperou fumando um cigarro. Cinco minutos depois, a jovem regressou banhada em lágrimas:

- Oh meu Deus! O que será de mim? Não há ninguém em casa da minha irmã; deve ter ido de viagem, nem os vizinhos cá estão… Como é que lhe hei-de pagar, e para onde irei com o meu filho, oh meu Deus!... Sou como uma estrangeira… Não conheço aqui ninguém…

Slimane ficara perturbado. Queria lá saber do preço da viagem. Não podia deixar esta pobre mulher sozinha, em semelhante estado de desespero.

- Minha senhora, não a vou abandonar nessa situação. Nós, muçulmanos, devemos ajudar-nos uns aos outros. Esta noite, convido-a a ficar em minha casa enquanto espera o regresso da sua irmã. A minha mulher ficará encantada e até as três crianças ficarão contentes… por termos visitas. A nossa casa é pequena, mas há sempre lugar para as pessoas de bem…

- Não, meu caro senhor, é muito bondoso da sua parte. Não quero incomodar de maneira nenhuma, e além do mais a sua esposa podia não compreender…

- A minha mulher é maravilhosa. Deu-me três belas crianças, uma menina e dois rapazes, e muita felicidade… A minha mulher é muito boa.

Slimane voltou a insistir. A jovem aceitou. Em casa correu tudo muito bem. As crianças estavam excitadas. Emprestaram-lhe o seu quarto. A esposa de Slimane era muito simpática e deu inúmeros conselhos à futura mamã. Ambas pensaram em nomes para o bebé e tagarelaram pela noite dentro.

Slimane estava manifestamente orgulhoso da sua boa acção e da sua esposa. Ergueu-se de manhã cedo. A mulher grávida já estava levantada. Repousada, descontraída, estava à-vontade, como se fizesse parte da família. Slimane deu-lhe os bons dias e ofereceu-se para a levar à casa da irmã. Ela parecia não ter compreendido bem o que ele lhe estava a dizer. Então este repetiu a sua oferta:

- Se quiser, posso deixá-la em casa da sua irmã. Ela talvez esteja preocupada…

- Em casa da minha irmã? Mas que irmã? Não tenho irmã, sabes bem disso… E depois estás a esquecer-te que é aqui a minha casa e que esta criança que trago no ventre é tua!...

Slimane deu um grito de estupefacção e chamou a esposa.

- Nós somos demasiado bons! Sempre te disse! Demasiado bons! É inacreditável. Esta mulherzinha quer enganar-nos. Diz que está em sua casa e que eu sou o pai da criança… É doida… De qualquer modo, eu não discuto com ela. Tenho confiança na justiça do meu país. Vou chamar a polícia.

A esposa encorajou-o a fazê-lo. A convidada ria às gargalhadas e já tratava a esposa de Slimane como uma criada: - Traz-me o pequeno-almoço. Chega aqui, vou fazer-te umas confidências. Slimane, o homem discreto e pacato, o homem que não falha uma oração, esse homem é um grande sedutor! Estás a ver esta pulseira de ouro, é um presente do mês passado, e este colar de coral, foi no dia em que aceitei entregar-me a ele… É curioso, temos os mesmos lenços de pôr na cabeça! Que indelicadeza da sua parte!...

- Cala-te! Não quero falar contigo.

O caso adquiriu rapidamente proporções graves e foi levado a tribunal. Antes de analisar o problema em pormenor, o juiz decidiu constituir um ficheiro clínico para cada um dos queixosos. Foram feitas análises: às urinas, ao sangue e também ao esperma de Slimane. Não iriam provar nada de especial. Era apenas uma formalidade. O que se descobriu iria, no entanto, abalar esta história. Os médicos eram categóricos: Slimane não podia ser o pai da criança que estava para nascer. Ele era estéril e sempre o tinha sido.

Este golpe teatral fustigou Slimane. Começou a beber. Passou a viver e a dormir no seu táxi. A esposa fez greve de fome e revelou ao juiz o nome do pai das crianças. Era o senhorio da casa onde moravam. Ela procurou explicar, a quem a quis ouvir, que nunca enganara o marido e que fora por amor a este que lhe tinham feito as crianças. Segundo as suas palavras: “Um homem nunca é estéril. A culpa é sempre da mulher!”

 

Tahar Ben Jelloun (هر بن جلون‎), O Primeiro Amor é Sempre o Último



[i] Em Marrocos existe o denominado “petit taxi”, veículo pequeno de diferentes marcas que circula no interior das localidades. Para efectuar a ligação entre povoações, o utente utiliza o “grand taxi” de marca Mercedes e cor creme.

publicado por Elisabete às 16:44
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Sábado, 18 de Agosto de 2012

A mulher de Neruda

 

[…]

«tudo começou em nós com Neruda», é o que pretende dizer, agora que a mão do homem se apossou por inteiro da sua e a enconchou sob a palma,

mas não diz,

só diz: «continuas o mesmo»,

num tom que tanto pode ser de ternura e de complacência como de moderada censura,

ela era a mulher de Neruda, doze anos atrás, ainda estudante do Magistério,

era a voz dele, de Álvaro Miguel, que a fazia desposá-lo,

 

            «En la red de mi música estás presa, amor mío,

            y mis redes de música son anchas como el cielo.

            Mi alma nace a la orilla de tus ojos de luto.

            En tus ojos de luto comienza el país del sueño»

 

«tinhas pássaros na voz», atreve-se, já com a mão esquerda a aninhar-se e a procurar poiso na mão direita do homem,

«não achas que é uma loucura?»,

«o quê?»,

«isto»; e desvia os olhos para as duas mãos entrelaçadas,

isto: um homem e uma mulher que já se não pertencem por inteiro, que de si apenas têm disponível a clandestinidade que o passado lhes outorga, irremediavelmente presos a um presente que não pode nem deve, «nem nenhum de nós quer», diz Maria Teresa Moura, «que seja mais do que é», ele em Breda, na Holanda, ela numa livraria de Estremoz, separados ambos por milhares de quilómetros,

«de solidão», poderia acrescentar,

e de (des)esquecimentos premeditados,

talvez ligados apenas pelos fios de névoa com que os mundos se atam e desatam,

«não, o melhor é não irmos por aí»,

«por aí?»,

por esse curto-circuito  que se estabeleceu já entre as duas mãos coladas sobre o balcão, e foi sempre

«tu lembras-te?»

o primeiro acorde para o ajustamento, quer no interior do Renault quer fora dele, que depois se pediam,

que se pediam como agora, sem palavras,

«conta-me coisas de ti», outra vez pede,

de Breda, na Holanda,

e ele, inabilmente, diz que sentiu a sua falta, que uma e mil vezes esteve para regressar e que outras tantas lhe faltou a coragem para isso,

«depois apareceu a Maria Eugénia e as coisas compuseram-se»,

como apareceu Rafael Matos, em Évora, mas ela não o diz assim, e a sua vida se recompôs também,

decompôs, é o termo certo; ou não?,

«a vida é assim»,

«é»,

«dizia eu que…»,

«falavas da vida»,

«ah»,

crescemos, deixamos passar o tempo, perguntamos por certas coisas (emoções, queria ela dizer) de nós e dos outros, e elas já não estão ali, ou estão com outro rosto e já não as reconhecemos, ou ignoramo-las de propósito, desejamos considerá-las alheias, as coisas, as palavras, as comoções, os arrependimentos, tudo,

«tudo, até o desamor»,

ah, não bem o desamor, embora às vezes também o possa haver,

«não é o nosso caso, pois não?»,

«tonto, por que havíamos de sentir desamor?»,

raiva, muita, isso sim, e vontade de gritá-la, de nos cercarmos dela como se fosse uma parede que nos protegesse da intromissão dos outros,

«quando fugiste para Argel e depois para Amesterdão e depois para Haia e depois te fixaste em Breda…»,

«Teresa…»,

«senti isso, senti que me queria emparedar por detrás dum muro de raiva»,

«contra mim?»,

«contra ti, contra mim, contra os outros, todos, até mesmo contra as recordações que me chegavam…»,

«não penses agora»,

Álvaro Miguel segura-a pelo pulso, ergue-lhe a mão à altura do rosto, bebe-lhe a palma como o fez tantas vezes, doze anos antes, em todos os sacros e mágicos lugares da paixão, de Évora a Nossa Senhora do Divor, de Vila Viçosa ao Redondo, de Monsaraz a São Pedro do Corval, territórios de pronunciamentos, esses,

«não, ainda não, tonto, ainda não são horas para nada»,

e deixa que ele se incline para ela, sobre o balcão, e lhe rase tão de leve a face que Maria Teresa outra vez lhe reconheceu o cheiro, o olor da paixão, e lhe estendeu os lábios para melhor reconhecer esse eflúvio, ainda vago mas já acobertador, que irá depurar, para si mesma, nos instantes que se seguirem.

«Às sete horas tens-me aqui, queres?»

 

Hugo Santos, A Mulher de Neruda

 

publicado por Elisabete às 18:39
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O fim do euro em Portugal

 
 

O euro é um projecto insustentável, por duas razões principais. Em primeiro lugar, porque permitiu a acumulação de desequilíbrios muito superiores ao que existiriam com moeda própria. A Grécia jamais poderia acumular as dívidas que hoje tem, a Irlanda jamais assistiria a uma tão grande expansão do seu sistema bancário, Portugal jamais poderia ter uma dívida externa de 100% do PIB, Espanha nunca teria embarcado numa tão grande bolha imobiliária. Mas, mais grave do que permitir desequilíbrios maiores, o euro deixa os países com menos instrumentos para os corrigir, em particular o instrumento cambial, o que torna as correcções muitíssimo mais difíceis.

Em segundo lugar, com moeda própria, a variável que sinaliza os problemas – a taxa de câmbio – ajuda a resolver esses mesmos problemas. No euro, a variável que serve de alerta – a taxa de juro de longo prazo – agrava todos os desequilíbrios. Quando percebi este aspecto, nos finais de 2010, fiquei convencido de que os dias do euro estavam contados.
Há quem imagine que há soluções para os problemas do euro, mas se há soluções tecnicamente viáveis, elas são politicamente impossíveis.

Dado o melindre de escrever sobre o fim do euro, adiei ao máximo isso, mas em Dezembro do ano passado comecei a escrever um livro sobre isso, que deveria estar pronto em Abril. Vicissitudes várias fizeram com que o projecto se atrasasse e só este mês deverá estar disponível, com o título "O fim do euro em Portugal?", numa edição da Actual Editora, do Grupo Almedina.

 

 

 

Apesar do ponto de interrogação no título estou firmemente convencido, não só de que o euro deixará de ser a moeda em Portugal, como de que isso ocorrerá até ao final deste ano.

Os problemas estruturais do euro estão lá, mas as autoridades europeias têm-se esmerado em tornar as coisas ainda piores. Mario Draghi, tinha-nos pedido para acreditarmos nele, que o BCE tudo faria para preservar o euro. Afinal o BCE pondera voltar a comprar obrigações dos países em dificuldades, mas apenas DEPOIS de estes pedirem ajuda, que virá sob fortes restrições. Então a intervenção do BCE não era para evitar que estes Estados chegassem ao ponto de ter de pedir auxílio?

O ministro alemão da Economia e o presidente do Eurogrupo, Juncker, consideram que a saída da Grécia do euro é "gerível". Importam-se de repetir? Se a Grécia sair do euro, isso pode bem desencadear um processo de desintegração do euro. Mas, se isso não acontecer, e isto é que é um dos maiores dramas, há muitos mais acontecimentos que podem colocar em marcha a desagregação do euro: um pedido de resgate pleno de Espanha, para o qual não há fundos suficientes; subida vertiginosa das taxas de juro em Itália; na Holanda, nas eleições de 12 de Setembro, vitória do partido que defende a saída do país do euro; veto do Tribunal Constitucional alemão às condições de expansão das competências dos fundos europeus de resgate; etc., etc., etc.

08/Agosto/2012

 

Pedro Braz Teixeira [*]

 

 

 

 

 

 

 

 

[*] Investigador do NECEP da Católica Lisbon School of Business and Economics (as opiniões expressas no texto não vinculam o NECEP). Foi assistente na Faculdade de Economia da UNL, economista-chefe do Banco Santander Totta e adjunto da ex-ministra das Finanças Dra. Manuela Ferreira Leite. Actualmente é economista independente.

 

Tem o blog individual Abelhudo , e colabora no blog colectivo O Cachimbo de Magritte.

 

 Email: pbteixeira3@gmail.com

 

O original encontra-se em

 

 http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=572565

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

 

 

 

publicado por Elisabete às 13:00
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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2012

São as armas; mas, não só as armas

 

 

por Michael Moore [*]

Amigos:

Desde que Caim enlouqueceu e matou Abel sempre houve humanos que, por uma razão ou outra, perdem a cabeça temporária ou definitivamente e cometem atos de violência. Durante o primeiro século de nossa era, o imperador romano Tibério gozava, jogando suas vítimas na ilha de Capri, no Mediterrâneo. Gilles de Rais, cavalheiro francês aliado de Joana D'Arc, na Idade Média, um dia, enlouqueceu e acabou assassinando centenas de crianças. Apenas umas décadas depois, Vlad, o Empalador, na Transilvânia, tinha inúmeros modos horripilantes de acabar com suas vítimas; o personagem de Drácula foi inspirado nele.

Em tempos modernos, em quase todas as nações há um psicopata ou dois que cometem homicídios em massa, por mais estritas que sejam suas leis em matéria de armas: o demente supremacista branco, cujos atentados na Noruega cumpriram um ano nesse domingo; o carniceiro do pátio escolar em Dunblane, Escócia; o assassino da Escola Politécnica de Montreal; o aniquilador em massa de Erfurt, Alemanha...; a lista parece interminável. E agora o atirador de Aurora, na sexta-feira passada. Sempre houve pessoas com pouco juízo e prudência e sempre haverá.

Porém, aqui reside a diferença entre o resto do mundo e nós: aqui acontecem DUAS Auroras a cada dia de cada ano! Pelo menos 24 estadunidenses morrem a cada dia (de 8 a 9 mil por ano) em mãos de gente armada, e essa cifra NÃO inclui os que perdem a vida em acidentes com armas de fogo ou os que cometem suicídio com uma. Se contássemos todos, a cifra se multiplicaria a uns 25 mil.

Isso significa que os Estados Unidos são responsáveis por mais de 80% de todas as mortes por armas de fogo nos 23 países mais ricos do mundo combinados. Considerando que as pessoas desses países, como seres humanos, não são melhores ou piores do que qualquer um de nós, então, por que nós?

Tanto conservadores quanto liberais nos Estados Unidos operam com crenças firmes a respeito do "porquê" desse problema. E a razão pela qual nem uns e nem outros podem encontrar uma solução é porque, de fato, cada um tem a metade da razão.

A direita crê que os fundadores dessa nação, por alguma sorte de decreto divino, lhes garantiram o direito absoluto a possuir tantas armas de fogo quanto desejem. E nos recordam sem cessar que uma arma não dispara sozinha; que "não são as armas, mas quem mata são as pessoas".

Claro que sabem que estão cometendo uma desonestidade intelectual (se é que posso usar essa palavra) ao sustentar tal coisa acerca da Segunda Emenda porque sabem que as pessoas que escreveram a Constituição unicamente queriam assegurar-se de que se pudesse convocar com rapidez uma milícia entre granjeiros e comerciantes em caso de que os britânicos decidissem regressar e semear um pouco de caos.

Porém, têm a metade da razão quando afirmam que "as armas não matam: os estadunidenses matam!". Porque somos os únicos no primeiro mundo que cometemos crimes em massa. E escutamos estadunidenses de toda condição aduzir toda classe de razões para não ter que lidar com o que está por trás de todas essas matanças e atos de violência.

Uns culpam os filmes e os jogos de videogame violentos. Na última vez em que revisei, os videojogos do Japão são mais violentos do que os nossos e, no entanto, menos de 20 pessoas ao ano morrem por armas de fogo naquele país; e em 2006 o total foi de duas pessoas! Outros dirão que o número de lares destroçados é o que causa tantas mortes. Detesto dar-lhes essa notícia; porém, na Grã-Bretanha há quase tantos lares desfeitos, com um só dos pais assumindo o cuidado dos filhos quanto nos EUA; e, no entanto, em geral, os crimes cometidos lá com armas de fogo são menos de 40 ao ano.

Pessoas como eu dirão que tudo isso é resultado de ter uma história e uma cultura de homens armados, "índios e vaqueiros", "dispara agora e pergunta depois". E se bem é certo que o genocídio de indígenas americanos assentou um modelo bastante feio de fundar uma nação, me parece mais seguro dizer que não somos os únicos com um passado violento ou uma marca genocida.

Olá, Alemanha! Falo de ti e de tua história, desde os hunos até os nazistas, todos os que amavam uma boa carnificina (tal qual os japoneses e os britânicos, que dominaram o mundo por centenas de anos, coisa que não conseguiram plantando margaridas). E, no entanto, na Alemanha, nação de 80 milhões de habitantes, são cometidos apenas 200 assassinatos com armas de fogo ao ano.

Assim que esses países (e muitos outros) são iguais a nós, exceto que aqui mais pessoas acreditam em Deus e vão à Igreja mais do que em qualquer outra nação ocidental.
Meus compatriotas liberais dirão que se tivéssemos menos armas de fogo haveria menos mortes por essa causa. E, em termos matemáticos, seria certo. Se temos menos arsênico na reserva de água, matará menos gente. Menos de qualquer coisa má – calorias, tabaco, reality shows – significará menos mortes. E se tivéssemos leis estritas em matéria de armas, que proibissem as armas automáticas e semiautomáticas e prescrevessem a venda de grandes magazines capazes de portar milhões de balas, atiradores como o de Aurora não poderiam matar a tantas pessoas em pouquíssimos minutos.
Porém, também nisso há um problema. Há um montão de armas no Canadá (a maioria rifles de caça) e, no entanto, a conta de homicídios é de uns 200 ao ano. De fato, por sua proximidade, a cultura canadense é muito similar à nossa: as crianças têm os mesmos videojogos, veem os mesmos filmes e programas de TV; mas, no entanto, não crescem com o desejo de matar uns aos outros. A Suíça ocupa o terceiro lugar mundial em posse de armas por pessoa; porém, sua taxa de criminalidade é baixa. Então, por que nós? Formulei essa pergunta há uma década em meu filme 'Tiros em Columbine', e esta semana tive pouco que dizer porque me parecia ter dito há dez anos o que tinha que dizer; e acho que não fez muito efeito; exceto ser uma espécie de bola de cristal em forma de filme.

 Naquela época eu disse algo, que repetirei agora:

 

1. Os estadunidenses somos incrivelmente bons para matar. Acreditamos em matar como forma de conseguir nossos objetivos. Três quartos de nossos Estados executam criminosos, apesar de que os Estados que têm as taxas mais baixas de homicídios são, em geral, os que não aplicam a pena de morte.

Nossa tendência a matar não é somente histórica (o assassinato de índios, de escravos e de uns e outros na guerra "civil"): é nossa forma atual de resolver qualquer coisa que nos inspira medo. É a invasão como política exterior. Sim, lá estão Iraque e Afeganistão; porém, somos invasores desde que "conquistamos o oeste selvagem" e agora estamos tão enganchados que já não sabemos o que invadir (Bin Laden não se escondia no Afeganistão, mas no Paquistão), nem porque invadir (Saddam não tinha armas de destruição massiva, nem nada a ver com o 11-S). Enviamos nossas classes pobres para fazer matanças, e os que não temos um ser querido lá, não perdemos um só minuto de um só dia em pensar nessa carnificina. E agora, enviamos aviões sem pilotos para matar (drones), aviões controlados por homens sem rosto em um luxuoso estúdio com ar condicionado em um subúrbio de Las Vegas. É a loucura!

2. Somos um povo que se assusta com facilidade e é fácil de ser manipulado pelo medo. De que temos tanto medo, que necessitamos ter 300 milhões de armas de fogo em nossas casas? Quem vai machucar? Por que a maior parte dessas armas se encontra nas casas de brancos, nos subúrbios ou no campo? Talvez, se resolvêssemos nosso problema racial e nosso problema de pobreza (uma vez mais, somos o número um com maior número de pobres no mundo industrializado) teria menos pessoas frustradas, atemorizadas e encolerizadas estendendo a mão para pegar a arma que guardam na gaveta. Talvez, cuidaríamos mais uns dos outros (aqui vemos um bom exemplo disso).

Isso é o que penso sobre Aurora e sobre o violento país do qual sou cidadão. Como mencionei, disse tudo nesse filme e se quiserem, podem assisti-lo e partilhá-lo sem custo com os demais. E o que nos faz falta, amigos meus, é valor e determinação. Se vocês estão prontos, eu também.

 

[*] Cineasta e escritor estadunidense 
 

O original encontra-se em mltoday.com/ ;
a versão em castelhano em www.jornada.unam.mx/2012/07/26/opinion/025a1mun

e em português em pcb.org.br/
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

publicado por Elisabete às 11:51
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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2012

Se estivesse disposto a cooperar…

 

Sozinhos com a sobrinha, porque Afonso só de longe a longe vinha do quartel, José Maria e a mulher viviam metidos em casa, indiferentes à passagem do tempo, amargurados como se jamais pudessem tornar a sentir-se felizes.

Alegres que tinham sido, as horas da comida eram agora soturnas. Ele deixara o hábito de lhes ler o jornal ao fim da ceia, e desde o começo da doença do filho ninguém voltara a mexer na guitarra, nem sequer para limpar a caixa que, abandonada a um canto e coberta de pó, parecia acentuar a mágoa que sobre eles pesava.

As lições que dava a Ernestina também tinham terminado, embora aí a culpa fosse da aluna, que preferia fazer renda, dizendo que já tinha aprendido o bastante e não se sentia com cabeça para estudos.

As noites passavam-nas sentados à mesa, silenciosos, ele absorvido no jornal ou nalgum livro, elas umas vezes com o crochet, outras no trabalho moroso de remendar a roupa.

Mas a época em viviam era de mudanças bruscas na sociedade e na política, e as inquietações não tardaram a chegar. Raro passava semana em que não houvesse revolta, os governos mudavam constantemente, os correligionários de hoje tornavam-se os inimigos de amanhã, por um nada se perdia o emprego ou se acabava na prisão.

José Maria deu-se conta de que, com as obrigações do seu cargo e família a proteger, naquele ambiente lhe seria difícil opor-se abertamente ao partido de Salazar, que cada dia arrebatava um pouco mais do poder, e no qual os generais e os ricos se tinham unido à Igreja. Mas homem justo e socialista convicto, não ia ficar de braços caídos enquanto os governantes e a secreta cada dia espezinhavam mais o povo.

Fez-se conspirador. Saía de noite à paisana, ou então disfarçado de pescador do mar, tão completamente que arranjara uma rede e bóias que carregava às costas. Doutras vezes da parte de doente e desaparecia durante dias, deixando a mulher e a sobrinha aflitas. Se alguém viesse perguntar por ele, dissessem que tinha ido para o hospital.

Quando regressava, sempre pelo escuro, assustavam-se ao vê-lo desembrulhar da rede caixas de munição, revólveres ou os panfletos vermelhos que misteriosamente apareciam depois espalhados pelas ruas, no mercado, no adro das igrejas. E como nenhuma delas tinha força para o dissuadir daqueles perigos, nem ele era pessoa de escutar súplicas, cada vez que se ia embora ajoelhavam-se ambas diante da cómoda, onde o bruxulear da lamparina parecia dar vida à imagem de Santo António.

 

Dos esforços e dos riscos só tirou o lucro de ter feito o que lhe mandava a consciência e o orgulho de ter permanecido fiel aos seus ideais.

Ficou-lhe também a cicatriz duma bala que o tinha apanhado de raspão num braço, e a lembrança da amargura do dia em que o comandante o intimou a que fosse ao seu gabinete. Que o tinha por homem de respeito e funcionário cumpridor, disse, por isso não compreendia que se tivesse metido com uma canalha que queria a desgraça do país. Felizmente, as forças que defendiam Deus, a Família, a Ordem e o Progresso tinham triunfado, e os opositores iam pagar caro a ousadia de terem desafiado quem defendia os mais preciosos valores da Pátria.

Graças à sua intervenção pessoal, ele, José Maria, desta vez escapava. Passava-se a esponja sobre as asneiras que tinha feito; mas aos concursos não precisava de ir, porque nunca mais seria promovido. A menos que, se estivesse disposto a cooperar…

José Maria respondeu-lhe que não estava no seu feitio ser canalha nem denunciante, o melhor era deixarem a conversa, porque assim se evitavam dissabores para ambos, nem teria ele de lhe pagar ali mesmo o insulto com um par de bofetadas.

O comandante corou e calou-se. Talvez menos por temor do que pelo respeito que lhe impunha o senhor José Maria desde o tempo em que um era o que ficara, simples chefe de posto, e o outro o guarda seu subordinado, que à força de traições tinha subido os graus da hierarquia com uma celeridade de foguete.

Alarmadas com o modo que lhe viram quando entrou em casa, pálido, a transpirar, as mãos num tremedouro, a mulher e a sobrinha recearam que lhe fosse dar outro ataque. Mas ele sossegou-as, não era nada, uma arrelia que tinha tido. Que lhe arranjassem um chá e despachassem a ceia, depois lhes contava o que se tinha passado entre ele e o Andrade. Lembravam-se dele? Um que tinha uma mulher ruiva e era agora comandante?

 

J. Rentes de Carvalho, Ernestina

 

 

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Segunda-feira, 6 de Agosto de 2012

A esperança não morre

 

por Miguel Urbano Rodrigues

 

Adolfo Casais Monteiro escreveu no final dos anos 50 que "era difícil ser português". Expressou uma realidade.

Humberto Delgado estava refugiado na Embaixada do Brasil e naquela época a imagem do fascismo era medonha nos meios intelectuais brasileiros.

Conheci no exílio essa situação. Os amigos perguntavam como podia o povo português suportar há décadas uma ditadura tão obscurantista como a de Salazar. As nossas explicações para a sobrevivência do regime não convenciam

Transcorrido meio século, a situação em Portugal faz-me recordar o desabafo de Casais Monteiro num contexto histórico muito diferente.

A crise do capitalismo irrompeu nos EUA e alastrou pelo mundo. Mas em Portugal os seus efeitos inserem-se num quadro que pelas suas facetas humilhantes é difícil compreender e explicar.

Cada manhã, quando abro o computador e tomo conhecimento das últimas notícias e à noite, ao acompanhar os noticiários da televisão e ouvir resumos de declarações de ministros e deputados dos partidos da burguesia e de falas do primeiro-ministro, sou tocado pela estranha sensação de assistir a uma farsa intemporal num país inimaginável.

Temo que não exista precedente para uma situação como a de Portugal neste ano sombrio de 2012.

Sei que os trabalhadores irlandeses, gregos e espanhóis, entre outros, sofrem duramente as consequências de políticas impostas pelo grande capital internacional em nome de uma "austeridade" que empobrece mais os de baixo enquanto enriquece os de cima.

O que diferencia então o caso português dos demais?

Aqui a linguagem, o comportamento, o arrogante exibicionismo dos responsáveis pelo trágico agravamento da crise são irrepetíveis, ao exigirem "sacrifícios" aos explorados e oferecerem prebendas aos exploradores. Tudo em nome do interesse nacional, da salvação da Pátria. O discurso lembra o do fascismo.

Mas creio que nem no auge do fascismo Salazar tenha reunido em qualquer dos seus governos um feixe de ministros e secretários de estado comparável ao gabinete formado por Passos Coelho. Com a peculiaridade de o Partido Socialista, cúmplice do binómio que desgoverna o Pais, participar conscientemente da tragédia social e económica em desenvolvimento.

Politólogos, professores de discurso pomposo (alguns formados em universidades de fantasia), jornalistas de pretensa sabedoria analisam em múltiplas e insuportáveis mesas redondas a crise e, com raríssimas excepções, alinhem com o governo ou não, destilam anticomunismo, identificam no presidente Obama um grande humanista e justificam as guerras imperialistas.

A política de "austeridade", a submissão servil ao diktat da troika, o roubo de salários, a supressão dos subsídios de natal e de férias, o aumento de impostos sobre o trabalho, os despedimentos sumários configuram já o funcionamento de mecanismos de uma ditadura de facto da burguesia, mas o coro dos epígonos fala com orgulho farisaico da "nossa democracia".

A engrenagem que ostenta as insígnias do Poder é servida por uma equipa de pesadelo.
O Primeiro-ministro merecia figurar no Guiness. Impressiona pela vastidão da ignorância, pelo vácuo intelectual.

Estranhamente, fala como se fosse detentor do saber universal. Quase diariamente enaltece os benefícios da sua política neoliberal ortodoxa, afirmando que o povo a compreende, mas é recebido com vaias em todas as cidades e vilas onde aparece.

Conheci-o em 1991. Eu era então secretário da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia da Republica, ele um jovem deputado que liderava a Juventude do PSD.

Recordo que quando pedia a palavra bolsava tanta asneira que, por decoro, lhe pedia que abreviasse as suas arengas.

O ministro Relvas ganhou notoriedade por talentos que lembram os de vilões de tragédias shakespearianas. O ministro da Economia escreveu livros "criacionistas" [NR] que principiam agora a correr de mão em mão como obras de contornos extraterrestres. São apenas três figuras de um painel governativo impar na Europa comunitária.
O Presidente da Republica, um reaccionário quimicamente puro, apoia o descalabro.

É essa gente que, desfraldando o estandarte da democracia, garante que "os portugueses" apoiam a ditadura de classe que os afunda na miséria.

Desaprovo as analogias em política. Mas este governo, pelo absurdo, pela crueldade social, pelo exibicionismo ridículo, pela submissão ao capital faz-me lembrar atitudes do subsaariano Imperador Bokassa da Republica Centro Africana.

É tão transparente o repúdio popular pela estratégia de Passos e seus rapazes que até Pacheco Pereira – o mais inteligente e culto dos ex-dirigentes da direita – sentiu a necessidade de escrever um artigo (Público, 28 de Julho de 2012) desancando o sistema. Nele pergunta: "Como devemos cruzar-nos com os credores? De alpergatas, trabalhando 10 horas por um salário de miséria?". Ele próprio responde que em breve o povo acordará, "porque estas coisas, uma vez maduras, não escolhem nem dia, nem hora".
A História de Portugal lembra que a esperança não morre no povo. Quando a opressão atinge um nível insuportável, as massas levantam-se e assumem-se como sujeito da ruptura.
Foi assim em 1383, na guerra da Restauração em 1640, e no 25 de Abril de 1974.
Os actuais inimigos do povo, Passos & Companhia, instrumentos do capital e do imperialismo, vão desaparecer na poeira da História. A obra é devastadora, os autores figurinhas liliputianas.

 

Vila Nova de Gaia, 01/Agosto/2012

 

[NR] Álvaro Santos Pereira, Diário de um Deus Criacionista, Ed. Guerra & Paz, 204 págs.
Excerto: "Esta é uma obra de ficção, e qualquer semelhança com a realidade poderá ou não ser coincidência. Só Deus saberá. Este é um diário da História de Deus e da Sua solidão infinita durante biliões e biliões e biliões e biliões de anos e da Sua magnífica Obra e da incrível criação dos universos e do Tempo e das estrelas e da expansão desmesurada do Cosmos que atingiu uma enormidade tal que deixou o Divino com os nervos em franja".

 

O original encontra-se em http://www.odiario.info/?p=2566

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/  

publicado por Elisabete às 21:43
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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012

PALMA INÁCIO e o Golpe dos Generais

 

[…]

A revolta militar do Norte, em 1946, foi um teste para a operação com grande participação, organizada para eclodir em Abril de 1947. O Movimento em embrião tinha a cobertura e a orientação da denominada Junta de Libertação Nacional, criada em 1946.

Trata-se de uma organização ilegal “constituída com fins manifestamente subversivos (…) para a sublevação das Forças Armadas, (para), por estes meios, alterar a Constituição Política do Estado e mudar a forma de Governo…”. Era assim que a Ditadura a classificava.

Dessa Junta faziam parte: vice-almirante José Mendes Cabeçadas Júnior; general José Garcia Marques Godinho; brigadeiro Eduardo Corregedor Martins; brigadeiro António de Sousa Maia; coronel Celso Mendes de Magalhães; coronel Carlos Tavares Afonso dos Santos e o civil doutor João Soares.

Nos “autos” de 1947, citados por Fernando Queiroga, não existe referência ao coronel de Infantaria Luís Gonzaga Tadeu e ao tenente José Joaquim Gaita, que constam na ordem do exército 2ª série, nº 6, de 5 de Julho de 1947, como desligados do serviço desde 14 de Junho de 1947, por decisão do Conselho de Ministros. Não existem referências a muitos outros oficiais, sargentos, praças e civis que assumiram o compromisso de operacionalizarem o derrube de Salazar sob os auspícios da referida Junta.

A logística da operação foi preparada e financiada sobretudo por industriais e empresários portugueses, dos quais destacamos Lúcio Tomé Feteira, um dos industriais que posteriormente viria a ajudar Palma Inácio no Brasil e a financiar outras operações para depor Salazar.

O centro da acção foi determinado para a região de Tomar. Havia, consequentemente, necessidade de neutralizar as unidades que não haviam manifestado receptividade ao golpe militar ou onde não havia confiança plena em oficiais hesitantes.

Todos os oficiais foram desligados de serviço e passados à reforma, por deliberação do Conselho de Ministros, em 14 de Junho de 1947. Todos eles foram entregues aos tribunais militares ou plenários civis, que os haviam de julgar por “crimes contra a organização do Estado”, os previstos e punidos pelo artº 167 do Código Penal.

Palma Inácio foi um desses civis que aceitou, por proposta do tenente Quilhó, que fazia a ponte com o brigadeiro da Aeronáutica António de Sousa Maia, participar no levantamento militar.

No âmbito do Movimento, foi-lhe adstrita a missão de sabotar todos os aviões que se encontravam na Base Aérea nº 1, em Sintra, no sentido de não poderem vir a operar contra as forças revoltosas. Tratava-se de uma unidade militar com a qual o movimento não contava.

Palma Inácio terá afirmado ao tenente Quilhó: “estes gajos estão sempre a preparar levantamentos militares que não dão em nada”. Porém, assumiu fazer parte da conspiração até porque a missão de que fora incumbido “caía-lhe como uma luva”. Primeiro, porque tinha ali feito toda a sua formação militar. Segundo, porque, mesmo eliminado do serviço militar, continuava a ter horas de voo no Air Clube, sediado na referida base. Terceiro, porque nela se mantinham ainda alguns ex-camaradas amigos.

Luís Vaz, Palma Inácio e o Golpe dos Generais (1947)

 

 

publicado por Elisabete às 19:28
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