Terça-feira, 28 de Maio de 2013

Ilha Grande Fechada

 


Não foi preciso chamar Diana, que, ao vê-lo pegar no sacho, lhe correu à volta a sacudir o rabo. Irene perguntou: “aonde vais?”… e ele: “vou despedir-me da terra.” O sacho para isso?... Que sim, não bastava ficar olhando, queria senti-la como quem abraça uma pessoa quando lhe diz adeus. A cadela ia na frente. Encontros breves pelo caminho, alguns os últimos sabia Deus por quantos anos, talvez os derradeiros na vida. “Sempre vais amanhã?” “Isso é que é, até que enfim está chegando o dia, João…” “Lá, tens tudo quanto precisas, aquilo é que são terras fartas. Se eu fosse novo…” “Logo que possa, também me vou embora. Aqui não dá nada.” E ele triste, como se levasse a morte sobre os ombros. Começava a perceber o que lhe disse um dia o furriel enfermeiro – que tinha o costume de acamaradar com os pretos e só tocava as pretas nas suas partes doentes -, ao vê-lo uma noite chorar agarrado a meia garrafa de whisky: “Saudades da família? Hás-de habituar-te. Quando isto tiver passado, verás que não é assim tanto tempo.” Não eram só da família, as saudades. Das suas coisas também, dos bichos, do mar… Tinham-lhe metido na cabeça aquela de que o mar dá saudades, que um homem das ilhas não pode viver sem ele. Era capaz de passar dias e meses sem o olhar com atenção, anos sem comer lapas ou polvo guisado. Mas chegara a sentir falta de tudo isso como se não desejasse mais nada na vida. “Não é só da família, meu furriel. É da ilha também.” Se a sua terra fosse um deserto, seria o mesmo. Havia quem se sentisse por coisas bem diferentes tanto como ele se sentia pelas suas. O furriel sorrira, num jeito de resignação trocista. “Da ilha, João?... A ilha é um bom lugar de saudade. Nem mais nem menos. Vai deitar-te, que amanhã estás melhor.” A ilha, um bom lugar de saudade?... Mais nada?... E já se sentia longe, tudo era como se não lhe pertencesse, era como se, mal desaparecidas aquelas caras, não as visse havia tempos sem fim, como se, dado um passo, o caminho para trás não fosse seu desde as carreiras da infância.Conseguira finalmente o passaporte, o visto e a passagem que o libertavam da ilha, mas que maldição há sobre ela que, mesmo quando se tem tudo o que se quer, ela nos deixa infelizes?

Parou na taberna do costume. Queria um copo sem fundo para a sua pena sem fim, num dia que sempre imaginara o seu dia de estar feliz. Apetecia-lhe beber até que o pensamento não soubesse de nada, até que os sentidos esmorecessem na última noção do entendimento. Um copo de vinho: como o fel e o vinagre para abrandar as dores dos condenados às grandes mortes. Bebeu com dois amigos que discutiam o preço de onze vacas e cinquenta e seis alqueires de pasto, e lhe invejaram a sorte. Tinham grandes carteiras cheias de notas de mil, mas nada se compara à abundância dos dólares. Suspenderam o negócio – ficaria para depois continuar aquela sessão de exageros -, estava ali o João para dizer-lhes adeus. E um grande adeus, como uma grande chegada, fica melhor com vinho para aquecer as palavras.
- Pareces triste, João...                                                                                         

- Não sei o que tenho… Um homem sabe lá para onde vai… - Para pior do que isto não pode ser. Aqui o Mário dava-te as vacas e o pasto que me quer vender pelo teu passaporte. Não davas, Mário? - E ainda tornava dinheiro, rapaz. O entusiasmo deles não lhe buliu com a alma. Eram três companheiros, tiveram de ser três as rodadas. Deu-lhe um torpor quase bom no corpo, mas o resto ficou igual. Antes se mudasse o resto, onde lhe estava a tristeza. Saiu depois de uns abraços apertados, os dos outros dois pegaram-se-lhe ao corpo, pararam-lhe na cintura, hálitos cheirando a vinho, respingos de saliva de quem já tinha lastro abundante lá dentro onde tombaram os três copos da despedida. Meteu-se à canada, que conhecia desde os tempos dos ninhos e das laranjas, das brigas sem o motivo e das tapadas sangrentas, de outros gostos proibidos e alguns trabalhos penosos. Por ali andaram com ele o Carlos, que foi padre e depois casou, o Pedro, que estudou para professor, um José que emigrou e outro José que era dono de trinta vacas de leite e um tractor, o Luís, o Mariano, o Manuel, todos emigrados também, o Alberto seu companheiro de carteira na quarta classe, que talvez estivesse à espera dele, no aeroporto de Toronto, dali a dois dias. As voltas que o Mundo dá… Não havia cigana que fosse capaz de atinar com a confusão de tantos destinos diferentes. E eram todos tão iguais: é verdade que o Carlos sempre foi de saber reis e batalhas como ninguém e o Pedro fazia problemas como se já fosse professor, mas, dali do canto para cima, por essa canada a dentro ou empoleirados nas árvores a roubar laranjas verdes, era tudo a mesma louça. Nesse tempo, doía-lhe a alma só de pensar na América e no Canadá. A América tem cheiro diferente, vinha nas caixas de roupa, tão grandes que era preciso desmanchá-las na rua para caberem em casa. Parece que aquela gente apostava em que as caixas que uns mandavam fossem maiores que as dos outros, uns coitados que saíram daqui quase sem jeito para nada e nem o bem faziam bem feito. Mas, se não fosse isso, um homem tinha andado em couro, que o ganho do dia não dava para meia missa. E brigas que havia ao dividir a roupa, se as melhores peças não vinham com o nome de cada um marcado… Bocas de fome… Ir ao armário e nem miolo de pão! A fome chegava sempre antes da hora, a mesa nunca estava posta quando a vontade apertava, uma doençazinha que não fosse de consumir muito era um regalo, dava direito a outro sustento, o ovinho estrelado, o leite com cacau, o queijo de peso, o chazinho com açúcar, ou um caldo de galinha para fraquezas mais teimosas que era coisa mesmo descida do Céu. Nem um lorde… Haveria muitas terras no Mundo onde as pessoas gostassem de estar doentes? E agora? É cada pedaço de pão com manteiga deitado fora pelos rapazes, que nem os cães querem saber. E manteiga, isso era dia de festa quando havia alguma! A fartura faz mal, o fastio é uma coisa moderna, nunca vi disso no meu tempo. Não sei como não morreu metade. Se tivessem morrido todos os que passaram fome, não era preciso emigrar… Um homem é uma desgraça… Isto é lá terra que dê saudades a alguém. Mas dá, eu sei que dá. Não dá mais nada, mas dá saudades. Quando eu me apanhar com uns dólares, volto para trás, arranjo uma casa, compro vacas, e acabou-se. O pior é o futuro dos meus filhos. Eles, quando vão pequeninos para aquelas terras, nunca mais querem saber disto para nada. E um homem lá não tem mão neles, se dá uma bofetada num vem logo a polícia, e ainda estamos sujeitos a malhar com os ossos na cadeia. Só o diabo é que pode sofrer uma coisa destas, mas dizem que é assim mesmo, que é que se pode fazer? Não vou mudar as leis daqueles excomungados, que não passaram fome, não sabem o que custa a vida. É que a fome ensina muita coisa. Havia respeito no meu tempo de rapaz. O pobre respeitava o rico, porque o rico era quem lhe dava trabalho. Os pobres respeitavam-se uns aos outros, porque precisavam de toda a gente. Agora andam de barriga cheia, e a fartura é má conselheira. É isto, naquele tempo não eram melhores do que são hoje, tinham era mais necessidade. Fome negra, morriam da primeira doença que não fosse a gripe de Abril ou Novembro, porque mesmo que alguém quisesse acudir não tinha com quê, só o Doutor Simas, de Vila Franca, era um santo, que até dava remédios e tudo, mas os ricos e o governo não se importavam com a gente, era tudo pior que os cães. A terra está do mesmo tamanho, mas já se vive melhor, não tem comparação. O dinheiro ia todo para eles, grandes ladrões, que metiam uma pessoa na cadeia por dá cá aquela palha, bastava o regedor dizer que um homem era comunista, mesmo que nunca tivesse ouvido falar nisso, mas era a fama que pregavam em qualquer um a quem quisessem fazer mal, como ao Júlio, que atravessou a rua enfeitada para a procissão, e ao Roberto e ao João Ferreira, que fizeram um barco de canas no Carnaval como se fosse o “Santa Maria” e, um deles, o Henrique Galvão. É verdade que, se não fosse a emigração, comiam-se uns aos outros que isto era gente que já não cabia aqui. Mas se uma mulher não fizer contas à vida e se um homem deixar metade na taberna, a fome ainda é mais negra. Só para os mais gastadores, bem se sabe, que os outros lá vão vivendo com chicharros, que antes nem sequer havia pão, juro pela felicidade dos meus filhos, que Deus não os castigue com metade do que eu passei. No Canadá é tudo fartura, do mau e do bom, mas são outros costumes, sei lá como vai ser comigo. Mas talvez acabe por acostumar-me, não sou melhor que os outros. O José Pereira levou alguns dois anos a chorar, e depois criou o gosto por aquela terra que nunca mais se importou com a nossa. Quis vir morrer aqui, quando os médicos o desenganaram, como se o céu fosse mais perto da gente. E é capaz de ser, que se um homem leva esta vida com paciência não há demónio que lhe pegue na alma. Não deixo para trás nada que me faça falta, a não seres tu, Diana. Vais andar por aí ganindo, esfomeada e tonta, pois tens esse mau feitio de não comer a jeito quando não estou. E eu vou ficar por lá apalermado, com saudades duma cadela, louvado seja Deus! Hei-de escrever cartas a perguntar por ti, minha mãe lê-as para ouvires como se fosses gente, tu tens mais tino do que muitos que andam em cima de dois pés. Se calhar o meu cheiro chega ainda na carta, hás-de farejá-la e ficar doida, à minha procura, minha mãe diz: “Olha, Diana, é do teu dono, é do João”, e tu corres a casa toda, esqueces essa tristeza de rabo murcho e começas a sacudi-lo, vais à porta da rua, talvez ladres a chamar por mim, e voltas para dentro com uns olhos cheios de lágrimas que não se vêem mas que custam tanto como as outras ou mais ainda. Ou sentas-te à porta da minha casa fechada, cismando, a olhar para cima e para baixo, a ganir e a rapar na madeira, vens aqui à terra, entras na taberna a perguntar por mim só porque entras, vais ao pasto, vês as vacas todas mas não me vês a mim, é o Manuel da Emília que há-de estar lá, ficas sem perceber nada, ainda acabas por te finar de tristeza como a cadela do José Sousa, quando o dono morreu. O resto, Diana, são saudades de fome, de suor, de trabalhar como um negro desde os seis anos, e, vamos lá com Deus, de algum copo de vinho com uns amigos, que só tornam a pensar em mim quando eu vier de visita ou lhes mandar um postal de Boas-Festas com um dolarzinho, para beberem pela minha saúde.

 


 

Mas, então, por que raio estou tão triste, com uma tristeza que, se eu soubesse que isto era assim, nunca me tinha posto a passar papéis para emigrar e ainda por cima meu cunhado pensa que lhe fico devendo as gadelhas só porque me fez a carta de chamada? Não é pela nica de terra, um raio a parta. Deus me perdoe, que umas vezes dava muito, para vender a preço de nada, e, outras, mal lhe arrancava umas batatas e uns feijões para as sopas de meio ano. Nem é pelas vacas, que nem sequer são minhas, e me tiraram anos de vida, sempre a correr, quando estavam mais perto vinha como um doido, entre o leite da manhã e o da tarde, atirar uma sachadela à terra, a ver se adiantava serviço, ou ficava lá até não ver nada, era pelo tino, e no fim, sempre pobre, que Deus já não dá vinha e gado a quem tem paciência como Job, mas manda a verdade dizer que eu excomunguei mais vezes o trabalho do que dei graças a Deus pela saúde e pela força que nunca me faltaram. Ah! mas assim não me faltem no Canadá, e estou aqui estou rico, porque os remediados de lá são mais ricos do que os ricos da nossa ilha. Se eu pudesse levar-te, Diana, não me ficava pena nenhuma do que deixo atrás. Só minha mãe e meu pai, coitados, já se vão pondo velhos, mas esses, mais dias menos dias, de certeza que estão lá caídos. Têm aquele feitio de não querer incomodar os filhos, dizem que vão viver a favor e aqui ainda se terminam, mas não aguentam, vais ver que não aguentam aquela casa vazia, sem a alegria de ninguém, só eles a olhar um para o outro como duas árvores sem ninhos. E um homem quando casa, mete logo na cabeça que os pais já não têm nada com ele, e depressa se esquecem as sopinhas da mamã, que até se for preciso ir para o fim do Mundo vai-se mesmo sem pensar no desgosto deles. A vida é assim, não se pode mudar a vida, ela é que manda na gente. Olha, Diana, se te passasse um camião por cima, estava tudo resolvido. Desculpa que eu pense nisto, mas é verdade, ia-me custar ver-te morta, mas enterrava-te, ficava acabado, havia de me acostumar à tua falta, porque não se espera nada de quem vai para o outro mundo. Um homem habitua-se sempre ao que não tem remédio. Mas, assim, eu tão longe e a saber-te morrer aos poucos, de desgosto, e não poder valer-te… Ah! maldita terra, Diana! Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela! E, depois, aquilo lá é tudo tão diferente… Uma língua que para mim é chinês, casas maiores do que o Pico da Vigia, lojas onde dizem que cabe a nossa freguesia inteira, ruas com mais povo do que a cidade pela festa do Santo Cristo, carros que nunca param de passar, um homem não pode andar descansado, ou a conversar num canto, não se vai para lado nenhum, é penar para ver os amigos, que às vezes estão mais longe do que daqui para lá, não há horas certas de trabalho, o marido e a mulher passam a vida sem se ver a jeito, os filhos aos terramotos para a escola, comem à pressa, nem sequer há domingos com vagar para ir à missa ou jogar uma sueca. Um inferno, um inferno cheio de dólares, é o que aquilo é.

Olha-me esta terra! Nunca deu tanto como vai dar este ano, juro. Que linda batata! Quatrocentas arrobas seguras, e o Manuel da Emília ficou-me com ela por duzentas e cinquenta. Mas chega às quatrocentas ou anda lá perto, isso não falha. Ele tira-a daqui a três semanas, foi um belo negócio, mas não faz mal, Nosso Senhor lhe dê sorte de vender tudo por bom preço. E o milho!... Um louvar adeus. Olha-me aquele feijão, vai ter que se lhe diga, nunca tive disto, palavra de honra que nunca tive. Parece que a terra quis despedir-se de mim fazendo-me negaças, uma fartura destas e não vou comer uma batata escoada que seja, não provo um molhinho de feijão nem uma maçaroca de milho cozido… Espera, deixa-me tocar na terra, é a última vez que a vejo minha, se eu voltar, tenho de pedir licença para pôr os pés aqui dentro, apetecia-me pegar nela ao colo, é uma tolice, olha que não é do vinho, estou sério, muito mais sério do que gostava de estar, maldita a hora em que resolvi dar este passo, mau fogo abrase a tantos trabalhos em que um homem se mete só para ter que comer e que vestir. E nunca vi ninguém ser feliz por causa do dinheiro. O que importa é a saúde e a graça de Deus. Estás para aí pasmada por me ver sachar batata deste tamanho, não é?... Quero é matar já as saudades que vou sentir. Anda aqui, Diana, chega ao pé de mim, cadela dum raio que és a minha perdição. Dá cá um beijo ao teu dono, dá cá, que, se calhar, nunca mais te vejo. Ah! bicho dum corisco, e eu que não te queria porque eras fêmea, mas ninguém pegou em ti, e não fui capaz de te matar. Ainda abri uma covinha para te meter lá dentro, mas o sacho nunca me pegou tanto como nesse dia. Sabes? sinto remorsos de ter querido matar-te, só tu nunca me enganaste, se Nosso Senhor fez um Céu para os cães, vais direitinha lá parar, minha santa. Olha, se meu pai for para o Canadá, deixa-te com alguém, mas tu nunca mais prestas para nada. E eu, quando voltar, se ainda te apanhar viva, já nem sequer és minha. Mas tu morres antes, de certeza que morres. Um raio parta a minha cabeça, para que me fui meter nesta aventura do inferno, eu que não tinha outra ideia senão embarcar e, agora, estou para aqui feito tolo, por causa de ti, se não fosses tu, era outra coisa qualquer, um homem nunca está satisfeito, é um bicho triste, que até nasce chorando. Não vês, Diana, a gente aprende a rir mas ninguém nos ensina a chorar, e meu pai, algum dia, ainda é capaz de te pôr a ladrar ao telefone, para eu te sentir no Canadá, e ele se calhar a tocar contrabaixo ao mesmo tempo, que já uma vez tocou também para meu cunhado ouvir e matar saudades.

 

*   *   *

 

João simulou todos os gestos com que ajudara a terra a prometer fartura. Depois sentou-se no chão e chamou a cadela para junto de si. Diana lambeu-lhe as mãos e a cara, ganiu alegremente, e deitou-se ao lado dele com a cabeça apoiada na sua perna direita, olhando-o com piscadelas que pareciam sorrisos. João levantou-se, desviando-lhe a cabeça docemente, e pediu: - Beija-me, Diana. Ele baixou-se um pouco, e a cadela esticou-se e lambeu-lhe a cara novamente. - Tira-me o chapéu, vamos. Diana saltou duas vezes e, à segunda, ficou com o chapéu entre os dentes. Deu uma volta ao redor de João, que se ajoelhou. - Põe-me o chapéu na cabeça, sua velhaca. Obedeceu, divertida e desajeitada no acto de cobrir o dono, que facilitou a tarefa com uma torção do pescoço. - Dá cá um aperto de mão. Diana levantou a pata direita para a mão estendida. João sacudiu-a como se fosse um cumprimento a sério. - Morre, Diana. A cadela deitou-se, imitando a morte sem saber o que imitava. João pegou no sacho, ergueu-o e apontou-lho à cabeça. A pancada caiu certeira e fulminante. Diana estremeceu por momentos, agitada por uma morte de que não se apercebeu. João tentou aguentar as lágrimas dentro dos olhos, como criança fazendo-se homem, mas acabou por chorar em silêncio. Havia de recordar aquela cena toda a vida, fingindo acreditar que estava bêbedo, e lutaria, em pesadelos de agonia, com um fantasma ensanguentado e imortal que tinha a aparência deformada de Diana. Abriu uma cova o mais fundo que pôde. Bateram as trindades, as últimas que iria ouvir por muito tempo. Descobriu a cabeça e rezou, coisa que nunca fizera ao som dos sinos da tarde. Depois, atirou Diana para dentro da cova e fechou a ilha sobre ela.

 

Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada

publicado por Elisabete às 14:27
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Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

CONTRA O ESQUECIMENTO…

 

Até ao outro lado da sala de paredes nuas e brancas contavam-se 18 passos. Rafael sabia a distância de cor. Fazia o mesmo caminho, para um lado e para o outro, centenas de vezes por dia. Indefinidamente. Além de uma mesa, duas cadeiras e dois falsos quebra-luzes que escondiam microfones e altifalantes, nada mais havia naquele espaço. Quando virava as costas ao pide que o vigiava para o impedir de dormir e se dirigia para o outro lado, andava o mais vagarosamente que conseguia. Naqueles 18 pequenos passos, um pé logo a seguir ao outro, fechava os olhos e dormitava. Na sua cabeça, a contagem não podia parar. Ao 17º sabia que estava a pouco mais de dois palmos da parede. Andava mais um, batia ao de leve no cimento frio, abria os olhos e iniciava o caminho contrário.

Foi assim durante 31 dias e 31 noites. Quando viu pela primeira vez a sombra das grades reflectida na parede, ao nascer do Sol, sentiu-se invadido pelo vazio. Depois, “por defesa e por sobrevivência”, habituou-se.

A sensação de dominar o espaço dava-lhe algum conforto. O conforto possível num pesadelo. Quando o mudaram para outra sala de interrogatório, sentiu que lhe destruíam a casa. “Era quase rigorosamente igual, mas havia pormenores como uma mancha no chão ou uma racha na parede que não o eram exactamente.” Não estavam no mesmo sítio onde era suposto estarem, no sítio que ele já conhecia e sabia indicar de olhos fechados. Nem eram exactamente 18 os passos que separavam as duas paredes e lhe permitiam, por um minuto, adormecer. A mudança, que se tornou frequente, arrasava a réstia de equilíbrio e lucidez que tanto se esforçava por manter. Nesses momentos, as alucinações assaltavam-no; mais do que nunca, dominavam-no.

Das tomadas de electricidade via sair gases de várias cores que se acumulavam no chão, uns ao lado dos outros, sem se fundirem. Com medo de sufocar e morrer intoxicado, Rafael agitava a perna no ar e dava pontapés naquelas nuvens para que se esfumassem e desaparecessem. As paredes transformavam-se em enormes engrenagens, máquinas de destruição prestes a esmagarem os que lhe eram mais próximos. Amigos e familiares tentavam, em vão agarrar-se ao que podiam, mas as mãos escorregavam-lhes e eles caíam desamparados nas turbinas metálicas que, lenta e dolorosamente, os faziam desaparecer. Tudo se passava à frente dos seus olhos e ele, desesperado, assistia. Correu para a parede e tentou parar as máquinas com as próprias mãos. Com os dedos, arranhou o cimento até as unhas lhe sangrarem. Gritava, pedia ao pide que o ajudasse a salvar os que morriam. Nada acontecia. Impotente perante o sofrimento dos amigos, Rafael desejou que também ele fosse engolido. Com a força que lhe restava, atirou-se de cabeça. “Acordou” da alucinação com dois inspectores a agarrarem-no para que não se matasse, tal era a violência com que, uma e outra vez, batia com o crânio na parede.

Nos primeiros dias de tortura, Rafael “estava constantemente a levar tareia”. Ao início, todos os dias. Várias vezes ao dia. Queimaram-lhe as mãos com pontas de cigarro e “faziam quase um concurso para ver quem batia da forma mais cruel, com chicotes, fios eléctricos, cassetetes e matracas”. A um dos inspectores, com pronúncia alentejana, sempre com sapatos de tacão e calças demasiado curtas, ganhou um ódio particular. Nos interrogatórios, os pides revezavam-se em turnos. O alentejano chegava muitas vezes bêbedo. Dava-lhe pontapés no tendão de Aquiles e um dia deslocou-lhe o joelho esquerdo. Rafael esteve seis dias sentado numa cadeira com um inchaço na perna que o impedia de andar.

Ganhou-lhe uma raiva descontrolada. Uma vez, mal o inspector entrou na sala para começar o turno, correu para ele, deitou-o no chão e apertou-lhe a garganta. Perante os gritos, outros agentes correram em auxílio. Agarraram-no, tentaram tirá-lo de cima do outro, mas não conseguiram. Rafael parecia possuído por uma força sobre-humana. “Estava capaz de o comer vivo.” Sem meios para travar o ataque, os outros partiram-lhe uma cadeira na cabeça. Caiu para o lado, inanimado, e só assim o largou.

Não tinha o mesmo ódio a todos os agentes. “Havia os pides velhos, de cinquenta e tal anos, muito brutos, fanáticos e terríficos, mas havia alguns mais novos que pareciam não ter sido ainda completamente convertidos. Os rudes nunca interrogavam. Entravam só para bater.”

Menos de uma semana depois de ser preso, no final de Setembro de 1973, os inspectores Santos Costa e Inácio Afonso, dois dos mais temidos, arrastaram-no uma noite, […] para um carro, com mais dois agentes, e seguiram pela Marginal até à Boca do Inferno, em Cascais. […] e ameaçaram atirá-lo se insistisse em não falar. Rafael continuou calado. A pergunta, repetida vezes sem conta, era sempre a mesma. Onde estava Palma Inácio, o fundador e líder da LUAR (Liga de União e de Acção Revolucionária), uma das mais importantes organizações de luta armada a surgir em Portugal para combater o Estado Novo.

Carismático e misterioso, Hermínio da Palma Inácio era, para muitos, uma figura quase mítica. E, para a PIDE, um dos principais alvos a abater. Em 1961, o ex-militar da Força Aérea desviou um avião da TAP que fazia a ligação Casablanca- Lisboa, sobrevoando a baixa altitude várias cidades do país, incluindo a capital, para lançar perto de cem mil panfletos de apelo a uma revolta popular contra a ditadura. Participou, também, no assalto à delegação do Banco de Portugal da Figueira da Foz, onde foram roubados cerca de trinta milhões de escudos para financiar as operações de luta contra o regime.

Preso em 1968, quando tentou tomar a cidade da Covilhã, com outros cinquenta operacionais da LUAR, Palma Inácio foi condenado a 15 anos de prisão, mas conseguiu evadir-se da cadeia do Porto nove meses depois, numa fuga particularmente humilhante para a PIDE. Palma Inácio serrou as grades com lâminas que a irmã conseguiu fazer-lhe passar e que a polícia política, apesar de avisada de que existiam, nunca conseguira encontrar nas sucessivas revistas à cela.

Para Rafael Galego, Palma Inácio era um líder mas também um amigo. Rafael envolveu-se no combate à ditadura muito antes de o conhecer. A luta estava-lhe no sangue. Cresceu em Trás-os-Montes, no concelho de Montalegre, junto à fronteira com a Galiza, para onde o pai foi destacado como encarregado de obra na construção de uma barragem. Viviam isolados de povoações, num bairro construído apenas para os trabalhadores da obra. Solidária com a oposição, a família ajudou muitas vezes emigrantes clandestinos e refugiados políticos a darem o salto para Espanha. Davam-lhes farnel e dormida, escondendo-os da polícia. Em 1958, tinha Rafael 8 anos, o pai participou activamente na campanha de Humberto Delgado para as eleições presidenciais. Ao irmão, nascido nesse ano, deu o nome do candidato para o homenagear.

Como grande parte da população naquela época, Rafael acabou a 4ª classe e deixou os estudos. Aos 12 anos começou a trabalhar na barragem como “pinche”, um aprendiz de mecânica. Três anos depois, a construção acabou e a família mudou-se para Alverca. De dia, o miúdo magro e de corpo franzino trabalhava como metalomecânico na fábrica da Mague; à noite, frequentava um curso de formação para serralheiros. Nessa altura, ainda adolescente, juntou-se ao PCP. Pouco depois, com 19 anos, e como tantos que a família tinha ajudado em Trás-os-Montes, saltou a fronteira para fugir à guerra. Chegou a França sem dinheiro, sem conhecer ninguém, nem falar francês. Dormiu ao relento em bancos de jardim ou escondido no metro, nas noites mais frias. Sem conseguir arranjar trabalho, juntou-se a outros portugueses e partiu para o Luxemburgo. “Nem sequer sabia onde ficava o país.”

Desta vez, no entanto, a experiência correu bem. Alugou um quarto, encontrou emprego numa fábrica e juntou-se a um sindicato, ajudando a criar uma secção portuguesa na confederação de trabalhadores do Luxemburgo. Um dia, em 1971, foi abordado por um membro da LUAR para se juntar à organização. Rafael hesitou. “Mentalmente ainda estava ligado ao PCP.” Poucos dias depois, Palma Inácio encontrou-se com ele para o convencer. A amizade começou aí. Ganhou-lhe uma admiração e um respeito profundos. Foi-lhe fiel até ao fim.

Palma Inácio mudou-lhe o nome, deu-lhe um passaporte e uma carta de condução falsos e ensinou-lhe “tudo o que um guerrilheiro tem de saber”. Em França, para onde voltou a mudar-se, clandestino, Rafael era periodicamente chamado para treinos operacionais. Embrenhado no Bosque de Bolonha, aprendeu a lidar com radiotransmissores, teve formação em falsificação de documentos e treino de explosivos. Essa era, para ele, a parte mais fácil. Em miúdo, quando trabalhou com o pai na construção da barragem, já várias vezes tinha mexido em detonadores. Desta vez, no entanto, os professores não eram trabalhadores das obras, iletrados e pobres, mas “revolucionários profissionais”, como ele também queria ser.
 
 

No início de 1973, Rafael e outros quatro jovens que, com ele, tinham recebido treino estavam prontos. Sentiam-se preparados para qualquer missão que a Organização decidisse atribuir-lhes. Cansados do treino e dos simulacros, queriam actuar. Pediram a Palma Inácio para os deixar ir para Portugal. A luta pela democracia fazia-se lá. Não a dois mil quilómetros de distância, “em guerrilhas de café”. Em Julho desse ano, a LUAR decidiu enviá-los. Rafael e um controleiro, o chefe do grupo, foram de carro, transportando todo o equipamento: pistolas, metralhadoras, radiotransmissores, detonadores eléctricos e cargas explosivas. Os outros quatro meterem-se num comboio até Salamanca, onde o grupo voltou a reunir-se. Numa serra junto à cidade espanhola, abandonaram o carro e distribuíram uma pistola a cada um, escondendo o resto do material em sacos de mão. A ideia era saltarem a fronteira e entrarem em Portugal a pé, como tantos outros emigrantes.

O plano era esse, mas não foi o que aconteceu. Na aldeia raiana de Navasfrías, a poucos quilómetros de Portugal, foram interceptados pela polícia espanhola e encaminhados até ao posto para se identificarem. Era meio-dia e o calor apertava. Nas mãos, cada vez mais transpiradas pela temperatura e pela ansiedade, levavam sacos carregados de armamento. À entrada da esquadra, tiveram de pousá-los. Nesse momento, um dos agentes baixou-se e abriu o primeiro saco. Lá dentro estavam embrulhos que escondiam os detonadores. Não havia tempo para pensar. Antes do polícia ver o que era, Rafael puxou da pistola que trazia escondida nas calças. Foi tudo demasiado rápido. Assustados, os polícias fugiram para dentro do posto, onde o controleiro e um dos elementos do grupo estavam a ser identificados. Rafael e os restantes quatro fugiram, cada um na sua direcção.

Dois foram apanhados. O outro encontrou Rafael algumas centenas de metros à frente. Juntos, afastaram-se o mais que puderam da povoação e subiram uma montanha. Durante horas andaram perdidos no meio da serrania, sem mapas nem bússolas. Já a noite ia alta quando encontraram um pequeno cemitério isolado. Pelos nomes e pelas inscrições gravadas nas lápides, aperceberam-se de que já estavam em Portugal. Aliviados e exaustos, deitaram-se junto às campas.

Na manhã seguinte, caminharam até uma aldeia com casas de pedra, perdida no meio da serra da Malcata. Não viam ninguém. A aldeia parecia deserta. Junto a uma casa de dois andares, com o gado guardado no piso térreo, viram estacionado um carro com matrícula francesa, provavelmente, de um emigrante de visita à terra, nas férias de Verão. Podia ser a solução para um dos seus problemas mais imediatos. No bolso, Rafael tinha quinhentos francos que conseguira graças à sua guitarra, que vendera em Paris, antes de rumar a Portugal. O companheiro não tinha nada. Precisavam de trocar os francos por escudos para comprar um bilhete de comboio ou de camioneta até Lisboa. Traçaram uma história convincente para contar e combinaram que seria Rafael a fazer a conversa.

“Ó da casa!”, chamou. A senhora veio à porta e convidou-os a entrar. Ao emigrante, filho da dona, explicou que tinham planeado ir viver para França e que já tinham trocado o dinheiro para francos quando os avisaram de que o país estava a travar a entrada de novos emigrantes. Desistiram, mas ficaram com aquele dinheiro que em Portugal não lhes servia de nada. O emigrante aceitou, sem reservas nem perguntas, fazer-lhes o câmbio. Serviu-lhes café e pôs na mesa pão, presunto e queijo.

Não comiam há mais de um dia e “estavam mortos de fome”. Quando Rafael se preparava para se servir, o filho do emigrante, uma criança irrequieta com 2 ou 3 anos, simpatizou com ele e foi sentar-se ao seu colo. Rafael tinha a pistola escondida nas calças, entre a cintura e o fecho. Teve medo de que a criança, que não parava quieta, a descobrisse. Pôs uma mão sobre a arma e com a outra agarrou o miúdo. Não sobrava nenhuma para tirar uma fatia de pão. Ao seu lado, o companheiro não parava de comer. A dona da casa via-o com gosto a deliciar-se e insistiu para que também Rafael se servisse. Ele não tinha como. Agradeceu, mas recusou, dizendo que estava sem fome.

Deixou a casa de barriga vazia. Sempre por caminhos afastados da estrada, continuaram até encontrarem uma linha de comboio. Seguiram os carris até à estação e compraram dois bilhetes para o Porto. Para despistar a polícia, saíram na Guarda e apanharam outro comboio rumo a Lisboa. Quando chegaram à capital “eram dois pardalitos isolados, clandestinos e sem forma de entrar em contacto com a Organização”. Era o mais importante. Tinham urgência em avisar Palma Inácio da prisão dos companheiros em Espanha. Foram bater à porta de um padre que Rafael sabia pertencer à LUAR e que já tinha sido preso uns anos antes. Contou-lhe que o grupo fora desmantelado e que só restava ele e outro companheiro. Pediu-lhe para ir a França avisar o líder e dizer-lhe que ficaria a aguardar o contacto para uma nova missão. Separou-se do amigo, que partiu para a Covilhã, de onde era natural, e rumou a Alverca, que conhecia bem.

Nunca chegou a ser chamado para outra operação. Foi preso pouco tempo depois, em 23 de Setembro de 1973, exactamente um mês após o desaire de Navasfrías. Sabendo, pela vida que levava, que o mais provável era ser apanhado, Rafael tinha pedido há muito a Palma Inácio e a outros ex-presos políticos pertencentes à Organização para lhe descreverem, ao pormenor, as torturas e os métodos da PIDE. Quando foi capturado, julgava saber o que o esperava, mas foi, afinal, muito pior do que antecipara e do que as descrições o tinham feito imaginar. Esteve um mês em privação de sono, considerada uma das mais difíceis, dolorosas e perturbadoras formas de tortura. Um mês sem se lavar, a andar aos círculos numa sala, à mercê de alucinações agoniantes e espancamentos periódicos.

Durante todo esse tempo, trazia nas palmilhas 11 folhas de serrote para tentar escapar. Há muito que andavam com ele, dentro dos sapatos, para o caso de um dia ser preso e precisar. No primeiro mês, no entanto, estivera sempre vigiado por um pide, pelo menos. Quando, ao fim de 31 dias de tortura, o tiraram da sala de interrogatório e o levaram em ombros para uma cela no reduto norte, onde o depositaram e o fecharam sozinho, já não tinha como as usar. Destruído, meio louco, sem força e sem fé, era uma amostra de homem com 52 quilos, que mal conseguia pôr-se em pé.

Mas estava orgulhoso. Conseguira resistir. Mal sabia que ainda não tinha acabado. Depois de dois dias a dormir, quando pensava que o calvário chegara ao fim, arrastaram-no, novamente, para mais seis dias e seis noites de tortura do sono. Implorou para o mataram. “Era preferível morrer. Já não encontrava sentido para o sofrimento” em que se encontrava. Lembrava-se das ameaças na Boca do Inferno e desejava que o levassem outra vez e que o atirassem ao mar ou que acabassem com ele ali mesmo, com um tiro certeiro e misericordioso. “Estava capaz de contar a vida toda, o que sabia e o que não sabia. Mais um minuto e teria falado.” Nesse instante, porém, foram buscá-lo e levaram-no ao gabinete do chefe de brigada. Entrou e viu pendurado num cabide um casaco de flanela aos quadrados que tão bem conhecia. De imediato, percebeu que todo o sacrifício fora em vão. Palma Inácio, o seu líder, o amigo a quem jurou ser sempre fiel, tinha sido apanhado.

 

 

Joana Pereira Bastos, OS ÚLTIMOS PRESOS DO ESTADO NOVO,

tortura e desespero em vésperas do 25 de Abril
publicado por Elisabete às 15:01
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