Sexta-feira, 27 de Setembro de 2013

UM SOL ENGANADOR

1  Em lugar de agregar municípios ou freguesias dos grandes centros urbanos, o Governo extingue freguesias do interior — que, em muitos casos representam o último resquício da função social e política do Estado. Assistindo, sem nada fazer, ao contínuo despovoamento do país interior, fecha mais linhas férreas, tribunais, centros de saúde e escolas, invocando razões orçamentais e demográficas tornadas então inevitáveis. E, a troco de 600 milhões de euros, avança para nos tornar o único país do mundo sem correios públicos, dando aos felizes vencedores da privatização dos CTT uma licença bancária de bónus, que eles irão acrescentar às poupanças geradas com o encerramento de inúmeras estações de correios — gerindo um serviço público essencial à unidade territorial do país com uma irrebatível lógica de mercearia. Aos CTT, irá, em próximas oportunidades, acrescentar a TAP, as Águas, a Caixa, a parte rentável da CP e os Estaleiros de Viana (deliberadamente inviabilizados pelo senhor ministro da Defesa). E a juntar ainda ao que já privatizou por completo: aeroportos, produção e distribuição de energia eléctrica. Privatiza-se o que dá dinheiro, mantém-se público e financiado por swaps e PPP o que perde dinheiro.

E, enquanto assim desmantela o que demorou décadas ou séculos a construir, enquanto dá ordem de expulsão ao interior e entrega as terras abandonadas às celuloses e aos incêndios, que depois piedosamente lamenta, o “Governo de Portugal” (como eles gostam de ostentar nos pins das lapelas) trata de liquidar também qualquer veleidade de futuro, enquanto nação independente. Pela primeira vez desde que há memória, as Universidades públicas têm milhares de vagas sem candidatos, porque só há dois destinos para os licenciados portugueses: engrossar o lote dos quase 40% de desempregados jovens, ou emigrar, seguindo a sugestão do próprio Governo e o aliciante convite da srª Merkel, pronta a receber de braços abertos jovens engenheiros, investigadores ou enfermeiros, licenciados com o dinheiro dos contribuintes portugueses e de que a Alemanha tanto precisa para nos poder continuar a dar lições de superioridade económica, num espaço económico dito comum mas onde as regras do jogo estão viciadas à partida. Em Alqueva sobra água sem destinatários porque o tão apregoado regresso à terra não encontra agricultores em condições financeiras para o fazer, nem sequer se a água for oferecida. É como uma casa a ser abandonada aos poucos, divisão por divisão.

Em contrapartida, porque o Governo não soube, não estudou, não foi capaz e já não tem margem social para lançar qualquer reforma séria do Estado excedentário, desinveste no que devia ser proibido desinvestir: a ciência e a investigação científica, o ensino do inglês, as novas tecnologias e as energias alternativas ao petróleo que não temos (e onde a Alemanha de Merkel vai investir biliões, financiada a custo zero, pois que o mal dos pobres é sempre uma oportunidade para os ricos). Num país que já se tornou um caso de referência internacional como o que mais aceleradamente está a promover a desigualdade social, onde os sintomas de desagregação do tecido social são campainhas de alarme a tocar que só os idiotas e os gananciosos não escutam, onde o simples facto de ter um emprego já é olhado como privilégio, o “Governo de Portugal” — um indecente concubinato ideológico entre rapina fiscal e liberalismo saloio — estuda agora a sedutora tentação de liquidar a escola pública através do “cheque-ensino”, sepultando cem anos de um princípio republicano essencial a um país civilizado.

Depois de ter falhado todas as metas orçamentais que o resgate visava conseguir; depois de ter assaltado e liquidado a economia civil para ocultar a dimensão do falhanço das políticas orçamentais ditadas pela troika e a que miseravelmente se submeteu; depois de ter extinguido uma classe média que tão a custo se formou e agora sufoca sob impostos — enquanto as nossas 20 majors se aliviam desse patriótico fardo sob a protecção dos nossos parceiros comunitários Luxemburgo e Holanda (o país onde o arrogante presidente do Eurogrupo, Djasselboem, é simultaneamente ministro das Finanças, dando-nos lições de austeridade enquanto nos rouba impostos); depois de ter feito regredir os índices de bem-estar a dez anos atrás e ter hipotecado o futuro de uma geração, temo que o Governo esteja agora a desmantelar os alicerces de um Estado-nação que demorou 870 anos a erguer. Talvez sem o saber, talvez por cegueira, talvez por absoluta e trágica impreparação e incompetência. Pouco importam as razões, importa é a dimensão da tragédia.

2  Após nove em cada dez Prémios Nobel de Economia o terem dito, após os estudos do FMI e numerosos outros organismos o terem demonstrado, o PSD parece começar, enfim, a vislumbrar a desgraça do caminho que a troika nos impôs e a que o seu cavaleiro andante Passos Coelho tão alegremente se entregou. Ele, porém, ainda não: por ignorância e maus conselhos. Prefere acreditar nos que lhe garantem que tudo o que de mau está a acontecer ainda é culpa de José Sócrates, e mesmo quando alguém lhe tenta explicar racionalmente que só para pagar o serviço da dívida (que ele não faz senão aumentar) era preciso que o PIB crescesse 4% ao ano e só a partir daí é que a economia poderia crescer, ele encolhe os ombros e repete as frases feitas que aprendeu com os nossos génios económicos que lhe fizeram a cabeça, depois de terem aprendido a técnica no Goldman Sachs ou outras escolas do crime. Havia, sim, outro caminho, mas teria sido preciso alguém com dimensão para o escolher e o impor. Desgraçadamente, o que se abateu sobre nós foi uma tempestade perfeita: Passos Coelho no Governo, Seguro na oposição, Cavaco na Presidência e Merkel na Europa.

3  Estive um mês sem escrever, condição mínima de sobrevivência para quem escreve nas outras 48 semanas do ano. A pausa serve para reflectir sem a pressa de concluir. Serve para observar, para ver melhor — como sempre se vê melhor de fora. Vi os incêndios do Verão, os oito mortos, a área mais ardida da última década — conforme era elementarmente previsível. Segui o entusiasmo patriótico com as cagarras das Selvagens e as 200 milhas de mar circundante que os seus detritos nos poderão acrescentar, a favor de uma inexistente frota pesqueira — reflexo da nossa ancestral crença nos Eldorados que hão-de brilhar à flor da água ou além dela. Assisti ao regresso à cena televisiva do inefável quarteto sindical Bettencourt Picanço/Nobre dos Santos/Ana Aivola/Mário Nogueira, o sinal infalível de que até este Verão luminoso chegou ao fim. Vi como o há muito defunto partido maoista do dr. Garcia Pereira, o único cadáver político ressuscitável ciclicamente por via eleitoral, conseguiu — com a ajuda da lei, da CNE ou da simples estupidez — banir o debate político eleitoral da imprensa, confundindo tempos de antena para a propaganda com tempos de informação para os eleitores. Mais um obstáculo de monta para a campanha do independente (e meu amigo, para que conste), Rui Moreira, que, no Porto, já tem de enfrentar um dr. Menezes que congrega os grandes empresários e artistas, o PSD e os seus comentadores televisivos, o Porto Canal e o FC Porto, que esbanja dinheiro e oferece um porco assado e um concerto do Quim Barreiros em cada bairro e promete três pontes, um túnel, impostos mais baixos, rendas sociais mais baratas e muitas outras coisas, umas ditas outras murmuradas, enquanto jura que não deixará o Porto como deixou Gaia — isto é, arruinado. Vejo António Costa, em Lisboa, sem oposição à altura, frente a um adversário que afirma que estão de acordo em tudo o que é essencial — como se não houvesse nada a dizer de tudo o que não foi feito por Lisboa. E vejo, entre muitas outras pelejas dignas de nota, a luta de gangues pela Câmara de Oeiras. Quanto ao desfecho no Tribunal Constitucional da arrastada questão da transposição dos autarcas para lá do prazo para um outro concelho, não consegui compreender a indignação da boa gente com a “ambiguidade” da lei e a condescendência do tribunal: se o povo está indignado com os salta-pocinhas, tem um bom remédio para demonstrar a sua insatisfação — votar contra eles.

E assim, tudo isto tendo visto e ouvido, e sobre tudo isto reflectido, guardo destas quatro semanas de pausa a memória de um Verão como talvez não viva outro, iluminando um país todavia perdido. Mas sim, era, ainda é, possível fazer melhor. Mas não apenas com outro governo: com outra gente.


MIGUEL SOUSA TAVARES

 

 



 



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Quinta-feira, 26 de Setembro de 2013

Novas formas de escravatura do Capitalismo

A morte de Moritz Erhardt e o erro de Keynes


Ainda não se sabe ao certo a causa da morte de Moritz Erhardt, um jovem de 21 anos, estagiário no Bank of America Merrill Lynch, em Londres no mês passado. Erhardt, um estudante alemão que havia terminado recentemente um semestre de intercâmbio na faculdade de negócios da University of Michigan, estava a aproximar-se do final de um estágio de Verão, de sete semanas, no renomado banco, quando desmaiou ao tomar banho, na sua residência, no leste de Londres. Os relatórios indicaram que ele sofria de epilepsia e deve ter tido convulsões. Esta é uma trágica história. O que a torna ainda mais atroz é a revelação da fatigante agenda de Erhardt nas semanas que antecederam a sua morte. (As convulsões epilépticas também podem ocorrer devido a exaustão).

Tentando conseguir a aprovação do seu chefe, Erhardt trabalhou até de madrugada oito vezes em duas semanas, dizem os colegas. Nas noites que antecederam sua morte, trabalhou até às seis horas da manhã por três dias seguidos. Erhardt estava empregado na divisão de investimentos bancários, que é notável, mesmo para os parâmetros degoladores da City of London e de Wall Street, pelas horas de trabalho esperadas dos trabalhadores. “Eu vejo muitas pessoas andando por aí, com os olhos avermelhados e bebendo cafeína para poder passar por isso, mas elas não reclamam, pois a recompensa pode ser muito boa”, disse um estagiário ao The Independent. (Na sua declaração, o Bank of America Merrill Lynch disse que não poderia comentar estas afirmações sobre as horas de trabalho de Erhardt e que aguarda os laudos pós-morte).

Excesso de trabalho: a possível causa da morte de Erhardt pode ser relativamente rara, mas não é nenhuma novidade. Apenas há alguns meses, um rapaz de 24 anos, em Beijing, sofreu uma paragem cardíaca por ter trabalhado excessivamente durante um mês. No Japão existe até um termo para este fenómeno, e o ministério da Saúde fez um grande esforço para reduzir o número de casos. A morte de Erhardt mostra um curioso fenómeno, que destaca a natureza do trabalho e do lazer e as razoáveis expectativas que as pessoas possuem de ambos.

 

Moritz Erhardt: no seu sector, são quase inevitáveis as jornadas de 80 horas semanais

 

Em 1930, John Maynard Keynes escreveu um ensaio chamado Economic Possibilities for Our Grandchildren (Possibilidades Económicas para os Nossos Netos), no qual previu que, com o avanço das tecnologias e o consequente aumento da produtividade, poderíamos trabalhar muito menos para satisfazermos as nossas necessidades. No espaço de um século, estimou Keynes, ninguém deveria trabalhar mais do que quinze horas semanais. O argumento parece quase ingénuo, na medida em que 2030, a data estimada por Keynes, se aproxima.

As horas de trabalho no mundo desenvolvido de facto caíram drasticamente nas primeiras décadas do século XX, graças às inovações industriais (como o próprio Keynes testemunhou). O declínio diminuiu nas décadas seguintes e, desde os anos 1980, as horas de trabalho estagnaram na média de quarenta horas semanais. Hoje, nenhum lugar, no mundo desenvolvido, está perto da projectada semana de trabalho de quinze horas de Keynes. Mesmo assim, no final do século XX, a média anual de horas trabalhadas era quase metade em relação ao século anterior, principalmente pela drástica mudança no início do século. Isto conduziu a um aumento nas actividades de lazer: prática de desporto, viagens, televisão, etc.

No entanto, os 10% do topo dos assalariados “não compartilharam muito deste ganho no lazer”, escreveu Robert Fogel, um historiador económico, em 1994. Ao invés disso, estas pessoas bem pagas, notou ele, estavam trabalhando próximo dos padrões do século XIX: 3200 horas por ano, comparadas com o actual padrão de 1800 horas.

 Isto é surpreendente, se se pensar – como fez Keynes – que as pessoas preferem as horas de lazer e que passariam menos tempo trabalhando, se ganhassem dinheiro suficiente para trabalhar menos. Por outras palavras, parece fazer sentido que pessoas que ganham muito dinheiro trabalhariam menos e não mais.

Ao contrário, é o oposto que tem acontecido. Na verdade, o salário de 4.200 dólares por mês de Erhardt não o colocaria na categoria de Fogel do topo dos 10% dos assalariados. Mas não há dúvida de que, se ele tivesse vivido e continuado a trabalhar num banco de investimentos, os seus rendimentos teriam aumentado exponencialmente. Além disso, Erhardt pertencia a um meio em que as horas de trabalho pouco diminuem conforme se sobe na carreira corporativa. Alexandra Michel, professora assistente na U.S.C. Marshall School of Business, entrevistou mais de quinhentos sócios de bancos para um artigo sobre a cultura no local de trabalho: no seu primeiro ano de trabalho, todos os entrevistados disseram trabalhar mais do que oitenta horas por semana; no quinto ano, este número permaneceu nos 97%. “É como se fosse uma experiência psíquica em que a luz está sempre acesa,” disse um sócio a Michel sobre o seu ambiente de trabalho. “O único marco temporal são os turnos das secretárias”.

 

  

Como é que Keynes, cujas previsões já se mostraram tão acertadas, errou nesta?

A resposta talvez tenha a ver com o facto de a cultura dos locais de trabalho – incluindo as horas que as pessoas trabalham – não são estabelecidas pelos trabalhadores, mas pelos empregadores. Estes, preferem contratar um número menor de trabalhadores que conseguem trabalhar um longo período do que pagar menos e dividir o trabalho, pelo simples motivo de que da primeira forma é mais rentável, escreveram Robert e Edward Skidelsky no livro How much is enough? (Quanto é o bastante?). O resultado, de acordo com os autores, é que o mercado de trabalho está agora “dividido entre os que são obrigados a trabalhar mais tempo do que querem e os que não conseguem trabalhar o suficiente.”

A solução mais simples, argumentam, seria reduzir gradualmente o número de horas dos empregados. Esta solução, provavelmente, não anima os empregadores, é claro. Mas muitos se perguntam, à luz destas conclusões, se uma cultura de trabalho que reconhecesse os objectivos dos empregadores do mesmo modo que as necessidades dos trabalhadores poderia ter ajudado a evitar a tragédia da morte de Erhardt.

 

RUTH MARGALIT

[Tradução de Cristiana Martin, com aproximação minha ao português de Portugal] 

 

http://www.leituras.eu/out.php?u=http://outraspalavras.net/posts/a-morte-de-moritz-erhardt-e-o-erro-de-keynes/



publicado por Elisabete às 12:44
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Domingo, 15 de Setembro de 2013

O que faz falta?

 
UM GOVERNO DE TRAIÇÃO NACIONAL

 

A história e a política estão cheias de grandes tiradas, de declarações que mudaram o rumo do mundo e que inflamaram o desejo e o sonho de milhões durante décadas ou séculos. “Obviamente, demito-o!” “De l”audace, toujours de l”audace, encore de l”audace!” “We shall fight on the beaches…” “Os proletários não têm nada a perder senão as suas grilhetas!”…

E há também frases aparentemente banais que, por uma conjugação de circunstâncias, conseguem mudar o curso dos acontecimentos. O fim do senador republicano americano Joseph McCarthy foi ditado quando, durante um das famosas audições no Senado, o advogado do Exército dos EUA Joseph Nye Welch lhe perguntou simplesmente, com um ar de profundo desdém, “Have you no sense of decency?” Uma pergunta que bastou para os americanos – havia 20 milhões a seguir a transmissão televisiva em directo – adquirirem a consciência de que aquele arruaceiro pomposo era apenas um pequeno traste à procura de poder. O homem não merecia senão desprezo.

O que é espantoso é como, na actual situação política portuguesa, há tão pouca gente a fazer a mesma pergunta a todos e a cada um dos membros do Governo português, de cada vez que abrem a boca, quando é tão evidente que essa gente é apenas, como McCarthy, um bando sem escrúpulo, sem noção de decência, sem respeito pela lei, sem apego à democracia e com um profundo desprezo pela vida dos cidadãos e uma subserviência criminosa em relação aos interesses financeiros internacionais. Há decência nos swaps? Na destruição da escola pública? Na humilhação dos pobres? Na destruição da universidade? No aumento do desemprego a que chamam flexibilização? Na destruição da administração pública a que chamam requalificação?

Não têm o sentido da decência? Não. Não têm, não querem ter e têm raiva a quem tem.

 

Parece uma caricatura? Parece. Mas isso é apenas porque o Governo de Passos Coelho é de facto uma caricatura, um excesso de mentiras e pouca-vergonha, uma organização de rapina que governa sem qualquer escrúpulo. Aquele conjunto é de facto caricatural. Portas é caricatural. Mota Soares é caricatural. Maduro é caricatural. Passos Coelho é caricatural como todas as pessoas sem escrúpulos são caricaturais. Porque é que as enormidades que diz não são denunciadas como as enormidades que são? Porque é que se acha aceitável este estilo de títere tiranete? Porque há uma reserva de boa vontade nas pessoas que lhes diz que as coisas talvez não sejam tão más como parecem e que as pessoas podem não ser tão desprovidas de princípios morais e de sentimentos como parecem na televisão. Há sempre pessoas que levam a sua magnanimidade até à estultícia. E os Passos Coelhos deste mundo contam com isso. Com isso, com os crédulos que podem convencer a continuar a votar em si e com os moluscos que os servem no Parlamento.

É assim que este Governo fora-da-lei pode continuar a roubar aos milhares de milhões os portugueses, roubando-lhes os bolsos, os empregos, as pensões, os ordenados, os subsídios, os serviços públicos que eles pagam, o património que construíram, as empresas públicas que são de todos, destruindo o progresso que se alcançou nas últimas décadas apenas para poder enriquecer ainda mais os muito ricos e para poder aniquilar os resquícios de soberania que possam teimar em existir, espalhando a miséria e reduzindo os portugueses à inanição e à subserviência.

O que temos é um Governo não de salvação mas de traição nacional. De traição às suas promessas eleitorais, às suas juras de tomada de posse, às instituições democráticas e aos compromissos da civilização que todos abraçámos, de traição ao povo, espremido e vendido barato para enriquecer os credores.

E, no entanto, os portugueses não se movem. Ou quase não se movem. As acções do bando de malfeitores que se apoderou do Governo com falsas promessas parece tão inconcebível que parece impossível que alguém as leve a cabo sem que haja fortíssimas razões de interesse público, ainda secretas. Imagina-se que deve haver aí alguma racionalidade. Talvez o que o Governo diz da austeridade seja verdade. Talvez seja justo matar os pobres à fome para pagar aos bancos.

Custa a acreditar que alguém possa ser tão desonesto, tão insensível, com um tal ódio aos mais fracos. Pensamos que isto não é possível, que a lei nos protege, que a filosofia nos protege, que a história nos protege, que a decência que temos o direito de esperar dos outros nos protege.

Mas a história está cheia de exemplos destes. Durante anos ninguém acreditou que Hitler quisesse exterminar os judeus, ninguém acreditou que Pol Pot tivesse dizimado um quarto da população do Camboja. E na sombra destes grandes ditadores sempre houve pequenos velhacos, pequenos capatazes como Passos Coelho ou Mota Soares que fizeram o trabalho sujo apenas para terem as migalhas da mesa do poder. Há racionalidade na acção do Governo, mas é a racionalidade do saque, do roubo descarado, da tirania da oligarquia. A decência está fora da equação.

 

JOSÉ  VÍTOR MALHEIROS

 

 

 

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Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

Abrindo o Baú

AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 1976

 

As primeiras eleições presidenciais, após o 25 de Abril de 1974, realizaram-se a 27 de Junho de 1976.

 

Candidatos:

 

António Ramalho Eanes

Otelo Saraiva de Carvalho

Pinheiro de Azevedo

Octávio Pato

 

 Otelo ficou em segundo lugar com 792 760 votos (16,59%)

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

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Segunda-feira, 9 de Setembro de 2013

Ou desordenando-o ainda mais

“O que é que te torna diferente?”

Bosco encolheu os ombros.

“O que é que nos torna diferentes de qualquer outra pessoa?”

“Diz-me tu.”

“Uma marca de finitude”, disse Bosco.

“Não sei se te compreendo.”

“Tu, por exemplo. O que é que fazes da vida?”

Demorei algum tempo a responder.

“Na verdade, grande parte do tempo não faço coisa nenhuma. Às vezes sou escritor. Ou fui escritor. Ou escrevo. Ou costumava escrever.”

“E o que é que faz um escritor?”

Franzi o sobrolho.

“Escreve?”

“Porquê?”

“Porque tem uma pergunta na cabeça para a qual não sabe a resposta.”

“Portanto, tenta dar-lhe resposta, ordenando o mundo com as suas palavras.”

“Ou desordenando-o ainda mais.”
 
João Tordo, O Bom Inverno
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A narrativa neoliberal não foi de férias

O colapso que estamos a viver foi gerado ao longo de mais de uma década por mecanismos socioeconómicos criadores de endividamento público e privado

 

O discurso de Passos Coelho no Pontal foi mais um episódio de propaganda política, só possível porque as televisões perderam a vergonha. A pretexto de informação em directo, fizeram a transmissão na íntegra de um discurso de comício. Nada que espante, porque hoje a televisão desempenha um papel central na construção de uma narrativa hegemónica da crise, um discurso simples sobre as suas origens, os seus responsáveis e as transformações do Estado que nos farão sair dela. Para executarem o seu projecto político, os partidos que nos governam precisam, no mínimo, de uma generalizada resignação dos cidadãos. A forma mais eficaz de a produzir consiste em criar uma larga maioria de fazedores de opinião (jornalistas, economistas, politólogos, deputados, políticos senadores) que sustente nas televisões a mesma narrativa da crise, a narrativa neoliberal.

O buraco em que caímos - forte e prolongada quebra na produção, desemprego de massa, mais fome e pobreza, crescimento da dívida pública em bola de neve, redução de salários, pensões e prestações sociais, pesado aumento de impostos sobre as famílias - é um fenómeno de interpretação complexa. Aliás, não pode haver uma interpretação indiscutível desta crise, ou de qualquer realidade sociocultural, já que não temos acesso a essa realidade a não ser através de conceitos, teorias, valores, ideologias. Não sendo a realidade um produto das nossas mentes, como sugere um certo construtivismo pós-moderno, ainda assim a narrativa de uma crise é uma mediação essencial porque tem causalidade própria. Quando é politicamente validada, torna-se a fonte inspiradora das decisões de reconfiguração do Estado e das políticas que lançam a sociedade numa nova e duradoura trajectória.

O colapso que estamos a viver foi gerado ao longo de mais de uma década por mecanismos socioeconómicos criadores de endividamento público e privado (sobretudo este) que, num país de economia frágil e sem moeda própria, se tornaram insustentáveis. Por isso, a crise atinge mais a periferia sul da zona euro. A interpretação neoliberal deste processo explora o senso comum e faz sentido para a maioria das pessoas - "o nosso despesismo sustentou durante décadas um Estado social incomportável, o que nos conduziu a mais uma crise. Vamos na terceira intervenção do FMI, mas, agora dentro do euro, temos mesmo de fazer aquilo que já não é adiável, reduzir o Estado social focando-o nos mais necessitados".

Esta narrativa integra sem dificuldade alguns factos que chocam o cidadão comum (casos de endividamento para consumo, muita formação profissional ineficaz, obras públicas de duvidosa utilidade, distribuição de empregos no Estado e empresas públicas, corrupção de vários tipos, etc.) ligando-os a má gestão do Estado, "a causa" da crise. É uma narrativa muito forte porque é plausível para o cidadão comum sem formação específica. Assim sendo, seria de esperar que as esquerdas tivessem investido fortemente na elaboração de uma alternativa, até porque a política de austeridade que tem sido seguida produziu uma calamidade social. Infelizmente, apenas foram produzidas narrativas parcelares sem consistência global. Uma contranarrativa teria de explicar em linguagem simples e popular que o endividamento foi gerado pela perda do escudo e que isso conduziu ao crédito fácil e à desindustrialização do país. Teria de dizer que com o euro perdemos as políticas de que precisamos para ir mais além no desenvolvimento. Teria de dizer também que perdemos a liberdade para decidir sobre as diversas vertentes do Estado social porque essas escolhas já estão feitas e inscritas nos tratados, as que a Alemanha aceitou ou mesmo impôs. Teria de dizer que não temos futuro dentro do euro.

Em Agosto, a narrativa neoliberal não foi de férias.

 

JORGE BATEIRA

Economista (Jornal i)

 

 

 

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Terça-feira, 3 de Setembro de 2013

ABADE DE NEIVA (BARCELOS) 1

 

A Igreja Medieval

 

Fica esta Igreja na costa de um monte áspero, e fragoso, coberto de sobreiros, pinheiros, e carrascos, donde se descobre em distância de três léguas a cidade de Braga, e as costas marítimas do mar da Vila de Esposende, do lugar da Póvoa, como também vários montes, a saber: o monte da Senhora da Fé, o monte de Airó, o monte do Perdigão, o monte de Remelhe, o monte da Senhora da Franqueira, o monte do Castro, o monte de S. Gonçalo, o monte de Santo Ovídio, vulgarmente chamado Santo Ouvido, o Bom Jesus do Monte por cima da cidade de Braga, e o monte de Layundos. Fica esta igreja no meio da freguesia.

(…) Tem esta Igreja cinco Altares: o Altar maior donde está o Santíssimo Sacramento com a sua Irmandade: é Orago Santa Maria com a confraria do Nome de Deus; um Altar colateral à parte da Epístola de Santo António com a sua confraria; outro do lado do Evangelho de S. José com a sua confraria; e outro da mesma parte, da Senhora do Rosário, com sua confraria.

 

Memórias paroquiais de 1758

 

Antes das obras de restauração

 

Monumento Nacional desde 14 de Outubro de 1927, a Igreja de Santa Maria Maior de Abade de Neiva, com características românicas e góticas, sofreu várias alterações ao longo dos tempos. Foi restaurada (a partir dos finais dos anos 50 do século passado) e conserva, exteriormente, as linhas da sua primitiva arquitectura.

Na torre-fortaleza, hoje torre sineira, que se ergue do lado direito da fachada da Igreja, e cuja fundação se atribui ao reinado de D. Dinis, foram abertos, em 1734, dois campanários para que fosse ouvido o toque dos sinos em toda a freguesia.

Na fachada, terminada em ângulo e em cujo vértice se ergue uma cruz, uma pequena rosácea em três circunferências, ornamentada com miosótis e esferas; e um pórtico de quatro arquivoltas de arco quebrado, sobre colunas lisas com capitéis historiados.

As janelas da capela-mor e os portais são ogivais. Num dos cachorros da parede lateral norte, estão representadas duas vieiras, ao lado de um escudo pós-dionisino.

No interior, tem as imagens da padroeira, Nossa Senhora de Santa Maria de Abade ou Senhora da Abadia, com coroa de prata e Menino Jesus no braço esquerdo, também com coroa na cabeça; de S. Francisco Xavier; e de um S. Gonçalo que veio, cerca de 1750, da capela dessa invocação do monte de S. Gonçalo, pertença do couto de Fragoso, por esta se encontrar em ruínas.

 

FONTE: Barcul. Concelho de Barcelos: Abade de Neiva (fascículo nº 1)

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Segunda-feira, 2 de Setembro de 2013

Tributo à vida e obra de José Afonso

 

enquanto há força

 

Concerto de Tributo à vida e obra de José Afonso integrado nas iniciativas de comemoração do 26º aniversário da Associação José Afonso

 

De nada me arrependo

Só a vida

Me ensinou a cantar

Esta cantiga

 

In “Alegria da Criação”(José Afonso in “Galinhas do Mato”,1985)

 

“José Afonso é o nosso maior cantor de intervenção. Este elogio tão consensual e aparentemente tão generoso é a forma mais eficaz de liquidar a obra do grande mestre da música popular portuguesa no que ela tem de universal e de artisticamente superior. (…) Arrumar José Afonso na gaveta da canção de intervenção, é não compreender que a dimensão da sua obra está ao nível do que de mais importante se fez na música popular universal do século XX. E se não teve o impacto mundial que merecia, foi tão-somente porque ele nasceu onde nasceu.”

 

Guilhermino Monteiro | João Lóio| José Mário Branco | Octávio Fonseca in “José Afonso, Todas as Canções”.

 

Por tudo isto, no dia 20 de Outubro, pelas 21h, com o apoio empenhado da CASA DA MÚSICA (Porto) e de muitas outras entidades, “companheiros de estrada” do Zeca distraído e de óculos grandes – conjuntamente com gente nova que cresceu com o “poeta, andarilho e cantor” – prestam tributo a um amigo maior que o pensamento.

 

ASSOCIAÇÃO JOSÉ AFONSO

 

Aquisição de bilhetes na CASA DA MÚSICA ou:

 

http://www.casadamusica.com/CulturalAgenda/event_detail.aspx?id=A9D4DB8D-A6AD-488C-B5FB-FBF35B8ADEC1&idShow=85FD0934-1FDF-4E2D-854F-9D116C974317&channelID=974A26B0-2329-4F77-AB20-F366139E22F4&contentID=DE1B3CCF-F2AD-4652-8BD7-F5BC9556444E&leftChannelID=974A26B0-2329-4F77-AB20-F366139E22F4

 

publicado por Elisabete às 23:23
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