Terça-feira, 21 de Janeiro de 2014

Continuou em vão a procurar resposta…

- Estou a vir de uma região onde tem havido sempre guerra (em nome da guerra fria ou não, mas a guerra fria era só pretexto) e as pessoas passaram a matar-se por falarem línguas diferentes. Outras falavam a mesma língua e matavam-se na mesma porque descobriam outras diferenças. Essas guerras acabavam em acordos de paz, com muitas cerimónias e observadores estrangeiros em nome da ONU. Conheces, mas deixa-me contar na mesma. Nalguns sítios, houve eleições comprovadas internacionalmente e observadas pelas habituais ONG se banqueteando humanitarismos por ali. No entanto, as pessoas continuavam a matar-se. Agora desapareceram as pessoas. Eu olhava durante estes dias as árvores e as montanhas, sem gente, sem gorilas, nem serpentes, mas via os espíritos das pessoas combatendo. Continuam combatendo, só que agora é apenas em espírito. Terra desgraçada, feita para matar e morrer. Vou embora, não quero mais ver estas montanhas, estes lagos, esta natureza demasiado bela e tão cruel. Sem os pacíficos e civilizados gorilas isto significa pouco para mim. Compreendes, ao menos?

- Também em Calpe tem havido guerras, no fundo é a mesma região com os mesmos problemas – disse Julius. – Só não tem gorilas há muito…

- Estarei a ser racista, a dar mais importância aos bichos que aos homens? Tenho medo de parecer racista, é inerente a um americano liberal.

- Todos somos. Quer queiramos quer não. O racismo está no espírito criador de todas as religiões. E mesmo os ateus foram tocados por essas culturas, adquirindo portanto tiques racistas. Quando uma pessoa de cor diferente me estende a mão e precisa de dizer, eu não sou racista, no fundo está a confessar que é, porque reagiu em função da minha cor diferente. Não sentiria necessidade de o dizer a um da sua cor.

- É lógico. E o meu medo de parecer racista é puro racismo. É isso que estás a querer insinuar?

- Insinuar não. Estou mesmo a dizer. Mas sem te culpar. Por isso digo, se sentes necessidade de abandonar esta região que já não te diz nada, acho que o deves fazer. Voltar a casa. Mesmo sabendo a casa vazia.

Ela ficou muito tempo em silêncio, enquanto ele lhe acariciava os cabelos. A pele era puro cetim, nacarado, o que o encantava. Nunca tinha tocado e cheirado uma pele tão branca. Nunca tinha ficado tanto tempo na cama com uma mulher, conversando e fazendo amor. Normalmente, fazia o que tinha a fazer e ia embora ou então dormia. Mas a tarde estava no fim e não tinha vontade de sair nem de dormir. Só ficar ali, conhecendo-a, tocando-lhe, cheirando o seu perfume de fêmea. Era de facto um dia de todos os mistérios e de todas as descobertas.

- Ias comigo? – perguntou Janet, muito baixinho.

Ele não respondeu. Ela não ousou voltar a perguntar. E ele continuou em vão a procurar a resposta.

 

Pepetela, O Quase Fim do Mundo

publicado por Elisabete às 22:14
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Terça-feira, 7 de Janeiro de 2014

Marina Ginestà

Éramos periodistas y nuestra profesión era que no decayera nunca la moral, difundíamos el lema de Juan Negrín “con pan o sin pan, resistir”. Y nos lo creíamos.

  

Nascida a 29 de Janeiro de 1919, em Toulouse, Marina Ginestà cedo se muda, com seus pais para Barcelona, onde passa a fazer parte das juventudes do PSUC (Partido Socialista Unificado da Catalunha).

Em 1936, com outros companheiros, organiza a chamada Olimpíada Popular, em resposta aos Jogos Olímpicos de Berlim.

Depois do insucesso do golpe de estado de 18 de Julho de 1936 contra o governo da II República Espanhola e do início da Guerra Civil, surge a Revolução Social na Catalunha. As Juventudes Socialistas instalam-se no Hotel Colón, entretanto abandonado pelos clientes. É dos seus telhados que o fotógrafo Hans Gutmann a fotografa, a 21 de Julho de 1936, tendo ela apenas 17 anos, transformando-a num símbolo da Guerra Civil.

Como jornalista e tradutora, traduz Mijail Koltsov, correspondente do diário PRAVDA (URSS) e, com ele, entrevista o líder anarquista Buenaventura Durruti, crítico de Estaline.

Pouco antes do fim da guerra é ferida e evacuada para Montpellier.

Quando a França é ocupada pelos nazis, ruma ao México. Exila-se na República Dominicana. Em 1946, vê-se obrigada a abandonar o país, perseguida pelo ditador Rafael Trujillo.

Nos anos 60 do século passado, volta a Barcelona. Residia, actualmente, em Paris, onde morre a 5 de Janeiro de 2014. 

Fonte Wikipédia

publicado por Elisabete às 14:20
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Sábado, 4 de Janeiro de 2014

CONFISSÃO DA IMPOTÊNCIA TEMPORÁRIA

Ouvi há pouco umas declarações na rádio de Freitas do Amaral sobre o OE. Muito impressionante. Tive a sensação de que estava a ouvir aquilo que querem fazer passar pela opinião apenas da 'esquerda radical': "[o OE] não é proporcional, nem é progressivo. É regressivo. É tempo de dizer basta! Se não ainda vem aí uma ditadura". Sobre isto falarei em baixo. Ontem a entrevista de Jorge Miranda no Público mostrava igualmente a total incompreensão do governo do que é um estado de direito e um tribunal constitucional.

De outro modo, as análises sobre a diminuição dos manifestantes, as dez hipóteses colocadas pelo editorial do mesmo jornal na edição de hoje, sublinham a crescente dificuldade daqueles que continuam a protestar nas ruas em juntar multidões. Não sei se estão certas ou erradas as tais dez hipóteses. Mas uma coisa é certa: a resistência nas ruas tem limites - o cansado, o desânimo, a fadiga natural após dois anos e meio de tortura - face aos reduzidos efeitos produzidos.

O que é pior é que as declarações que referi, correm a meu ver o mesmo risco: serem quase inúteis, do mesmo modo que este texto que escrevo será (quase) inútil. E podemos regressar ao tema da ditadura. A ditadura não vem aí. A ditadura já cá está. Quando escrevi há um mês e tal que Passos Coelho não se demitiria nem com um canhão de um Chaimite de Salgueiro Maia apontado à cabeça, usei uma linguagem "inapropriada", tal como Soares quando disse que este governo tinha "delinquentes" - sendo uma evidência que tem alguns. Trata-se de um novo tipo de ditadura. Primeiro tem um suporte institucional-bancário da UE que estará para durar. Segundo, traduz um aprisionamento do aparelho de estado pela quadrilha chefiada por Passos e Portas, com o padrinho Cavaco por trás a assegurar "o bom funcionamento das instituições" tendo os bolsos com o rendimento das acções por convite do BPN. Só por si isto é uma vergonha. O PR. Como se não chegasse, agora lá está Machete - outra vez tudo legal - para nos mostrar de que forma a delinquência financeira está no topo do estado. Por isso é que lançam ferocidade contra o Tribunal Constitucional - o único órgão que ainda não demoliram - com o miserável apoio da Sra Lagarde, do Sr. Barroso, e doutros senhores dos bancos ex-fugitivos ao fisco. Mesmo contra a letra dos tratados europeus que os suportam. Não se acredita nesta conjugação tenebrosa de factores.

Mas não podemos esquecer os outros países (tendência que temos em larga escala). Em que país é que as manifestações de facto gigantescas produziram resultados? Na Grécia? Em Espanha? Parece-me que não produziram. Exprimiram repúdio e revolta, por vezes com violência, é certo, mas não conseguiram inverter as políticas comandadas de Bruxelas. Quando as expectativas eram grandes e os resultados foram reduzidos ou nulos é compreensível que haja alguma desmobilização. Por isso é normal que isso ocorra. Desculpem mas é normal. Não é preciso analisar muito, excepto na medida em que possa ajudar a reflectir sobre os momentos das suas convocatórias, em lugar de lançar acusações "a quem não está". Uma coisa é ser "revolucionário profissional" - conheci alguns - outra coisa é ter um emprego, um trabalho, uma casa, tudo aquilo que sempre foi duro e difícil para muitos e ainda por cima reservar energia suficiente para ir para as ruas muitas vezes com resultados que podem encher a alma de alguns mas que não se traduzem em mudanças reais. Se se traduzissem julgo que muito mais gente iria. É uma questão simples de avaliação intuitiva das consequências das acções. Para que é que serve? será a pergunta que muitos farão. É sábio não responder com acusações, porque se poderia devolver outra pergunta: E se tivesse estado um milhão de pessoas? Seria diferente?

A quadrilha que está no poder, que até enfurece mesmo gente da direita clássica, não tem escrúpulos, nem valores, nem vergonha. Tudo que diga respeito a dinheiro lhes é suficiente como argumento. A mentira e a demagogia é-lhes constitutiva. Não sei o que irá acontecer a curto prazo. Suspeito que o "Basta" de Freitas do Amaral terá as mesmas consequências do "Basta" de Arménio Carlos e muitos outros. Nenhumas. Reparem: eu também acho que Basta, já há muito tempo. Mas os nossos vários Basta não derrubam quadrilhas no poder que, legitimadas pelo voto em tempos de mentiras, se julgam legitimadas para tudo. E o tempo das revoluções clássicas já lá vai, até ver. Até ver. Historicamente, se nos colocarmos na União Soviética dos anos 30, no Chile de Pinochet, na Argentina dos coronéis, na Itália de Mussolini, ou na Espanha de Franco, saberemos o horror que deve ter sido ter de continuar a viver naqueles locais - apesar das suas diferenças - nesses longos anos. Uns morreram, fuzilados, outros fugiram e exilaram-se, outros, talvez com menos sorte, ficaram e tiveram de sobreviver como puderam. E alguns aproveitaram para enriquecer. Como agora por toda essa Europa fora. Se não for antes em 2015 iremos correr com esta quadrilha, seja como for e para o que for.

O problema é aquilo que de criminoso fizeram entretanto. Uma vez cortada, é impossível recolocar a cabeça de Luís XVI no seu antigo lugar.

Fica o lastro do irreconstituível.
António Pinho Vargas 
publicado por Elisabete às 22:15
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