Terça-feira, 17 de Julho de 2007

Uma Tarde em Faro

É frequente associar o aparecimento da velha Ossónoba (que foi um centro urbano importante no período da ocupação romana e que teria dado lugar à actual cidade de Faro) a um entreposto comercial que os fenícios fundaram, no morro da Sé, depois de terem fundado Gadir, por volta de 1000 a.C.

 

 

Este espaço está rodeado por muralhas que, segundo Levi-Provençal, foram mandadas construir, cerca do ano 900, por Bakr ben Yahya ben Bakr. Estás muralhas já existiam, portanto, quando a cidade foi conquistada por D. Afonso III, em 1249.

 

  

A descrição da forma como D. Afonso III, D. Paio Peres Corrêa (Mestre de Santiago), Pedro Estaço e João de Boim dispuseram as tropas, durante o cerco, mostram-nos que só existiam duas portas, a do Repouso e a da Vila (ou do Mar). A Porta Nova, só foi aberta em 1630, durante o domínio filipino.

 

Comecemos, então, o nosso passeio VILA ADENTRO, entrando pelo Arco da Vila

 ARCO DA VILA: De fachada neoclássica, do arquitecto italiano Francisco Xavier Fabri, foi aberto na muralha e inaugurado em 1812, sob encomenda do bispo do Algarve, D. Francisco Gomes de Avelar, em substituição da antiga porta da Vila. Integra o nicho de S. Tomás de Aquino, padroeiro da cidade, desde o séc. XVII.

 

Para além doutras lápides, há uma que comemora a elevação de Faro à categoria de cidade por D. João III, em 1540.

No início RUA DO MUNICÍPIO [antiga Calçada da Igreja, Calçada do Bispo e Rua do Aljube (por ali ficar a prisão eclesiástica)], a RUA RASQUINHO, que vai até à Rua do Repouso e a RUA MONSENHOR BOTO (antiga Rua do Jardim e do Lyceu), que termina no Largo da Sé.

 

 

Dedicada a Monsenhor Joaquiem Maria Pereira Boto (Alhandra, 1851/1907), professor e vice-reitor do Seminário e cónego da Sé de Faro, levou a cabo importantes trabalhos arqueológicos, em particular no balneário romano de Estoi.

 

A Rua Rasquinho (que já foi Rua Garcia Parlemo, Rua do Cónego Penitenciário e Rua dos Cónegos) é dedicada a Joaquim José de Sousa Rasquinho (1736/1822), famoso pintor de Loulé. Foi, fundamentalmente, um autodidacta, mas tornou-se num exímio retratista e pintor. Em Faro, podemos ver deste artista: quadro de Nª. Senhora da Conceição (Câmara Municipal), quadro do Senhor Morto (Igreja de S. Pedro), tecto da Igreja do Carmo e o retrato oficial de D. Francisco Gomes de Avelar (Museu de Faro).

Rasquinho residiu nesta rua e foi pai do cónego Joaquim Manuel Rasquinho, figura importante e controversa do clero algarvio. Com a entrada dos Liberais no Algarve (24.06.1833), o bispo Bernardo António de Figueiredo, Miguelista, deixou a Diocese, sendo o governo do bispado assumido pelo cónego Rasquinho, até Novembro de 1835, que rejubilava com a chegada dos partidários de D. Pedro IV.

 

Em frente à esquina das Ruas Rasquinho e do Município, a seguinte lápide:

NO PORTO DE FARO

FUNDEARAM AS ARMADAS COM QUE

O INFANTE D. HENRIQUE TOMOU

PARTE NA EMPRESA DE CEUTA.

À SUA ÍNCLITA MEMÓRIA E À DOS SEUS
COMPANHEIROS DAQUI NATURAIS

1960 - V CENTENÁRIO DA SUA

MORTE EM SAGRES.

Aqui ficam os ninhos de cegonha e o brasão encontrado neste local.

 

 

 

 

Largo da Sé, tem como monumento central a Sé (antiga Igreja Mariz de Santa Maria), que teria sido edificada sobre uma antiga mesquita que, por sua vez, teria ocupado o espaço da igreja visigótica e do forum romano. O que é certo é que, em 1251, o arcebispo de Braga ordenou a sua construção a Frei Pelágio e a Frei Pedro. Só em 1270, no documento em que D. Afonso III doava o seu padroado à Ordem de S. Tiago, é referida como estando já construída.

A Igreja de Santa Maria passou a Catedral, na Sexta-Feira Santa, 30 de Março de 1577, quando a Diocese de Silves foi transferida para Faro e D. Jerónimo Osório aí oficiou pela primeira vez.

 

Têm sido avultados os estragos a que, por vezes, foi sujeita, como o incêndio de 1596, quando o conde de Essex vandalizou a cidade e arredores, e o terramoto de 1755.

Este sismo, ao arrasar as casas que existiam frente ao templo, deu origem ao Largo da Sé, que foi Praça D. Carlos (de 1897 a 1910) e Praça Almirante Cândido dos Reis (com a República).

O conjunto formado pelo Paço Episcopal, o Seminário Diocesano e a estátua de D. Francisco Gomes de Avelar é um recanto importante deste Largo.

A construção do primitivo Paço Episcopal deve-se ao primeiro bispo a residir na cidade, D. Afonso de Castelo Branco (1581-1585). Foi reconstruído, após o saque e o incêndio pelas tropas inglesas do Conde  de Essex, sendo um belo exemplar da arquitectura chã.

Muito danificado pelo terramoto de 1755, foi restaurado por D. Frei Lourenço de Santa Maria (1752-1782), a quem se deve a azulejaria do vestíbulo, a escadaria e três salas, conjunto importante da azulejaria rocaille, no Algarve.

 

O Seminário Diocesano foi construído, após a expulsão dos Jesuítas, em duas fases. Na primeira, a mando de D. José Maria de Mello (1787-1789), construiu-se a parte norte que está ligada ao  Paço, através dum passadiço ao nível do primeiro andar; a parte sul, da responsabilidade de Francisco Xavier Fabri, mandada edificar por D. Francisco Gomes de Avelar (1797-1808).

 

O monumento ao referido bispo, da autoria do escultor Raul Xavier, foi erigido, em 1940, pela Comissão de Iniciativas e Turismo de Faro, dirigida por Mário Lyster Franco, que contou com o apoio da autarquia, a que se associaram os outros municípios do Algarve. A inauguração foi presidida por Duarte Pacheco (algarvio e Ministro das Obras Públicas), representando o Presidente da República.

 

 Os PAÇOS DO CONCELHO erguem-se no local da antigas "Casas da Câmara", que eram constituídas por dois grandes compartimentos: a sala de sessões e a arrecadação. A Secretaria e a Tesouraria funcionavam em casa dos respectivos titulares.

A construção do edifício, na sua versão "moderna, foi decidida em 7 de Janeiro de 1876, graças à contracção dum empréstimo, garantido por um imposto sobre os veículos que entravam na cidade.

 

Como se vê, nas fotos, o ornamento vegetal do Largo é constituído por laranjeiras, como se compreende.

Uma das saídas do Largo, dá para a Rua da Porta Nova, ao fundo da qual se abriu, no período filipino a Porta Nova.

                                                           ARCO  DA  PORTA  NOVA

ARCO  DO  REPOUSO, porta de acesso às muralhas medievais, construída pelos árabes na época almóada (sécs. XII / XIII), como prevenção contra a invasão cristã. É formado por 2 torres albarrãs com duas entradas laterais. Um dos arcos foi entaipado em 1730 quando, por mando da rainha D. Mariana (mulher de D. João V e donatária da cidade), se construiu a Ermida de N. Srª do Repouso, tendo-se aberto nova entrada no séc. XIX.

 

Pelo Arco do Repouso (antiga Porta dos Freires), entrámos na Rua do Repouso, antes chamada Rua do Arco, que vai dar à Praça D. Afonso III, dedicada ao rei que terminou a conquista do Algarve.

 

Na Praça, antes designada Largo das Freiras e Terreiro das Freiras, situa-se o antigo Convento de N. Srª da Assunção, dos princípios do séc. XVI, no local da Judiaria, aí existente até 1496. A construção do convento foi iniciada por D. Leonor (terceira mulher de D. Manuel I) e concluída, em 1563, por sua irmã D. Catarina (mulher de D. João III). Sendo um dos melhores exemplares do Renascimento, no Algarve, ali se instalou, em 1973, o Museu Municipal de Faro.

  A meio da Praça ergue-se a estátua do rei D. Afonso III, de 1966.

 

 

No gaveto da Praça D. Marcelino Franco (antigo Largo do Bedel) com as Ruas José Maria Bandeiro e de S. Francisco, encontra-se o Palacete Belmarço, do importante comerciante e proprietário Manuel de Jesus Belmarço. Para além de grande benfeitor da Ordem Terceira de S. Francisco, Belmarço foi seu Ministro em 1909, qualidade em que fez parte da Comissão Administrativa de 1911, que geriu a instituição segundo a "lei de separação" entre a Igreja e o Estado.

De estilo revivalista, o Palacete Belmarço foi projectado, em 1912, pelo arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior, de Lisboa, que em Faro projectou, ainda, o Palácio do Alto, para o industrial Júdice Fialho.

Ainda na Praça D. Marcelino Franco, encontrei esta porta curiosa, com a cruz de Cristo como elemento decorativo em ferro:

 

Tudo isto, visto e fotografado, apenas na tarde do dia 2 de Julho de 2007.

publicado por Elisabete às 17:16
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