Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007

O Grande Escritor que, por um triz, não foi parar à Roda

 

José Maria Eça de Queirós (Póvoa de Varzim, 25 de Novembro de 1845/ Paris, 16 de Agosto de 1900).
"A Correspondência de Fradique Mendes", "Os Maias", "A Cidade e as Serras", "A Relíquia", "O Crime do Padre Amaro", "A Tragédia da Rua das Flores",  "Prosas Bárbaras", "O Primo Basílio, "Contos", etc., etc., etc....
Quão mais pobre seria o nosso país sem este gigante da Literatura Portuguesa.
Morreu faz hoje 107 anos, mas vive ainda na nossa memória. 

 

Carta do pai do escritor, anexa ao seu assento de baptismo:

 

"Senhora:

Ponte do Lima, 18 de Novembro de 1845.

Recebi carta de meu pai, que novamente me recomenda a criação de meu filho, e se me oferece para mandá-lo criar no Porto, em companhia da minha família, quando a senhora nisto convenha. Espero, pois, a sua resposta para nessa inteligência escrever a meu pai.

Ele me recomenda igualmente - e também o desejo - que no Assento de Baptismo se declare ser meu filho, sem todavia se enunciar o nome da mãe. Isto é essencial para o destino futuro de meu filho, e para que, no caso de se verificar o meu casamento consigo - o que talvez haja de acontecer brevemente - não seja precisa em tempo algum justificação de filiação. Espero se ponha ao nosso filho o meu, ou o seu nome, conforme deve ser.

Adeus. Acredite sempre nas minhas sinceras tenções e agora mais do que nunca. Queiroz."

 

Para o pai recomendar novamente ao filho a criação do neto, que estava para nascer, é porque o filho não tinha intenção de o fazer. Só por pressão do avô é que o pai do escritor se decidiu assumir a paternidade. E, pelos vistos, a mãe também não queria criar o filho que trazia no ventre. Disso, pai e filho não tinham a menor dúvida. O tempo e os factos encarregaram-se de lhes dar razão. Pois, nem após o casamento - efectuado em 3 de Setembro de 1849 - a mãe assume a sua maternidade. A mãe só assume a maternidade quando o filho é um escritor célebre e celebrado. Só em 25 de Dezembro de 1885 é que oficialmente o reconhece como seu filho legítimo, por se ter tornado necessário ao seu casamento.

[...]

Não fora a intervenção do avô paterno, e Eça de Queiroz poderia ter tido o destino dos filhos indesejados - a Roda. Instituição que, na Póvoa de Varzim, ficava em frente da casa onde Carolina Augusta Pereira de Eça, sua mãe, o dera à luz.

Foi sua mãe que, depois da morte do escritor, veio pôr ponto final no diferendo entre Poveiros e Vilacondenses. Pois uns e outros reclamavam para a sua terra a naturalidade de Eça de Queiroz. Em carta de 6 de Novembro de 1906, D. Carolina Augusta vem dizer: "meu filho José Maria de Eça de Queiroz nasceu na Póvoa de Varzim". Quem, melhor que ela, sabia onde o filho nasceu?!

Em suma, a omissão do nome da mãe de Eça de Queiroz no seu assento de baptismo não se deve a nenhuma "habilidade jurídica" do avô, para evitar a presunção da paternidade a favor do marido da mãe, mas tão só a recusa desta em assumir a maternidade do filho, que concebera no estado de solteira, menor de 19 anos e órfã de pai.

 

Francisco Marques, in "A Mãe de Eça de Queiroz"

 

*****************

Como se vê pelo último parágrafo, há quem defenda que a mãe do escritor era casada e, por isso, não queria reconhecer o filho. No entanto, não parece ser essa a verdade. Sendo assim, talvez se tenha ficado a dever ao avô a possibilidade de Eça ser o escritor que foi. Claro que o talento, o génio, estava lá. Mas a educação que recebeu possibilitou que se manifestasse. Se tivesse ido parar à Roda, é possível que fosse também um grande escritor. Seria, no entanto e com toda a certeza, um escritor diferente. E nós gostamos dele assim. Para sempre! 

publicado por Elisabete às 15:07
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