Domingo, 14 de Outubro de 2007

"Como é que gente tão socialista, desiste de fazer o socialismo?"

Atrevo-me a transcrever aqui o artigo publicado hoje, no Jornal de Notícias, de autoria de Manuel Poppe.

Estou absolutamente de acordo com tudo o que diz. Aliás, sou leitora assídua da sua rubrica "O Outro Lado", que aprecio imenso. É directo, claro e defende valores que são também os meus. Obrigada! Faz-me sentir que não estou sozinha. 

O Carnaval Socialista                                                          

 

1. Bernard-Henri Lévy, ensaísta polémico, lançou mais um livro "Ce grand cadavre à la renverse" - e os intelectuais e políticos franceses agitam-se. O grande cadáver à deriva, de patas para o ar, o socialismo. Lévy interroga-se e políticos e politólogos, escribas e leitores constatam a morte da "quimera" ou a sua agonia. Uns reclamam a vitalidade do caminho que orientou gerações, outros sublinham a impraticabilidade dele. É uma agitação saudável e oportuna acontece quando se anestesiam as consciências, se apaga o imperativo ético e ganha foros de lei a resignação. Tenha-se por defunto, ou apenas adormecido, o socialismo - discuti-lo faz bem. Há areia de mais a gripar o pensamento. E a dúvida não habita em França: é europeia, mundial. É nossa. O socialismo, o sonho de Antero de Quental, que lhe chamava "ideia pura", não se pode lançar às urtigas, como sapato usado. Virar-lhe as costas é uma coisa, decretá-lo morto, outra.

2. Senão, vejamos de que falava esse ideal? De justiça, igualdade, solidariedade. Igualdade de oportunidades. Triunfo do Humanismo e da Cultura. Não passam então de palavras ocas? O mundo terá de sempre ir torto? A miséria não se cura? A vida digna não é de todos? A usurpação dos bens, pelas minorias privilegiadas, a nova tirania e a nova escravatura são inevitáveis? Não nos resta mais que transigir? Afazermo-nos ao que nos impõem e ficar de bico calado? E aponta-se o fracasso de quem recusou conformar-se - de quem não se "reformou". E apontam-se outras vias: outro socialismo, "moderno" "actualizado". Actualizado? Mas, afinal, não mudaram de roupa os "reformistas" e não se mascararam de "socialistas" e venderam e vendem princípios ao preço do famoso prato de lentilhas? Não participam na recuperação do neo-liberalismo, duma sociedade desumana e aleijada (que o mal é um aleijão)? E temos de ir por aí? Capitulamos, amochamos, desistimos da própria dignidade?
 
3. Entre nós - por isso a questão nos interessa -, um "socialismo circense" adoça a cavalgada neo-liberalista e cava a fossa onde se enterra um povo. Apagou-se o Estado, que cedeu, diante de interesses privados. Esfumaram-se a segurança social, o ensino, a Cultura. E o trabalho, esse sim, passou a utopia - a quimera. Santo Antero (Eça dixit) revoltava-se, em carta a Oliveira Martins "Pobre Portugalório! (...) considerando o que espera esta pobre gente, que afinal é tão boa gente, sinto dor verdadeira. Mas o homem só aprende à sua custa - et voilà".
 

Manuel Poppe, in "O Outro Lado",

 Jornal de Notícias (14.OUT.2007) 

publicado por Elisabete às 11:44
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