Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007

Tirem-me deste Mundo!

Na última segunda-feira, comecei a ver o programa da RTP 1, "Os Prós e os Contras". É verdade que tinha de me levantar cedo, no dia seguinte, e não me convinha ver o programa todo. Mas é verdade, também, que há coisas que não sou já capaz de aguentar, se quero manter a minha sanidade mental.

Os "senhores doutores economistas e outros que tais" (1) falam da pobreza e das dificuldades da maioria da população portuguesa como falam de outra coisa qualquer. Melhor: falam de pessoas, iguais a eles, reduzindo-as, a elas e às suas vidas, a simples números e dados estatísticos. Acham esses senhores que ter um rendimento mensal à volta dos trezentos e poucos euros é estar acima do limiar da pobreza. O castigo que gostava de lhes dar era obrigá-los a viver com isso, durante uns anos, sem ajudas de amigos "bem colocados". Ou morriam ou descobririam a fórmula para conseguir gerir orçamentos desses. Nós, as pessoas comuns, somos é muito desgovernadas e, assim, sempre aprenderíamos, com eles, a "fazer omeletas sem ovos".

Não vi o resto do programa. Não consegui. Já sei que temos demasiados pobres.

Mas esse número está a crescer e isso é ainda mais preocupante. O nosso "Primeiro" está apostado em destruir a classe média. É assim: o senhor engenheiro Sócrates está a transformar Portugal num país do Terceiro Mundo. E que fique bem claro que "amo" os povos do chamado Terceiro Mundo.

Agora, vai meter-se com os aposentados da Função Pública. Pelo que percebi, os outros reformados vão receber um aumento equivalente à inflação. Os da Função Pública, pelos vistos, na sua maioria vão ter um aumento inferior. E pergunto-me se é assim porque, às vezes, chego a pensar que sou burra ou estou louca. Quer dizer: se um "aposentado" recebe mil euros, ou um pouco mais,  por mês, o seu aumento é qualquer coisa como 1,75 ou 1,25 % (não recordo bem os números que vi); mas um "reformado" que receba uma quantia equivalente, terá um aumento de 2,1 %, de acordo com a inflação estimada. Será apenas por causa do nome? Para o nosso (des)Governo, aposentado é diferente de reformado? Ou é só porque,desde início, resolveu "abrir a caça à Função Pública"? Daqui a pouco estamos todos na miséria. E acho que é chegado o momento de dizer: BASTA!!!!!!!

Se cruzarmos os braços, se nos demitirmos da nossa condição de cidadãos responsáveis, ainda acabamos no "cenário negro" previsto por Manuel Poppe, no passado domingo, e que reproduzo abaixo. Peço desculpa, ao autor, pela adaptação livre (os negritos são meus. A minha única intenção foi transcrever o essencial, que vale mais do que mil palavras que eu possa dizer.  

 

 [...]  Os nossos dias vão mal. Sentido do futuro e confiança em nós empardeceram. Explicam fado, saudade, melancolia. E, se não encontrarmos mais nada, invoquemos D. Sebastião, rebuçado em indecifrável nevoeiro. Aceitemos a fatalidade: o deficit. Convenhamos que o deficit não mata fome e derreia carteiras - e que fado, saudade, D. Sebastião também não consolam ninguém. Não queria alargar a chaga - queria trazer palavras animadoras. E lembrei-me de Antero. [...]
Reabri as "Cartas" de Antero de Quental (Universidade dos Açores/Editorial Comunicação). Um Breviário, que levanta a alma e reclama o contrato social o modo de vivermos uns com os outros, respeitando-nos e respeitando solidariedade e igualdade. Por que mãos andam, adulteradas e rebaixadas, essas palavras! "A vida torna-se um exercício em que é estranha toda a ideia de dever, ordem, justiça, de moral" (anunciava Oliveira Martins, em 1894). E anunciava bem. Mas, apesar da impudicícia com que as usam, representam valores preciosos. Que diria, hoje, de Portugal, Antero, aventureiro do Espírito e da Justiça? Do país condenado a sujeitar-se à bateria das leis económicas desumanas e a sofrê-las - meditadas e talhadas olho na mira do proveito de alguns? Não ignorava que a economia é falsa ciência e que todos os sistemas económicos resultam de modos de entender a sociedade e defendem interesses. Não ignorava que as relações sociais podem descambar em prepotência disfarçada e que o interesse privado, à rédea solta, mata o interesse público. Que o imperativo ético, a filosofia, as humanidades têm de se considerar antes -muito antes- da economia, que não passa de mera intendência. [...]
Quando governantes proclamam que o deficit será um dia reduzido a 0,2% - e 1/5 dos portugueses (2 milhões) é já pobre - [...] E antevejo Portugal um deserto ou um Campo Santo, no dia triunfal do mini-deficit: 0%. Mortos arrumados a monte e sobreviventes na emigração. E as finanças públicas equilibradas.
 
Manuel Poppe, in Jornal de Notícias (21.Out.2007)

 

(1) Não tenho nada contra os "doutores". Eu própria sou licenciada mas, felizmente, da área das Humanidades. Por isso, vejo mulheres, homens e crianças que sofrem, não vejo números. Seres que travam uma luta desigual porque, como é sabido, no nosso País os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres e remediados cada vez mais pobres.

publicado por Elisabete às 10:41
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1 comentário:
De emfrosa2 a 26 de Outubro de 2007 às 18:07
Não tenho palavras... GRANDE MULHER!

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