Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

Conhecer melhor FERNANDA BOTELHO

    
 
Ocorreu-me aquilo quando atravessava o jardim, de regresso a casa. Nos bancos estavam como sempre sentados os velhotes do costume. Coitados!, pensei, corpos esvaziados de seiva! Cai-lhes sobre os olhos melosos de visões ausentes a sombra dos chapéus enterrados na cabeça sumida. Não falam entre si, não olham quem passa, não ouvem as sereias dos navios no rio à distância ou a gritaria da criançada na escola, um pouco mais abaixo. Mesmo quando chuvisca, ficam ali sentados, estáticos, até serem horas de voltar para donde vieram – apartamentos claustrofóbicos, pardieiros fuliginosos, barracas encolhidas à chuva, ao vento, ao frio. De um deles sei eu que foi encontrado ali mesmo, serenamente sentado ao luar, que era de quarto-minguante em signo de Escorpião. Um dia serei como eles, pensei, mas não vou sentar-me em bancos de jardim público, porque as mulheres, essas, ficam em casa, embaladas pelos rumores da cozinha e cabeceando em cadeiras de baloiço ou em banquinhos toscos, com a cabeça pétrea, de cor sublunar, emergindo de um rolo de roupas indefinidas, de cores (essas) subepidérmicas, subtonalidades evasivas, fortuitas – é tudo sub! Mas há dignidade nos velhotes sentados nos bancos dos jardins em manhãs baças de humidade e em tardes fosforescentes de luz fatalmente finita. E as manhãs de domingo são sempre de sol, os velhotes acolhem a claridade do dia e a fragrância outonal ao som dos sinos que chamam para a missa na Igreja um pouco mais acima. Um dia serei como eles, pensei, mas ainda é cedo para ser. Tenho ainda de fazer frente à minha vocação de fuga à vida em bancos de jardins públicos ou em estofos sumidos de cadeirões empenados, ainda é cedo para me inocentar e irresponsabilizar relativamente aos grandes ciclos infernais de todas as vidas.
E lembro essa tarde porque foi nessa tarde que consciencializei a premonição de uma derrocada, de ocorrências funestas, daí por diante e por tempo indefinido. Tive medo pela minha Clarinha, aquela que de mim nascera em boa hora, tendo progredido nos anos em beleza, inteligência e talento. Só pensei nela, embora devesse afinal sobretudo pensar em mim.
 

Fernanda Botelho, Dramaticamente Vestida de Negro 

 

 

Vale a pena conhecer melhor esta filha da cidade do Porto, recentemente falecida. Um escritor continuará vivo enquanto houver alguém que "viva" através da sua obra.    

 

Se ficou interessado, espreite o blogue Amar o PORTO + (http://amaroporto2.blogs.sapo.pt)

publicado por Elisabete às 19:19
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