Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

LISBOA.1.FEV.1908

 
Republicano e patriota tornaram-se sinónimos. Hoje quem diz pátria diz república. Não uma república doutrinária, estupidamente jacobina, mas uma república larga, franca, nacional, onde caibam todos. Não dum partido, da Nação.
Guerra Junqueiro, Pátria (1896)
 
Há cem anos atrás, cinco homens morreram, assassinados, em Lisboa: D. Carlos I, rei de Portugal; D. Luís Filipe, o príncipe herdeiro; Alfredo Costa, que matou o rei; Manuel Buíça, que matou o príncipe e João Sabino da Costa, apenas um homem na multidão.
Sou republicana, por uma questão de princípio. Sei que a minha vida não seria muito diferente se vivêssemos numa Monarquia.  Mas o conceito de Monarquia e República são substancialmente diferentes, apesar de a ambos poder corresponder uma democracia. Num regime republicano, teoricamente pelo menos, os homens são considerados iguais, com os mesmos direitos e deveres. Numa Monarquia, existe uma família que, por tradição, assegura para o seu primogénito o cargo de Chefe de Estado. Não concebo esta diferença entre seres humanos. Embora esse privilégio possa tornar-se num fardo demasiado pesado, a injustiça e o princípio da desigualdade não deixam de existir, mesmo em relação àquele que tem de o suportar.

(in Le Petit Parisien)
O Regicídio, em 1908, talvez não pudesse ter sido evitado. O povo vivia com grandes dificuldades económicas, enquanto a Casa Real gastava mais do que devia; o Ultimato Inglês desplotou uma onda de intenso patriotismo que levou o povo a ver o rei como “um fraco” ou, pior ainda, como traidor; a situação política era muito instável e os Republicanos pressionavam, denunciando “os podres” da Monarquia e conspirando para a derrubar. Neste cenário explosivo, D. Carlos comete um erro: chama,  para chefe do Governo, João Franco. Passado algum tempo, João Franco governa como um ditador e inicia feroz perseguição aos Republicanos. Entre 21 e 29 de Janeiro, são presos quase uma centena de republicanos entre os quais alguns dirigentes como António José de Almeida, Afonso Costa, o médico e cientista Egas Moniz (o nosso primeiro Prémio Nobel) e o conde da Ribeira Brava.  D. Carlos assina, em Vila Viçosa, um decreto que autoriza a deportação para as colónias africanas dos indesejáveis. A publicação deste decreto, no dia 31 de Janeiro, provoca uma onda de indignação na capital.

Alfredo Costa e o inocente João Sabino da Costa

No dia seguinte, de regresso a Lisboa, rei e príncipe têm a morte à espera… Haveria maneira de evitar esta tragédia? Talvez não. Preferia que não tivesse havido derramamento de sangue. Mas "encurralar" as pessoas negando-lhes a esperança tem, quase sempre, consequências trágicas...
Cinco portugueses morreram. Dois deles lutando por um ideal.

(Manuel Buíça)

Com John Donne, afirmo:
[…] a MORTE de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do GÉNERO HUMANO.
publicado por Elisabete às 18:28
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