Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

AVALIAR QUE PROFESSOR?

 

 

Quando ouço falar de avaliação dos professores começo logo a sentir um formigueiro. Não porque ache que os professores são seres privilegiados cujo trabalho não deve ser avaliado, mas porque não é fácil fazê-lo com justiça.
Proponho-me falar apenas do antigo Ensino Secundário (correspondente aos actuais 2º Ciclo+3ºCiclo+Secundário, só para complicar ou copiar outros países). Porque, como muito bem disse Francisco Carmo “as coisas mudam de nome, mas o nome não muda as coisas.” Adiante!
 
 
Primeiro. Qual é a função do professor?
 
Antigamente, qualquer pessoa responderia que era a de ensinar os conteúdos do programa de determinada disciplina, com vista à aquisição dos conhecimentos e competências definidos como indispensáveis à passagem dos alunos para o ano seguinte. Simultaneamente, e sempre que a situação o justificava, eram transmitidos aos alunos regras de conduta e alguns valores.
Hoje, o professor continua a ter, teoricamente, esta função que deveria ser, de facto, a sua. Na prática, porémo único objectivo é agora “transitar” de ano, mesmo que o aluno não atinja o nível mínimo indispensável, mesmo que não saiba comportar-se na sala de aula nem em lado algum, só porque “reprovar” (Desculpem, usar a palavra proibida.) é uma coisa “excepcional”.
Como os conhecimentos (outra palavra proibida) já não interessam nada, o professor é assistente social, psicólogo, pai, mãe, animador e promotor de eventos culturais, recreativos e desportivos. E é, principalmente, administrativo, rodeado de papéis inúteis por todos os lados. Ai!, já me esquecia, e decifrador de longos Despachos e Decretos, oriundos do Ministério da tutela, cheios de banalidades que, acredito, nem quem os faz percebe para que servem.
 
Segundo. É o sucesso dos alunos que mede a qualidade do professor?
 
Gostaria de explicar que durante a minha longa vida de docente, tive turmas, no mesmo ano lectivo (e de ciclo) e na mesma Escola, em que a percentagem de níveis negativos variava entre 6,1% e 68,2%. Quer dizer, numas turmas, eu era uma óptima professora; noutras era péssima, tendo de justificar, em acta, as razões do insucesso.
 
Terceiro. Terá o professor de fazer “milagres” ou “omeletas sem ovos”?
 
É preciso que se diga que grande parte dos alunos chega ao 3º Ciclo (7º Ano), quase sem saber ler e escrever. Soletram, tropeçam em qualquer palavra que não caiba no seu limitadíssimo vocabulário, não conseguem reproduzir o sentido do parágrafo que acabam de ler.
Dirão: Claro, não aprenderam nada, nos anos anteriores, porque os professores não prestam. Pois eu digo que não aprenderam nada, essencialmente, porque:
se desvalorizou a importância dos conhecimentos, o papel da memória e se começou a ver a Escola como um jardim de infância, onde se brinca e onde cada um pode fazer o que quer, onde se realizam muitas festas, para além de frequentes passeios pelas ruas e jardins;
os sapientes teóricos do Ministério da Educação (ao longo dos anos) confundiram autoridade com autoritarismo e passaram, para o exterior, a ideia de que quem manda nas aulas e na Escola são os alunos e respectivos papás.
Neste Portugal que se pretendia justo e solidário, toda a gente percebe de Educação exceptos os professores. Não é?
Por isso, já há alunos do 1º Ciclo (entre os 6 e 9 anos) a baterem nas professoras sem que nada lhes aconteça. Mas o que aconteceria à professora se se passasse o contrário? E os casos de pais que entram pelas Escolas dentro, com ar feroz, para insultar e mesmo agredir professores? Esta senhora Ministra desvaloriza, com ar seráfico… “Não é nada grave… São casos pontuais”, etc., etc. Não é a senhora que sente a vergonha e a revolta por carregar a “cruz” que a incompetência duma hierarquia, vivendo num mundo que só existe na sua cabeça, lhe pôs às costas;
esta desautorização do professor é responsável por comportamentos de desafio e de não reconhecimento da sua autoridade científica e pedagógica como, por exemplo, o do aluno que responde “tanto faz”, quando o professor lhe aponta um erro, e que se recusa a emendá-lo. A mim, professora de História, diziam, muitas vezes, que não era professora de Português. Logo, devia estar caladinha e só falar do que me competia;
os pais deixaram de exercer o seu papel de educadores e de transmitir aos filhos o significado e a importância da Escola. A única coisa que os preocupa é ter um sítio onde os deixar enquanto trabalham. Compreendo os problemas que a maioria dos pais trabalhadores enfrenta no seu quotidiano, sobretudo nas cidades. Mas os pais não podem abdicar da função de formadores dos seus filhos. É fundamental a passagem de valores, no seio da família.
Uma das melhores turmas que tive, nos últimos anos, era composta em grande parte por alunos filhos de professores (e doutros licenciados), mas sobretudo por filhos de empregados de Escolas (desde auxiliares a cozinheiras, etc.). A competição era grande mas eram, precisamente, os filhos dos empregados os melhores alunos. Via-se que os pais lhes passavam a ideia de que, com esforço e empenho, poderiam no futuro ter uma profissão um pouco mais qualificada. Os jovens têm de acreditar que podem ter um futuro melhor, se fizerem por isso. Sei que, hoje, isto não é verdade. Os jovens sabem que não vale a pena o esforço, em termos profissionais. Por isso, é necessário demonstrar-lhes que só a instrução e a cultura permitem o desenvolvimento de certas potencialidades que temos e que fazem de nós seres humanos mais completos. E isso, por si só, é já uma boa recompensa. Quantas vezes, dizia aos meus alunos que é nosso dever  descobrir e desenvolver capacidades que nem imaginamos possuir: como a sensibilidade que nos torna capazes de apreciar e de nos emocionarmos, diante duma obra de arte ou duma bela paisagem, lendo um poema ou ouvindo um belo trecho musical; como o discernimento necessário às escolhas que temos de fazer durante toda a vida. Sem isso, não passamos de seres embotados e mutilados. Como é que, mais tarde, poderão desempenhar convenientemente o seu papel de cidadãos?
 
Concluindo, porque é impossível elencar aqui todas as causas do insucesso dos alunos, penso que a maior responsabilidade pertence ao Ministério da Educação que inverteu todo o processo e, julgando favorecer os alunos, acabou por tratá-los como “coitadinhos” a quem nada se exige, tornando-os irresponsáveis, mal-educados, prepotentes, preguiçosos e arrogantes [Não incluo, claro, as excepções que confirmam a regra]. Os pais, por seu lado, demitiram-se da sua obrigação de educar. Para agravar a situação, a sociedade em que vivemos encarrega-se do resto. Mostra-lhes, principalmente através das televisões, um mundo de fantasia onde o sucesso é fácil e rápido para gente medíocre e, quantas vezes, sem escrúpulos e uma formação decente.
  
Quarto. Vão ser os papéis (planos disto e daquilo, relatórios, etc.), bem feitinhos, bonitinhos, para encher “dossiers”, o mais apreciado pelos avaliadores?
 
Se calhar… Pelo menos, é qualquer coisa de palpável, de visível. Nem que não tenham qualquer importância e que só sirvam “para inglês ver”, sempre obrigam o professor a trabalhar. E o trabalhinho faz bem aos malandros dos professores. Se não tiverem tempo para o que é essencial, fica o supérfluo a encher as prateleiras. [Coitada da Terra! Quanto lixo desnecessário…]
A verdade é que, em concreto, ninguém sabe o que é mais importante, isto é, o que dá mais pontos à avaliação dos professores.
Acaso poderá, a Ministra Maria de Lourdes Rodrigues, esclarecer-me acerca do peso que terá, na avaliação, cada um dos imensos e hercúleos trabalhos que atribuiu àqueles a quem chamo “os escravos do séc. XXI”? Sim, porque os professores precisam de saber se devem “ser professores” ou “paus para toda a colher”.
A resposta não pode ser ambígua. Porque se o for, o professor fica entregue ao livre arbítrio do avaliador e caímos num sistema injusto.
 
Para terminar, quero fazer uma última pergunta:
 
A senhora Ministra acha justo que, por exemplo, um professor com avaliação de excelente corra o risco de não progredir na carreira, só porque a progressão é apenas permitida a uma pequena (determinada, possivelmente, em função do dinheiro que vai querer poupar) percentagem de professores?
Senhora Ministra Maria de Lourdes Rodrigues,
Sei que quando chegou ao Ministério a situação já era caótica. Não a responsabilizo por isso. Mas teimar na manutenção de políticas que, já vimos, não resultam, parece-me um erro tremendo. Só lhe peço um pouco de bom senso.
Às vezes, a solução é descer do “Olimpo” em que se transformou o Ministério da Educação e descer aos “Infernos” em que se transformaram as Escolas.
Talvez, depois dessa descida, tenha a coragem de expulsar do “Olimpo” os inúmeros falsos “deuses” que o povoam. Mais vale começar por identificar os problemas reais do sistema e tentar resolvê-los, com calma, usando o nosso fantástico potencial inventivo, do que seguir modelos importados que nada têm a ver com a nossa realidade.
 
(Continua)
 
********** 
Tenho plena consciência de que este texto está incompleto, apesar de longo. Afinal, os problemas da Educação constituem uma rede de causas e efeitos, sendo muito difícil isolar um tema e tratá-lo de “forma cirúrgica”. Por isso, agradeço que os colegas me proponham alterações, me esclareçam em relação ao que não estiver correcto, acrescentem ideias e façam propostas. Ainda quero acreditar que é possível meter um pouco de juízo em certas cabeças.   
publicado por Elisabete às 00:06
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1 comentário:
De emfrosa2 a 20 de Fevereiro de 2008 às 13:24
Fantástico, esta é mesmo a visão da realidade, triste e crua.
Tenho realmente muita pena de não ter outra opinião. Gostaria que estas palavras escritas e lidas fossem apenas parte de um "sonho mau".
:(

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