Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

A ESCOLA NÃO É DOS PROFESSORES?

Paquete de Oliveira, sociólogo e professor do ISCTE, opinou sobre Educação, no Jornal de Notícias de ontem, dando ao seu artigo o título de “A Escola não é dos Professores”, que considero ofensivo.
É verdade que, depois, “dá umas no cravo e outras na ferradura”, compreendendo quase tudo e quase todos.
Que eu saiba a Escola é de todos os portugueses, porque sendo uma das instituições mais importantes para a viabilidade dum país, deve ser assim entendida e acarinhada por todos. É, por essa razão, dos Professores também. É bom não esquecer que os Professores são portugueses e pais de alunos que frequentam a Escola. Mas há, ainda, uma razão maior: é que a Escola é o seu local de trabalho, onde têm o direito às condições inerentes à dignidade da função que exercem.
Que eu saiba nunca nenhum Professor quis ser dono duma Escola.
Peço desculpa! De facto, há professores que o querem, mas esses são os que querem ser donos de tudo, só não querem é ser Professores. Refiro-me, claro, aos presidentes dos Conselhos Executivos que, quando obrigados a sair, arranjam logo um “tacho” nas DRE’s e até, calculo, no Ministério, se vivem na “capital do Império”. Quanto aos outros, sabem que fazem parte duma equipa cujo principal objectivo é ajudar os alunos a crescer “por dentro”, preparando-os para um futuro, onde possam desempenhar, com competência, dignidade e responsabilidade, o papel que lhes compete, como trabalhadores e cidadãos.
Diz o senhor que “O ano escolar tem sido marcado por um ruído ensurdecedor entre a Federação Nacional de Professores (FENPROF) e o Ministério da Educação”. Engraçado! Eu tenho ouvido muito pouco ruído. Aliás, é precisamente por isso que os Professores estão a perder a confiança nos Sindicatos. O que é muito do agrado da senhora Ministra e do senhor Primeiro-Ministro, que têm feito tudo, desde o início, desacreditar e destruir os Sindicatos. Preferem os trabalhadores, professores ou não, desorganizados, egoisticamente uns contra os outros, longe da solidariedade que os deve unir. Sinto uma mágoa imensa por ter de reconhecer que a FENPROF não tem estado à altura da situação, o que é muito mau para os Professores. Começam a surgir movimentos de contestação autónomos. Compreendo a revolta que os fazem surgir, mas apelo aos Professores que se mantenham unidos, na luta pelo essencial, deixando para mais tarde a resolução de divergências que, podendo ser importantes, não tenham a mesma urgência. Quanto aos outros sindicatos, nunca existiram. Ou melhor, foram sempre “lacaios” dos governos do “bloco central”.
Depois afirma que “tem valido os outros agentes deste complexo sistema, pais, alunos e comunidades locais não terem participado, pelo menos em tão alto tom, nesta «guerra»”.
Os pais de que fala, na sua quase totalidade, querem apenas um sítio onde meter os filhos enquanto trabalham. Compreendo o problema deles. A Ministra percebeu, como socióloga que é, que tinha de os ocupar a tempo inteiro o que, evidentemente, agrada aos pais. O que a Ministra não tem é o direito de fazer assistência social e, simultaneamente, conquistar aliados para a sua luta contra os Professores, "roubando" o tempo de que estes precisam, para fazer o trabalho que as aulas exigem, e à sua vida privada. Ou será que alguém pensa que o Professor só trabalha dentro da sala aula? Não somos, nem queremos ser, máquinas!
Há muita gente desempregada que poderia fazer o acompanhamento dos alunos, ajudando-os em salas de estudo ou nas mais variadas actividades.
Penso que se refere às autarquias quando fala nas comunidades locais. Pois eu, ainda ontem vi as Câmaras muito preocupadas com o projecto de lhes ser entregue a responsabilidade da gestão e do financiamento das Escolas até ao 9.º Ano, exceptuando, por enquanto, os vencimentos dos professores. Dizem não terem verbas e exigem-nas do Estado, se tal acontecer.
Quanto aos alunos, de que alunos fala o senhor sociólogo? Das crianças e dos adolescentes a quem se destina o ensino obrigatório? Acha que conseguem perceber o que se passa?
O desencadear de um processo de reforma traz sempre desestabilização a qualquer sistema.” Pois traz. Principalmente, quando é mais do mesmo. Pensa que a reforma saiu da cabeça desta Ministra? Ela é apenas o culminar dum processo há muito posto em andamento pelas muitas “cabecinhas pensadoras” instaladas no Ministério da Educação, muito intelectuais, muito lidos, mas que não querem ir para as Escolas pôr em prática as suas fantásticas teorias. Porque isso é que os professores gostariam de ver. Nos dias que correm a palavra reforma tornou-se mágica. Parece que é sinónimo de coisa bem feita e resolvida. Esta parece-me é que vai ser catastrófica.
Sempre ouvi dizer, aos elementos dos Executivos das Escolas onde leccionei, que o corpo escolar mais difícil de gerir era o dos, agora chamados, auxiliares de educação. Para este senhor, afinal, o corpo docente é que é a dor de cabeça dos Executivos.  Talvez seja assim na sua Escola Superior. Nas inferiores, as dos “professorzecos”, não me parece…
Paquete de Oliveira está muito preocupado com o futuro do país, se a Escola cai nas mãos dos Professores. Se duvida da nossa preocupação com o futuro do país e dos nossos alunos, pode procurar, nos “posts” já antigos deste blogue, excertos de relatórios que fiz, ao longo da minha actividade de docente, que mostram a angústia, por mim sentida, pela falta de qualidade do ensino, pelo facilitismo provocado pelas sucessivas e mal conduzidas reformas levadas a cabo pelo Ministério da Educação. E, é evidente, que eu não sou nenhuma “iluminada”. Grande parte dos Professores pensa como eu.
Esclareço que estou aposentada e que estas medidas já não me afectam. Mas tenho um neto que está a ser vítima da fuga à realidade de quem nos governa. E conheço os martírios a que estão sujeitos os meus colegas. E sou, com muito orgulho, portuguesa. Quero o melhor para o meu País e para o povo a que pertenço. Esse melhor passa pela qualidade do ensino. É essa qualidade que defendo quando contesto as políticas e a prepotência do Ministério da Educação e do Governo de que faz parte.
publicado por Elisabete às 16:37
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2 comentários:
De TempoBreve a 22 de Fevereiro de 2008 às 20:12
Faz bem, a quem é e gosta de ser professor, ler este texto seu aqui. Faz bem, porque vê que não está sozinho. Faz bem, porque vê que não está a enlouquecer. Faz bem, porque vê que há quem resista ao medo com argumentos, pensados e muito sentidos, imbuídos de verdade.
A bomba atómica já está aí. E está nas mãos de pessoas inseguras, que afirmam o seu poder, quais crianças imaturas, pondo-se a brincar com ela. Claro que nos assustam. Por isso é que é preciso vencer o medo e enfrentá-los, quanto antes, numa luta desigual, que travamos contra o tempo.
Estas crianças tardias, tão cheias de complexos, são como aqueles valentes, que se afirmam magoando, quando têm as costas quentes. Por isso é que irresponsáveis brincam com a bomba atómica nas mãos, com os seus serventuários a louvá-los na comunicação social. São tão inconscientes que nem sequer sabem onde é que está o gatilho. Por isso, podem muito bem, dispará-la a qualquer tempo.
A sua arrogância é tal, que nem sequer se apercebem que ao destruir o professor, estão a destruir gerações jovens, e mais as suas famílias, e até o próprio país.
E eu tenho esta desgraça, de gostar de ser professor, e, contra todas as previsões, de gostar tanto do meu país.
Obrigado pelo texto. E veja, se ainda não viu, o movimentoprofessoresrevoltados.blogspot.com
De Elisabete a 25 de Fevereiro de 2008 às 00:33
Não, Tempo Breve, não está a enlouquecer.
Eles é que são os loucos. Vivem num Portugal que não existe, inventado por eles.
Mas as coisas começam a mexer... O que é preciso é não esmorecer, afastar os medos. Que é a vida se não lutarmos por ideais?
Contem com todo o meu apoio. Iniciei uma cruzada que vai continuar.
Um abraço
Elisabete

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