Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

A ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA

   

 

 

O programa “Prós e Contras” de ontem à noite, obriga-me a falar, hoje, do alargamento da escolaridade obrigatória. Sempre defendi que o Estado Português devia proporcionar aos jovens as condições para que a sua instrução de base fosse a melhor possível. Julgava eu, ingenuamente, que quanto mais longo fosse aquilo a que chamamos o Ensino Básico, mais instruído seria o povo português, no futuro.
Infelizmente, a realidade demonstrou que não basta meter os meninos na Escola mais tempo, se não se exigir que vão mais longe. E foi isso que aconteceu.
Se há coisa que me magoa, é ver toda a gente falar de Educação e, no fim, ficar tudo na mesma. Ignora-se o que está debaixo do nosso nariz e inventam-se as coisas mais mirabolantes para justificar o injustificável.
Um ilustre professor, que recebeu o pomposo prémio de Melhor Professor do Ano de 2007, afirmou, do alto da sua sabedoria, que a Escola actual não pode ser igual à Escola dos nossos pais e que, sendo a escolaridade obrigatória e gratuita, não faz sentido falar de retenções, de faltas e, se não estou enganada, de avaliações. Parece-me até que sugeria, dada a heterogeneidade dos alunos, um professor para cada aluno. Pelo menos, uma planificação por escrito (como parece que agora vai ser obrigatório apresentar, por turma) para cada aluno, por cada aula, uma vez que esse senhor professor (o melhor) diz que as turmas já estão fora de moda. E este senhor professor foi aprender à Noruega que, nos cursos profissionais, um carpinteiro não precisa de saber inglês e, contudo, tem a disciplina de Inglês. Mas como para passar também não precisa de saber… está tudo dito. A ser assim, as escolas norueguesas são parecidas com as portuguesas e, então, não precisava de dar-se ao trabalho de lá ir gastar dinheiro. Agora, pensem na frustração do professor da disciplina, que se farta de trabalhar “para o boneco”.
Isto não fez estremecer a socióloga Maria de Lurdes Rodrigues. Mas quando um professor jovem e ingénuo, mas corajoso, falou do facilitismo nas Escolas e na “conversa do inspector”, a senhora teve um ataque de indignação. Então, não foi mais ou menos o que o tal professor premiado defendeu?
 
Falando a sério e para que não restem dúvidas, afirmo com todas as letras que há FACILITISMO nas Escolas portuguesas, SIM.  Se não houvesse, como se compreenderia que muitos alunos cheguem ao 8º e 9º anos (antigos 4º e 5º anos do Liceu) lendo, escrevendo e interpretando pior do que qualquer aluno com a antiga 4ª classe? Mas sabe outras coisas que, antigamente, não sabiam… dirão. Claro! Sobretudo, os antigos não saberiam mexer num computador… porque nem sequer existiam!
 
Mas o que mais importa é a resposta a esta pergunta: Pode um aluno, nestas condições, obter um diploma do 9º ano, em pé de igualdade com outro que atingiu o nível requerido para este grau de ensino? A isto chama-se injustiça. Que valores transmitimos aos jovens? O mundo artificial e irresponsável que se cria nas Escolas prepara os alunos para enfrentar a “selva” do mundo do trabalho? Prepara os alunos para serem cidadãos conscientes e justos? Lamento muito, mas não. Todos acabam por ser prejudicados, bons e maus alunos.
 
E a culpa não é dos professores, acreditem. Nunca falei com nenhum inspector, mas todos nós sofremos, nas Escolas, pressões mais ou menos expressas para não dar negativas. Alguns, mais fortes, não se deixam intimidar; a maioria, por medo ou por já não acreditar no sistema, submete-se.
Engraçada foi a última “tirada” do melhor professor do ano. Mais ou menos isto: “Há colegas que estão muito preocupados, a fazer tudo e mais alguma coisa, para poderem progredir. Eu recuso-me a fazer aquilo com que não esteja de acordo.”
Para ele será fácil, porque está no fim da carreira e já deve ter atingido o topo. E os outros? Aqueles que prevêem uma vida de escravos (quero mesmo dizer escravos), acorrentados a políticas inviáveis e de fachada para um país que não existe? Tudo o que o ilustre colega possa ter dito de correcto desapareceu perante estas posições.
Pelo menos, ficámos a saber que há professores que podem não fazer aquilo com que não estão de acordo. E se todos os imitassem? Era capaz de surgir uma forma de luta interessante.
 
Concluindo:
⇒exijo um Ensino Básico público de qualidade;
⇒exijo a igualdade de acesso a esse ensino para todas as crianças e    jovens do país;
⇒condeno a manutenção na Escola de alunos que, sistematicamente, não conseguem, ou não querem, atingir os objectivos propostos;
⇒defendo a existência de escolas especiais, para esses alunos, onde se profissionalizem em áreas de acordo com as suas capacidades, para entrarem mais rapidamente no mercado de trabalho, mas com a obtenção de diplomas diferentes;
⇒defendo um sistema de avaliação, que permita aos alunos interiorizarem que quem trabalha, é honesto, educado e responsável, merece prosseguir até onde quiser e puder;
⇒não admito a actual versão de Escola/armazém, onde os jovens adquirem hábitos de preguiça, de falta de rigor, de desleixo e de irresponsabilidade.
 
Felizmente, já estou aposentada. Mas serei, até morrer, professora e educadora. O que se passa nas Escolas é imoral e injusto. Para os Professoras, para os Alunos, para o País. Se os governantes não percebem isto, vão ter de perceber. Porque quem manda no País são os portugueses e, antes eu esteja enganada, eles perceberão em breve o logro que são estas políticas, que não são desta ministra nem deste governo. São do aparelho do Ministério da Educação que precisa de “picareta” que o destrua.
Como dizia Manuel Alegre, “Até as muralhas de aço se abatem”. Mais fácil abatê-las quando são de papelão.
Por mim, não descansarei enquanto não regressar o bom senso.
 
publicado por Elisabete às 19:07
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4 comentários:
De Ibel a 26 de Fevereiro de 2008 às 21:56
Excelente análise e reflexão sobre os prós e contras de ontem à noite.
Hoje não se falava de outra coisa nas escola, mas curiosamente , a maioria criticava o professor novo, a loura, a quem eufemísticamente a ministra chamou burra e os louros iam para o melhor professor do ano.Vejam lá o galardão!
Genericamente, faço a mesma leitura da Elisabete e , admitindo que o jovem professor deveria ter-se dirigidi em tom mais polido, pois era a ministra para a frente e a ministra para trás, a verdade é que ele lhe chamou mentirosa e isso é coragem.
Em relação ao melhor professor(!!!), pareceu-me o Marcelo Rebelo de Sousa a querer acertar em todos os alvos, mas sempre com a benevolente simpatia do seu sorriso apatetado.
Mas a careca à mostra , a senhora ministra deixou ver: não gosta de professores, odeia os professores e todos os que não aplaudem as suas fantásticas medidas de deseducação tapete. O Formosinho, além de feio é um retorico, um retórico de coisa nehuma que mostre ter miolos, como quase todos os grandes teóricos das Ciências Da Educação.
Era tudo tão mais simples, se se voltasse às duas vertente de ensino, com programas diferentes que visassem projectos de vida com objectivos e exigências, também elas diferentes.Mas não.
O ministério da educação só querduas coisas: desgastar os mais velhos e obrigá-los a pedir a reforma antecipada, metendo milhares nos cofres do estado e contratando mão de obra barata que vai trabalhar com a ameaça do chicote.
Esta é a verdade! É a escravatura que regressa com outros contornos! Disse-o muito bem, Elisabete. Disse-o muito bem, querida amiga.
De Elisabete a 27 de Fevereiro de 2008 às 00:54
Tomara eu não ter que dizer certas coisas.
Infelizmente, as pessoas ou são complicadas por natureza ou só dizem o politicamente correcto.
Às vezes, é necessário explicar as coisas com simplicidade, para que as pessoas que estão fora do sistema nos entendam.
Para a maioria da população portuguesa deve ser um terror ouvir os debates na televisão. Será que percebem alguma coisa?
Um beijo grande, pela palavra sempre presente.
De emfrosa2 a 28 de Fevereiro de 2008 às 20:10
Olá Corajosa!
Não imaginas o orgulho que tenho nas palavras que acabei de ler. Para mim são palavras de verdade, eu como tantos outros tenho de calcorrear o espaço "escola", não a escola onde estudei, séria, repleta de valores e de esperança no futuro. A escola, que aprendi a admirar e a trabalhar para alcançar os meus objectivos. Eu como outros, agora sinto tristeza, por aquilo que se está a transformar a profissão que escolhi e pela qual continuo a trabalhar e a estudar afincadamete para propoprcionar, uma ESPERÂNÇA melhor aos meus alunos.
Sinto realmente tristeza por a simplicidade de um professor jovem não ter conseguido a serenidade suficiente paraapresentar e realçar a preocupação real com a educação. Como sempre tenho de concordar com tudo o que li, e ouvi das vozes da experiência. Tenho realmente muita pena que estejam a destruir a ESCOLA e de a transformarem num espaço só de desvalores e de preguiça.
Bem aja pelas tuas verdades.
De tempobreve a 29 de Fevereiro de 2008 às 15:24
Elisabete!

Já é a terceira vez que tento deixar aqui umas palavrinhas. Deve ser aselhivce minha. Vamos lá a ver se é desta.
As suas são sentidas e sábias. Sabe dizer as coisas sem a rispidez que eu uso. E isso também é preciso.
Vamos em frente. A questão é mais funda do que o que parece. Mas temos de ir aos poucos. Não vale a pena fugas em frente desacompanhadas.
Considero que os professores estão em posição de se afirmarem mais e melhor neste contexto social, e serem até exemplo de acção.
Não será fácil. Mas dificilmente terão, os professores, melhor oportunidade que esta. Oxalá não a percam.

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