Sábado, 1 de Março de 2008

A GOTA DE ÁGUA

 
Carta aberta aos Portugueses
 
Todo o País já se apercebeu do descontentamento e da revolta, com uma dimensão nunca antes atingida, da grande maioria dos professores. É pena, no entanto, que quase ninguém perceba o que, de facto, está em causa.
Só se fala no novo modelo de avaliação dos professores, no pressuposto de que é este diploma a única fonte de descontentamento. E não é! Este diploma é apenas a gota de água que enche o copo da humilhação e da impotência dos professores, face a uma camada de teóricos e governantes que, desconhecendo a realidade, arquitectam lindos planos, programas e leis que, estou convicta, nem eles compreendem.
É certo que há professores, nas escolas e nos Sindicatos, que pertencem à categoria dos chamados “eduquês” que infestam a estrutura do Ministério da Educação.
Mas a maioria dos professores são apenas vítimas, tal como tenho vindo a tentar demonstrar:
 
→ das confusões e da falta de discernimento (desculpáveis) causadas pelos traumas do Estado Novo, que se eternizaram, acabando por provocar a destruição simbólica da Escola. 
Os símbolos transmitem mensagens duma forma imediata e simples. Os pais e alunos, do meu tempo de criança, sabiam que a Escola era uma instituição respeitável e importante nas suas vidas. Ingressar na Escola, aos 7 anos, era um momento único, uma espécie de primeiro patamar, um degrau mais acima, do nosso crescimento. E era com orgulho que se entrava nesse novo mundo, em que se iniciava, de certo modo, a entrada no mundo dos adultos e de alguns  deveres.
O edifício, a figura do professor/a, as carteiras alinhadas, o quadro preto, os mapas pendurados nas paredes... incutiam no aluno um certo respeito pela instituição, apesar das condições da própria escola não serem as melhores, muitas vezes.
Quando se transitava para o Secundário [quer se tratasse dum Liceu, duma Escola Técnica ou um colégio particular (neste caso, quase sempre por não existir Liceu na localidade)], a imponência do edifício, por si só, era já um símbolo da sua importância. Não eram precisas palavras, o aluno intuía que estudar ali era outro patamar, mais um passo para a conquista duma vida futura melhor. Havia que cumprir as regras, era necessário um grande empenho para tirar boas notas e passar no fim do ano. Em casa, os pais se encarregariam de reforçar esta mensagem.
A Escola de hoje não tem dignidade. Há alunos a ter aulas em pré-fabricados, onde é necessário ar condicionado (nada propício a um ambiente saudável) para que as crianças e professores não congelem, no Inverno, ou  estorriquem, no Verão.
Nos corredores, os alunos insultam-se, empurram-se, mesmo na presença de professores. E falar com eles não adianta. Como se costuma dizer, “entra-lhes por um ouvido e sai-lhes pelo outro”. E isto porquê? Porque sabem que nada lhes acontece. Não reprovam por faltas, nem sequer por falta de aproveitamento (Não transitar, diz o Ministério, é excepcional.), as queixas ficam pelo nada. Desautorizou-se e infantilizou-se o Professor que passa a ser igual ao aluno. Aliás, para completar o trabalho, deram-se “de barato” habilitações a quem não as tinha, facilitou-se a formação de Professores em estabelecimentos de ensino de qualidade duvidosa. Numa palavra, minimizou-se o papel do Professor e a importância da sua qualificação.
Nas salas de aula, é a desarrumação completa. Uma mesa para cada lado, mochilas no chão, porque não há espaço nas mesas para as colocar. O professor participa em verdadeira gincana quando quer aproximar-se dos alunos. A Escola actual dá bons exemplos de indisciplina, de falta de rigor e de exigência, de irresponsabilidade, de desincentivo a quem trabalha e estuda
Por mais que os Professores se esforcem, não é possível mudar este cenário se o Ministério continuar a desautorizar e a desprestigiar a função docente.
  
→ da tentativa de transformar o Ensino em Assistência Social, as Escolas em locais de divertimento e recreio, os alunos em atrasados mentais.
Andam tão atarefados, a ler livros de psicologia e de sociologia, que inundam a Escola de papelada sem préstimo e se esquecem dos destinatários das técnicas pedagógicas que querem implementar. Os alunos são todos uns coitadinhos duns traumatizados, a quem nada se pode exigir, e de quem é preciso tomar conta a tempo inteiro, porque os pais ou não têm tempo para eles ou são tão pobrezinhos de tudo que nem tratar deles sabem.
Não tenho nada contra a existência de serviços de acompanhamento psicológico ou social aos alunos que deles precisem, dentro da Escola. Não peçam é aos professores que desempenhem todos os papéis.
Os Professores são, ou deveriam ser, especializados numa determinada área, especialização que obtiveram em estabelecimentos de Ensino Superior que, em minha opinião, deveriam ser Universidades. O que lhes compete é preparar e avaliar os seus alunos na disciplina que leccionam. Não devem aceitar cargos de funcionários administrativos, auxiliares de educação, “amas-secas”, assistentes sociais, “tapa-furos” ou “pau para toda colher”. Haja decência no que se exige às pessoas!
 
Voltemos ao princípio! Como disse, motivos de mal-estar e descontentamento não faltam aos Professores. E os responsáveis por esta situação não são só os actuais elementos do Governo.
 
O erro da senhora socióloga (A ironia do destino!) foi pensar que o copo ainda não estava suficientemente cheio. Acreditava que, com autoritarismo, autismo e desprezo, os professores caíam de vez. Erro de cálculo, senhora socióloga! Conseguiu foi que eles se unissem verdadeiramente, pela primeira vez.
E não adianta que comentadores, por quem eu até tinha um certo respeito, digam num programa de rádio (“Um outro olhar”, na Antena 2) que estão muito preocupados por verem a direita mais reaccionária (ou extrema-direita, não recordo bem) aliada ao Partido Comunista, a empurrar os Professores. Abram os olhos! Ninguém está a empurrar os Professores. Podem é estar alguns políticos a aproveitar a embalagem.
Quanto aos Professores, quem os empurra são os governantes que os desrespeitam, que os humilham, que lhes destroem a vida, a profissão e a paz de espírito.
 
Senhora Ministra da Educação,
 
Reconhecer os erros é sinal de inteligência. Por favor, pare para reflectir sobre tudo isto, informe-se se não sabe do que se passa e tenha a coragem de ser diferente. Com calma e humildade, vá pensando nas coisas, mande os “eduqués” dar aulas, e assuma o papel histórico de fundar uma Escola séria e competente que sirva, finalmente, o País e os Portugueses. Sem pressas… os grandes edifícios precisam de fortes alicerces. Conquistará todos os que tiverem competência e decência. É fácil fazer o que lhe peço? Não, não é! Mas é possível, com bom senso e respeito pelos que têm nas suas mãos o futuro dos jovens portugueses.
 
P.S. Não gostei da intervenção de um senhor que, hoje, pediu aos Professores que desistissem da sua luta. Com que direito? O dizer-se representante dos pais (E gostaria de saber de quantos, no universo dos pais com filhos nas escolas…) não lhe confere o direito de dizer aos Professores o que devem ou não fazer. Os Professores travam as lutas que entenderem e o senhor devia era estar ao lado deles.
publicado por Elisabete às 22:52
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2 comentários:
De TempoBreve a 2 de Março de 2008 às 23:26
Olá, Elisabete !

Vejo que anda na lide. E como anda bem. Temos uma semana difícil pela frente. Não há que hesitar. A luta na rua é a luta certa neste momento. Mas há que não descurar a intervenção sistemática através de textos que informem; atrvés de textos que denunciem a demagogia dos "comentadores"; atravès de textos que levantem o ânimo.
Você é um bom exemplo.
Agradeço-lhe.
:-)
De Elisabete a 3 de Março de 2008 às 17:16
Não me agradeça, caro TEMPO BREVE.
Faço apenas a minha obrigação. De ex-professora e cidadã. Não tão bem como diz... vou fazendo o que posso. É difícil explicar estas coisas a quem não está por dentro.
Por outro lado, a componente emocional baralha um pouco o meu raciocínio.
Mesmo chorando, estarei sempre com os professores, vítimas de políticas erradas, pelo fracasso das quais os querem responsabilizar.
Um abraço
Elisabete

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