Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Ainda há quem compreenda...

Manuel Poppe
Ignorância não é fatalidade
 

1.Jacques Rivière, em carta a Alain-Fournier, cita Stendhal:  "Feliz a literatura livre de modas e nas mãos das pessoas a que, realmente, se destina". Stendhal, renovador do romance, mereceu a Balzac rasgados elogios e passou despercebido aos contemporâneos. As pessoas a quem os seus livros se destinavam levariam décadas a recebê-los. Hoje, é lido, apaixonadamente. Por muitos? Duvido. Outra vez a maioria ou o ignora, ou o arquiva. E quem conhece Rivière e Alain-Fournier? O primeiro foi um dos melhores críticos franceses do Séc. XX e o segundo, o autor de "Le Grand Meaulnes", obra-prima sobre o sonho adolescente. É certo que, desgraçadamente, baniram a cultura francesa do ensino -tal qual outras preciosidades:  as humanidades. Pensam que as "novas tecnologias" prescindem delas. Querem-se "formar" robôs, não homens. Aposta-se no bonifrate capaz de assegurar a estabilidade (?) neo-liberalista. O homem -consciente, culto, apto a exigir qualidade de vida e aplicação dos direitos fundamentais- representaria ameaça: terrível perigo.


2.Lembro a saga admirável, "A Velha Casa", de Régio, ou "Rio Turvo", de Branquinho da Fonseca; lembro Irene Lisboa, Tomaz de Figueiredo, Marmelo e Silva, Graça Pina de Morais -sei que não são suficientemente conhecidos. E quantos outros! Quem sabe quem é Afonso Duarte -o grande e discreto poeta que, no entanto, há cinquenta anos, deslumbrava gerações? Exemplos. Mas por que se perdem as referências criadoras? Uma fatalidade? Não há fatalidades -há genocídios culturais. Vivemos um. Sufocamos e aceitamos aquilo que nos exigem: contribuirmos para o esplendor da vacuidade. Porque é num vazio cheio de coisas ocas que giramos, sem ajuda -a escola desmorona-se.


3.A tragédia em que transformaram o ensino impede o gesto essencial: o diálogo entre o professor e o aluno. Desacreditado, ofendido, humilhado, rebaixado o professor -o aluno, obviamente, não o respeita nem ouve. O mestre deixou de ser o mestre. E o aluno descarrega nele a própria angústia e insatisfação: a solidão e a incerteza a que esta sociedade o condenou. Esta sociedade, monstro de indiferença, egoísmo, ganância, que, desrespeitando, destrói o conceito de respeito. Quando oiço falar de "terceira via" ou de "morte do idealismo", reprimo a revolta (quando consigo) e penso: fatal, sim, fatal vai ser a morte dos arautos da ignorância -porque o ideal é o sal da terra, o sopro que eleva e faz de nós muito mais do que novos escravos ou amibas falantes. 

Manuel Poppe, in "O Outro Lado",

Jornal de Notícias, 2 de Março de 2008 

*******************************

A Manuel Poppe, os meus agradecimentos por este artigo. Constituirá, sem dúvida, um apoio ao inconformismo de muitos professores que discordam das políticas educativas que têm vindo a ser seguidas. Porque a Escola tem o dever de formar cidadãos livres e responsáveis; porque a Escola tem de ser a principal referência cultural das sociedades que se querem, verdadeiramente, evoluídas.

 
publicado por Elisabete às 17:58
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