Domingo, 30 de Março de 2008

É assim tão difícil VER?

Munch, Melancolia
A evolução regressiva
 
1.Uma das figuras impressionantes e dramáticas que, discretamente, se impõem no romance de José Régio, "A Velha Casa" (nunca eu me canse de valorizar as obras superiores que o chinfrim da feira literata silencia!), é João Trigueiros, o irmão-aventureiro do herói (anti-herói lhe chamou, e bem, Gaspar Simões) Lélito. João inspira-se em Henri de Man, humanista e socialista personalista do século passado -um daqueles homens que têm sede de justiça e a entendem como a defesa e a exigência da liberdade individual: deve a sociedade avançar no sentido que permita aos cidadãos a sua realização total. Isto é: a realização espiritual e material de cada pessoa. Mas João constatava que a sociedade aprisionava o homem no pseudo-progresso -a conquista da máquina contra a conquista da cultura-, novo colectivismo massificador, e temia que o homem se lhe abandonasse. Drama actual: o colectivismo sufocante não caiu com o muro de Berlim: vestiu outras roupas e o neo-liberalismo é uma variante.
2.Georges Bernanos, em "Diário dum padre de aldeia", escreve "o mal é que a justiça dos homens chega sempre tarde: castiga certos actos sem ir além de quem os cometeu". Por que trago o grande romancista católico, tão incómodo e implacável a denunciar a covardia e a hipocrisia? Serve à infeliz história de uma aluna e de uma professora da Escola Carolina Michaëlis. O que está por trás do incidente? Até que ponto é responsável a aluna? E o que poderia fazer a professora, naquele momento, sem que os "juízes" improvisados da opinião pública lhe caíssem em cima? Assistimos ao desastre que poder e política do ensino foram provocando. Há anos (nos últimos tempos, perfidamente) que os professores são desprestigiados, desautorizados, rebaixados -e ninguém mais do que o aluno se aproveita dessa desclassificação social. E o aluno, por sua vez, quem é? Outra vítima: um adolescente, um jovem atirado às ortigas, na sociedade de indiferença e solidão.
3.Basta olhar à volta para perceber que confrontos desses podem acontecer -provavelmente acontecem- todos os dias. A sociedade em que vivemos olha ao lucro, não olha à pessoa que a tecnocracia não liberta: escraviza. Acontece a evolução regressiva. Transformam-nos em peças, objectos. O quotidiano, para a esmagadora maioria, representa corrida, a toque de caixa. Pais e adolescentes estão separados, desconhecem-se, e o professor, que o sistema analfabetizante sufoca, não pode ser professor.

P.S. a professora processou a aluna exerceu: um direito.
Manuel Poppe, O Outro Lado,
Jornal de Notícias [30.03.2008]
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Manuel Poppe mostra, na sua crónica de domingo, com a clareza que lhe é peculiar o cerne da questão. Todos falam, todos julgam. Alguns apontam o dedo a alvos fáceis que não passam de vítimas; outros varrem para debaixo do tapete aquilo que não querem ver. Porque ver, perceber, o que se passa, no País e no Mundo, responsabiliza e compromete. E quem está interessado em sair da "sua vidinha" para pôr em questão a sociedade que temos? Para os que têm poucos escrúpulos e muito dinheiro e poder, ela é óptima; para a maioria é, de novo, "esclavagista" e desumana. O absurdo torna-se normal. O homem-robot perdeu a capacidade de sonhar para transformar.
publicado por Elisabete às 18:38
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