Sábado, 5 de Abril de 2008

Desvalorizar os SINAIS

 

CANTATA DA PAZ

 

Letra: Sophia de Mello Breyner Andresen

Música: Francisco Fanhais

 

Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos (REFRÃO)

Não podemos ignorar

 

Vemos, ouvimos e lemos

Relatórios da fome

O caminho da injustiça

A linguagem do terror

 

A bomba de Hiroshima

Vergonha de nós todos

Reduziu a cinzas

A carne das crianças

 

D'África e Vietname

Sobe a lamentação

Dos povos destruídos

Dos povos destroçados

 

Nada pode apagar

O concerto dos gritos

O nosso tempo é

Pecado organizado

 

 

Basta abrir um jornal diáro para ficarmos, imediatamente, em sobressalto. Os títulos mais não fazem do que traduzir o mundo às avessas dos tempos que vivemos.

O Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, fala de crianças que levam armas de fogo para a Escola. Sabe-se que, no último ano lectivo, a apreensão de armas, nas Escolas, duplicou em relação ao ano anterior.

A Ministra já tinha conhecimento. O caminho que encontrou para resolver o problema foi desautorizar, publicamente, os professores e fazer um novo Estatuto do Aluno que desresponsabiliza, cada vez mais, os alunos dos seus actos e incentiva o laxismo e o sucesso fácil. Para além disso, desvaloriza a qualidade das armas: canivetes, armas "a fingir" e espingardas dos pais que são caçadores.

Como é possível os alunos entrarem nas Escolas com espingardas?

Por seu lado, o Secretário Valter Lemos afirmou que "há uma campanha orquestrada contra a escola pública".

Tem razão. Também acho que há. Mas isso não branqueia a acção deste Ministério ou dos anteriores. É evidente que os defensores do Ensino Privado, e a própria Igreja Católica, aproveitam as falhas do Ensino Público para "atacar". No entanto... Será que este Governo quer mesmo um Ensino Público de qualidade? Ou será que faz parte do complot?

O cruzamento destas notícias recordaram-me um e-mail que recebi, há dias, com uma entrevista dada por Marcola, chefe de gangues brasileiros e líder dp PCC (Primeiro Comando da Capital), na prisão, ao Jornal O GLOBO.

Confesso que fiquei arrepiada. Quer queiramos quer não, é este o mundo que estamos a construir. E... ou temos coragem para desenterrar a cabeça da areia e mudar de rumo ou corremos o risco tremendo da destruição.

Não sou alarmista nem pessimista. Sou apenas um ser humano que quer outro futuro. E o passado mostra-me que nunca resultou ignorar os sinais que a vida envia.

Aqui estão eles, com pequenos cortes, que simplificam mas não alteram o conteúdo:

Eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... Que fizeram? Nada. Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo... Nós somos início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão...

Solução? Não há mais solução, cara... A própria ideia da "solução" já é um erro. ... tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até Conference Calls entre presídios...) E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

Você é que tem medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... Mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala... Vocês, intelectuais, não falavam em luta de classes, em "seja marginal, seja herói!"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperevam estes guerreiros do pó, né?

Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... Mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, Internet, armas modernas.É a merda com chips. com megabytes. Meus comandos são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

A gente hoje tem grana. Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório. Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no "microondas"... Ha, ha... Vocês são o Estado quebrado, dominado por imcompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo Klausewitz, "Sobre a guerra". Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... Para acabar com a gente, só jogando bomba atómica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também "umazinha", daquelas bombas sujas mesmo... Já pensou? Ipanema radioactiva?

Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a "normalidade". Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... na boa... na moral... Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós viemos dele e vocês... não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem porquê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogni speranza voi che entrate!" - Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.

 

 

Não vale a pena repetirem-me que a situação, no Brasil, não tem nada a ver com a nossa. Nem com a dos EUA (onde, ainda agora, alunos de 9 anos se preparavam para manietar um professor, com algemas e fita-cola, para depois o atacar à navalhada).

Aparentemente, não tem. Mas a ideia de impunidade que é passada aos nossos jovens não andará muito longe disto. Aos jovens de hoje são reconhecidos todos os direitos, nenhum dever ou responsabilidade. E é-lhes roubada toda a esperança. Que perspectivas de futuro tem a maioria?

Não basta ficarmos satisfeitos porque "ainda não chegamos à situação de outros".

Acham que se deve arriscar e esperar para ver? Como diz o povo: Mais vale prevenir do que remediar!

publicado por Elisabete às 16:15
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2 comentários:
De Ibel a 7 de Abril de 2008 às 19:12
Muito bem, amiga! Não há ensino de qualidade sem regras e respeito por quem ensina.Continue a escrever que os seus textos são pontes para a esperança e para a luta.Boa estadia!
De Elisabete a 15 de Abril de 2008 às 00:12
Ibel,
A luta tem de continuar, porque ainda nada se conseguiu. E porque não se pode perder esta ocasião única.
Que bom foi ter estado estes dias na "minha ilha"!
Nem a chuva estragou o prazer. A natureza micaelense mostra-me, à saciedade, o disparate da civilização (?) a que nos submetemos.
Com uma educação "decente", talvez seja possível, ainda, parar esta loucura.
Um abraço

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