Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

NÃO DESISTIR!

Avaliar ou domesticar liberdades?
A senhora ministra da Educação sentou-se, pela primeira vez, com os sindicatos, mas isso não traz ainda a paz às escolas a alma dos docentes (professores e educadores) continua trespassada por tristeza, inquietação, medo, mas também pela esperança.
Tristeza grande, pelos conselhos executivos e pedagógicos vergados e prontos a ferir com a espada do processo disciplinar os colegas que sonhem resistir a quem berra "A lei é a lei!".
É que eles sabem bem da natureza economicista deste modelo de avaliação, da ausência, nele, de um artigo que seja sobre o aproveitamento das avaliações para melhorar o quotidiano escolar ou a formação dos docentes.…

Tristeza magoada também: não querem os sindicatos complicar uma avaliação simplex, que finge e não dignifica, em vez de propor um modelo alternativo?

Inquietação é o que nasce destas tristezas: que ingenuidade ter permitido este ECD (Estatuto da Carreira Docente)! Não define ele os docentes como "um corpo especial da administração pública", esvaziado de autonomia intelectual e sobrecarregado (Artigo 35.º) com funções de administração das "orientações de política educativa", sob pena de punição disciplinar (Artigo 114.º)?
Inquietos, admiram-se da anestesia da alma colectiva face ao divórcio entre legalidade e legitimidade democrática, por um lado, e cuidado ético na acção do Estado, por outro.
Delírio? Não, o próprio Diário da Assembleia da República (03-04-08) abafa com reticências uma confissão terrível do senhor ministro das Finanças, em plena sessão plenária no Parlamento e audível nos media "deixo o juízo moral a quem o quiser fazer"…
Sabendo que a isto acresceu o dito de que ao Estado cabe apenas zelar pela legalidade das suas acções, é de pensar ou não numa anestesia moral do Estado?
Titulares da memória colectiva, os docentes pressentem aqui o silêncio do medo e interrogam-se: não é a prudência ética que distingue o Estado de Direito do Autoritário? Não bastou a Hitler a legitimidade democrática e legal?

Mais, se os responsáveis pelo ECD e pela avaliação na Função Pública são assim, quem arrisca falar publicamente, dar motivos para alguém lançar as garras hierárquicas sobre o seu salário, o seu bem-estar pessoal e familiar?

Porém, os intervalos, cafés ou Internet acolhem murmúrios contra o ECD e esta avaliação, testemunham brindes ao fim desta engenharia que veio para domesticar a autonomia intelectual, a cidadania dos docentes e das gerações futuras, em vez de melhorar o ensino, as aprendizagens, a escola pública.

Abril está aí, cravo de esperança na memória da liberdade. De pé, os docentes contam agora os dias dessa esperança: será precisa a desobediência civil a estas leis para o país perceber que esta avaliação é a ponta visível de uma engenharia social que ignora as liberdades, que crava nos poderes e funções do Estado receptores específicos para a libido dominandi, essa vontade de domínio, mãe de todos os totalitarismos, que tanto sofrimento espalhou pelo século XX?
 
António Mendes (Professor), in
Jornal de Notícias [16.04.2008]
publicado por Elisabete às 16:48
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2 comentários:
De Ibel a 18 de Abril de 2008 às 21:44
Comentar a verdade? Até me doeu a alma depois de ter lido o texto. Eu ando mesmo de luto e sem esperança de cravo nenhum. Mas a memória dele ainda fere a esperança atraiçoada por estes soldados do poder que querem acautelar o posto.
De Elisabete a 19 de Abril de 2008 às 23:47
Esses soldados do poder... querem-nos domesticados, não como cidadãos com ideias próprias.
Querem controlar porque têm medo que as coisas lhes fujam das mãos.
Ibel, é preciso, contudo, continuar a acreditar na mudança deste inferno em que transformaram a Escola, o País e o Mundo.
Valerá a pena viver sem essa esperança? Valerá a pena sobreviver nesta tempestade sem bonança?
Seguindo o exemplo do Zeca Afonso e dos Capitães de Abril, temos de continuar a perseguir a UTOPIA. Só ela nos levará mais longe.
Uma braçada de cravos vermelhos para si!
Elisabete

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