Terça-feira, 22 de Abril de 2008

PENSAR E DEBATER A EDUCAÇÃO

 

Os meus agradecimentos ao Ricardo Coelho, um jovem com ideias próprias e que não tem medo de ser "politicamente incorrecto".

 

A qualidade no ensino público
Permitam-me a ousadia de falar de qualidade do ensino. A esquerda sempre teve imensa dificuldade em falar disto, talvez por receio de cair num discurso reaccionário. Mas não podemos simplesmente defender que o sistema de ensino deve ser universal, pois de pouco nos serve termos muitos diplomados se os seus conhecimentos são escassos. Por outro lado, temos de ser capazes de discutir a questão da qualidade na sua plenitude, não a reduzindo a uma variável proporcional ao investimento realizado em infra-estruturas.
O que eu vejo hoje nas escolas, por conversas com professores e com alunos a quem dou explicações, é que o nível de avaliação é cada vez mais baixo. Temos hoje cada vez mais alunos com o 12º que não sabem dizer uma palavra em inglês, resolver uma equação elementar ou interpretar um texto. E não estou a falar apenas nos mais pobres, há muitos alunos de famílias ricas e de classe média nestas condições.
Estas são as pessoas que são facilmente manipuladas pelos governantes e patrões, por terem dificuldade em obter e interpretar informações úteis sobre os seus direitos. Estas são as pessoas que são completamente enganadas pelos bancos quando vão pedir um crédito, porque nem sequer sabem calcular uma percentagem. Não sei onde vamos parar quando os quadros das empresas e da administração pública são preenchidos por pessoas com estes conhecimentos mas vem-me sempre à cabeça a imagem do Portugal salazarento.
Como se não chegasse tudo isto, ainda inventaram os programas "Novas Oportunidades" e "Maiores de 23", tudo para dar um diploma a quem nunca acabou o secundário e/ou permitir o acesso ao superior. A intenção é boa, claro, e certamente que devemos criar meios de reinserção no sistema de ensino de quem nunca acabou os estudos. Mas atribuir por acto administrativo um diploma a quem não frequentou aulas e não foi avaliado com exames ou trabalhos é uma anedota de mau gosto. Não só estamos a destruir o que ainda resta do ensino como estamos a enganar estas pessoas, atribuindo-lhes competências que, de facto, não têm. Quem fica a perder são os que se esforçaram todos estes anos, estudando à noite para concluir o 12º. Se tivessem ficado quietos a esta hora podiam ter o secundário completo sem grande esforço.
Descendo o nível de ensino na escola, desce o nível de ensino na faculdade. Muito do que escrevi atrás aplica-se, aliás, a licenciados e até a mestres e doutorados.
Bolonha serviu, entre outras coisas, para piorar o cenário. Licenciaturas de três anos, ao nível de um bacharelato. Mestrados cuja tese será um pequeno trabalho prático ou um relatório de estágio. Doutoramentos que são pouco mais que revisão de literatura. Pergunto: é isto que queremos para o ensino? Pergunto porque não vejo isto a ser discutido. Falta um projecto de esquerda para o ensino, não nos podemos contentar com chavões já gastos.
Dou apenas um exemplo de um chavão que já deveria ter sido ultrapassado: o da auto-aprendizagem e da redução do tempo de aulas. Não me interpretem mal: eu concordo perfeitamente com a ideia de que as actividades extra-curriculares são importantíssimas para o desenvolvimento do indivíduo e a formação de uma sociedade mais coesa. Acho escandaloso, aliás, o que se está a instituir neste momento no Ensino Básico, o conceito de "escola a tempo inteiro". A escola não pode ser uma prisão para os seus alunos nem ser um repositório de crianças para os pais que têm empregos estupidificantes, cujo horário impede de dar o mínimo de atenção aos filhos. Mas daí até dizer que na faculdade, onde se espera outro nível de exigência, se deve reduzir a carga horária quando, pelo menos nos casos em que conheço, é ela perfeitamente adequada às necessidades pedagógicas, vai uma grande distância.
Também concordo com a promoção de um certo grau de auto-aprendizagem. Acho normal até que, à medida que avançamos no sistema de ensino, seja cada vez maior a exigência e cada vez menor a carga horária lectiva. Isso é o que sempre aconteceu, aliás. Mas o conceito de auto-aprendizagem foi "apropriado" - negativamente - por Bolonha, uma vez que foi serviu de argumento para a redução da carga horária e o consequente despedimento de docentes. O resultado é que temos professores no desemprego e alunos deixados à sua sorte. Não me parece que este tipo de auto-aprendizagem possa integrar um projecto de esquerda para a escola.
A auto-aprendizagem faz sentido quando o aluno já tem as ferramentas necessárias para recolher e interpretar informação por si próprio. Não vejo como possa ter grande expressividade em graus inferiores a mestrado, embora concorde com a ideia de que deve ser promovida, embora com os devidos limites impostos pela necessidade de acompanhamento do aluno.
Por outro lado, a defesa da auto-aprendizagem deve ser enquadrada numa análise classista da sociedade. Um aluno que tem um bom ambiente familiar e que conta com a ajuda de pais com elevadas qualificações terá facilidade em aprender de forma autónoma. Mas um aluno proveniente das classes baixas, com pais analfabetos ou quase, não consegue aprender a matéria sem ter um bom acompanhamento por parte dos professores. Daí que o ideal de auto-aprendizagem típico de correntes anarquistas (tão individualistas como as correntes liberais que dizem combater) seja um elemento perpetuador de desigualdades sociais.
A qualidade no ensino não pode apenas ser uma abstracção, construída na base de algumas ideias avulsas sobre o que queremos para as escolas. Apenas integrando o discurso da qualidade num projecto de esquerda para a escola moderna podemos apresentar uma alternativa credível ao sistema de ensino vigente. Doutra forma, ficaremos sempre reféns de uma direita saudosista do tempo da "menina dos cinco olhos".

Ricardo Coelho, militante do Bloco de Esquerda

publicado por Elisabete às 23:42
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