Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

PORQUE QUESTIONAR É PRECISO...

Humoristas às avessas

 

Nos muitos rótulos que se colam a alguns de nós – há quem pareça maleta de porão pejada deles -, os que mais entediam são os de pessimista, catastrofista, negativista, anátemas de muito mesquinha formulação.

Os bem pensantes (os papas dos três ou quatro pensamentos únicos instituídos) designam paternalistamente os alvejados de irrealistas – a inibir, a denegrir.

Fazem-no, como de costume, de forma enviesada: em vez de os questionarem de frente, no concreto, alfinetam-nos de esguelha, no apoucamento, maneira de desacreditá-los, amesquinhá-los.

“Em Portugal somos julgados não pelo que dizemos ou escrevemos mas pelo que os outros afirmam que nós dizemos ou escrevemos”, alertava, certeiro, Jorge de Sena.
Trata-se de uma variante pós moderna do que ocorria antes do 25 de Abril (o labéu de então era ser-se comunista) e depois dele (ser-se fascista).
“Os optimistas profissionais não entendem que o mal não é a desconfiança mas o embuste, não é a descrença mas a incompetência”, comenta a propósito o economista Medina Carreira, voz de breu no seu sector.
Atrás de semelhantes cenografias, a riqueza vai-se concentrando cada vez mais em núcleos restritos e o poder em tiranias privadas, multi-nacionalizadas. O País debilita-se, a política tropeça, os esbatimentos direita/esquerda, realidade/utopia, propaganda/informação aceleram-se.
Uma nova Idade Média emerge trazendo consigo uma generalizada Era de Desigualdade que, desapiedadamente, provoca a eliminação dos que não conseguem lugar à sua mesa.
A mentalidade de mendigo faz-se pandemia propagada por subculturas dissolventes, por políticas (sobretudo fiscais) que tiram aos que têm pouco para salvaguardar os que têm muito. Isso apesar da Europa produzir hoje três vezes mais do que há quarenta anos, utilizando menos trinta por cento de mão-de-obra.
Dois séculos atrás, por exemplo, um escravo custava no sul dos Estados Unidos cerca de 30 mil euros; actualmente (e escravo nos dias que correm é o que não possui documentação nem personalidade jurídica) custa 100 euros no mercado internacional.
Só a lucidez, avisam os ditos pessimistas, nos pode preservar do abuso dos poderes, poderes que não se encontram nas mãos dos que produzem o conhecimento mas nas dos que manipulam os que produzem o conhecimento.
Colunistas de soalheiro e tecnocratas de balcão ajudam, enfáticos, à festa inundando-nos de cenários, de estatísticas, de sondagens a sustentarem medidas revigorantes (arrastantes) para a continuação da nossa débil sobrevivência – que a deles encontra-se (bem) salvaguardada.
 
Dissipados os fundos da Comunidade Europeia, manchados os executivos, os partidos, os órgãos de comunicação, de justiça, de ensino, de civismo, Portugal imerge, entretanto, sem voz, sem ânimo, sem esperança, sem dignidade, lamurioso ante o concreto e a imprevisibilidade abatidos à volta.
Psiquiatras revelam, por sua vez, que as pessoas parecem mais apavoradas com a sobrevivência do que com a morte.

 

Fora do tempo e dos interesses estabelecidos, os pessimistas não passam de humoristas às avessas.

 

 
Fernando Dacosta, in Tempo Livre [revista do Inatel]

 

publicado por Elisabete às 16:43
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4 comentários:
De priola a 15 de Maio de 2008 às 00:35
Exactamente o que faz a Ministra da Educação, usando as estatísticas, tecnocraticamente, para justificar as suas medidas irrealistas e que não partem do conhecimento da situação concreta do sistema de ensino.
Obrigada por nos obrigar a questionar.
De Ibel a 15 de Maio de 2008 às 19:22
Elisabete, textos muito importantes, estes que sempre publica aqui no seu luar. Parece que os tempos já são mesmo de Janeiro rigoroso. Efectivamente, a pandemia da miséria cavalga a passos de gigante e parece que ressuscitamos numa nova idade média tenebrosa. Eu ando assustada, porque começo a querer vir-me embora da "praça de touros",mas também temo o futuro com um reforma curtinha. E ainda preciso de ajudar a minha filha.Abraço.
De Elisabete a 15 de Maio de 2008 às 23:04
Parece que maus tempos se avizinham. Compreendo a sua apreensão, Ibel. A nossa geração não só tem de se preocupar consigo, como com os filhos, quase todos em situação precária.
Eu não me arrependi da aposentação, porque já não aguentava mais, mas também fiquei com limitações de dinheiro e já começo a sentir as dificuldades.
Não sei que lhe diga... Acho é que isto vai rebentar por qualquer lado.
Vai-se vivendo!... Beijinhos
De picasanta a 31 de Agosto de 2008 às 18:14
passe pelo meu blog que será bem vindo e poderá dar um excelente contributo.
é muito sério e importante.
abraço
http//picasanta-oninhodaguia.blogspot.com

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