Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

EÇA Actual

 

 

E o tempo corre
 
1.Eça de Queirós é testemunha ou justificador dos males que, há séculos, carregamos, sem que se veja solução ou remédio. Sobre "o pobre homem da Póvoa do Varzim" se escreveram milhares de páginas, avultando a biografia fundamental legada por João Gaspar Simões, "Vida e Obra de Eça de Queirós". Citaram-se e citam-se as páginas do autor de "Os Maias", sobretudo aquelas em que nos desanca a nós e ao país. "Uma Campanha Alegre" e a "Correspondência de Fradique Mendes" têm que chegue. No precioso (admirável, indispensável) livro de Mário Sacramento, "Eça de Queirós, Uma Estética da Ironia", julgo que desde 1945 nunca reeditado, encontrei, transcrito, o seguinte dizer queirosiano, acerca das relações entre os poderosos e os outros assim tratados: "o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz? Despreza-os; não pensa neles, não vela por eles: Trata-os como se tratam bois: deixa-lhes apenas uma pequena porção dos produtos dos seus trabalhos dolorosos: não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e dificuldades: forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga: não lhes dá protecção. E, terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma".
 
2.Isto, no "Distrito de Évora", que Eça dirigia, em Janeiro de 1867. Qualquer articulista, lúcido, objectivo, interessado na denúncia das iniquidades, torniquete que nos atenaza há anos e cada dia mais, poderia assinar essa declaração -esse protesto. Certamente, reparou o leitor que passaram 99 anos. E, no entanto, sabe-lhe a hoje. Tem presente que o desemprego aumentou; que a emigração engrossou (5 milhões de portugueses andam pelo mundo, principalmente na Europa, à procura de trabalho); não desconhece o caos instalado no ensino e a farsa das estatísticas cuja consistência parece ser o único sonho da ministra; fará parte da procissão de lázaros, à espera de vaga nos hospitais e a ouvirem "Daqui a um ano, daqui a dois anos". Desespera da condição de português. E há quem lhe atire com as culpas para cima. Uma culpa com oito séculos.
 

3.São muitos séculos... "A raça não dá mais!", exclamava um amigo meu, à cavaqueira, no Majestic, Porto. Não dá e já deu muito mais. E foi mil vezes traída. Quando Eça sublinha: "não os instrui: deixa-lhes morrer a alma" -põe o dedo na ferida. O horror e o medo goebbelianos que os poderosos sentem diante da cultura, eis o busílis. E porquê? Porque povo culto é povo perigoso: reivindicará os direitos -questionará injustiças e privilégios. Não convém.

 

Manuel Poppe, in O Outro Lado,

Jornal de Notícias, 18.05.2008

publicado por Elisabete às 18:20
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2 comentários:
De Ibel a 20 de Maio de 2008 às 17:40
Excelente texto de Manuel Poppe com a ajudinha do Eça. Sabe? Hoje estava a rever o "Felizmente Há Luar" e comoi-me com um comentário de um aluno: ó professora, os séculos passam e os autores falam sempre das mesmas coisas. Parece que nada muda. Quando virá o optimismo?
Eu respondi: quando o homem renascer noutro espaço e noutro tempo.E ele :já percebi. .é o que eu penso. Que maldição!
De Elisabete a 20 de Maio de 2008 às 19:38
Um mimo! Quando se juntam dois talentos!...
Beijo para a menina do mar...

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