Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

PORQUE A CIDADANIA NÃO SE ESGOTA NAS URNAS...

    

Exemplo perfeito: O discurso político é feito aos berros... uma pedra em cada mão...

 

Retórica oca
O discurso político, escrito ou falado, utiliza habitualmente uma linguagem rígida e muitas vezes triste. É repetitivo. Ao discurso político falta quase sempre a alegria das coisas sentidas. Falta ao espaço de repente aberto e logo naturalmente preenchido pelo que é lindo e que faz do dia-a-dia de cada um uma coisa boa de ser vivida. Falta o imprevisto que nasce da imaginação e, porque não, da utopia. O discurso político de um modo geral não procura. Está. Conserva. Aceita. O discurso político é feito aos berros. Não tem de ser ouvido nem pensado. É só barulho de fundo. É deprimente e vazio. Não propõe. Destrói.
Quem fala, e basta assistir a uma sessão da Assembleia da República, ainda não percebeu que se falar baixinho e sem uma pedra em cada mão será melhor ouvido e mais respeitado. O que sobra de um discurso político são as amêndoas de Portalegre, o leitão da Bairrada ou o arroz de cabidela de Ponte de Lima!
É importante que quem fala por nós eleve um pouco o seu nível na linguagem, na postura e nas propostas. Estonteado com números e estatísticas, quem lê ou ouve passa à frente daquela página do jornal ou desliga o televisor. É insuportável o vazio e a falta de credibilidade que gera.
O cidadão comum tem o direito, diria mesmo o dever, de não aceitar. De recusar o que é morto e triste. Já olharam para como se vive neste mundo? Anda tudo aos encontrões e é difícil discernir onde está a razão. A palavra solidariedade desapareceu da linguagem política. O insulto, mais ou menos camuflado, e a piada de mau gosto, que faz o título da primeira página dos jornais ou abre o noticiário nobre nos canais de televisão, são a regra.
O discurso político será vivo, sentido e ouvido, quanto mais for capaz de ser inovador e recusar o conforto das ideias feitas tentando ultrapassar sempre o adquirido. Claro que pode e deve ser duro e incisivo, mas se cai no insulto pessoal e nos pequenos fait divers tão típicos na nossa vida política perde toda a seriedade que temos o direito de exigir.
Os portugueses olham hoje e cada vez mais para os políticos profissionais sem respeito e sem qualquer tipo de interesse. A chamada disciplina partidária não é mais do que um instrumento dos aparelhos partidários para que alguns, poucos, se mantenham no poder e controlem a liberdade de escolha e de pensamento da maioria. (1) Maioria essa que aceita, para não perder pequenos privilégios, “vender” a sua própria consciência. É de tal maneira diminuta a participação da maioria dos deputados à Assembleia da República que o cidadão comum tem o direito de se perguntar o que é que lá fazem. Eu sei que existem as várias comissões onde parece que se trabalha muito. Só que, se assim é, esse trabalho não tem qualquer visibilidade para o exterior. E impacte legislativo? Será que tem? O que se vê são os “ilustres”, sempre os mesmos, sentados nas duas primeiras filas, que representam todos os outros. Os silenciosos. Mas representarão?
Claro que há um ou outro que faz ouvir a sua voz. Dá jeito e dá um aspecto mais democrático à coisa. Cada 15 dias temos agora direito a uma espécie de liturgia. O que lá se discute terá assim uma importância tão grande? Não sei. O que ouço nos telejornais da noite e nos jornais do dia seguinte, salvo raras excepções, são os comentadores a discutir sobre quem ganhou! Mas ganhou o quê?
 
Octávio Cunha, Jornal de Notícias [11.05.2008]
************
(1) O destaque é meu.
sinto-me:
publicado por Elisabete às 14:18
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2 comentários:
De Ibel a 27 de Maio de 2008 às 15:10
Para começar a ler, tive que desviar os olhos. Não consigo olhar para esse homem.Aquele dedo pretensioso e ditador provoca-me um nervoso miudinho.Mas que homem prepotente e insuportável, suprema praga dos políticos!cada vez me convenço mais de que, se pudesse, o nosso poderoso enviava funcionários públicos, doentes, velhos, deficientes, marginais para campos de concentração.Há que parar com tudo isto! Há mesmo que os impedir de ganhar e de mamar à custa do suor dos outros.Praga de homens!
De Elisabete a 28 de Maio de 2008 às 22:13
Faço minhas as suas palavras, Ibel.
Costuma dizer-se que "quem vê caras não vê corações". Mas um homem que mostra estas caras quando discursa não pode ter um coração lindo de se ver.
Bjs

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