Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

A POESIA DORIDA DE ANTÓNIO GEDEÃO

 

Poema do autocarro

 

Quantos biliões de homens! Quantos gritos

de pânico terror!
Quantos ventres aflitos!
Quantos milhões de litros
de movediço amor!
Quantos!
Quantas revoluções na cósmica viagem!
Quantos deuses erguidos! Quantos ídolos de barro!
Quantos!
Até eu estar aqui nesta paragem
à espera do autocarro.
 
E aqui estou, realmente.
Aqui estou encharcado em sangue de inocente,
no sangue dos homens que matei,
no sangue dos impérios que fiz e que desfiz,
no sangue do que sei e que não sei,
no sangue do que quis e que não quis.
Sangue.
Sangue.
Sangue
Sangue.
 
Amanhã, talvez nesta paragem de autocarro,
numa hora qualquer, H ou F ou G,
uns homens hão-de vir cheios de medo e sede
e me hão-de fuzilar aqui contra a parede,
e nem sequer perguntarei porquê.
 
Mas…
 
Não há mas.
Todos temos culpa, e a nossa culpa é mortal.
 
Mas eu só faço o bem, eu só desejo o bem,
o bem universal,
sem distinguir ninguém.
 
Todos temos culpa, e a nossa culpa é mortal.
 
Eles virão e eu morrerei sem lhes pedir socorro
e sem lhes perguntar porque maltratam.
Eu sei porque é que morro.
Eles é que não sabem porque matam.
 
Eles são pedras roladas no caos,
são ecos longínquos num búzio de sons.
Os homens nascem maus.
Nós é que havemos de fazê-los bons.
 
Procuro um rosto neste pequeno mundo do autocarro,
um rosto onde possa descansar os olhos olhando,
um rosto como um gesto suspenso
que me estivesse esperando.
 
Mas o rosto não existe. Existem caras,
caras triunfantes de vícios,
soberbamente ignaras
com desvergonhas dissimuladas nos interstícios.
O rosto não existe.
 
Procura-o.
 
Não existe.
 
Procura-o.
Procura-o como a garganta do emparedado
Procura o ar;
como os dedos do homem afogado
buscam a tábua para se agarrar.
 
Não existe.
 
Vês aquele par sentado além ao fundo?
Vês?
Alheio a tudo quanto vai pelo mundo,
simboliza o amor.
Podia o céu ruir e a terra abrir-se,
uma chuva de lodo e sangue arrasar tudo
que eles continuariam a sorrir-se.
Não crês no amor?
 
?
 
Não ouves?
 
?
 
Não crês no amor?
 
Cala-te, estupor.
 
Tenho vergonha de existir.
Vergonha de aqui estar simplesmente pensando,
colaborando
sem resistir.
 
Disso, e do resto.
Vergonha de sorrir para quem detesto,
de responder pois é
quando não é.
Vergonha de me ofenderem,
vergonha de me explorarem,
vergonha de me enganarem,
de me comprarem,
de me venderem.
 
Homens que nunca vi anseiam por resolver o meu problema concreto.
Oferecem-me automóveis, frigoríficos, aparelhos de televisão.
É só estender a mão
e aceitar o prospecto.
A vida é bela. Eu é que devia ser banido,
Expulso da sociedade para que a não prejudique.
 
Hã?
                Ah! Desculpe. Estava distraído.

Um de quinze tostões. Campo de Ourique.

 

António Gedeão, Máquina de Fogo, 1961

 

 

publicado por Elisabete às 21:29
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3 comentários:
De IBEL a 28 de Maio de 2008 às 23:26
Não conhecia este poema do Gedeão. Curioso! Mas é forte, intenso e retrata bem o Homem metido no seu egoísmo.A parte final é deliciosamente irónica e surpreendente.Gostei muito.
O tempo breve voltou. Temos homem!
De Elisabete a 28 de Maio de 2008 às 23:57
Já lá estive, Ibel. Para dar força.
De António Guerreiro a 29 de Maio de 2008 às 00:03
Como eu compreendo essa dor!... Fantástico!

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