Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

DANIEL DE SÁ condecorado a 10 de Junho

O escritor açoriano Daniel de Sá foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Infante D. Henrique, a 10 de Junho, em Angra do Heroísmo. As cerimónias de entrega das condecorações realizaram-se, pela primeira vez em separado nas Regiões Autónomas, num sinal de "reconhecimento e respeito por estas terras e por estas gentes", como explicou o Representante da República, José António Mesquita.

Congratulando-me com este merecido reconhecimento da obra de Daniel de Sá, por parte da República Portuguesa, deixo aqui um dos seus belíssimos textos e um abraço de parabéns.


 

 

O TEAR
No tear abandonado, só as aranhas voltaram a tecer. E elas mesmas tinham abandonado também as suas mantas de fios como redes de pescar na praia de um mar sem peixe.
Madalena tecera mantas e fama até muito longe. Na freguesia, era conhecida como a Tecedeira da Serra, longe, era a Tecedeira de Quintais. Não gostava de que a chamassem assim, mas não protestava porque não servia de nada. A fama valia-lhe o proveito de ter as mantas sempre de encomenda, às vezes de lugares de que nem soubera o nome antes. Depois dessa fama, viveu com outra, muito má. Não por razões semelhantes às da santa do Evangelho, porque ela mal tinha tempo para os deveres conjugais e suas consequências regulares. Chegou a trabalhar de lua a lua, que de sol a sol havia a casa para cuidar, o queijo para fazer, os filhos e o marido para alimentar. Tanto mais que o destino lhe pregara uma pirraça. Nem de propósito, enquanto a maior parte dos casais esperava, por vezes em vão, filhos machos para os trabalhos duros da serra e das courelas, ela teve três rapazes antes de que Deus lhe desse uma menina.
Manuel Cordovão lembrava-se vagamente. Andaria ele pelos cinco ou seis anos, passou um ministro em Quintais a levar cumprimentos de Lisboa. Haveria de parar na Aldeia Nova do Vale, para receber os desta aldeia e dos pastores da serra. O presidente da junta quis que fosse oferecido ao senhor ministro o melhor que na sua freguesia era produzido. Não faltaram alguns com excelentes queijos, mas isso era coisas de se comer e esquecer depressa. Uma manta, que aquecesse sua excelência no Inverno e lhe enfeitasse a cama no Estio, seria a recordação ideal de um povo trabalhador e artista, para que ele soubesse até onde Portugal podia contar com a sua gente, se bem que a sua gente, ali, não pudesse contar muito com Portugal. Só era lembrada, e no caso dos homens, para o serviço do rei ou da república, quando chegava o tempo da tropa. Depois de aprenderem a dar uns tiros, os moços eram despejados de novo nos seus aposentos de pedra tosca.
O presidente da junta pediu a Madalena para oferecer uma manta ao senhor ministro. “Como ele vai ficar agradecido ao saber que houve quem pensasse nele! Pode ser até que faça um caminho melhor para a gente andar de uma aldeia a outra. Ou pelo menos um fontanário, se calhar, quem sabe, luz eléctrica…” Madalena ouvira o pedido com espanto, dizia-se. E perguntou: “Quanto ganha o senhor ministro?” O presidente da junta não sabia ao certo, mas arriscou: “Talvez uns três contos por mês.” Ela voltou os olhos para a manta que tinha no tear, e respondeu com ar de desprezo, em vez da admiração talvez esperada por uma quantia tão grande: “Eu não ganho isso num ano!...”
Ficou a amaldiçoada. Patrioticamente amaldiçoada. Fuinha, avarenta. Para provar que o não era, não aceitou encomenda para a manta que haveria de começar a seguir. Ofereceu-a à Maria dos Anjos, que era pobre e ia casar daí a um mês.
A maior parte das suas mantas passou a ser vendida sem origem definida. E não viveu o suficiente para saber que também os cravos podem ser tecidos.
 
Daniel de Sá, capítulo XXVI da novela
O Pastor das Casas Mortas

 

publicado por Elisabete às 22:30
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19 comentários:
De Ibel a 14 de Junho de 2008 às 00:04
É sempre um assombro ler o Daniel e não há olhar que se canse.Plasmada na escrita sólida e poética, está um alma grande, um homem solidário com a classe humilde que ele acarinha com desvelo e ternura e orgulho. Povo que ele pega ao colo para com ele tecer a manta dos cravos que não hão-de morrer.
PARABÉNS. SEMPRE.E aquele abraço, AMIGO!
De Elisabete a 14 de Junho de 2008 às 00:35
Muito obrigada, Ibel, pela sua assiduidade.
O Daniel de Sá bem merece a condecoração. Pelo seu trabalho de escritor, pelo amor às gentes e à terra açorianas, até pela sua consciência moral.
Fiquei muito feliz por ele.
Um beijo grande para si.
De Eduarda a 14 de Junho de 2008 às 01:14
Fiquei muito feliz com a notícia.
Daniel,meu bom Daniel,estou em dívida para contigo...puxa-me as orelhas,amigo!Vou escrever-te,prometo!
Agradeço ao Destino chamado Delfos,ter encontrado este ser chamado Daniel de Sá,alma que parece não ser «de cá»e tão bem definida pela nossa Lia!Tu não existes,homem!
Nunca te esqueças que nós não te esqueceremos.Não podemos.Abraço grande.Eduarda
De Maria a 14 de Junho de 2008 às 01:44
Se todos no mundo fossem iguais a você...que maravilha viver...Parabens Daniel de Sá.
De Tiago a 14 de Junho de 2008 às 10:42
Tive o prazer de o conhecer numa aula de português com um Sermão ( sobre o estado da justiça), que a professora nos leu, para compararmos com O "sermão te Santo António aos Peixes".Ontem, soube da sua condecoração e hoje estou aqui para o felicitar por isso e por este texto magnífico que vem a calhar para quem anda a estudar a memória do povo no "Memorial do Convento".
De Elisabete a 14 de Junho de 2008 às 11:30
O Daniel de Sá é mágico. Até trouxe toda esta gente linda ao meu Luar de Janeiro.
Ainda bem que gostam tanto dele como eu.
Obrigada!

Abraços para todos

Elisabete
De margarida madruga a 14 de Junho de 2008 às 12:46
Ler, ouvir e sentir DANIEL de SÁ, traz-me à boca um gosto da minha infância. Não o sei definir, mas é um gosto adocicado, quente (a tirar para o morno) que me consola o corpo e a alma. O DANIEL tem esse condão, o condão de me conciliar com tudo o que perdi, duma forma calorosa e ridente. Obrigada, DANIEL, graças a si ainda enxergo as estrelas! Bem haja, simplesmente por existir...
De Cristina a 14 de Junho de 2008 às 13:27
Ler Daniel é magia. Sua alma é tão límpida e imensa que nos faz mergulhar num estado de verdadeiro encantamento. Ele nos acaricia a alma e nos renova as esperanças na humanidade.
Beijos no coração Daniel.


De JOÃO VEIGA a 14 de Junho de 2008 às 14:33
Muitos parabéns, em primeiro lugar, se me dão licença, para a criadora destes blogues; um obrigada, em segundo lugar, para a pessoa que mos indicou;finalmente os meus parabéns para o Escritor Daniel de Sá que, a avaliar por este texto, merece que a obra seja divulgada no continente.
Vamos tratar disso?
De Elisabete a 14 de Junho de 2008 às 18:28
A todos os comentadores,

Muito, muito obrigada pela vossa colaboração!
É tão bom ver o vosso apreço pelo meu querido Daniel de Sá!
Ele é, realmente, um escritor e um Homem admirável.
E também acho que merece ser mais conhecido no Continente. Eu sei que a sua ilha é linda e que não apetece sair de lá para fora, mas, pelo menos, vir à Casa dos Açores fazer o lançamento dos seus livros.
Parabéns e agradecimentos a todos vós.

Elisabete Neves
De Luís Castro a 14 de Junho de 2008 às 22:39
É com alegria que constato que afinal ja´se vão homenageando em vida os artistas. e ser galardoado Oficial da Ordem do Infante é já o reconhecimento de um grande talento.Belo texto.Venham mais.

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